O Oráculo do Meio
2 O Trem Degovernado
Ele já tinha perdido as contas de quantas doses de tequila ele tinha visto sua irmã tomar, quantas garrafas de cerveja Brand e Kovinski tinham entornado e quantas vezes Grazie tinha fuzilado com os olhos alguma garota que chegava perto da mesa em que eles cinco estavam. Hoje era a vez de Boan tomar conta do pessoal, mas nem por isso deixava de ser engraçado sair com seus novos amigos. Ele vinha saindo com o pessoal de sua irmã, Alex, desde o ano passado e estava se divertindo.
Alex era sua irmã mais nova, extremamente inteligente. Ela era dona de uma beleza angelical, como uma boneca de porcelana: branquinha, com lisos cabelos pretos, olhos castanhos investigadores e um sorriso doce, que enganava muita gente. Alex era realmente um cavalo de Tróia.
Ela conhecera Kovinski e Brand quando os três participaram de faculdade. Era um costume local os estudantes terem que arrecadar fundos para diversos tipos de abrigos assim que as aulas da faculdade da cidade começavam, era o chamado trote solidário. Dessa forma, os estudantes se integravam ao meio social acadêmico e ainda podiam contribuir para instituições e ONG’s que ajudavam crianças, adolescente e/ou idosos em situação de risco. Alex, Kov – como era chamado por seus amigos – e Brand não faziam o mesmo curso, mas tiveram que arrecadar fundos para a mesma instituição.
Desde que se conheceram Kovinski – que era uma cópia masculina e mais bem humorada da Alex – estava interessado na moça, mas apenas recentemente eles tinham se acertado. Brand destoando dos dois, era moreno, muito alto e desengoçado. Falava alto e chamava atenção por parecer não se importar com nada.
O último deles que Boan conhecera foi Grazie, a namorada de Brand. Irônica, perspicaz e bonita, Grazie tinha uma pele morena, acentuada pelo seus cabelos artificialmente loiros. No pouco tempo que se conheciam, Boan já havia presenciado algumas discussões calorosas entre Grazie e Brand, fazendo-o desejar nunca ser o alvo do ódio de qualquer um dos dois.
Eles já estavam naquela boate fazia algumas horas, mas Boan ainda não estava se sentindo cansado da bagunça de seus amigos entorpecidos. Não conhecia a música que estava tocando, por isso não se atreveria a sair da mesa para dançá-la, resolveu continuar observando o movimento na pista de dança, pronto para avistar alguma coisa interessante.
—Merda, me desculpe — falou Boan ao trombar num careca que estava saindo do banheiro e escutou:
—Que seja, sai da frente — num sotaque de estrangeiro do norte.
Depois de fazer o que tinha que fazer lá dentro, lavou o rosto e olhou sua expressão cansada no espelho. Boan não era nada de especial: magro, baixo e com cabelo muito escuro que destoava da sua pele. Não se achava feio, até porque não era. Ele sempre se achou bonito, dono de uma beleza comum, mas nem por isso deixava de ser único. Pelo menos era isso que ele pensava. Boan era introspectivo, tímido, odiava chamar atenção, mas paradoxalmente adorava se entrosar com pessoas, mesmo que com desconhecidos, gostava de ser reconhecido pelas coisas que fazia e por quem ele era.
Enquanto voltava para mesa que dividiam na parte superior da boate, Boan apreciou a pista de dança, imaginando como seria legal estar lá naquela noite. O Trem-Desgovernado, a boate em que eles estavam era divida em dois pisos, sendo o térreo a pista de dança com paredes escuras e as mais diversas luzes piscando ao som das músicas que os DJ’s tocavam. A parte superior tinha uma decoração de lounge e era um amplo espaço com pequenas mesas dispostas por ele.
Eles estavam acostumados a frequentar O Trem-Desgovernado, era um espaço que propiciava não apenas um som bacana, mas também um lugar para sentar e conversar. Geralmente as boates que eles conheciam tinham muita confusão, barulho, eram lotadas, e com pouco espaço para conversa, ali era diferente.
Quando ainda estava subindo as escadas, Boan pode notar que o clima na mesa estava cada vez mais pesado uma vez que Grazie insistia em não socializar com o grupo, fazendo o namorado se sentir cada vez mais desconfortável com a situação. Pobre, Brand.
—Mas a culpa não foi minha, ela quem me chamou pra dançar — Brand tentava argumentar com Grazie.
—Por que será?
—Não faço ideia.
—Como sempre, não sabe de nada — cruzando o braços, Grazie encerrou a discussão deixando Brand atônito encarando-a.
Pronto para sentar-se em seu lugar, Boan congelou ao perceber uma cena assustadora. O careca em quem ele esbarrara mais cedo no banheiro carregava um objeto de metal — facão, uma espada menor, uma adaga grande? — num azulado brilhante. Mas a parte mais assustadora era a óbvia mancha de sangue que escorria pelo metal.
