Minha cabeça rodava como o carrossel do Canada’s Wonderland, após ler tantas fichas de consulados e empresas em uma única manhã. Saí do estacionamento do prédio empresarial no qual estava instalado o escritório de meu pai e caí no habitual engarrafamento da Younge Street, em North York. Tamborilei os dedos no volante da Ford Ranger e dei uma olhadela na chave de ignição cujo chaveiro do Ursinho Pooh balançava seu bumbum alegremente para mim. Talvez ter ido de carro não tivesse sido a melhor ideia.

Eu não possuo nenhuma crítica contra os transportes públicos, mas as garotas curtem caras que dirigem seus próprios carros, ainda mais picapes, pelo menos é o que a indústria cinematográfica diz. Eu tinha essa vantagem em minhas mãos e considerei que eu deveria desfrutar dela o máximo possível. Não que eu quisesse impressionar Ava, de forma alguma.

Olhei para o relógio do painel que marcava uma e meia da tarde. Eu tinha trinta minutos para chegar ao centro da cidade, sendo que naquela velocidade eu levaria em média de cinquenta minutos. Minha consciência pesou ao imaginar que Ava suporia o fato de que eu havia desistido do compromisso outra vez. Comecei a ficar nervoso e remexi as pernas freneticamente, batendo os joelhos um contra o outro e roí a unha do polegar até ficar em carne viva. Eu estava bastante ansioso, e não sabia explicar exatamente o porquê. Marcas de suor dos meus dedos molharam o couro do volante, e eu podia sentir nitidamente cada palpitação do meu coração. Um forte anseio que nascia do estômago crescia à medida que o veículo percorria os poucos metros até parar novamente. Céus, qual era o motivo de toda aquela aflição? Parecia até que eu estava indo para uma entrevista de emprego ou algo do gênero.

Quando finalmente o tráfego desafogou, pisei fundo no acelerador o quanto pude e costurei o trânsito feito um desesperado, indo e voltando para a mesma pista seguidas vezes. Pensei no que meu pai diria ao me ver dirigindo daquele jeito e respondi para mim mesmo que era por uma justificativa nobre, pois eu já havia manchado a minha reputação no requisito assiduidade com Ava. Estacionei tortuosamente na vaga que o Clarion Hotel oferecia, estando doze minutos atrasado. Andei a passos largos até o hall de entrada, com o frenesi ainda percorrendo o meu corpo. O segurança daquele dia não era Billy, e de certa forma aquilo me deu uma insegurança ainda maior, por achar que estava lidando com uma situação completamente diferente comparada a de sábado. Esquadrinhei o local em busca dos longos cabelos lisos cor de fogo ou de qualquer resquício aromático de melancia, e logo a encontrei, sentada no sofá de espera lendo um livro. Antes de ir ao seu encontro a observei por alguns instantes, esperando que os meus nervos se acalmassem para que eu ao menos dissesse um “oi” sem precisar gaguejar.

Sim, ela tinha lido o bilhete. Sim, ela estava ali esperando por mim. Senti o alívio descarregar o meu interior, como se a barreira de uma represa tivesse se rompido e toda a água presa voltasse ao seu fluxo natural. Ava usava um vestido azul-marinho com bolinhas brancas que ia até o final das coxas, estas cobertas por uma grossa meia cor de vinho que terminava em botas de cano curto, enquanto um sobretudo da mesma cor a protegia. Ela lia concentradamente um livro de capa listrada, esquecendo-se da intensa movimentação de hóspedes que circulava em sua volta. Aproximei-me, fazendo sombra sobre as páginas cor de marfim repletas de letras miúdas.

– Olá, James! – Ela cumprimentou ao erguer o rosto, seu característico sorriso iluminado se abrindo no mesmo instante.

– Oi – Respondi, minha voz saindo um pouco trêmula. Ava se levantou e me deu um abraço rápido, seu perfume de melancia havia sido substituído por outro menos adocicado.

– Está ofegante… veio correndo? – Ela brincou, separando-se de mim.

– Eh... estou? Deve ser a minha asma.

– Você tem asma? – Ela perguntou, receosa.

