O Outono é a Cor dos seus Olhos
25 Ponto Fraco
Notas iniciais
A voz de Dianna ressoou no primeiro andar, chamando-nos. O momento foi quebrado e seus lábios se separaram da minha pele com a mesma brevidade de um band-aid que é arrancado de uma ferida. Ava se sentou no chão, e eu me mantive deitado ao seu lado.
–Vamos descer? – Ela me perguntou, ligeiramente desnorteada.
– Sim – Respondi, com a voz tão suave que quase se tornou inaudível.
Ela se levantou num sobressalto e caminhou a passos largos para o corredor, quanto que eu me ergui preguiçosamente, ainda desconcertado. Passei a mão pelo rosto e estacionei meus dedos no local do beijo, ainda podendo senti-lo como uma ardência. Descemos as escadarias, com Ava gritando por sua mãe. Viramos para a esquerda, e após atravessar a entrada da sala de estar fomos surpreendidos. A mesa de plástico que utilizamos no almoço estava no centro do aposento, e sobre este havia um enorme bolo de dois andares feito de confetes de chocolate e glacê, com várias velinhas cor de rosa espalhadas. Balões coloridos estavam dispersos sobre as caixas de papelão e janelas, e havia uma faixa improvisada na qual estava escrita “Feliz Aniversário, Ava! ”.
– Eu não acredito! – Ava exclamou, boquiaberta.
– Parabéns, querida! – Desejou Dianna abrindo os braços para um abraço, enquanto seu pai assoprava uma corneta de festa, usando um chapéu colorido de cone de papel.
– Eu disse que não precisava de nada! – Contestou Ava correndo para o abraço da mãe, apertando-a com tanta força que a fez perder o fôlego.
– Não podíamos deixar em branco igual ano passado. – Comentou o pai, juntando-se ao abraço em família, como um estranho no ninho.
– Você sabia disso, Jim? – Indagou Ava, após se separar dos pais.
– Eu estou tão surpreso quanto você – Declarei admiradamente, olhando para a senhora White que me devolveu uma piscadela.
As velinhas cor-de-rosa foram acesas, contando no total de vinte delas espalhadas pela cobertura de confete. Cantamos o tradicional “parabéns para você”, com direito a um solo de violão ao fundo tocado por Dianna. Ava fechou seus olhos para fazer um pedido antes de apagar as velas, e em seguida as assoprou veementemente de uma única vez.
– Hora de cortar o bolo! – Sentenciou a aniversariante, pegando uma faca e começando a cortar as fatias com afobação. – Ai meu Deus, tem recheio de morango! – Ela exclamou ao pegar um morango de um dos pedaços, fazendo uma careta de clímax do prazer.
– Não seria seu bolo de aniversário sem um recheio de morango – Disse a mãe, entregando uma fatia para mim. – Ah, antes que me esqueça de avisá-lo: caso você morda algo duro no meio da massa, não engula. É uma moeda.
– Uma moeda? – Repeti, atônito.
– Na Inglaterra temos o costume de colocar uma moeda dentro do bolo. Se você a encontrar, significa que será muuuito rico – Explicou Ava, afundando o dedo na camada de glacê e o lambendo.
– No ano retrasado a moeda estava no último pedaço de bolo e ninguém o comeu, pois já havia passado da validade – Lembrou Kevin, com uma expressão desapontada.
– Mas este ano será diferente, porque eu quero muito dinheiro para comprar um carro! – Entusiasmou a filha, friccionando as mãos desejosamente.
– Vamos devagar, Ava Rose – Alertou a mãe, arqueando as sobrancelhas.