Um grito cortante.
Silêncio
O caos se instalou.
A garçonete que estava servindo a mesa notou que os clientes estavam agora mortos no chão e gritou. O som da boate foi desligado e a todas a luzes se acenderam para que todos entendessem o que aconteceu. Quando as pessoas na boate perceberam cinco pessoas caídas numa mesa, começaram a gritar, a música parou e todos correram para as portas para tentar fugir do assassino. Mas quem fez aquilo? Ninguém havia visto nada. Cinco pessoas degoladas no meio de uma multidão e sem nenhuma testemunha.
Mas havia uma testemunha.
—Andem rápido, seus idiotas. Nós temos que sair daqui — Boan não chegou a sentar. Segurou Alex pelo antebraço levantando-a de seu acento.
—O que está acontecendo? — Alex percebeu a gritaria e a movimentação de pessoas para a saída.
—Depois eu explico. — Boan voltou a puxá-la enquanto chamava o resto do grupo. — Vamos.
—O que está acontecendo?
—Depois. — Ele continuou arrastando sua irmã.
—O QUE ESTÁ ACONTECENDO? — Alex se desvencilhou de seu irmão e parou impassível olhando o encarando nos olhos.
—Você está vendo essas pessoas correndo? — Todos acentiram. — Muito bem, olhem para trás. — Os quatro, num movimento de perfeita sincronia, giraram as cabeças e contemplaram cinco corpos no chão numa distância de menos de dez metros. — Exatamente, um cara acabou de passar por aqui com uma espada manchada de sangue.
—Mas alguém teria visto ele andando por aí com uma espada...
—Sério que era uma espada? — Indagou Kovinski empolgado.
—... não é como se fosse uma coisa fácil de se esconder, uma espada manchada de sangue. — Alex parecia chocada sem dar atenção a Kovinski.
—Olha aqui, sua espertinha. Eu não sei porque as pessoas não viram o cara passando, mas eu imagino que se tivessem visto não teria feito diferença. Ele estava armado.
—Mas se você disse que ele já passou... — Kovinski tentou argumentar para ajudar Alex.
—Você quer mesmo ficar aqui, Kov? — Boan cortou.
—Não, eu só quero dizer que...
—Que estamos indo — Brand cortou.
—Obrigado, Brand. Vamos! — Boan e Brand trocaram olhares de seriedade e então marcharam para a saída.
Eles andaram no meio da multidão que corria para fora da boate lotada. Aparentemente, a polícia já estava chegando porque era possível ouvir o barulho das sirenes ao longe. Se eles demorassem mais, eles talvez tivessem que prestar depoimento ou alguma coisa. Quem sabe o que acontece nessas ocasiões?
O carro estava logo do outro lado da rua, o grupo de amigos entrou e assistiu a confusão de longe. Boan não mais avistou o careca armado. Eles não foram questionados pela polícia, mas viram ambulâncias chegarem e saírem com cinco corpos de dentro d’O Trem Desgovernado.
Cinco corpos. Poderiam ter sido todos naquele carro. Aquele grupo de cinco amigos. Estavam todos muito calados. A agitação das bebidas, o clima de briga, a distração que a pouco experimentavam agora sumira.
Silêncio.
—Nós vamos ficar aqui por mais quanto tempo? — Kovisnki perguntou.
Silêncio.
—Acho que podemos ir agora. — Grazie quebrou o num acordo mútuo, todos decidiram que era a hora de ir.
Enquanto Boan dirigia, ele não conseguia pensar muito. Começara a chover e ele prestava atenção apenas na pista molhada e no movimento de outros carros na rua. Poderiam ter sido eles naquela noite. Poderiam ter sido eles a morrerem.
Um raio.
De repente a chuva começou a engrossar. O céu chorava por aquelas vidas perdidas e enquanto silêncio continuava a gritar dentro do carro.
Dois raios.
Ele não era uma pessoa que parava pra pensar na profundidade da vida. Não se perguntava quem era ou o propósito de sua existência. Mas momentos assim deixavam qualquer um pensativo. Momentos assim deixam marcas.
Três raios.
Alex chorava baixinho no banco do carona. A garota normalmente tão racional era só emoções. Ela deixou uma fresta da janela aberta e vento soprava levemente seus cabelos, como se tentasse fazer um consolo. Kovinski sempre tão expansivo e brincalhão era agora o silêncio em pessoa, nem sua respiração fazia barulho.
Quatro raios.
Brand e Grazie permaneciam abraçados. A briga de algumas horas atrás agora esquecida. Juntos contemplavam a janela e a forma como as gotas de chuva escorriam no vidro.
Cinco raios.
E tudo ficou branco.
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