– Eh… não. – Nós rimos juntos, ao mesmo tempo em que eu me sentia o maior idiota do mundo ao falar aquilo. – O que está lendo?

– Ah, uma história de romance. – Ela afirmou, mostrando a capa cujo título dizia “Te amo desde o dia que te encontrei”. – Eu sei, o nome é brega e a narração mais ainda. Por isso eu vou dar um conselho: nunca compre um livro somente pela capa quando a livraria estiver fechando em menos de cinco minutos.

– Irei me lembrar disso na próxima vez que entrar numa livraria que estiver fechando em menos de cinco minutos.

– E por que você está tão arrumado? – Ava continuou com um ar impressionado, estudando-me de cima até embaixo.

– Eu vim direto do trabalho. Eu chamo de uniforme semi-formal – Sacudi a calça jeans lavada e ela fez uma expressão esclarecedora. – Estou faminto… por acaso já almoçou?

Fomos para o One Restaurant, um restaurante com pátio na Yorkville Avenue famoso por ser frequentado pela elite da cidade. O costume de estender as mesas pelas calçadas é conhecido como “pátio”, sendo praticado quando a estação de primavera chega após um rigoroso inverno. A prática desse fenômeno ocorre porque os canadenses simplesmente querem se sentir ao ar livre debaixo de qualquer raio de sol, depois de meses trancafiados em lugares obrigatoriamente aquecidos e pisando nas ruas sem que uma tonelada de neve atrapalhe o caminho.

Sentamos em uma mesa ao lado da mureta de arbustos que separava o pátio da calçada comum, na qual os consumidores de Bloor-Yorkville caminhavam exibindo suas compras de butiques luxuosas. O local era bastante agradável, com árvores enfileiradas de galhos magros que produziam uma tênue sombra, quanto que no lado esquerdo se erguia o Hazelton Hotel, cujo revestimento era feito de tijolinhos vermelhos e toldos pretos. Ava analisou o menu, mordendo o dedo médio enquanto a luz do sol entrecortada pelas folhas acima de nós banhava parcialmente seu rosto pensativo.

– A salada do chefe parece ser uma boa pedida… mas leva abacate. Eu não sou muito fã de abacate. Que tal a salada de lagosta? Aaah, também leva abacate. Que droga. Eles têm sanduíche de peito de peru! Seria uma ótima escolha se eu gostasse de comer sanduíche na hora do almoço porque para mim, sabe, sanduíche é coisa de lanche ou jantar. Almoço não, almoço tem que ser algo com mais cara de almoço, como salada ou carne assada com verduras. Mas sem abacate.

– Então por que você simplesmente não pede para tirar o abacate da receita? – Eu sugeri.

– Está louco? Há restaurantes em outros países que considerariam um insulto o que você acabou de dizer. Existem chefes de cozinha que simplesmente não aceitam mudar uma vírgula sequer de seus cardápios. – Ava argumentou, sem retirar os olhos do menu.

– Às vezes me esqueço de que você é um livro de cultura ambulante…

– Mas eu ainda dependo de você para sobreviver nesta cidade – Ela disse, estampando um sorriso de quem se deu por vencido.

Eu sabia que depender era uma palavra muito forte, porém quis acreditar que Ava realmente precisava de mim para tudo.

– Em qual país você mais gostou de morar?

– Inglaterra, definitivamente – Ela riu. – Mas o segundo país que eu mais me simpatizei foi com o Brasil. O Brasil não tem a organização e a riqueza da Suíça, mas possui a cordialidade que os alemães não apresentam tanto… enfim, identifiquei-me mais pelo fato das pessoas serem bastante receptivas. Acolhimento era uma sensação a qual eu estava precisando naquela época.

– E você já sabe quando seus pais virão para Toronto?

