O Outono é a Cor dos seus Olhos
3 Stella
Notas iniciais
Cheguei a minha casa o mais depressa que pude, para evitar que algum conhecido tenha me visto regurgitando humilhantemente no jardim congelado da Kim. Posso imaginar o cheiro ácido empesteando todos os aposentos através das frestas da janela, e a cara furiosa da senhora Polly Pocket encarando atordoadamente o gelo empapado em vômito. Minha irmã gêmea não tão gêmea, Stella, passou por mim com uma lixa de unhas pelo corredor cantarolando o que deveria ser alguma música de sucesso das últimas baladas canadenses, e ao notar a minha desinteressante presença deu dois passos para trás e parou na minha frente, impedindo a passagem para a escada com o braço estendido sobre meu peito ofegante e ardente devido ao ar frio.
_ Irmãozinho… você já é branquelo, mas hoje está transparente. O que houve? – Ela perguntou, com um olhar assustado que me esquadrinhou das botas ensopadas à cabeça descabelada.
Stella era a minha irmã mais velha sim, exatamente três minutos mais velha. Porém, tratando-se de idade cerebral, ela é uns dez anos mais madura que eu. Stella tem um jeito extravagante, explosivo e intenso para qualquer situação da vida e não aceita desistir dos seus objetivos, o que chega a ser bastante irritante às vezes. Apesar disso, eu gosto de sua personalidade pois Stella anima a nossa casa e agradeço muito por sermos gêmeos, porque se eu fosse filho único aquela família nunca teria uma árvore de natal montada, ninguém perseguiria as marmotas nos segundos dias de fevereiro e o dia de Ação de Graças se resumiria a assistir a transmissão do jogo do Canadian Football League. Ela tem longos cabelos negros e ondulados nas pontas, olhos cinza em formato de amêndoa e embora adore zombar do meu tom caucasiano exacerbado, é tão branquela quanto eu. Sim, minha irmãzinha me dá muito trabalho e eu já tive que enfrentar algumas brigas por ela. Infelizmente, apesar de possuir intelecto e maturidade em abundância, tem dedo podre para escolher homens. E o que fazer quando sua irmã está chorando desesperadamente no quarto, porque seu namorado contou para os amigos que ela tinha “aberto a retaguarda”? Você vai atrás do idiota mesmo que não vença a briga. A sorte é que eu tenho um amigo do tamanho de um armário, o Joey, eu sei que ele é pura bomba e que um soco dele não quebra nem os ossos próprios do nariz, mas para quem não o conhece assusta o suficiente para não querer entrar em uma briga. E foi o que aconteceu afortunadamente naquele dia, chamei mais alguns amigos (só para fazer número e não aparentar que dependíamos totalmente do Joey) e o retardado do namorado de Stella balbuciou algumas palavras pedindo desculpas e eles foram embora do bar onde estavam, tropeçando nos próprios pés de tão chapados.
Stella cursa administração na Universidade de Toronto, no próprio campus em Scarborough. Sempre tem médias incríveis, fala fluentemente o francês canadense, alemão e ultimamente andou arranhando o Mandarim, porque a China se tornou uma potência mundial e que na concepção dela a área de gestão será inundada por olhos puxados. Eu disse que eles também sabem falar inglês, afinal de contas eles são asiáticos e devem jantar conversando em Klingon, no entanto ela replicou dizendo que gostaria de ser uma profissional com diferencial, e que se aprendesse a língua deles os chineses se sentiriam mais confortáveis e mais próximos a ela. Desse jeito, fui obrigado a passar um mês aturando Stella puxando os cantos dos olhos e falando com uma voz gozada, “Olá, prazer em conhecê-la. Você fala chinês? Não creio, amiga!” E tagarelando um bando de coisas que eu não fazia a mínima ideia do que era, mas que se aquilo fosse Mandarim, fiz uma pequena observação de que ela precisava melhorar aquele sotaque – e muito.
_ Eh. Eu só estou passando um pouco mal. Vou me deitar e estarei melhor até o almoço. – Respondi, sentindo o aroma de queijo grelhado gorduroso vindo da cozinha e meu estômato embrulhou novamente.
_ Escuta, você não tá assim por causa da Marge, não é? – Ela insistiu, soltando um arquejo de impaciência e revirando os olhos. Como disse, Stella nunca desiste dos seus objetivos, e ela estava disposta a arrancar todas as palavras que estavam rondando minha mente feito um enxame de vespas.