Comemos as nossas fatias de bolo, e ninguém encontrou a tal moeda. Ava apostou no segundo pedaço, e todos fizeram o mesmo. Novamente, nada. Partimos para a terceira rodada, meu estômago já começando a revirar com o cheiro do glacê. Outra vez, nenhum vestígio da preciosa moeda. Ava continuou com o quarto pedaço, mostrando que realmente estava determinada a comprar o carro. Seu pai desistiu e sua mãe cortou uma fatia tão fina do bolo que se houvesse uma moeda ali diria que era um truque de bruxaria. Ava insistiu para que eu pegasse outro pedaço, e eu o fiz, cada mordida levando cinco minutos para ser engolida, seguindo pela primeira vez as orientações recomendáveis de 46 mastigações por bolo alimentar. Decidi que comeria a última porção e largaria o resto no prato, pondo o garfo contraditoriamente entre os dentes, e arrastando a massa para dentro da boca. Meus dentes sentiram uma superfície sólida, e o gosto do metal se alastrou pela minha língua rapidamente.
– Eu acho que… – Cuspi a moeda para fora, que caiu na palma da minha mão. Era uma libra esterlina dourada. E babada.
– Aaaah… — Lamentou a aniversariante, entristecida ao ver a moeda em mãos que não eram as suas. — James, você pode me dar um carro de aniversário? – Ela perguntou automaticamente.
– Pensarei sobre o assunto.
Expliquei para eles que a tradição no Canadá era lambuzar a ponta do nariz do aniversariante com manteiga, para afastar o azar. Dianna foi atrás da manteiga na cozinha e encontrou um resto que estava na embalagem, e nós realizamos o costume fazendo com que o nariz de Ava se tornasse uma espessa camada amarela e molenga. Depois de sujarmos nossas roupas de gordura e tirarmos fotos gozadas, a senhora White deixou o aposento discretamente e não muito demorou a voltar, trazendo consigo um grande saco de plástico arrastado pelo chão. Pela superfície, podia-se notar vários e vários contornos pontudos dentro dele.
– O que é isto? – Perguntou Ava sentada na poltrona de Kevin, enquanto Dianna estacionava o saco aos seus pés.
– Abra – Pediu a mãe, risonha. A filha obedeceu e ao desfazer o nó de plástico, dezenas de cartas dos mais variados envelopes e selos escorregaram pelo piso. – São os “parabéns” de todos os seus amigos – Esclareceu Dianna, agachando-se ao seu lado.
– Não… é... é possível? – Balbuciou Ava, pasmada. Ela apanhou uma carta de envelope azul e leu as informações do remetente. – É uma carta da Amélie! – Ela exclamou, maravilhada. Ava continuou a caçar os outros remetentes, sua alegria aumentando à medida que reconhecia os nomes os quais já não ouvia falar há muito tempo. – Paul, Noah, Adelaide da Alemanha e a Adelaide da Suíça, Beatriz, Lorenzo…
– Todos eles sentem muito a sua falta. E já que você detesta telefones e afins, seus amigos resolveram enviar cartas para o seu aniversário. Foi uma loucura muito grande, porque todos precisaram me enviar o mais rápido possível antes que nos mudássemos do Brasil e minha caixa de correios estava sempre abarrotada. Receio que algumas tenham ficado para trás.
– Eles… eles são incríveis. – Ava murmurou, fascinada. Seus olhos estavam marejados, e sua emoção era tão grande que a fez ter dificuldade para abrir os envelopes.
De fato, eram muitos nomes. Fiquei espantado com a quantidade e foi quando eu descobri que muitas pessoas se importavam com Ava White, ao contrário da imagem que eu havia criado dela como uma garota carente e sozinha que implorava pela minha companhia. Seria uma questão de tempo para que eu fosse substituído. Logo suas aulas começariam, e eu dividiria sua atenção com outros canadenses favoritos, caindo no limbo do esquecimento. Não, eu não era uma pessoa especial para Ava, eu era só mais um e em breve estaria escrevendo cartas para o seu aniversário, perdendo-me em um saco de plástico. Esbocei um sorriso sem dentes para ela, na tentativa de disfarçar meus pensamentos egoístas. Ela estava feliz com o reconhecimento de seus milhares de amigos e busquei me concentrar nisso, na felicidade dela.
