O Outro Lado
4 Capítulo 3
A biblioteca era um lugar especial para mentes borbulhantes. E como a minha situação era semelhante, eu possuía sensação de que aquele lugar quieto e pacífico era perfeito para desenvolver os projetos que atordoavam a minha mente até serem materializados. Mas diferente dos dias comuns, agora não era o meu modo de desenvolver ou pensar em projeto algum.
Enquanto Chase compartilhava as suas ideias para a construção do portfólio de personagens do nosso jogo de aventura, eu me perguntava onde River estaria. E além de me perguntar, me angustiava em saber que ela estava pronta a qualquer momento para fazer a decisão errada e determinar o seu destino. Saber também que Dennis alimentava esse desejo em sua mente, seja por vingança ou pura maldade, me fazia ficar ainda mais desesperada.
Inquieta por conta dos pensamentos que preenchiam a minha mente, soltei um suspiro com pesar. Através dessa atitude, automaticamente todos os membros do grupo que estavam interagindo entre si me lançaram olhares de extrema irritação. Sem dúvidas, o olhar que mais me causava desconforto era o de Chase, que parecia estar definido a eliminar todos os obstáculos que se colocavam na frente do projeto que ele mesmo fez questão de formular.
—O que há com você, Dana? Você não disse nenhuma palavra até agora – ele me confrontou firmemente.
Não pude evitar suspirar novamente e passar minhas mãos sobre a minha testa, que queimava naquele momento.
Não, não pode ser. Quando esse pesadelo irá acabar?, perguntei a mim mesma, colocando as mãos em formato de concha sobre o meu rosto. Mesmo assim, esse ato não fez Chase sentir compaixão alguma.
— Caso você não saiba, esse projeto também é seu e nós não somos obrigados a fazer a sua parte. Você não pode deixar a sua preguiça estragar o trabalho de toda a nossa equipe.
Eu respirei fundo e canalizei a vontade de acertar o seu rosto com um golpe que reunisse todos os sentimentos ruins que sentia. Mas ao invés disso, me levantei em silêncio e fui até as prateleiras de livros. Precisava encontrar algo para disfarçar a minha indisposição, que me fazia recusar a pensar em algo além da sobrevivência de River.
Enquanto caminhava em direção a seção de livros que estava em mente, conseguia ouvir alguns cochichos como "Odeio quando ela faz isso" ou "Ela não podia se esforçar mais um pouco?".
Essas colocações aumentaram ainda mais as sensações desconfortáveis que estava sentindo, e me deram um grande desejo de desprezar toda a raça humana por ser tão egoísta e se basear apenas em coisas que podem ver.
Garanto que se eles vissem o que eu vi, estariam muito mais desesperados do que estava naquele momento, pois se não conseguiam controlar o desejo desenfreado de criticar o próximo, quem dirá de serem condenados pela próxima consciência.
— Cara, as pessoas são estranhas – disse enquanto aproximava a minha mão de um volume extra grande de algum manual de Design Gráfico – estranhas até demais... – pronunciei enquanto andava lentamente até uma mesa vazia – mas são estranhas só quando o assunto não lhe convém. Isso é um abs-
As minhas palavras foram interrompidas por uma torrente de café que tive dificuldade de saber de onda vinha. Assumindo um semblante assustando, olhei ao me redor procurando o autor daquele ato.
Quando me dei conta, ele estava diante de mim com seu copo grande de café vazio. Além do copo de café, ele tinha roupas elegantes e descoladas, olhos verdes e cabelos negros.
Era o galanteador do corredor.
E graças a ele, as minhas mãos queimavam enquanto as páginas do livro absorviam o líquido negro.
— Seu maluco! – um impulso de cólera percorreu o meu corpo, e quase joguei o livro no rosto – Insano! Você sabe que é proibido café na biblioteca.
—Fique quieta! Se você chamar atenção, eles irão perceber.
— E irão mesmo. Olha o estado desse livro, cara – eu revelei as páginas tingidas de café para ele – Olha isso, meu! Você sabe o quão caro é esse volume?
— Custará uma fortuna se você continuar gritando e chamando a atenção deles para nós!
— Você fez todo o trabalho, imbecil! Agora basta você ser pego.
— Nós sermos pego. Você me ajudou com isso.
Percebi o meu rosto queimar e deduzi que estava vermelha de raiva. Foi então que um dos ímpetos mais violentos que já tive tomou conta de mim, e lancei o livro na cabeça do rapaz, cumprindo assim o meu desejo inato.
— Babaca!
— Sua louca!
