O Outono é a Cor dos seus Olhos
12 Snoopy
Notas iniciais
Estacionei o carro de qualquer jeito em uma vaga para táxi, saltei para fora do carro e instintivamente o cachorro também pulou para a calçada tão rápido quanto um raio. Corri para o interior da estação e parei no meio da plataforma, ofegante. Esquadrinhei o lugar à procura da garota de longos cabelos ruivos e qualquer estampa que se assemelhasse à de zebra. Um trem havia acabado de partir, seus últimos vagões estavam desaparecendo no fim da plataforma e sendo banhados pela forte luz do meio-dia. Em um relance, vi uma mulher ruiva no interior do penúltimo vagão e uma onda de desapontamento me predominou. Decidi voltar muito tarde.
Ouvi novamente os latidos do beagle ecoarem pela plataforma, e quando olhei para ele, este já estava correndo em direção aos tênis brancos de bolinhas amarelas. Ergui o rosto e vi Ava parada com sua mala estacionada ao lado, segurando um copo que fumegava. Ela se abaixou para acariciar o cão, que balançava o rabo inquietamente.
– Você por aqui, amiguinho? Está sozinho?
– Eu voltei – Anunciei me aproximando dela, não sabendo exatamente o que dizer para explicar minha mudança de ideia tão repentina. Mesmo assim, estava me sentindo como o herói do dia, e heróis sempre sabem o que dizer. – Irei levá-la até o hotel.
– Ah, mas que ótima notícia! Passei em uma cafeteria para comprar chocolate quente. Se você tivesse chegado minutos antes não me encontraria aqui. Como estou com sorte! – Ela disse, seu sorriso iluminando sua face sardenta mais uma vez.
Andamos até o carro, desta vez carreguei sua mala como um rapaz cavalheiro. Quando cheguei ao veículo, encontrei uma autuação presa no limpador de para-brisa do carro. Bufei e guardei a multa no bolso da calça. Nunca vi nenhum herói receber uma multa – deve ser porque eles voam invés de dirigir.
– O que houve? – Ava perguntou, notando que havia algo errado.
– Nada. – Respondi, indagando-me por que a consequência de um ato de bondade era uma multa.
Ava continuou a atrapalhar a harmonia de minha música, porém eu estava com a mente tranquila e no momento era isso que me interessava. Deixei-a no Clarion Hotel, que se parecia com uma pequena mansão vitoriana muito simpática. Ava me agradeceu um milhão de vezes, e antes de deixar o carro me deu um abraço rápido, no qual pude sentir seu perfume que lembrava melancia. Ela foi andando até a porta do hotel ainda me agradecendo e acenando com a mão, e antes de desaparecer por completo para o interior do prédio, falou:
– Nos veremos em breve, Jim e Maple!
Ergui as sobrancelhas, questionando se eu realmente não queria vê-la de novo. Ao abaixar os olhos, avistei um pequeno pedaço de papel rasgado com bordas floridas que estava debaixo da pata do cachorro. Peguei-o, e vi que era um recado escrito com letras redondas e desenhadas.
Obrigada por tudo! Eu gostaria de retribuir o favor de alguma forma. Nós poderíamos conhecer o Scarborough Bluffs amanhã, prometo lhe mostrar de um ângulo que você nunca viu antes. Caso concorde, apareça na entrada do hotel às duas da tarde. Sabe, eu não gosto de ligações telefônicas, embora você não se importe com os meus dogmas.
Não pude deixar de conter um riso. Como alguém que nunca havia visitado um local poderia me mostrar e ainda por cima de um ângulo que eu nunca vira antes?
Definitivamente, eu não iria me encontrar com Ava. Não iria alimentar uma promissora amizade. Não iria alimentar a falsa esperança de que nos conhecemos para um propósito maior. Não iria alimentar futuras risadas, olhares profundos e toques arrepiantes, até que nossos corações acelerassem pelo simples motivo de ouvir a pronúncia de nossos nomes. Não iria alimentar o próprio alimento do meu veneno. Disto já bastava Margareth, que fantasticamente penetrara na minha mente mais uma vez e os pensamentos frustrantes voltaram a assombrar o resto de razão que ainda sobrava em mim.
Sou um homem livre, repeti para mim mesmo enquanto dirigia de volta para casa. Tentei me convencer de que eu era capaz de dominar minha própria vontade, e se eu havia decidido que não iria me envolver com ninguém por um bom tempo, era porque tinha capacidade para isso. Ava poderia ter as suas intenções, mas ela jamais poderia significar alguma coisa. Contudo percebi que se Ava realmente significava nada, em nada ela deveria ocupar meus pensamentos. Eu nem havia expulsado Marge da minha consciência, e a voz alegre de Ava já estava invadindo o meu constante conflito interior formando uma sopa de confusão mental. Distraí-me tanto que avancei um sinal vermelho sem perceber. Uma coleção de multas era tudo o que eu estava precisando, de fato.
