O Outro Lado
1 Prólogo
Os homens de preto pararam diante do portão de ferro.
Eram seis ao todos, todos vestidos em sobretudos pretos sobrepostos a roupas brancas, com botas escuras escondendo seus pés e luvas de fino tecido claro vestindo as suas mãos. O helicóptero no qual haviam chegado jazia à espera do retorno do grupo, estacionado sobre o gramado verde e úmido que circundava as margens do Rio de Águas Claras, sua estrutura de prata brilhando à luz do sol.
O ar estava frio ao redor deles, e arrepios eram partilhados por todos. Os ventos que sopravam agitavam as pontas de seus sobretudos, carregava as folhas secas caídas das árvores e formava pequenas ondas na superfície do rio.
Um dos homens, o mais novo e talvez também o mais baixo, aproximou-se do portão. Era magro, com o rosto pálido originário dos Picos, lugares frios e sem sol grande parte do ano, e salpicado de pontinhos escuros minúsculos que previam o nascimento de uma barba. Tinha grandes e curiosos olhos verde-escuros separados por um fino nariz arqueado, e um cabelo negro que lhe caía em ondas sobre os ombros.
– É uma tolice – afirmou Dario Servor, Chefe de Polícia, aproximando-se mais do grupo. A voz do velho era rouca e um tanto desagradável de se ouvir. Mas ele não percebia isso, e falava mais do que devia. – Não há nada para se ver aqui. É uma tolice.
– Obviamente, todos nós estamos cientes do que você acha já que você veio falando sobre isso durante todo o voo. – London Rob, o segundo homem mais velho dentre eles, postou-se ao lado de Dario. Era seu assistente, e também seu amigo de juventude. – Mas mesmo assim eu tenho perguntar: Por que você não está animado?
– Procurar por nada o estima, Lon? – O velho virou-se para observar London com seus olhos cansados e cheios de rugas. – É óbvio que os outros policiais morreram por serem incapazes, não por terem sido assassinados. Eu presenciei a destruição da guerra que destruiu Altária, e se há uma coisa que posso afirmar é que não tem nada ali.
– A possível existência de um grupo rebelde não o assusta?
– Assustaria se existisse.
London revirou os olhos. Virou o rosto para ele.
– Dario, se me permite... – com suas mãos nos bolsos do sobretudo, ele disse, com uma expressão séria: – Há coisas, muitas coisas, que um campo de força escuro como esse pode esconder, não acha?
Calado, sem ter uma resposta para aquilo, Dario ficou apenas olhando enquanto os outros homens digitavam as senhas precisas para a abertura do portão.
– Isto é uma tolice – resmungou ele, outra vez, ao passo que o portão soltou um rangido e começou a se mover.
Os homens se afastaram dele enquanto se mexia lentamente, se abrindo. Um rangido estridente inundou o campo, então, o portão parou, revelando a imagem que estava escondida atrás de si.
Dario se recordava muito bem de como eram esses campos na antiga Altária. Verdejantes, carregados de árvores majestosas, grama verde e brilhante... Ao longe, ainda tinha na memória a imagem da pequena cidade onde morava, Guis, um amontoado de casas de tamanho médio rodeadas por mato e florestas. Mas o que via agora era horrível, ainda pior do que se lembrava de ter visto quando estava indo embora dali – quando a Guerra já havia destruído tudo. A terra estava avermelhada, coberta por troncos chamuscados, entulhos espalhados por todos os lados, e ossos – mas ossos do quê ele não sabia dizer. Aquela antiga cidadezinha na sua memória, agora, nada mais era que uma montanha de destroços enegrecidos pelo fogo que a havia consumido vinte anos atrás.
Ao passar pelo portão, logo o cheiro da morte encheu seu nariz. Não sabia ao certo se esse tipo de cheiro realmente existia, mas foi o que ele pensou ao inspirar o ar carregado. Sim, era cheiro de morte. Altária havia morrido, e o Escuro deixara o cheiro do seu falecimento no ar como uma lembrança.
Seus companheiros conversavam à sua frente enquanto andava, parecendo não se importarem com o que havia ao redor.