– Nesta quinta-feira, e seremos moradores oficiais da rua Abbeville na sexta. NOSSA, QUE CHIHUAHUA MAIS FOFO! – Ela exclamou para um ratinho vestido com um mini-casaco rosa, que estava desfilando pela calçada como se fosse um rei humano de quatro patas. A dona do cão levantou levemente as bochechas, apreciando falsamente o elogio escandaloso de Ava. – Não vejo a hora de rever meus pais, eu sei que estamos separados há seis dias apenas, porém sou muito, muito, muito grudada neles. Tipo, eu não fui obrigada a viajar pelo mundo inteiro com eles como parece. Meus pais me deram o poder de decisão, e eu poderia ficar em Londres com a minha tia Dorothy, mas preferi acompanhá-los, porque a tia Dorothy anda meio esclerosada ultimamente. Mas também fiquei com medo de passar muito tempo sem ver meus pais, já que não havia previsão de quando a pesquisa iria terminar.

– Aposto como foi uma decisão difícil.

– Não foi mais difícil do que escolher um prato neste cardápio!

– Desculpe, eu achei que este restaurante seria legal para a gente se conhecer... ou... sei lá. – Hesitei, passando a mão na nuca. Na verdade, eu não sabia muito bem aonde eu queria chegar com aquele almoço.

– Parece que alguém está querendo me impressionar.

– Como assim, impressionar? – Meu rosto pegou fogo feito metal incandescente. – Eu só queria te levar para um lugar bacana aqui em Toronto. Sabe, para os estrangeiros perderem a velha ideia de que somos comedores de carne de alce que falam “eh”.

– Calma, Jim. Aqui está sendo perfeito. – Ela declarou, e nos fitamos por alguns segundos sem piscar os olhos.

Poderia ser coisa da minha cabeça, mas o clima ameno do sol de primavera, o farfalhar das folhas à brisa, o suave burburinho das pessoas que dialogavam agradavelmente e o som dos talheres batendo desapareceram naquele breve instante como uma música que se dissipa ao abaixar o volume do rádio. Suas pupilas brilhavam ao refletir a luz dourada de uma tarde pálida, quanto que as minhas se perdiam no cinza esquálido que poderiam transmitir nada mais que uma dissimulada frieza. Nosso contato visual era como uma frágil linha que nos mantinha no mundo e que o mundo nos mantinha. Eu me perdi e rapidamente fui resgatado daqueles castanhos vívidos pelo garçom, que perguntou qual seria o nosso pedido. Ava acabou aceitando o abacate na salada e eu resolvi experimentar a pasta bucatini amatriciana.

– Quando suas aulas começam? – Perguntei, na tentativa de disfarçar o que havia ocorrido entre nós anteriormente.

– As aulas começam em setembro, no semestre de outono. Porém me inscrevi nos programas de graduação, que iniciarão em junho. Estou animada para conhecer gente nova, vocês são tão gentis! Quero fazer amizade com o maior número de canadenses o possível! – Ela disse entusiasmadamente, tentando comportar três folhas gigantes de alface na boca.

– Eu só espero que você não se esqueça de mim… — Falei, fingindo uma expressão enciumada. Mas na verdade, uma pontada de ciúmes realmente havia me atingido. Ela passaria a não depender de mim totalmente.

– Ah James, é o processo natural das coisas, você também irá retornar à faculdade e rever seus amigos… — Sua frase foi interrompida quando ela notou a cara de tacho que eu estava fazendo. – Desculpa, desculpa! Esqueci completamente, foi mal, quer dizer, foi péssimo!

– Não precisa se desculpar – Respondi. Outra coisa que me deixava constrangido sobre a circunstância de eu não estar na faculdade: as pessoas tocavam no assunto como se eu tivesse AIDS.

Permanecemos quietos por alguns instantes, ao mesmo tempo em que Ava reproduzia um som acentuado de sucção através do canudinho de seu suco.

– Cara, eu sei que já disse isso logo quando nos conhecemos, mas eu preciso repetir. – Ela declarou, após engolir sua bebida. – Eu sinto como se te conhecesse há séculos. Talvez tenhamos nos conhecido em outra vida, e por alguma força do destino nós estamos aqui neste prazeroso almoço para acertar alguma coisa pendente do passado. Você não concorda comigo? Quer dizer, nós somos capazes de ficar em silêncio sem nos sentirmos desconfortáveis. Essa intimidade é comum entre pessoas que se conhecem há muito tempo.