— Com licença, o que está acontecendo aqui? – a monitoria da biblioteca se aproximou, e quando percebi que os olhos delas estavam sobre o livro pintado com cores de café, que no momento estava sob a posse do galanteador do corredor, o meu corpo inteiro gelou.
— Ela jogou esse livro em mim! – o galanteador disse, enquanto expunha a obra-de-arte que ele mesmo havia pintado com sua caneca.
— E quanto esse café derramado no livro? Não estava assim! – com uma carga de ira em sua voz, ela lançou um olhar ameaçador para mim.
— Foi ele quem derramou – eu mostrei os meus braços e a minha camisa que estavam pintadas pelo café derramado – Olha só a caneca na mão dele.
— Você sabe que é proibido café na biblioteca, Matthew! Estou super decepcionada com você – o olhar da monitora possuía um relance de infelicidade.
— Iza, qual é! Nós somos amigos... E você sabe que eu não mentiria para você. Essa louca está me perseguindo desde a primeira aula! – com certo nível de acusação, ele apontou o indicador da mesma mão que segurava a caneca de café.
— Nós somos amigos, Mat. Mas não vou deixar que você me prejudique em meu emprego. E você – Iza lançou mais um olhar furioso para mim – tem sua parcela de culpa. Agora os dois irão diretamente para a coordenação comigo. Posem ir politicamente, ou podem ir com suas orelhas arrastadas. Vocês escolhem.
— Iza... – Matthew foi em sua direção, mas ela barrou o seu movimento erguendo a palma da mão.
— Agora chega! Os dois me acompanhem. Já!
Nós seguimos os passos de Iza, e podíamos sentir os olhares curiosos e de reprovação que nos seguiam. E como de praxe, o meu grupo de projeto entrava na categoria de críticos que nos repreendiam com os seus olhares. Embora todo aquele julgamento temerário me irritasse, tentei com esforço seguir para a coordenação com uma expressão tranquila em meu rosto.
As cabeças curiosas seguiam avidamente a nossa trajetória.
Nós, os destruidores de livros e empregos, recebíamos a nossa sentença do cunho popular.
A única coisa que faltava era um arauto com um sino anunciando a nossa caminhada da vergonha. Olhei para o lado, e vi que Chase seria uma perfeita colocação para designação. "Vergonha! Vergonha! Vergonha", ele gritaria diante de nós.
Matthew ia ao meu lado, balançando seus ombros largos enquanto andava. Pela sua postura, dava para se deduzir que ele é uma pessoa autoconfiante.
E para minha análise pessoal, o queixo erguido e o nariz empinado revelavam que ele era uma pessoa muito orgulhosa. Mas buscando evitar o desgaste, tentei não pensar nesses detalhes. Apenas deixei a situação fluir.
E como esperado, ela fluiu para pior. Após ouvir uma bronca ministrada pela reitora e pela monitora da biblioteca, nós recebemos o maravilhoso presente de ter que trabalhar seis meses na biblioteca sem nenhuma forma de remuneração.
— Isso – dizia a reitora – é necessário para que vocês paguem o livro e o vexame de desobedecer às regras da universidade. Vocês começam amanhã. Agora vão e pensem no que fizeram ao nosso patrimônio, que também são o de vocês.
Com uma arrancada furiosa, Matthew saiu da sala antes de mim. Com um último olhar para reitora, a qual já havia alternado a atenção para o celular, eu segui os seus passos e finalmente sai da sala quadrada que ambientou nossa condenação.
Tentando sintetizar a cadeia de acontecimentos, senti o meu braço sendo puxado e fiquei face-a-face com o galanteador do corredor, agora também conhecido como o idiota do café. Sim, eu sou ótima com apelidos.
— Viu o que você fez? – ele fitou os meus olhos.
— Não. Os meus olhos estavam cobertos com o café que você derramou.
— Oh, Dana, qual é o seu problema?
— Você quer todos ou só um de amostra grátis?
— Qual é! – ele disse enquanto ainda segurava o meu braço.
— Você vai resolvê-los?
Ele balançou a cabeça em negação.
— Então não há a necessidade de conhecê-los. Agora – enquanto falava, um estalo alcançou a minha mente – Matthew! Talvez você possa me ajudar.
— Não, eu não posso – ele soltou os meus braços bruscamente.
— Você conhece uma garota que se chama River?
Após ouvir esse nome, o seu semblante tomou um ar de seriedade.
— O que você quer com ela? River não iria tolerar as suas loucuras como tolero. Ela não tem muita paciência para pessoas... como você.