_ Stella, se quiser mesmo saber o que houve, vamos lá pra cima. Esse cheiro está me matando. – Declarei, sentindo meu esôfago queimar até a boca do estômago.
Subimos as escadarias e fomos para o meu quarto. O meu “santuário” é um lugar simples, que possui poucas coisas que me definem precisamente – se é que existe algo que me define. Eu queria colocar alguns pôsteres, livros que eu gosto mas que já li pela internet, esculturas que eu acho interessante igual àquelas esferas de aço que se batem umas nas outras infinitamente, porém acho decoração algo desnecessário e que não vale tanto o esforço e dinheiro. Assim que eu entrei no meu quarto, a primeira coisa que eu vi foram as prateleiras acima do meu computador, onde ficavam os retratos com as fotos de Marge e eu, agora vazias. Ainda podia imaginar as fotos ali: no primeiro retrato nós estávamos tomando sorvete no Rouge Park, no segundo estávamos dançando coladinhos na festa de formatura e no terceiro era a gente fazendo careta enquanto ela estudava para uma prova da faculdade.
Caí de bruços em cima da cama e enterrei meu rosto no travesseiro alterado tecnologicamente pela NASA. Levou alguns segundos até minha face ser totalmente engolida pelo travesseiro evoluído cientificamente, e imaginei se alguém já tinha morrido sufocado com aquilo no meio da noite.
_ Vamos lá Gasparzinho, desembucha. – Falou Stella, jogando-se na cama ao meu lado e fazendo com que meu corpo moribundo pulasse involuntariamente feito um saco de lixo.
Contei toda a novela com o mesmo entusiasmo de um narrador de futebol de botão, incluindo a nova figura da história que ficou conhecida como o cara do nariz de papagaio. Stella ouvia tudo atenciosamente, arqueando as sobrancelhas à medida que recebia as informações e roendo a unha igual a um esquilo elétrico.
_ E você está neste estado decrépito por que, exatamente?
_ Preciso contar tudo de novo? – Resmunguei, tomando coragem para rolar meu tronco e deitar de barriga para cima.
_ Não, eu prestei atenção na história toda. Eu quero saber o que exatamente faz você se sentir assim.
Eu grunhi baixinho, evidenciando que nem eu mesmo sabia a resposta ao certo. Encarei as prateleiras vazias e concluí que os livros antigos do meu pai guardados na garagem ficariam ótimos ali.
_ Eu ainda gosto dela. Não quero vê-la com outra pessoa. – Confessei. Minha boca ficou seca e o amargo do ciúme temperou minha língua como um veneno desgostoso.
_ Se ainda gosta dela, então por que a deixou ir? – Ela retrucou, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
_ A gente não estava mais dando certo, ok? Brigávamos por tudo e ela… ela não parecia se importar mais comigo. – Minha voz foi desaparecendo a medida que a dor do abandono comprimia meu coração.
_ Eh. Então bola para frente, meu amigo. Ela não gostava mais de você e não há nada nesse mundo que a faça voltar, agora com o nariz do papagaio no caminho.
_ Você veio falar comigo para me destruir de vez ou me fazer sentir melhor? – Repliquei, sentando-me na beirada da cama com ímpeto ao sentir a raiva da verdade me cutucar feito a ponta de uma faca no pescoço.
_ Oooown, meu bebezão. Eu quero seu bem, cuti-cuti – Ela falou em tom infantil, deitando sobre mim tortuosamente e me dando um abraço apertado, enquanto eu não movia um dedo da minha posição de derrota.
_ Você sabe que eu odeio quando fala assim comigo.
_ Você odeia muitas coisas, se fosse só isso eu até parava.
_ Eu odeio a Margareth.
Ela deu um salto abrupto da cama, ficando em pé com os olhos arregalados para mim. Olhei em volta em busca de uma barata ou outro inseto repugnante, já descalçando minha bota pronto para a guerra.
_ Você nunca, nunca pode odiá-la. Não alimente este sentimento. Não fará bem a você e nem resolverá seus problemas. Você se transformará num poço de rancor e irá se afogar cada vez mais. No entanto, o pior de tudo isso é que você a odiando irá cegá-lo do único remédio que pode salvá-lo dessa miséria. – Stella discursou com o mesmo ar eloquente de um vendedor que afirma que você precisa de um apontador de lápis elétrico para sobreviver.
