O Outono é a Cor dos seus Olhos
14 Tacos
Notas iniciais
Mais dias sem significância passaram como os ponteiros que corriam dentro dos relógios. Às vezes eu reflito sobre quantos dias das nossas vidas passamos sem ter nenhum acontecimento memorável, e centenas deles são deletados do nosso cérebro por simplesmente não serem dignos de recordação. Ao mesmo tempo, há alguns dias que se eternizam até o nosso último suspiro neste mundo, e somos capazes de lembrar cada detalhe neles, desde a cor do dia até o gosto sutil no paladar, tão vívidos na nossa mente que poderíamos vivê-los de novo no interior de nós mesmos.
E então sempre chego a mesma conclusão: se todos os dias fossem memoráveis, nenhum deles realmente seria.
Porém, como qualquer jovem, eu tenho ansiedade em não desperdiçar a minha juventude e sempre procuro preencher meu tempo com alguma atividade, mesmo que seja para bater papo com aquele amigo que nunca tem novidades para contar num shopping que eu já até decorei a disposição das lajotas no piso. Às vezes a ansiedade é tanta que se transforma numa sombra de preocupação: o tempo sempre está correndo e o que eu fiz de importante até então?
Liguei para Kimberly e marcamos de nos encontrar sexta-feira à noite no Grand Electric, um bar badalado estilo mexicano em Parkdale. Não sou muito fã do quesito “me deslocar a grandes distâncias”, mas Kim simplesmente adora aquele lugar por apenas dois motivos – tacos e a decoração de esqueletos – e como ela tem um poder de persuasão muito grande – me ameaçou com dois socos na cara – eu acabei topando.
Kimberly chegou quarenta minutos atrasada, enquanto eu estava na fila grandiosa do lado de fora para entrar no bar. Outro fator que contribuía para que eu não me simpatizasse com o Grand Electric: não havia como fazer reservas e o lugar estava simplesmente lotado a qualquer hora da noite como se eles distribuíssem tacos de graça.
– Está atrasada para a festa, Cinderela.
– Se eu sou a Cinderela, a fada madrinha fez um péssimo trabalho. E quando der meia-noite, vou querer estar bem longe daqui.
– Por quê?
– Porque se eu sou feia pra cacete com magia, imagina sem. As pessoas vão querer me queimar numa fogueira.
– Eu adoro seu humor negro, meu amor.
Puxei o braço gordo dela para perto e a abracei, sua cabeça ficando presa debaixo da minha axila. Era impressionante, mas toda vez que eu a via parecia que ela havia engordado mais um quilo. Kim vestia as costumeiras roupas pretas e a maquiagem pesada com sombra roxa, o cabelo enrolado amarrado em um coque no alto da cabeça. Ela usava botas de couro que iam até os joelhos, dando a impressão de que suas pernas eram mais curtas do que o normal.
A noite estava um pouco mais quente do que as antecessoras, mas ainda assim não era possível abandonar o conjunto inseparável cachecol-luvas-touca-casaco. O burburinho das conversas alheias distraía o tédio da fila, e uma garota atrás de nós falava entusiasmadamente de desodorantes que não manchavam roupas. Levamos mais trinta minutos para conseguirmos passar pela pequena porta de vidro, e me esforcei para manter o sorriso estampado no rosto, não para disfarçar que estava me aborrecendo com a demora, mas porque se eu começasse a reclamar Kim socaria meu estômago ali mesmo, e eu sabia muito bem que ela tinha a plena coragem de cumprir suas ameaças.
Ficamos em uma mesa no interior do estabelecimento, que era um lugar bem apertado. Pessoas esbarravam na nossa mesa o tempo inteiro, e a pouca iluminação misturada com a música alta me irritava um pouco. Além disso, tive que me levantar duas vezes para que as pessoas das mesas vizinhas conseguissem se sentar devido à crítica falta de espaço. Comecei a ponderar se um soco da Kim doeria tanto quanto eu imaginava. Escolhemos nossos pedidos no peculiar cardápio que ficava em um quadro negro ao fundo do bar, com luzinhas de natal em volta e os pedidos escritos em giz branco. O único sabor que realmente me interessou foi o taco de frango.
– Vou querer oito tacos de bochecha de boi, dez de barriga de porco, doze de peixe e uma cerveja acompanhada de um shot de tequila. Você vai querer tacos de frango, é isso mesmo Jim?
– Sim, eu quero três tacos de frango.
– Então pode colocar só nove tacos de frango. Eu não gosto muito de carne branca.
– Só quero deixar claro que peixe também é carne branca.
– Jim, passar bem para você.