Eu gostaria muito de falar que na verdade eu me sentia bem com o silêncio porque era um momento raro quando se estava ao lado de Ava White.

– Concordo. Geralmente fica um clima esquisito quando se está em silêncio ao lado de alguém que você nem conhece direito. Eu gosto da sua companhia. – Afirmei, não sabendo muito bem a finalidade de eu ter dito aquilo.

– Sabe Jim, eu posso conhecer um milhão de canadenses, mas você continuará a ser o meu favorito.

– Por quê? – Indaguei, enrubescendo. Juro que fiz uma força mental para que o sangue parasse de circular pelas minhas bochechas, porém quanto mais eu me esforçava, mais elas efervesciam.

– Você é sincero. Mesmo que isso seja uma coisa boa ou ruim, você transparece o que está pensando, independente da situação.

Pobre Ava, quanta inocência em um corpo só! Mal ela imaginava que eu havia acabado de proferir uma mentira apenas para agradá-la e evitar transtornos maiores. Se de fato eu dissesse tudo o que eu pensasse, nem meus pais estariam mais morando comigo. Se de fato todos dissessem tudo o que pensassem, amizades e casamentos se tornariam termos fictícios.

– Obrigado, Ava. Mas infelizmente eu preciso dizer que não sou tão verdadeiro quanto pensa.

– Claro que é! – Ela insistiu, em tom confiante. – Tenho uma ideia, vamos brincar de “jogo da verdade”. Eu faço uma pergunta, e você me responde em seguida. Mas TEM que ser uma resposta SINCERA. – Ela frisou, como se tratasse de um assunto muito sério.

– Você acabou de inventar esse jogo, eh?

– Vamos lá! Eu começo. – Ava garfou um pedaço de abacate e colocou na boca, fazendo uma expressão desgostosa enquanto arquitetava a pergunta. – Você me acha chata?

– Quando fala muito, sim. – Respondi imediatamente, com o arrependimento vindo logo após. Porém Ava se manteve impassível, e ao contrário da reação que eu estava esperando, ela gargalhou e eu a acompanhei.

– O.k., eu já imaginava essa resposta! Sua vez.

Observei um casal de mãos dadas atravessando a rua, enquanto ponderava cautelosamente qual pergunta deveria fazer. Aquela brincadeira poderia ser muito esclarecedora e ao mesmo tempo muito perigosa, então preferi ir devagar.

– Os britânicos consideram sexy falar com esse sotaque carregado? Quer dizer, às vezes parece que vocês estão com um ovo na boca.

– Não somos nós, os britânicos, que consideramos o nosso sotaque sexy e sim o mundo inteiro. E carregada é a quantidade de “eh’s” que os canadenses colocam no final das frases, não é à toa que vocês são zombados por causa disso! – Ela replicou, soltando mais um de seus risos gradativos.

– Eh?

– Sim, exatamente este tipo de “eh” que estou falando!

– Eh. Então vamos fazer um acordo: você atura meus “eh’s” enquanto eu aturo o seu sotaque, embora seja um acordo bem injusto porque eu nem falo tanto “eh” assim.

– Mas eu falo tão pouco que você mal pode ouvir o meu sotaque direito…

– Só se estivermos em uma dimensão onde falar é estar quieto e estar quieto é falar… sua vez de perguntar.

– Parece que você está mesmo empenhado no jogo! – Ela observou, entusiasmada. – Vejamos… você tem namorada? – Ela indagou, com voz sapeca.

Agora estávamos apimentando a ingênua brincadeira.

– Eu tinha uma, mês passado.

– O que houve?

– Ah, ela saiu para comprar cigarros e nunca mais voltou para casa.

– Que coisa horrível! – Ava exclamou, sua fisionomia exprimindo perplexidade.

– Foi uma ironia, Ava. Nós terminamos o relacionamento, só isso – Expliquei, espantado com a fácil credibilidade que ela tinha.

– James Carten, é proibido ironizar neste jogo! Tudo o que for dito tem que ser a mais crua e cruel verdade!

– Desculpa.

– Vai, sua vez!

– E você? Tem namorado?