_ A Bíblia?
_ Engraçadinho. Estou falando de um novo amor! – Ela exclamou com ternura, pegando-me pelos ombros e esboçando um sorriso bobo no canto dos lábios.
Eu continuei a encarando, com uma sobrancelha arqueada.
_ Já estou de saco cheio de procurar alguém que me entenda. Não existe nenhuma outra alternativa?
_ Tem antidepressivo também, mas a gente guarda essa opção para quando não há mais jeito.
_ Definitivamente, não estou no clima de procurar outra pessoa para preencher o vazio do meu coração, encher minha vida com luz e blablabla…
_ Então você pode optar pelos caminhos mais convencionais. Encher a cara, pegar várias garotas e se fazer de durão, dizendo que está na sua fase de solteiro e que está cansado da monotonia do relacionamento sério. Quando que na verdade, é só você enchendo a cara, transando duas vezes ao ano e se mostrando ao mundo que nem um pavão algo que você não é.
_ Conheço alguns casamentos que acabaram assim também.
Stella deu as costas e foi caminhando até a porta, bufando e meneando a cabeça.
_ Você quem decide o seu futuro, senhor Carten.
_ Eu posso ao menos fazer a escolha errada só hoje? – Murmurei para mim mesmo, apanhando meu celular na mesa de cabeceira.
Procurei na lista de contatos o número do meu amigo Jack Leblanc. Cliquei em cima de seu nome e o número foi discado automaticamente. Após três chamadas, uma voz enrouquecida por sono atendeu do outro lado.
_ Quem fala?
_ E aí, minha mademoiselle.
_ Fala sério, a essa hora da manhã e me liga para tirar sarro? Vai me procurar na…
_ É o Jim, imbecil. E já é quase uma da tarde, para o seu conhecimento.
Jack absolutamente detestava que sacaneassem a sua descendência francesa. Contudo, nós apenas o sacaneávamos porque ele adorava tirar proveito da pronúncia de seu nome, que fazia sucesso no universo feminino. Ele era uma espécie de Don Juan em Scarborough: boa aparência, sedutor e canalha. Diria que 90% de seu charme provinham do fato de ele ser um canalha.
_ É uma da manhã, na minha percepção.
_ O que você é agora, o Batman?
_ Apenas fui feito para viver durante a noite – Jack replicou, com deleite.
_ Guarde esse seu sotaque forçado para as suas clientes, putain.
Eu nunca havia me interessado pelas aulas de francês na escola, mas fiz questão de gravar os xingamentos franceses dos livros paradidáticos com o único objetivo de irritar Jack.
_ Diga logo o que quer. Estou gastando minha beleza aqui.
_ Marge me chutou. Só quero me distrair um pouco.
_ Quer se distrair? Quando estiver atrás de algo sério me ligue de novo.
_ O.k. Jack, eu quero dar perda total, entrar em coma alcoólico e ter uma tatuagem na testa e não me lembrar de como eu a consegui.
_ Agora sim, parfait. Festa na casa do Liam, às oito. Evan, Joey e Andrés estarão lá. Para a sua segurança, não vá de carro.
_ E nem posso, essa semana é a vez da Stella de ficar com as chaves.
_ A propósito, passe meu número para ela e fale que se quiser ter uma noite inesquecível, abro uma brecha na minha agenda.
_ E aí eu quebro a sua cara.
_ Com que braços? Ambos nós sabemos do que o Joey é realmente feito.
Eu ri.
_ Arrebentar você não é tão difícil quanto pensa, sabia?
_ Subestimar o inimigo é um erro.
_ Cantar a irmã do amigo é um erro.
_ Deixar sua irmã solteira é um erro.
_ Até mais tarde, Jack.
Ter um amigo como o Jack é vantajoso pelo simples motivo de o sol ter nascido para ele, e você pode pegar um pouco do bronzeado. Porém, eu nunca sei até qual ponto eu posso confiar nele. Creio que o sol tenha nascido apenas para 1% da população mundial: são as pessoas bonitas, inteligentes e ricas. Os outros 99% precisam se contentar com a luz das estrelas, lâmpadas ou de palitos de fósforo.
