O Oráculo Perdido
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Alguns meses antes...
Eu era o mais novo aluno da Goode High School, uma escola que fica na rua 81 leste e tem vista para o rio East, era o primeiro dia de aula e os novatos estavam passando pelo que todos chamavam de “orientação escolar” mas que para mim significava “passar duas horas extremamente entediantes conhecendo seu futuro local de tortura”. Eu já tinha sido expulso de algumas escolas, mas nessa eu estava disposto a fazer diferente, eu e minha mãe éramos brasileiros, mas nos mudamos para os EUA quando eu era pequeno devido a uma oferta de emprego que ela recebeu e vivemos aqui desde então.
Logo que minha vida escolar começou eu descobri que não seria nada fácil chegar ao ensino médio. Além de ter sido agraciado com TDAH, todos os anos eu era expulso de uma escola por um motivo diferente. Alguma coisa bizarra acontecia e por uma ironia do destino ou uma tremenda falta de sorte eu sempre estava envolvido de alguma forma o que com certeza não era nada bom para o meu histórico.
Com alguma dificuldade eu terminei a escola primária e consegui fazer os dois primeiros anos do colegial à distância graças a um acordo que minha mãe fez com o diretor de uma escola. Mas agora ela achava que eu tinha que tentar me adaptar ao que ela chamava de “mundo adolescente” novamente. Então ela me matriculou na Goode High School, uma sugestão de uma de suas amigas que tinha um filho com o mesmo “problema” que o meu. E agora aqui estou eu, no meu primeiro dia de aula pronto para tentar novamente e rezando para que dessa vez tudo dê certo. Eu odiara decepcioná-la mais uma vez.
Ao contrário do que eu pensei quase todos os professores eram excelentes, com exceção do de matemática, que por algum motivo tinha decidido que eu era a pessoa mais detestável do mundo, não que a aula dele fosse uma maravilha, mas eu realmente não tinha feito nada para ofendê-lo.
Depois do almoço foi a hora de escolher o que fazer no meu último ano escolar. Assim como todos os outros eu tinha que escolher os grupos dos quais eu queria participar para tentar ganhar pontos extras no meu currículo. Como eu gostava de esportes procurei os times disponíveis na escola, só havia dois e como futebol americano não era uma opção eu resolvi tentar o de basquete.
O dia passou rápido, o teste para o time foi um sucesso e os treinos começariam em breve. Saía do vestiário quando um barulho no fim do corredor chamou minha atenção. Três caras grandes tinham acabado de jogar outro cara menor que eles contra um dos armários.
–Onde ele está? — perguntou o garoto que era o mais alto dos três levantando o baixinho pela gola da camisa
–Eu não sei — respondeu o garoto se debatendo para escapar — Por favor, me deixe em paz.
–Ei vocês! — eu disse me aproximando — Larguem ele antes que eu chame o diretor
–E quem você pensa que é para me mandar fazer isso? — o cara maior virou para mim sem soltar o outro garoto.
–Algum problema aí? — disse o técnico colocando a cabeça para fora da sua sala
–Não senhor, nenhum — respondeu o cara maior soltando o outro garoto e me lançando um olhar de "isso ainda não acabou"
Me virei para agradecer ao técnico mas ele já tinha voltado para dentro da sala.
–E aí cara? Você está bem? — perguntei ao garoto que se levantava com dificuldade. Ele era alto, cabelos castanhos encaracolados, olhos castanhos, usava uma touca, roupas folgadas e muletas.
–Estou sim, muito obrigado, se não fosse você aqueles cara teriam me partido ao meio. Meu nome é Vitor, muito prazer – ele disse estendendo-me a mão.
–Muito prazer, meu nome é R...
–Rodrigo, é eu sei, estava assistindo o teste para o time de basquete. Novato por aqui?
–Com certeza.
Desde aquele dia Vitor passou a ser o que eu tive mais próximo de um amigo, nós fazíamos a mesma série, mas ele parecia mais velho, acho que pela barbicha que crescia em seu queixo que segundo ele era mais desenvolvida por conta de um problema com seus hormônios. Os garotos o zoavam por ele ter um problema nas pernas que o fazia andar de muletas então eu o defendia e ele me ajudava a passar estudando comigo. Estudar nunca tinha sido fácil para mim, devido ao meu TDAH eu não conseguia me concentrar muito tempo em uma coisa só, mas Vitor agora estava me ajudando com isso e me mantendo longe de situações bizarras.
Um dia nós estávamos esperando a aula de história começar e um idiota lançou uma bola de futebol errado, fazendo com que ela acertasse o bebedouro e jorrasse água por todo lado.
–Idiotas – murmurou Vitor fechando a porta de seu armário, para sua infelicidade, um dos valentões do time de futebol o escutou.
–O que você disse baixinho? Eu acho que eu não ouvi direito – disse Roger Blake, capitão do time, tentando intimida-lo e com sucesso por que imediatamente ele adquiriu um tom verde.
–Na-na-nada – gaguejou Vitor
–Deixa o cara em paz, ele não disse nada – eu disse ficando entre os dois.
–E o que você tem a ver com isso esquisito? – ele disse me empurrando
Mas antes que eu pudesse reagir a inspetora do corredor abriu caminho em meio a rodinha que já se formava ao nosso redor e fez todos se dispersarem.