– Não vale repetir perguntas.

– Este jogo está começando a ter muitas regras.

– Prometo que esta será a última – Ela assegurou, rindo.

– Você está interessada em alguém?

Ava diminuiu a intensidade do seu riso, que se converteu em um sorriso sem dentes envergonhado. Ela hesitou, comeu mais um pouco da sua salada e desviou o olhar para a rua.

– Talvez – Ela respondeu, em tom de gracejo.

– É proibido responder talvez! Talvez é uma resposta feita para omitir os fatos, somente sim ou não são respostas que levam à verdade. – Protestei, recusando-me a aceitar aquela dúvida.

– Eu pensei que não estivéssemos mais criando regras – Ela mencionou, continuando tranquila como se debochasse da minha indignação.

– Vou perguntar outra vez e quero uma resposta justa. Você está interessada em alguém? – Repeti, pausadamente.

Ela formulou uma expressão reflexiva, bebendo o resto de suco com o canudinho e fazendo aquele ruído rouco quando se chega ao fim do copo.

– Taaalvez. A incerteza também é uma verdade, quando não se sabe o que está sentindo. Minha vez.

– O.k., você venceu – Assumi, batendo as mãos contra os bolsos da calça. Presumi que Ava era bem mais esperta do que eu presumia.

– Você está atraído por alguma garota? – Ela prosseguiu, marota.

Bufei, semicerrando os olhos.

– É a mesma pergunta que eu fiz, mas com palavras diferentes.

– Deseja criar outra regra? – Ava caçoou.

– Não.

– Então qual é a resposta?

– Não. – Reafirmei, secamente. – Não estou interessado em ninguém. E nem pretendo estar tão cedo.

Ava arqueou as sobrancelhas, digerindo a resposta.

– Então boa sorte. – Ela desejou, comendo a última porção que estava em seu prato.

– É proibido ironizar no “jogo da verdade”. – Retorqui, cheio de si.

– Não estou ironizando. Eu realmente desejo boa sorte a você. – Ela limpou a boca com o guardanapo. – Quanto menos procuramos o amor, mais ele nos persegue.

Naquele momento tive um déjà vu, e senti como se Margareth Walls estivesse sentada em minha frente proferindo suas frases clichês. Um arrepio percorreu a minha espinha e desejei nunca mais associar Ava com Marge.

– Agora vamos para a minha última pergunta. Está preparada? – Anunciei, ajeitando os talheres no meu prato também vazio.

– Sempre. – Ela assentiu, com um sorriso provocante.

– Quando estávamos na Bloor Street indo para o museu, nós brincamos de adivinhar a nacionalidade das pessoas e você descreveu aquele cara. Na verdade, você estava me descrevendo, não estava?

– Não. – Ela falou de prontidão.

O chão da minha autoestima subitamente desapareceu.

– Tem certeza? – Insisti, aturdido.

– Sim. – Ava reafirmou, firmemente.

Quando era necessário falar muito, ela resolvia ser objetiva.

Saímos do One Restaurant após pagar as contas individualmente. No início eu estava disposto a pagar a parte dela, porém o resultado da brincadeira me fez mudar de ideia. Não que estivéssemos brigados, mas um clima estranho ficou no ar, pelo menos para mim. As atitudes de Ava não correspondiam com as respostas que ela me dera, e fiquei matutando sobre elas durante o caminho até a Universidade de Toronto enquanto Ava falava animadamente a respeito de chocolates suíços. Eu não estava dando muita atenção para a conversa, e ao vê-la gesticulando vigorosamente com seu forte sotaque inglês, ponderei sobre quem era aquela garota de gestos aparentemente infantis. Ela era tão inocente como eu achava que fosse? Talvez Ava estivesse me tratando igual a uma marionete, intencionando-me a tirar conclusões que ela pretendia que eu tirasse, para que no final discordasse de todas para me deixar confuso enquanto que ela apanharia um balde de pipoca e assistiria a minha desorientação de camarote.