— E que tipo de pessoa eu sou? – perguntei enquanto cruzava os braços.
—Ah, você sabe, ok? – impaciente, ele direcionou uma mão até a mim – Você é o tipo de pessoa que não consegue conter os impulsos de fazer uma besteira. Caramba, Dana! Aquele golpe com o livro doeu.
— Eu não sou impulsiva!
Matthew bufou com irritação, não prosseguindo com a discussão.
E como estava interessada na sua ajuda, alternei de assunto.
— Mas além de River, você deve conhecer Dennis, o namorado dela, não?
— Ah, Dana, por favor? Interessada em um cara comprometido? Mesmo? – ele cruzou os braços.
— Não! É sério. Eu preciso saber: como eles são? O relacionamento em si.
— Dana, por que você quer saber disso? O que está planejando?
— Não estou planejando nada...
— Está sim, e eu posso ver no seu rosto. Mas já que você não vai me contar o que está planejando, eu não vou te contar o que sei – ele se virou e começou a andar.
Com rapidez, segurei o seu braço direito, impedindo-o de prosseguir. Embora empenhasse força para mantê-lo naquele lugar, eu sabia que ele permanecia imóvel porque queria e não pela minha força.
— River está em perigo, Mat. Eu não sei como explicar isso à você, mas Dennis possui a pior das intenção.
— Como... – Ele se virou para mim – você sabe disso, Dana?
— Se eu te explicasse, você não acreditaria em mim. Mas preciso muito que me diga: o que você sabe sobre eles?
— Eles não possuem uma relação estável, isso eu sei. Uma vez... – com desgosto em seu rosto, ele pronunciou as palavras – ele a agrediu e ameaçou acabar com a vida dela caso terminassem. River ficou com medo, mas a família incentivou que ela terminasse.
— E mesmo assim eles voltaram?
— Sim, Dennis prometeu buscar ajuda caso eles voltassem a namorar. River não queria no começo, mas se rendeu ao discurso em que Dennis dizia que só ela poderia ajudar em sua recuperação.
— O quê?! Não acredito! Como ela foi ingênua!
— Ela sentiu pena do estado em que ele estava. Dennis parece atordoado a todo momento. É como se uma fardo pesado estivesse constantemente sobre as suas costas, como a vida tivesse lhe escorregado dos dedos. Mas hoje... Hoje, Dana, eu vi algo muito estranho. Eu pude presenciar Dennis colocando um canivete por baixo da calça. Eu... Dana?! Você está bem?
Matthew segurou em meus braços enquanto eu colocava as minhas mãos em meu rosto e chorava desesperadamente. Por um momento achei que era alguma paranoia minha, mas ouvindo a história de Matthew, eu pude receber que era real. O que havia visto e ouvido iria acontecer.
— Temos que salvar River! – atônita, eu exclamei – Eles vão sair juntos. Eu sei que vão! Você sabe para onde?
— Ostra dourada. É um restaurante em frente a faculdade.
— Ele a chamou para jantar porque irá assassiná-la com o canivete. Nós temos que ir para lá, Mat. O mais rápido possível.
— E como você sabe que ele irá assassina-la? Você pode provar?
— E por que ele iria querer um canivete debaixo da blusa? Para resfriar a pele sempre que tiver calor?
— Faz sentido... Mas não entendo porque ele tentaria assassina-lá na frente de todo mundo. Isso não é coerente, Dana. Um beco não seria uma alternativa melhor?
— Não sei se você percebeu, mas Dennis está com problemas mentais. Como você disse, ele não consegue se conter, ao ponto de agredir a namorada. Basta apenas um desentendimento para uma facada rolar. O fato de ser preso parece ter pouco valor para ele.
— Isso eu posso afirmar: Dennis está passando por sérios problemas mentais. Não reconheço mais o meu amigo de longa data.
— Pois bem! Então vamos evitar que alguma besteira aconteça.
Com pressa, avancei na mão de Matthew enquanto corria em direção à entrada da universidade. No nossos passos desesperados, atravessamos metade da faculdade enquanto as pessoas lançavam olhares estranhos para nós, como se fôssemos loucos. Talvez elas estivessem certas, mas só queríamos evitar que mais um homicídio entrasse para os números do noticiário e River fosse mais uma história triste.
— Acho que não tem necessidade de continuarmos de mãos dadas, Dana – Matthew dizia enquanto atravessávamos a avenida que dividia a faculdade do restaurante.
— Ah, qual é! Por que você não deixa de ser essa menininha sentimental e anda mais rápido? Assim não precisaria segurar essa mão que cheira à café.