Ali. Dario lembrava-se perfeitamente. Foi ali, naquela rocha gigantesca com forma triangulada, onde ele viu tudo acontecer. Atrás daquilo havia uma pequena floresta em que costumava ir quando criança brincar com os amigos. Duas décadas atrás, com 67 anos, estava sentado sobre ela, à noite, sozinho, quando viu. Uma estrela cadente, pensou ele, de imediato, quando viu aquele risco laranja cortando o céu estrelado. Observou, atento, enquanto a estrela ficava cada vez maior, cada vez mais luminosa, e caía. Em choque, continuou sentado, imóvel, sobre a rocha, fitando a grande onda laranja que engolia a cidade na qual havia nascido.
– Dario? – London deixara os outros. Chegou sem ser notado ao seu lado. – Você está bem? Parece nervoso.
London também tinha nascido em Altária. Como podia olhar para aquilo e parecer tão calmo?
– Sim, claro. Só que...
London esperou por uma continuação, mas foi em vão.
– Só que... o quê?
– Nada. – Ele recomeçou a andar. – Vamos. Temos mais o que fazer.
Os seis homens mantinham um passo lento e metódico ao caminhar, tendo cuidado para não acabar pisando nos buracos e entulhos espalhadas pelo chão em que pisavam.
Chegaram a uma pequena ponte que os separava da primeira cidade, há apenas alguns metros de distância. Quando chegaram na base da ponte, Hélio, um homem alto e grisalho, perguntou:
– Por onde começamos?
– Casa por casa – respondeu Dario, decidido.
– Casa por casa? Quando acha que vamos terminar isso? Essa cidade não é assim tão pequena. Tem certeza?
– Sim, tenho. Temos todo o tempo do mundo, isso não é problema. – Olhando para o céu, continuou: – E duvido que passe pelo menos das sete da manhã. Então, sem reclamação. – Virou-se para seus homens, e olhou para cada um deles. – Devo admitir que não vejo necessidade disso, mas não posso sair daqui sem ter a certeza de que não há nada para se temer. Quero poder esfregar isso na cara do Oficial Eldon.
Eles riram. Dario apenas prosseguiu:
– Demetrio, Barnes, Hélio e London, venham comigo. Vasculharemos essa primeira cidade. E Colton – ele acenou para o policial baixinho e gordo –, você fica aqui. Se avistar algo fora do comum, avise-nos pelo comunicador.
Com um aceno de cabeça, Colton fez que sim, e entregou uma maleta ao Chefe de Polícia.
Deixaram o outro ali e seguiram em direção à ponte de madeira estreita que levava à cidade abandonada. Quando os cinco homens subiram nela, sua estrutura estalou, ameaçando desabar. Decidiram não arriscar. Um de cada vez, eles passaram. Ao começar a andar sobre ela, Dario não pôde evitar olhar para baixo, onde antes existia um rio, mas que agora não passava de uma abertura na terra serpenteando à diante, sua superfície recheada de pedras pontiagudas.
– Há trinta casas ainda de pé, o que deixa cada um de nós com exatamente seis – falou London, contando-as com os olhos.
– Bem... Comecemos então.
Dispersando-se, cada um seguiu para um caminho diferente. Dario andou em linha reta até a casa mais próxima dele. Sua estrutura ainda estava erguida, mas concluiu que não por muito tempo, e parcialmente escurecida, como carvão. Encontrou uma porta, de ferro e toda enferrujada, e tentou abri-la, pondo toda a força que conseguiu reunir no corpo, mas devia haver algo por trás dela que a impedia de se mexer. Deu uma volta na casa, e descobriu outro jeito de entrar: tinha uma fenda vertical na parede ao lado, grande o bastante para poder passar. Pôs o pé primeiro, depois contraiu a barriga, um pouco maior do que desejava, e, por fim, entrou.