Certa vez eu discuti sobre isso com Marge quando ela proferiu pela milésima vez que o sol nasceu para todos. Eu disse que não era verdade, que as pessoas se iludiam e achavam que poderiam fazer qualquer coisa porque pessoas como ela diziam que elas poderiam fazer qualquer coisa quando que no fundo não, não podem. A discussão acabou em eu sendo taxado de pessimista egocêntrico e Marge mantendo a sua opinião intacta.
Comecei a me arrumar cedo, pois até chegar à casa de Liam que ficava no bairro The Beaches eu precisaria pegar dois ônibus e um metrô, além de andar um quarteirão. Vesti uma calça jeans e a blusa de malha preta que estava começando a ficar pequena em mim. Inclinei-me de lado em frente ao espelho e notei que a blusa estava um pouco apertada no peitoral e as mangas mal alcançavam os ossos de meus punhos. Arregacei-as até os cotovelos e nutri minha autoestima ao concluir que o tecido apertado valorizava meus ombros. Eu já estava deprimido demais e se quisesse que as coisas melhorassem era melhor começar a ver o copo meio cheio.
Fui até o banheiro do segundo andar e borrifei um pouco de perfume no pescoço. Não satisfeito, borrifei mais gotas nos pulsos e sobre a roupa, até que uma nuvem de fragrância me envolvesse e deixasse seu rastro por onde eu andasse. Num gesto automático apanhei meu barbeador, para aparar o que seria a gênese da minha barba. Porém, antes que iniciasse a mutilação de pelos, analisei a situação e notei que estava fazendo algo que eu era contra, pois eu sempre quis ter uma barba máscula e decente para me envelhecer uns sete anos e amenizasse um pouco o meu rosto angelical de menino do coral da igreja. Eu não havia deixado crescer apenas para agradar a Marge, que reclamava por causa dos pelos que pinicavam e que quando ela estava na TPM, estes chegavam a “arranhar e fazer cortes que ardiam por uma semana”.
Como um ato de liberdade, larguei o barbeador e baguncei um pouco os fios de cabelo negros que caíam sobre a testa. Calcei meus sapatos mocassim estilo hipster e desci as escadarias. Passei pela sala de jantar, onde minha família jantava macarroni com queijo enquanto discutia sobre o valor da gorjeta aos garçons.
_ Um minuto aí! Quem é esse gatinho? – Anunciou minha mãe terminando de colocar o garfo na boca, com uma expressão travessa.
_ Ele é um Carten! – Prosseguiu meu pai, fingindo arremessar alguma bola para mim.
_ Eu estou apresentável, Stella? Mamãe está me achando atraente e isso me preocupa um pouco…
Não há nada de errado nas mães que acham os seus filhos bonitos, é uma coisa inevitável até porque nós somos frutos de seus ventres e ninguém admite que algo que saiu de dentro de você seja feio. Entretanto, a minha mãe era um caso particular, pois ela enxergava beleza onde não existia, logo era um parâmetro nem um pouco confiável.
_ Desta vez você está. – Respondeu Stella em tom de voz que significava “eu sei do que você está falando”.
_ Pelo amor de Deus! Eu só tenho um gosto distinto da maioria. Porém, se vocês apreciarem do mesmo ângulo que o meu, enxergarão de forma igual. Já disse o poeta: a beleza está nos olhos de quem a vê! – Minha mãe se defendeu, formando um quadrado com seus dedos e me encaixando nele, como se fosse tirar uma foto.
_ Mãe, eu já apreciei aquela escultura de bode na sala de estar de todos os ângulos e acredite, continua sendo horripilante. – Retorqui, pois alguém tinha que falar alguma coisa a respeito daquilo em casa.
_ Richard, isso é verdade? – Perguntou a minha mãe perplexa, deixando o queixo cair e largando os talheres sobre a mesa que provocaram um tinido irritante.
Meu pai pigarreou e olhou de relance para mim, como se eu houvesse tocado em uma questão inquestionável.
_ É verdade. – Decretou meu pai, firmemente.
_ Finalmente! – Comemorou Stella com a boca cheia de macarroni, erguendo as mãos para o alto.
Minha mãe continuou boquiaberta, como se aquela revelação fosse mudar o rumo de nossas vidas.
_ Bem, antes que a casa entre em rebelião e o bode seja despejado e queimado na fogueira, eu estou indo para a casa do Liam.