Cheguei em casa esfomeado, e almocei as sobras frias da janta. Após a refeição, fui alentado pelo sono e resolvi tirar um cochilo, afinal eu já havia passado várias noites mal dormidas e merecia perder algumas horas inconsciente. Ao atravessar a sala de jantar, escutei repentinamente o único cachorro com nome de árvore chorar de fome na entrada da cozinha. Eu estava com bastante preguiça para levá-lo até a casa do senhor Mansfield, então vasculhei a dispensa e dei para ele alguns cookies com gotas de chocolate e uma vasilha com água.
– Você nunca comeu algo tão bom na sua vida, não é… Maple? – Pronunciei seu novo nome com palavras arrastadas, ainda me acostumando com o som que saía da minha boca.
Dormi profundamente e sonhei com coisas sem sentido. No primeiro sonho, eu voltava para o Clarion Hotel onde me encontraria com Ava para jantarmos fora, porém chegando lá me encontrava com Marge, que tinha tingindo seus cabelos dourados de ruivo e se passava pela inglesa. Eu dizia que ela não era Ava, e sim Margareth Walls, mas ela ficava confusa e dizia que ela era sim Ava, e eu deveria estar enganado. No segundo sonho, o cachorro do senhor Mansfield aprendera a andar sobre as paredes, e eu ficava desesperado pois ele saía pela janela e começava a voar, indo para bem longe céu adentro.
Acordei preguiçosamente, os últimos raios de sol morno atravessando as persianas do meu quarto. Olhei para o relógio, o qual denunciou que eu havia dormido em média de três horas. Ergui o corpo e sentei na beirada da cama, passando a mão pela barba desgrenhada.
Um por um, os pensamentos retornaram à minha cabeça: Margareth Walls, o recado de Ava White, a multa e o cachorro emprestado que eu tinha de devolver. Antes de mergulhar naquele oceano de correntes, liguei o computador e abri a página do Facebook. Rolei o cursor e dei uma olhadela rápida pelos acontecimentos na linha do tempo, e uma pontada de curiosidade começou a surgir no fundo do meu âmago. Eu sabia que era errado, mas a vontade de saber sobre a vida social de Marge era maior do que qualquer tentativa de me fazer sentir melhor. E afinal de contas, todo mundo faz isso escondido, cacete.
Digitei seu nome na caixa de busca e cliquei no link de seu perfil. A página carregou e notei que ela havia mudado a sua foto de capa, onde agora havia a imagem dela com o cara do nariz de papagaio abraçados em um restaurante. Meu coração começou a palpitar aceleradamente ao vê-los juntos, e a ansiedade se propagou como adrenalina pelas minhas veias. Rolei o cursor mais um pouco e um evento importante havia sido publicado na linha do tempo de Marge.
Em um relacionamento sério com Roger Daniels.
Enchi meus pulmões de ar e empurrei meu corpo contra o encosto da cadeira. Puta merda. Era sério aquilo? Nós estávamos prestes a completar três semanas de término e ela já havia assumindo um namoro com alguém que ela simplesmente deu umas trepadas?
Levantei-me com ímpeto e perambulei pelo quarto de um lado para o outro, roendo a unha. Meus sentimentos fervilhavam, passando de mágoa para ódio. Quer dizer, eu sabia que estávamos solteiros e tínhamos a liberdade de se envolver com qualquer pessoa, além de haver o risco considerável do nariz de papagaio ser um forte candidato para assumir o posto de namorado dela. Mas era necessário tudo ocorrer tão rápido assim? Eu fui tão facilmente substituído? Os dois anos que passamos juntos simplesmente se pulverizaram na memória de Marge?
E ela ainda queria que nós fôssemos amigos. Como poderia ser minha amiga e ao mesmo tempo assumir namoro em tão pouco tempo? Tudo havia ficado óbvio demais. Margareth havia me traído. Era a única explicação. Ninguém se conhece, apaixona-se e decide entrar em um relacionamento em apenas três semanas. Três. Um. Dois. Três. E só.
Flagrei-me com uma lágrima quente escorrendo pela bochecha, e minha raiva aumentou, não por causa de Margareth, mas por causa de mim, por ter me permitido ser afetado a tal ponto. Encostei-me na parede e fui escorregando até sentar no chão frio, onde fiquei por um longo tempo abraçando as pernas e contemplando a sombra retorcida de um galho nu de árvore sobre o pé da cama.
Era eu um homem realmente livre? Concluí que não.
Meus sentimentos me dominavam e mais uma vez lá estava eu, impotente, sofrendo por eles. E todo esse sofrimento se convertia em uma crosta de frieza, que se tornava mais densa a cada porrada que eu tomava da vida. Se ainda houvessem mais surras pelo caminho, tinha preocupações a respeito da minha resistência.
No jantar, mamãe serviu salada Caesar e eu saí do meu nicho dos pensamentos nebulosos. Sentei à mesa com todos, e não pude evitar a minha expressão de morte no rosto.
– O dia foi cansativo? – Perguntou meu pai, percebendo o meu estado mórbido.