O garçom levou o pedido, mas antes de entregá-lo eu o vi contando quantos tacos foram pedidos por Kim, e arregalou os olhos ao somar 36 tacos que seriam devorados por uma baixinha de um metro e cinquenta e três centímetros.
No início da nossa amizade eu também fazia as contas.
– Conte-me o que se passa na sua vida gay, sexy Kim.
– Passa muito mais peitinhos do que na sua, encalhado James. – Kimberly virou o shot de tequila, fazendo com que o líquido amarelo desaparecesse num segundo. – Eu estou num lance sério com uma garota da minha faculdade. Pelo menos eu estou tentando tornar algo sério. Tá meio difícil, ela ainda está na fase de aceitar o que ela verdadeiramente é: uma gostosa que gosta de outra gostosa. – Ela deslizou a mão pelo tronco corpulento, fazendo uma pose sensual. – Existem garotas que só por serem muito gatas acham que são obrigadas a gostarem de caras, pois eles ficam de quatro por elas e seria um total desperdício não utilizar essa arma contra eles. Tina é uma delas, infelizmente. Mas semana passada eu fiz algo que nenhum homem é capaz de fazer com ela e acho que isso irá contribuir para que Tina mude de ideia. – Kimberly terminou a frase colocando a língua para fora, fazendo movimentos circulares.
– Eu já entendi. Pode parar, por favor. Terei pesadelos com isso.
– A chave do coração de uma mulher muitas vezes está na ponta da língua, meu caro. Lembre-se disso na sua próxima aventura amorosa. Falando em amor, como vai o seu coraçãozinho? – Ela perguntou, com uma entonação debochada.
– Duro como a água congelada do lago em High Park na estação de inverno. – Eu disse com a mão no queixo, enquanto brincava com o canudo do meu copo de Coca-Cola com gelo. Desde o episódio da festa de Liam, preferi manter distância do álcool.
– Deprimente. Ainda não superou a Marge? – Kim indagou, dando mais goladas generosas em sua cerveja.
– Sim, mas todas as pessoas que convivem comigo insistem em dizer que não. – Menti, não querendo relembrar o constrangedor fato de que eu havia chorado ao descobrir que Marge estava em um namoro firme. – Eu me sinto mais maduro, e consequentemente mais frio. Sei lá, eu já não acredito mais em relacionamentos, percebi que toda a ideia que eu tinha sobre amor verdadeiro era uma ilusão e na realidade, você se abre para uma pessoa e dedica todo o seu sentimento por ela, criando planos e sonhos, para que no final você seja trocado por qualquer idiota de nariz grande e acabe não significando mais nada.
– Realmente, uma trágica conclusão a qual você chegou. Quais planos você tinha com ela?
– Eu pensava, tipo… — Hesitei, tomando coragem para admitir. – Casar com ela e morar em uma casa com cerca branca, coisas assim.
– Foi a coisa mais fofa que já ouvi você dizer, Jim. – Kim disse em tom de sarcasmo, apertando a minha bochecha. – Eu poderia ser a madrinha dos seus filhinhos?
– Só quando eu for padrinho dos seus filhos gerados pelo jeito convencional.
– Vá à merda. Você não pode deixar que os relacionamentos fracassados te influenciem, cara. Se permitir que isso aconteça, vai virar um ciclo vicioso redundante infinito. Você entrará nos relacionamentos pensando que eles nunca darão certo, e de fato não darão, pois não irá se esforçar para que eles evoluam. E aí você terá uma lista de desastres amorosos que só confirmarão a sua tese de que não há nenhum sapato que faça par com o seu, e então terminará a vida sozinho em uma casa cheia com uns trinta gatos.
– Eu gosto de gatos.
– Estou falando sério, Jim. Você não pode deixar que a sua primeira namorada te ferre o resto da vida. É dar muito poder a ela, não concorda?
– Você é igual a um homem, mas dá conselhos de mulher. É engraçado.
– E você seria totalmente uma mulher se não fosse pela sua genitália, idiota. Presta atenção no que estou te dizendo.
O garçom chegou com duas bandejas enormes lotadas por montanhas de tacos que escorregavam umas sobre as outras, estragando o toque gourmet da comida. Kim pediu mais duas latas de cerveja e outro shot de tequila.
– Você sabe que eu não tenho força para te carregar até em casa, eh? Acho melhor maneirar na bebida… — Tentei advertir.
– São necessários uns dez barris para derrubar essa criança, mamãe. – Ela respondeu, engolindo de uma única vez um taco de peixe.