— Minha mão não cheira a café!
— Cheira sim! Sua mão e todo o meu corpo, que a propósito está ainda impregnado de café. Meu! Preciso ir ao banheiro.
— Você poderia ter ido se não fosse tão apressada.
— A vida de River não pode esperar, Matthew. Você esqueceu que estamos tentando impedir um maluco com um canivete dentro da calça.
— E falando nisso... – Matthew apontou para uma das janelas do restaurante – Ali estão eles. Dana, temos que correr.
— Ótimo, mais um motivo para você parar de falar besteira. Agora vamos! Rápido, Matthew! Acelere esse passo.
E assim entramos no restaurante Ostra Dourada.
— E agora? – curioso, Matthew perguntou para mim.
— Ótima pergunta.
— E se nós fôssemos até a mesa deles e simplesmente pedíssemos para participar do jantar?
— Isso não impediria que o canivete fosse cravado no peito de River, e provavelmente ele também iria parar em alguma parte do nosso corpo.
— Ok, e se nós... – antes que Matthew pudesse completar o seu raciocínio, ele foi brutalmente arremessado em um garoto que segurava em suas mãos um prato de porcelana com alguma comida deliciosa em cima.
O rapaz lançou um olhar irritado para o meu companheiro, e pude ver o seu maxilar se contrair, expressando o descontrole emocional que isso o causou. A comida que estava em seu prato havia sido arremessada a maior parte no chão, e o restante no azul cabelo de uma garota que estava perto do acontecimento. Matthew abriu a boca para pronunciar um pedido de desculpas, mas me adiantei em relação à ele.
— Quem você pensa que é para machucar meu amigo dessa forma? – fiquei diante dele, tentei transmitir a sensação de ameaça através das minhas duras expressões.
—Foi ele quem esbarrou em mim!
— Eu consegui ver toda a situação – dei um leve cutucão com o cotovelo no abdômen do meu companheiro – você fez de propósito. Qual é a sua, meu?
— Pela força que me golpeou, só pode ter sido de propósito – Matthew se aproximou dele, fazendo com que o seu nariz ficasse próximo do rapaz, o qual possuía lindas melenas que eram longas e negras. Se tivesse o visto de longe e ignorasse o formato de seu corpo, teria dito que era uma garota.
Enquanto os rapazes se confrontavam em ofensas e movimentos que ameaçavam uma briga iminente, eu permanecia com os olhos no encontro do nosso casal conhecido. Assim como todo mundo, eles pareciam entretidos com a briga, e os olhos pareciam bem fixos na disputa dos cavalheiros. E ao encarar Dennis, eu tive outra ideia que parecia se encaixar perfeitamente com a situação.
— Você vai deixar que ele continue ofendendo o seu comparsa, Dennis? – dizia enquanto andava até a mesa delas, mantendo um semblante de obstinação – Que tipo de amigo você é, cara? Vai deixar ele na mão?
As minhas palavras tiveram efeito instantâneo no ego de Dennis, fazendo com que se levantasse e fosse em direção ao amigo. Enquanto ele andava até lá e se envolvia com o problema de Matthew, eu me dirigi até River, que me olhava de forma confusa.
— Nós te conhecemos de algum lugar? – ela perguntou.
— Não, mas irá conhecer – agarrei no seu braço com o máximo de força que possuía – Venha comigo, River! Você tem que sair daqui.
— O quê? Não! Estou em um encontro com Dennis.
— Esqueça Dennis, eu tenho um assunto que irá lhe interessar – acreditei que isso iria convencê-la, joguei a minha última carta.
— Mas por que? – ela questionou.
— Apenas venha, River. Rápido! – eu puxei novamente o seu braço até a saída leste do restaurante, longe de toda aquela confusão.
Após correr vários quarteirões com River ao meu lado, eu parei por um instante, ofegante. Colocando as mãos no meu rosto para retirar o suor, olhei para River, que estava com um ar de confusão e incredulidade em seu rosto. Os seus cílios negros subiam e desciam, expressando uma necessidade de explicação por toda aquela situação.
— River... escute. Preciso te contar algo sobre Dennis.
— Então era isso? – irritada, ela bufou – Se for pelas traições, eu já sei de tudo. Você é... uma das garotas que ele saiu?
— Não! – exclamei surpresa.
— Então qual é a questão sobre Dennis?
— River... Ouça-me bem... Parece difícil de digerir, mas... – olhei firmemente para o seu rosto preenchido com a expressão de irritação – Dennis está com um canivete... E ele iria te matar hoje.
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