O Outro Lado

2 De volta, uma última vez


Algumas coisas mudaram, nem todas para melhor. Todos os integrantes da máfia acabaram morrendo em decorrência das ações da polícia japonesa, da SPK e do falso L.

No momento estou deitado em uma cama não muito confortável, com parte do meu corpo coberto por faixas e remédios para queimaduras graves.

Ouço a voz do médico que me atendeu conversando com outra pessoa. Realmente existem médicos quem em troca de um bom valor, vão à sua casa e cuidam de você sem fazer perguntas. Era óbvio que somente assim eu podia ser atendido, afinal se me levassem para um hospital a chance de eu ser preso era muito grande.

Ele dizia que eu ia ficar com uma cicatriz permanente, mas que por sobreviveria. Viro meu rosto e vejo com meu olho livre meu crucifixo sobre o criado mudo. Quando eu o pego, noto que está diferente. A cruz é a mesma, mas o rosário no qual ela fica presa foi trocado.

_ Tive que mandar trocar, o outro queimou quase que completamente com a explosão._ Matt falou, sentando eu uma cadeira, do outro lado do quarto.

_ Não importa._falei enquanto o colocava no meu pescoço_ O médico falou o tamanho do estrago?

_ Do seu rosto até o ombro, o lado esquerdo está todo queimado. Ele passou alguns remédios para dor e alguns para ajudar a cicatrizar. No mais é esperar.

_ Eu não posso esperar! Se ficar parado, Near vai ganhar tempo à minha frente.

Tentei me sentar na cama, mas senti uma dor forte do lado esquerdo do corpo e caí deitado novamente.

Matt suspirou. Ele veio até mim, sentando na lateral da cama, de modo que eu encarava suas costas. Ele estava de cabeça baixa, parecia cansado.

_ Mello, você acredita em Deus, não é?

_ Você acha isso?

_ Não haveria outro motivo para você andar com isso no pescoço.

Somente segurei a cruz, sem falar nada.

_ De qualquer forma, se você acredita, não consegue pensar que ele está te dando outra chance? De acordo com o médico você deveria ter morrido com a explosão, no entanto está aqui, vivo, e quase inteiro.

Ele falava sem olhar para mim. Será que ele mesmo sendo meu melhor amigo, não conseguia entender que eu tinha que fazer aquilo.

_ Me diz Mello; você não pode simplesmente deixar tudo como está e tentar viver?

_ Matt, você sabe... não posso.

Matt se levantou e, sem me encarar, caminhou rumo à porta, na clara intenção de sair.

_ Sei que você vai acabar morrendo, e arrastando outros com você. Mas eu vou te ajudar novamente, talvez seja a última vez..._ falou cabisbaixo.

_ Se não concorda comigo, porque vai me ajudar?

_ Não me importa quem vai ser o número um, ou quem vai pegar Kira. Só quero que alguém prenda o assassino que matou L e Watari, afinal devemos muito a eles. Todos nós filhos da Wammy’s House devemos muito a eles...

Ele saiu. Matt já não sorria como nos tempos de orfanato. Sinto falta daquele sorriso bobo que ele tinha, apesar de eu, como seu melhor amigo, saber que muitas vezes ele ria para não chorar, e usava isso como escudo contra os problemas. Sim, nós sabíamos muito um do outro, e confiávamos um no outro também.

Fechei meus olhos e segurando meu crucifixo, comecei a rezar. Não me importava que Matt conseguisse me ouvir.

_ Mãe Maria, eu devia estar morto, no entanto estou vivo. Não sei se mereço ou não, mas simplesmente não posso parar, vou até o fim naquilo que comecei, só peço que me proteja Mãe, porque não posso andar sozinho...

“ Let it be, let it be

Let it be, let it be

Whisper words of wisdom, let it be.”

(deixe estar, deixe estar

deixe estar, deixe estar

sussurrando palavras de sabedoria, deixe estar.)

“And when the broken heart people

Living in the world agree

Ther will be an answer, let it be.”

(e quando as pessoas de coração partido

vivendo no mundo concordarem

haverá uma resposta, deixe estar.)