– Sinceramente, eu não faço a mínima ideia de como tudo isso cabe dentro de você. Pelo seu tamanho, o seu estômago deve começar na garganta e terminar na bexiga, e mesmo assim… — Eu disse, impressionado com a muralha de tacos que se ergueu entre nós.
– Eu vou tentar me controlar mais, está bem? É um saco sempre ter alguém implicando com a quantidade de comida que você engole. A vida é minha. – Retrucou Kimberly, devorando outro taco. Ela não estava brincando e parecia estar realmente chateada, o que era algo inédito já que eu a zombava sobre comida desde... sempre.
– O.k., desculpe. – Eu disse, sentindo-me estranho ao me desculpar por uma brincadeira que era tão natural entre nós. Kimberly deveria estar na TPM, embora parecesse totalmente improvável ela ter uma. – Mas eu não estou pensando dessa forma por causa da Marge, e sim como uma defesa. Quer dizer, basta olhar para mim e dá para notar que estou acabado. Até entrei em terapia. Não quero passar por isso outra vez. Nunca mais quero me envolver tanto assim.
Kimberly me encarou seriamente por alguns segundos e em seguida soltou uma gargalhada exagerada, a boca abrindo e mostrando todo o taco triturado sobre a língua.
– Deixe-me entender o que se passa nessa cabecinha transtornada. Você acabou de terminar com a sua primeira, isso mesmo, sua primeira namorada e resolveu nunca mais, por toda a sua vida, mergulhar em outra relação.
– O que eu tive com Margareth foi muito intenso, e acredito que jamais sentirei algo próximo por outra pessoa nem mesmo que eu queira. Eu já me envolvi com outras garotas e eu posso afirmar: Margareth era a mulher ideal para eu passar o resto da minha vida. – Eu redargui firmemente, a angústia entalando no pescoço ao mesmo tempo em que um aperto surgia no meu peito, ao constatar a verdade naquelas palavras.
As bebidas de Kim foram servidas e ela abriu uma outra lata de cerveja, sorvendo a bebida deliciosamente e refletindo sobre o que eu havia acabado de dizer.
– Sabe, eu também pensava do mesmo jeito quando terminei com Leslie. E eu confesso, ela era a parceira perfeita para envelhecer e dividir cadeiras de balanço. Contudo, não deu certo e cá estamos nós, chorando as nossas dores na companhia desses tacos maravilhosos. – Ela deu uma pausa para mais um grande gole, prosseguindo. – E mesmo que eu tenha tal consideração por ela, nada que eu faça a fará mudar de ideia, restando apenas a opção de me conformar com a situação e seguir em frente. Agora estou me envolvendo com Tina, e espero encontrar nela a minha parceira da vida inteira. Entende o que eu digo? Existem várias mulheres ideais por aí, e você tem que parar de pensar assim para poder encontrá-las. Quem sabe encontra alguém melhor que a Margareth, alguém que não termine com você e acabe se casando e morando numa casinha de cerca branca.
– Talvez. Eu ainda preciso de tempo para me recuperar desse término. Uma decepção para cada ano.
– Só tome cuidado para não se afastar demais das pessoas. Pode afastar também a pessoa que vai tirá-lo desse poço de depressão.
No instante em que Kim terminou a frase, pensei imediatamente em Ava. Não que eu acreditasse que ela era a tal garota profética, a qual iria dividir as escovas de dente comigo na casa de cerca branca, mas pensei que talvez eu tivesse sido cruel em deixá-la me esperando.
Kimberly tomou mais quatro latas de cerveja e três doses de tequila, sendo o suficiente para derrubar a criança que se dizia indestrutível. Ela não conseguiu comer metade dos tacos que havia pedido, o que foi algo que realmente me surpreendeu. Abaixei-me em uma altura que a permitisse atravessar um dos braços pelo meu pescoço e a fui carregando pelo caminho, sendo que eu tive de deixá-la até a porta de casa. Durante a volta no metrô, Kimberly cochichou em tom grogue enquanto apoiava a cabeça em meu peito:
– Tina nunca vai me amar. Sou gorda demais.
– Você tem as suas qualidades. E eu não irei discutir isso com você, está bêbada. Não vai lembrar nem metade da conversa amanhã.
– Ela é tão gata… e eu sou tão ogra… isso nunca vai dar certo.
– Kim, pare de se rebaixar. Você tem olhos daltônicos lindos.
– Você é quem tem, meu gato. Você é quem tem. – Em seguida Kimberly caiu em sono profundo, roncando alto o suficiente para que todo o vagão pudesse ouvir.
Eu desejava que o seu novo relacionamento desse certo, de todo o coração.
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