Não fosse pelas inúmeras frestas no teto pelas quais entrava a luz do sol, o lugar estaria totalmente mergulhado na escuridão já que a grande lâmpada pendente do teto estava destruída. Resquícios de poeira dançavam no ar e eram visíveis à luz das frestas. Viu, com o canto do olho, uma mesa sem uma das pernas, e sobre ela colocou a maleta que vinha carregando. Pressionou os trincos que a prendiam e a parte de cima da maleta se abriu. Lá dentro, encontrou máscaras, uma lanterna, óculos noturnos, armas, e vários outros apetrechos. Dario optou apenas por uma lanterna e uma máscara para protegê-lo da poeira. A luz que a lanterna emitia era forte e iluminou todo o recinto, ainda mais do que a luz das frestas no teto conseguia iluminar. Apontando para todos os lugares, Dario avistou um quarto escuro mais à frente. Com a lanterna apontando para lá, ele foi até ele.
O cômodo era pequeno e cheio de móveis quebrados e queimados. Havia no meio dele o tampo de uma mesa de madeira pousado no chão; nas paredes, quadros destruídos pendiam tortos; no chão, cacos de vidro, piso de cerâmica quebrado e pedaços do forro do telhado.
A máscara o estava sufocando. Tirou-a, incapaz de continuar com aquele incômodo. Ao inspirar o ar, sentiu algo de errado. Moveu a lanterna para todos os lados, procurando pelo que ele mesmo não sabia o que era. Andou, com cuidado, e parou diante do tampo da mesa. E sentiu de novo.
O cheiro! Como um lugar daqueles poderia ter cheiro de... flores? No entanto, de onde ele vinha? Revirando os móveis, não achou nada pelo qual o cheiro pudesse vir. Mas, mesmo assim, ele continuava ali.
Consternado, ele se virou, prestes a sair dali, mas acabando colidindo com algo. Seu pé esbarrou na perna de uma cadeira, esta de estrutura tão podre e fraca que facilmente se quebrou, fazendo o pequeno pote que estava sobre ela, com diversas bolinhas de vidro dentro dele, caísse. Bufou de raiva, xingando, e deu meia volta.
Clack. Ele ouviu, e se virou. Clack, clack, clack... Os estalidos não paravam. As bolinhas de vidro caíam no chão, se espatifando, seus pedaços voando para todos os lados. Algumas, mais fortes que as outras, conseguiam não quebrar, e foi nessas que ele prestou atenção. Elas rolaram para a abertura debaixo do tampo da mesa, e, de novo, pôde ouvir os estalidos.
Rapidamente, Dario colocou a lanterna na boca, se aproximou do tampo, pôs os braços sob ele, e levantou-o. Quando dirigiu a luz da lanterna para baixo dele, viu o túnel.
Dario se abaixou em frente ao buraco negro, a lanterna apontando para o que devia ser o fim dele. Em um dos lados do túnel cilíndrico de concreto, barras de ferro torcidas em Cs estavam presas. Pensou em chamar algum de seus homens pelo comunicador, mas era melhor não. Queria sair dali, do Escuro, o mais rápido, e não iria atrapalhar seus companheiros. Isso só o faria retardar ainda mais sua volta. Com certa inquietação, ele enfiou a lanterna na boca, jogou os pés dentro do buraco, colocou as mãos nas barras de ferro, e começou a descer. O cheiro de flores ficou mais forte.
Seus dentes pressionaram, sem querer, o botão de desligamento da lanterna, fazendo-a se apagar subitamente. A escuridão o envolveu, como um manto quente e assustador que pesava sobre suas costas. Não tinha medo do escuro, mas às vezes, certas certezas desapareciam ao se provar delas. A entrada do buraco era um círculo semiclaro de luz que, a cada barra de ferro que descia, ia ficando cada vez menor. Estava ficando abafado, e sentia suor escorrendo por sua testa e pescoço. Quando seu pé tocou o chão, instantaneamente sua mão tirou a lanterna da boca e a ligou. Com a luminosidade, observou o corredor que se estendia à frente.
Antes, pensava se tratar de alguma tubulação de esgoto esquecida, mas ali era muito bem conservado, limpo, e sem qualquer sinal de sujeira...