Em um sinal vermelho, virei o rosto para Ava e a fitei, com ar apreensivo. Agora ela me parecia ser totalmente diferente da menina de tênis com bolinhas amarelas que chegara ao Toronto Pearson International Airport, como se uma nuvem maquiavélica pairasse a sua cabeça.

– …eu fiz uma viagem no Trem de Chocolate que tinha como destino a fábrica Cailler-Nestlé, na Suíça, e eu comi tanto, tanto, tanto chocolate na excursão que passei três dias seguidos dentro do banheiro. O passeio foi na mesma semana que o Natal, então nem pude comer muito na ceia porque minha barriga ainda fazia barulhos estranhos de líquido passando pelo intestino.

– Impressionante. – Comentei, interrogando-me qual era o nosso nível de intimidade para ela estar falando aquilo comigo. Quer dizer, durante os dois anos que namorei Margareth eu só a vi arrotar uma única vez e Ava estava me contando sobre sua diarreia no terceiro encontro.

Uma minivan que estava à direita do meu carro acelerou quando o sinal abriu e avançou para a minha frente, sem ativar a seta. O veículo apressadamente ziguezagueou entre os outros e fez uma curva acentuada à esquerda, cantando os pneus.

– Qual a necessidade de tanta pressa? – Questionei, levemente aborrecido.

– Não esquenta, a mulher dele está em trabalho de parto e eles estão indo para o hospital. – Ava garantiu.

– Como assim?

– A melhor justificativa para carros em alta velocidade é que estão transportando uma mulher que está prestes a ter um bebê. Sabe, a bolsa estoura e o feto não pode ficar muito tempo na barriga da mãe – Ela explicou, como se mulheres grávidas entrando em trabalho de parto fosse a coisa mais natural de se encontrar no trânsito.

Franzi o cenho, assentindo sem muita firmeza. Como poderia uma garota que acreditava em tal suposição ao mesmo tempo arquitetar um plano tão ardiloso? Cheguei à conclusão de que ela fingia muito bem.

O prédio da faculdade de Odontologia não se localizava exatamente no St. George Campus, mas a dois quarteirões deste na Edward Street. Digitamos no GPS o endereço que achamos na internet, e nós perdemos umas três vezes a entrada da rua, fazendo com que Ava desse gargalhadas histéricas quando a voz da simpática Gabriela anunciava “recalculando a rota, vire à esquerda a quinhentos metros”. Para mim, as invenções eletrônicas mais ineficientes da face da Terra em ordem crescente são: GPS, comando de voz e a vencedora impressora. Você gasta mais tempo tentando imprimir um arquivo do que se o escrevesse à mão.

Por fim estacionamos o carro em frente ao edifício. Ava parou diante a placa de chapa de metal que confirmava ser a faculdade de Odontologia da Universidade de Toronto e a contemplou, com as mãos entrelaçadas na altura do peito. Caminhei até o seu lado, fazendo o mesmo.

– O que foi? – Indaguei.

– Sei lá. Parece que não estou realmente aqui, entende? Claro que não. Hum… esta é a quarta universidade que eu estarei estudando. Depois de tantas salas, amigos, professores, corredores, idiomas, experiências… estou eu aqui novamente recomeçando, prestes a conhecer esta nova parte da minha vida que um dia terei de deixar para trás, igual às outras. Há três partes de mim perdidas pelo mundo, e agora deixarei o meu quarto pedaço aqui. Aquele cara, por exemplo – Ela apontou para um rapaz de jaleco que falava ao celular no interior do prédio – Pode ser meu futuro amigo. Hoje é apenas um rosto desconhecido, mas amanhã estaremos compartilhando da mesma vivência e rindo das mesmas piadas e um dia terei que deixá-lo também, e ele irá chorar dizendo que eu não posso partir. – Ela disse, fatigada.

Considerei que Ava estava sendo um tanto dramática, porém me coloquei na sua situação e finalmente assimilei o quanto deveria ser horrível viver em constante mudança. Em seguida, veio a minha cabeça o fato de que um dia Ava também iria embora para mim, e eu poderia ser o tal cara que choraria pedindo para que ficasse. Olhei para ela, e Ava retribuiu o gesto com o seu característico sorriso sem dentes ingênuo. Tentei adivinhar seus pensamentos naquele instante através de suas densas pupilas, as mesmas que fizeram eu esquecer de mim mesmo horas atrás, e quase tive a certeza de que ela estava cogitando a mesma conclusão que a minha. Eu quis expressar que sentiria sua falta quando partisse, mas as palavras se dissolveram na minha boca em um singelo suspiro e a vontade permaneceu trancada na mente.