O sol já havia se posto e a noite inundou a casa, acendendo as suas luzes. Ava ainda lia suas cartas, tão concentrada que acabou se esquecendo da minha presença ali ao lado. Seus pais se retiraram para assistir televisão no quarto deles, e eu permaneci sentado no chão da sala, analisando as caretas de comoção que Ava fazia involuntariamente durante a leitura. Fiquei um pouco chateado, mas não quis expressar meu incômodo para não estragar o clima do seu aniversário. Quando o relógio apontou oito horas da noite, resolvi que estava na hora de voltar para a minha casa.
– Ava, eu preciso ir. – Eu disse, tentando não soar rude.
– Mas tão cedo? – Ela questionou, finalmente erguendo o rosto molhado por algumas lágrimas para mim.
– Na verdade... – Eu levantei o olhar para o relógio de parede, e ela me acompanhou e entendeu o recado sem que eu precisasse terminar a frase.
– Como assim? Estou lendo há quanto tempo?
– Acho que há mais de uma hora. E você ainda tem uma longa jornada pela frente – Falei, dando uma olhadela no saco que ainda estava pela metade.
– Nossa! Desculpe por não ter dado mais atenção a você, simplesmente mergulhei nestas cartas. Sabe, tem alguns amigos aqui que não vejo há tanto tempo que eu… sinto como se eles estivessem comigo, através das palavras…
– Tudo bem, não precisa pedir desculpas no seu aniversário. Ainda mais para o cara que roubou sua moeda.
Trocamos risinhos encabulados e Ava se ergueu da poltrona vagarosamente, como se não gostasse da ideia de que eu precisava ir embora. Eu também já havia esquecido que estava chateado, e uma onda de desapontamento me perpassou ao levantar do chão. Talvez não fosse tão ruim contemplar as caretas de Ava White.
– Ah, não se esqueça das temporadas! – Ela lembrou, dirigindo-se para a caixa de papelão e caçando as três primeiras temporadas de Skins. – Pode me devolver quando quiser.
– Obrigado – Agradeci, com um sorriso forçado.
Ela me levou até a bicicleta estacionada ao lado do jardim de tulipas, que estava banhado pelo luar tão forte que parecia a luz de uma lanterna gigante. Antes que eu partisse, indaguei:
– Por que não me contou que o seu aniversário é hoje?
– Bem… hum… eu não gosto mais de aniversários. Em Londres, meus pais sempre faziam grandes festas e convidavam todos os meus parentes e amigos. Enfeitávamos a casa inteira, e passávamos três dias preparando todas as comidas. Era um dos melhores eventos do ano, pois eu conseguia reunir todas as pessoas que eu amava. Meus avôs sempre cantavam no karaokê, e minha tia Betsy sempre trazia sua famosa torta de frutas. E agora… agora é isso. – Ela afirmou mordendo o lábio inferior, dando de ombros. — Meus pais e eu. E um bolo com uma moeda para me recordar daqueles tempos. Não que eu menospreze o que tenho… mas é tão doloroso, sabe? Estar tão longe. De tudo. – A palavra “tudo” se prolongou mais que o normal, como se ela pudesse reviver toda a sua história naquele meio tempo entre as sílabas.
Um silêncio angustiante atravessou o jardim de tulipas, e os olhos de Ava se encheram d’água outra vez.
– Prometo lhe trazer um presente de aniversário. Só não posso dizer que será um carro.
Ela riu melancolicamente.
– É cafona o que irei dizer, mas a sua presença já é o melhor presente que pode me dar. De verdade.
– Tem certeza? Potes de sorvete de morango estão em jogo.
– Cara, isso é chantagem!
– Você sabe que é impossível me ganhar numa negociação, Ava. Já descobri que morango é o seu ponto fraco.
– Então eu preciso descobrir logo qual é o seu.
Fitei por longos momentos os seus olhos cor de outono sob a penumbra da noite, e não pude evitar um sorriso bobo que tomou conta dos meus lábios.
– Bem, eu tenho quase a certeza de que o meu ponto fraco está se tornando você.
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