– Um pouco.
– Você irá devolver o cachorro do senhor Mansfield amanhã, no máximo. Ele já fez xixi no gramado. – Ordenou minha mãe, enquanto colocava um quilo de alface no meu prato.
– Eu achei que o lugar correto para os animais fazerem suas necessidades seria o lado de fora da casa, não? – Observou Stella.
– Nem no lado de fora, muito menos o de dentro, o lugar daquele cachorro é no terreno do vizinho. Se quiser fazer suas necessidades aqui vai ter que aprender a usar o vaso sanitário e a lavar o banheiro depois.
Minha mãe era um pouco intolerante quando se tratava de animais de estimação devido a sua neurose com limpeza.
– Irei devolver o Maple hoje à noite mesmo. – Respondi desanimadamente, dando uma garfada na alface que permaneceu estacionado entre meus dentes.
– Maple? – Stella e Richard interrogaram em uníssono.
– Longa história. – Disse, apoiando meu rosto na mão.
– Não durma muito tarde, sua primeira sessão com o psicólogo será amanhã de manhã. – Estabeleceu minha mãe, mas eu estava muito esgotado para retorquir alguma coisa.
– O.k.
– E como foi hoje na apresentação da casa? – Continuou meu pai.
– Ocorreu tudo bem.
– A moça gostou? – Ele perguntou, não contendo a faísca de animação que escapuliu em sua voz.
Sabe quando tudo o que você mais deseja no mundo é ficar quieto e as pessoas escolhem esse momento para fazer um bombardeio de perguntas? Então.
– Nem tanto.
– Por quê?
Levei basicamente dois minutos para responder à pergunta, pois estava ocupado demais mastigando lentamente a alface com torradas.
– Pois não se parece nem um pouco com a casa dela em Londres. Algo assim.
– Infelizmente a prioridade dos investimentos de algumas empresas não é o conforto dos seus empregados.
– Não se preocupe, tudo o que ela falou é uma grande idiotice. A casa oferece todas as coisas que são necessárias para sobreviver, é o que importa.
– James, mais respeito com o sentimento alheio! – Retrucou a minha mãe, largando os talheres no prato. – O que está acontecendo com você, meu filho?
– Respeitamos somente quando somos respeitados.
– Está insinuando que não respeitamos o que você sente? – Supôs minha mãe, enquanto Stella saía de fininho com o seu prato para comer na cozinha.
– Eu não estou me referindo a vocês. E antes que criem falsas expectativas, eu percebi que o “encontro” de hoje foi planejado e digo que nada, absolutamente nada acontecerá entre Ava e eu. Nada. – Afirmei firmemente, encarando meus pais nos olhos.
– Mas… do que você está falando? – Indagou meu pai, atônito.
– Não tenho mais dez anos. Trabalho na sua empresa há bastante tempo e você nunca havia me pedido para mostrar casas a ninguém, ainda mais para uma garotinha colorida e feliz cheia de estúpidas esperanças. – Minhas veias sobressaltaram tanto que senti a garganta doer. Meus pais trocaram olhares perplexos, em seguida os fixando em mim, como se eu fosse alguma criatura monstruosa que tinha engolido o filho deles. – Agora com licença, preciso devolver um cachorro.
Levantei da mesa, deixando metade da comida no prato. Não ousei olhar para trás, onde reinava um silêncio absoluto. Engoli em seco, sentindo-me menos mal do que nas outras vezes que eu havia brigado com meus pais.
Estava se tornando a minha rotina.
Coloquei o papel da autuação na mesa de centro da sala de estar e fui atrás do cachorro. Encontrei-o farejando as roupas sujas na lavanderia, em seguida o coloquei debaixo do braço e saí de casa. A noite estava refrescante e a lua minguante, com duas estrelas piscando por cima de sua curva, como se o céu estivesse sorrindo através do satélite natural e as estrelas fossem seus olhos.
Toquei a campainha da casa vizinha e o senhor Mansfield abriu a porta, formulando um sorriso enrugado e acolhedor ao me ver.
– Meu amiguinho voltará tão cedo para casa?
– Minha mãe não é muito fã de cães. Foi mal. Mas obrigado pelo empréstimo, ele tornou meu dia… mais feliz. – Felicidade definitivamente era a última coisa que eu estava sentindo naquela merda de dia.
– Eu disse que ele era terapêutico! – Alegrou-se o idoso, colocando o filhote no colo cuidadosamente.
– Sim. Até mais, senhor Mansfield.
– Pode visitá-lo a qualquer momento, meu caro. Estou aposentado e… bem, sempre estarei por aqui. – Informou o vizinho, inventando um pretexto para diminuir a sua solidão.
– Claro. Sem dúvida. – Dei as costas, descendo a pequena escadaria de entrada. Antes que o senhor Mansfield fechasse a porta, fiz minha última pergunta para terminar a noite. – A propósito, qual é o nome dele?
– Snoopy.
Snoopy. Isso sim era nome de cachorro.
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