– Jim, você me promete uma coisa? – Ela perguntou com uma voz pesarosa, as mãos enfiadas nos bolsos do sobretudo e os ombros levantados.

– Depende. O que seria?

– Prometa que não ficará chateado quando eu partir.

O pedido me pegou de surpresa, e eu busquei manter o semblante mais natural o possível. Porém nunca fui muito bom no quesito dissimulação.

– Não acha que é meio cedo para discutirmos isso? – Repliquei, em um tom rude sem intenção.

– Não sei… eu só quero prevenir você. Sabe, já passei por essa situação várias e várias vezes e sempre é muito ruim. Tipo, um muito ruim que nem dá para imaginar. Eu pensei que ficaria mais imune com o passar do tempo, mas a dor de abandonar as pessoas continua tendo a mesma intensidade desde que abandonei as primeiras, em Londres. E essa dor só aumenta à medida que eu repito a dose, como se todas as dores de todas as vezes de todas as pessoas que eu deixei para trás ficassem engasgadas na minha garganta. O que quero dizer é que eu não aguento mais ver alguém sofrendo por minha causa, entende? — Ela explicou, lançando-me um olhar profundo capaz de despir minha alma.

– Então não se preocupe, eu nunca serei uma dessas pessoas. – Revidei friamente, e depois agradeci por ter ficado quieto no momento em que pretendi dizer que sua presença me faria falta.

No fundo, eu estava chateado com ela. Era como se eu estivesse caminhando sobre as nuvens e de repente meu pé fosse agarrado e puxado para a depressão mais profunda do oceano, amarrado a uma âncora de navio. Ava havia me iludido, e provavelmente prolongaria a sua maliciosa diversão. Se não fosse por isso, por que diabos ela havia me mandado um bilhete? Por que havia me abraçado com tanta delonga e aconchego? Por que nós havíamos trocado um olhar tão intenso? Por que ela talvez estivesse interessada em alguém? Toda essa droga de repercussão para me jogar um balde de gelo com água fria da Sibéria? E agora estava me pedindo para não sentir a sua falta, como se no futuro eu realmente fosse capaz de cair na sua armadilha e ser um idiota que a amaria platonicamente mesmo após de me largar no Canadá. Eu queria deixar bem claro que isso jamais aconteceria.

– Está tudo bem com você? – Ela perguntou, levantando um ar de preocupação um tanto retórico, mais para quebrantar o silêncio do que para saber a respeito do meu bem-estar.

– Melhor impossível.

– Eu estou com medo… – Ela expôs, suas palavras perdendo a força na metade da frase, terminando num grunhido fugaz.

– Medo de quê?

– De você voltar a ser o cara amargo que eu conheci. Me diga que apenas acordou num dia ruim…

– Eu acordo assim todos os dias, Ava. – Revidei, tão impiedoso quanto a lâmina de uma faca.

E assim que proferi a última sílaba, com uma veemência que fez minhas veias do pescoço saltarem, Ava se dirigiu automaticamente para as portas de vidro do prédio de Odontologia com o rosto voltado para baixo. Por um momento, pensei que ela havia decidido prosseguir com o passeio turístico sem mim, o que seria até um aliviamento. Fui atrás dela, apertando o passo para alcançá-la. Coloquei a mão sobre seu ombro e a segurei pelo sobretudo cor de vinho, fazendo com que ela virasse o corpo para mim a contragosto. Suas mechas ruivas de cabelo cobriam sua face, e eu as coloquei para trás das orelhas com os dedos delicadamente, revelando seu rosto que se convertia num choro mudo.

– Vá embora – Ela ordenou, sua entonação repleta de apatia feito uma criança de 8 anos que expulsa o coleguinha da brincadeira. Uma lágrima grossa corria pela sua bochecha rosada, provinda dos olhos marejados.