_ Que horas você volta? – Indagou meu pai em tom retórico. Responder aquela pergunta sempre foi fácil para mim, ao contrário de Stella.
_ Meia-noite, eu acho. – Menti, porque na verdade nem eu sabia a resposta. – Mas talvez eu me atrase um pouco por causa do ônibus.
_ Tudo bem, tome cuidado – Ele desejou, assentindo com a cabeça.
Despedi-me de todos e vesti o casaco térmico, par de luvas, cachecol e touca até que os meus olhos se tornassem a única parte visível do meu corpo. Caminhei noite adentro até o ponto de ônibus, na avenida principal. A neve começou a cair lentamente, deitando sobre o asfalto amarelado pela luz dos postes e se unindo numa cobertura fina e delicada que revestiu os carros e os galhos das árvores secas. O vento gélido do final da estação estava dizendo adeus hostilmente, com o termômetro da rua indicando graus negativos. Naquele momento agradeci mentalmente às pessoas que se preocuparam em fazer um ótimo sistema de calefação pela cidade. Juntei os loonies que estavam no bolso da calça e aguardei com os braços cruzados a chegada do ônibus que não muito demorou.
O caminho foi bem longo, e passei a maior parte do tempo pensando na Marge, embora que eu fizesse o possível para fugir dos pensamentos sobre ela com o cara do nariz de papagaio. As mesmas perguntas não paravam de pairar sobre minha cabeça: se ela ainda pensava em mim, se havia me traído ou estava ficando com ele apenas para me esquecer. O tempo inteiro eu sentia um nó na minha barriga, e a sensação de que havia algo errado não me deixava como a sombra que persegue seu dono. Embora que duas semanas já houvessem sido transcorridas, eu ainda não tinha me adaptado ao novo estilo de vida que eu encarava mais como um retrocesso: voltar a ser solteiro. Eu nem lembrava mais como era ser solteiro. A única coisa que eu lembrava era: ser solteiro é uma merda.
Eu gostei da segurança que o namoro me proporcionou, da sensação de que existia alguém para encontrar no final de semana, ligar no fim do dia e saber para quem contar quando acontecia algo extraordinário. Sem falar que ter uma fonte certa de carinho era muito bom. Agora eu não tinha mais um porto seguro, era como andar sob a neblina e não saber onde estava pisando. O pressentimento de que tudo estava errado só aumentava ao transcorrer do tempo, invés de diminuir conforme todas as letras de músicas e filmes românticos diziam como deveria ser. Saber que Margareth já estava me superando era como entrar no truque dos mágicos da caixa de espadas, só que sem ser um truque.
Levei em média de uma hora para chegar ao bairro The Beaches, ou The Beach, no leste da cidade. Eu adorava o subúrbio verdejante de Scarborough, mas o fato de ser absolutamente longe de todo o resto do mundo era uma forte desvantagem. Caminhei um quarteirão empesteado pela maresia e ao atravessar a esquina, pude ver um trecho da praia com o burburinho da água avançando e regressando na margem. Na verdade, eu acho um grande erro chamar aquele cenário de praia, já que é um lago, o lago de Ontario. A praia estava esbranquiçada e os flocos de neve se misturavam com a areia fina e a calçada feita de ripas de madeira, assim como os rochedos espalhados ao longo do trecho pareciam uma micro Cordilheira dos Andes. Não é nada comparado às praias de Miami e Rio de Janeiro, mas é o que a gente tem.
Embora não sentisse mais o meu nariz e as orelhas por terem sido congelados ou simplesmente queimados, permaneci por um momento debaixo dos arvoredos esqueléticos que precediam a Kew Beach. Um grupo de jovens fazia um luau, que invés de se aquecerem com uma fogueira estavam em volta de um radiador portátil, cantando uma música lenta ao som de um violão dedilhado por um músico de média habilidade. Um casal se beijava fervorosamente em um dos bancos, e eu fiquei com medo de a garota arrancar o lábio do parceiro de tanto que ela o mordia com vontade.
Uma serenidade repousava sobre a margem da cidade, ao contrário do restante de Toronto que fervilhava em mil línguas e em mil rostos étnicos. Eu gostaria de ficar mais um pouco naquele lugar, talvez ajudasse a colocar meus parafusos nos eixos certos. No entanto, se os meus parafusos voltassem para os eixos certos nada mais me restaria a fazer por ali.
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