O círculo luminoso da lanterna bateu em uma estrutura de madeira que só podia ser uma porta redonda, da mesma forma e tamanho do túnel. Cauteloso, ele seguiu até ela, suas mãos trêmulas deixando à mostra a aflição que sentia a cada passo que dava. Em forma de fazer o mínimo de barulho possível, andou ainda mais devagar, controlando a respiração ofegante. O que há de errado comigo?, pensou consigo mesmo. Ao chegar à porta, parou, hesitante. Era como se toda a força, coragem e determinação que se havia reunido nele depois de todos esses anos na Polícia, depois de tantas coisas vistas e sentidas, houvesse, de uma hora para outra, sumido.
Não, disse para sim mesmo. Não, não, não.
Sua mão se ergueu relutante, mas resolutamente.
Um ar quente saiu da vasta sala ao abrir a porta, provavelmente graças às fileiras de tochas que se enfileiravam sobre uma extensa linha de tábuas pregadas à parede. Era uma sala gigantesca, impecavelmente limpa e adornado com os mais diferentes tipos de coisas: quadros, cortinas de seda vermelha, móveis lustrosos e brilhantes. Havia incensos com aromas diferenciados nas paredes, mas o mais forte era o que sentira lá em cima. À frente, havia centenas de portas no corredor que seguia em linha reta até se perder de vista. Andou em direção a uma porta ali perto, e a abriu. Seu coração se apertou de medo ao ver que tinha corredor atrás da porta, um lugar ainda tão grande como o que estava, mas entulhado de gente.
Virou-se para fugir.
Com um gesto rápido, pegou o comunicador escondido no seu bolso e chamou, com a voz arfante:
– London? Hélio? Barnes? – Ninguém atendia. – Colton, Demetrio, alguém aí? Tem alguém aí?!
Não soube por que, mas parou antes que passasse pela porta, olhando para o quadro que estava pendurado ao lado dela. Tinha cores chamativas, impossível de não ser notado. Ao se aproximar, ficou o encarando. Mostrava uma cena horrível: uma multidão aplaudia e sorria diante dos corpos de dois homens mortos que balançavam ao vento, pendurados pelos pescoços no galho de um salgueiro. Os detalhes eram perfeitos, embora o quadro fosse tão perturbador. E em um dos cantos dele, em letras maiúsculas, lia-se: "ELIAS — este nome tachado com uma linha — E PORTOS BALTIMORE, EM UM FUTURO PRÓXIMO". Aquele era o atual governador, Portos, e seu pai, o falecido Elias Baltimore. Eles pretendiam...
Sentiu os braços balançarem freneticamente com os tremores que assumiram, e sua mão deixou que a lanterna caísse, estilhaçando-se em centenas de pedaços que se espalharam por todos os cantos. Tinha que sair dali, e ainda mais rápido agora que corria o risco de ter sido escutado. Descuidadamente, seus pés começaram a recuar antes que seu corpo virasse, fazendo-o cair ao tropeçar em algo. Seu rosto colidiu de encontro ao chão duro. Seu queixo bateu no cimento e parte da sua língua, que se encontrava entre os dentes, escorregou, junto com o sangue, por entre os lábios.
Suas mãos procuraram por um apoio no qual pudesse usar para se erguer, e encontraram uma coisa levemente mole, mas suficiente. Demorou um pouco para que Dario pudesse finalmente começar a se içar, seu corpo protestando de dor com cada movimento que ele dava, mas logo conseguiu levantar parte do corpo. Mantinha os olhos fechados, como se isto o afastasse do que havia ao redor, e pôs força sobre o objeto em que se apoiava, conseguindo erguer parte do torso.
Quando olhou para o lado, pôde ver no que se apoiava: a cabeça de London, seu assistente, virada de lado, coberta por terra e sangue, seus olhos escuros esbugalhados. Olhando para trás, pode ver a linha de corpos atrás dele. Barnes, Hélio, Colton e Demetrio, todos estavam na mesma situação de London.
Dario virou a cabeça para a frente com lentidão quando ouviu um barulho, e viu duas botas pretas paradas diante dele. Forçou ainda mais o pescoço a levantar, sentindo a água salgada de suas lágrimas na boca e a dor no corpo, e este foi seu último movimento antes que visse, de relance, um jovem rapaz vestindo uma túnica cinza erguer uma faca.
E levá-la rapidamente de encontro à sua garganta.
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