–Algum problema aqui garotos? – ela nos olhou com cara feia. Eu ainda fumegava de raiva então Vitor respondeu por mim enquanto eu lançava um olhar assassino para Roger que já se afastava com seus amigos brutamontes.
–Não senhora, nenhum – Vitor respondeu me puxando.
Ela nos lançou um último olhar de advertência e saiu pisando forte até sua sala no fim do corredor.
Eu e Vitor nos virávamos para entrar na sala quando uma garota saiu da biblioteca com os braços carregados de livros e eu acho que ela não tinha visto a poça de água no chão por que continuou andando tentando equilibrar os livros e um copo de café. Eu a reconheci da minha classe de história era a garota que sempre sentava ao lado de Vitor e passava a aula em outro mundo mas que supreendentemente era uma das melhores da turma, ela era amiga de Vitor, mas nunca fomos apresentados, eu sabia que seu nome era Carol por que um dia ela esqueceu um de seus livros embaixo da carteira e eu olhei para deixar no “Achados e perdidos” da escola. Ela era baixinha, tinha cabelos e olhos castanhos, sempre usava boinas, fones de ouvido e botas.
–Isso não vai prestar – eu disse dando um tapinha no braço de Vitor e apontando para a garota. E como se minhas palavras tivessem poder sobre os acontecimentos ela escorregou na poça e caiu derrubando todos os livros e o café sobre si.
Todo o corredor explodiu em risadas, todos riam e apontavam e como ninguém se mexeu para ajuda-la eu e Vitor resolvemos fazer alguma coisa. Ela já tinha juntado alguns dos livros quando nós nos aproximamos.
–Droga, droga, droga. Faça isso Carol, escorregue na poça e molhe todos os livros. – ela reclamava consigo mesma.
–Com licença – perguntei me abaixando apara ajuda-la a recolher os livros – Você está bem?
–Ahn? – ela levantou os olhos para nos encarar – Ah sim, estou bem sim, muito obrigada. Não precisam se preocupar com isso – ela disse pegando alguns dos livros que nós já havíamos recolhido – Deixem que eu pego. Ah, oi Vitor.
–Oi Carol – ele a cumprimentou simpático, e ajudou como pôde a carregar os livros até a nossa sala de história. Deixamos os livros no fundo da sala e procuramos nossos lugares. Só depois que sentamos a garota foi perceber o estrago que o café tinha feito em sua camiseta e saiu correndo para o banheiro. Quando voltou ela se sentou em seu lugar habitual, ao lado de Vitor só que dessa vez nós três ficamos conversando.
Ela e Vitor pareciam se conhecer há muito tempo isso era perceptível pela facilidade com que conversavam e tiravam brincadeiras um com o outro.
–Há quanto tempo vocês se conhecem? – perguntei curioso
Não sei por que, mas eles pareceram um pouco desconfortáveis com a pergunta mas por fim ela respondeu.
–Ah, eu conheci Vitor há uns dois anos atrás, num acampamento de verão que eu fui um pouco depois de me mudar do Brasil para cá.
Fiquei surpreso ao descobrir que ela também era brasileira.
– Ah, como eu sou mal educado, me esqueci de apresentar vocês dois. Carol, esse é meu amigo Rodrigo. Rodrigo, essa é Carol, uma grande amiga minha e assistente júnior da biblioteca da escola e aspirante a fotógrafa.
–Acho que eu já te vi por lá, na sessão de mitologia grega – ela disse apertando minha mão.
–É, de vez em quando eu dou uma passada por lá. Sem querer me intrometer, mas para onde você ia com tantos livros? – perguntei apontando para a pilha no fundo da sala.
–Ah, esses chegaram ontem e precisam ser catalogados. E como escrava, ops, assistente júnior eles sobraram para mim. Aí eu vou leva-los para casa, catalogar e trazer de volta amanhã. – ela deu um suspiro cansado.
–Parece cansativo – Vitor disse
–E é, a triste vida de uma estagi-escrava – ela disse fazendo com que nós ríssemos do trocadilho.
O professor chegou colocando fim a nossa conversa. A aula de história era a melhor de todas, e nós estávamos estudando o meu tema de hoje era o meu preferido, mitologia grega. O professor, Sr. Jones, era um cara legal de meia idade, cabelos grisalhos, olhos castanhos e barba desalinhada que andava em uma cadeira de rodas motorizada, ele sempre estava com seu paletó de tweed e a primeira vista podia não parecer um cara legal, mas se havia uma coisa que ele sabia fazer como ninguém era dar aulas.
–Bom dia turma – ele nos saudou ao entrar na sala – eu gostaria que vocês formassem um círculo.
O barulho de cadeiras sendo arrastadas encheu a sala e logo nós tínhamos um círculo formado.
–Bom – ele continuou – hoje nós iremos falar das grandes batalhas travadas pelos deuses olimpianos e depois eu farei perguntas. Aqueles que errarem deverão tirar um papel desse cesto que está em cima da mesa e fazer uma imitação.
Depois de muitas risadas e algumas imitações bem ridículas o sinal tocou marcando o fim de mais um dia de aula. Eu e Vitor ajudamos Carol a levar os livros até seu carro e fomos esperar o ônibus da escola. Alguns minutos depois Carol parou o carro na nossa frente e abaixou o vidro.
–E aí? Alguém tá afim de tomar um café? – nós entramos no carro e fomos á uma cafeteria que ficava nas redondezas.
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