– Desculpe Ava, não quis ofender você – Rapidamente procurei consertar, mas o dano já havia sido feito. – Você tem razão, acordei com o pé esquerdo hoje, não deveria ter sido tão ignorante…

– Então – grunhidos ininteligíveis – ser sério? – Ela indagou com a voz completamente embargada e incompreensível, enxugando o rosto na manga do sobretudo.

– Hã… não entendi. Pode repetir?

– Então vozê – uma fungada congestionada – zó tá fingindo zer zério? – Ava repetiu após se recuperar um pouco.

– Sim, eu sou só um babaca tentando fingir ser sério. Foi mal, ou como você diz, foi péssimo – Tentei diverti-la, porém foi em vão.

Ava limpou a garganta, seus cílios molhados estavam grudando uns nos outros, os lábios comprimidos em uma linha reta inexpressiva.

Eu a fiz chorar. Eu era um ogro, ou pior, o monstro do lago Ness. Minha vontade era de cavar um buraco e mergulhar a minha cabeça até meus pulmões pararem de funcionar pelo excesso de terra nos brônquios. Ela me fitou por alguns segundos discretamente e eu já estava esperando por outra derradeira de lágrimas, mas por algum motivo inexplicável ela começou a rir a sua risada gradativa incontrolavelmente.

– Como assim? – Perguntei, desconcertado.

– Eu estou de TPM, bobinho. Nesse período eu costumo chorar por qualquer besteira, então não se importe. Vamos entrar? – E dessa forma a inglesa pegou a minha mão e me puxou para dentro do edifício, sorrindo de orelha a orelha, deixando-me perplexo e principalmente assombrado.

Mulheres, a vida seria muito mais fácil para os homens se vocês viessem com um manual. No entanto, seria necessário cortar todas as árvores do mundo para escrevê-lo.

Adentramos ao prédio e fomos recebidos gentilmente por um funcionário que nos indicou os principais locais da faculdade. Visitamos a clínica que se resumia a estreitos boxes separados por divisórias, nas quais havia cadeiras de dentistas e os refletores. Eu os apelidei carinhosamente de “quartos do pânico”. Fomos até os laboratórios e salas de aula, terminando o tour em curto tempo, pois os alunos estavam em exames finais e sentimos que a estranha presença de uma jovem inglesa com sinais de choro prévio e um canadense com cara de merda incomodava as autoridades dali.

Voltamos para o carro e o GPS novamente foi ativado, com a docilidade robótica de Gabriela me questionando qual seria o próximo destino.

– Sorvete! – Respondeu Ava euforicamente, massageando a boca do estômago.

“O destino sorvete não foi encontrado. Deseja realizar uma busca mais específica? ”

– Hum… sorvete de morango? – Ela continuou, e logicamente Gabriela não localizou outra vez.

– Perdoe a inutilidade do meu GPS. Você quer sorvete nesse frio, é isso mesmo que estou ouvindo?

– Sim, eu quero, eu quero, eu quero, eu quero! – Ava repetiu freneticamente, atropelando as palavras.

– Não tem como pedir algo mais fácil? Conseguir sorvete nessa época de transição entre o inverno e a primavera é meio complicado.

– Deve existir algum lugar que venda sorvete durante o ano inteiro! – Ela insistiu, mostrando a sua real determinação em comer sorvete.

– Não. Não acho que existe. –Respondi, incisivo.

– Por favor, pense só mais um pouquinho… — Ava continuou, fazendo biquinho para mim.

– Deixe-me ver… não, não sei. Talvez na loja do Greg’s Icecream recém-inaugurada no Distillery District, mas é meio longe daqui.

– Então é para lá que vamos, senhorita Gabriela. Para o Distiguery District!

– É Dis-ti-lle-ry. E não vamos para lá, provavelmente ficaremos presos no engarrafamento. – Contrariei, passando a mão pelos cabelos escuros que já caíam na altura das minhas sobrancelhas.

– James Carten, o que eu preciso fazer para tomar um sorvetinho ali na esquina com você?