O Orgulho e a Soberba
4 Sob a Lua
Notas iniciais
Julieta não soube o que responder. Tinha medo de abaixar os escudos de novo. Não queria demonstrar sentimentos. Eles eram coisas banais, meros sinais de fraqueza.
—Por favor, você sabe tão bem quanto eu que precisamos de uma conversa!_ pediu Aurélio.
Ele apontou para o paletó estendido ao chão, como se a convidando para sentar.
— Você deve estar maluco! Está frio e retirou o paletó?! Pode pegar alguma friagem... não há necessidade para isso!
—Vamos Julieta! Se sente, não quero que suje mais ainda o seu vestido. E não me incomodo tanto com o frio. Não se preocupe_ afirmou calmamente.
A Rainha do Café hesitou. Pensou em recusar, dizer que estava tarde. Mas, era muito difícil vencer aquele par de olhos azuis que a olhavam tão intensamente, pedindo algo que ela também tanto queria. Confirmou com a cabeça e sentou. Deixou um espaço para Aurélio. Não iria aceitar que ele se sentasse na areia.
Aurélio se sentou ao seu lado. Mas, antes que pudessem dizer algo, o vento frio os percorreu de novo. Julieta apertou os braços em uma tentativa de se aquecer. O filho do Barão também sentia frio, entretanto estava mais preocupado com o frio que ela sentia. Chegou mais perto oferecendo o braço.
A fazendeira não soube o que fazer. Porém, um momento depois já se via envolvida pelos braços de Aurélio. Se sentia protegida naquele abrigo que era o seu abraço. Mesmo que continuassem molhados, a respiração de Aurélio a aquecia. Era uma morna brisa que sentia acariciar sua pele.
Levantou a cabeça para ver o seu rosto. O adestrador de cavalos sorriu.
— Está menos frio?
Julieta não respondeu. Não conseguia entender a tamanha gentileza com a qual aquele homem a tratava. Logo ela que tinha lhe tirado tudo. Mesmo assim, ele estava ali nem se importando em passar frio.
— Julieta, gostaria de me desculpar_ disse como se finalmente um peso saísse de suas costas.
— Se desculpar?
— Sim_ respondeu consertando uma mecha solta de seu cabelo_ fui um tolo em tudo que fiz naquele dia do baile de máscaras. Não deveria tê-la beijado. Muito menos ter dito que tudo que possui foi devido ao seu marido. Não consigo tirar da minha cabeça que existe um motivo para sua frieza e amargor. Desconheço sua história para criar suposições. Mas, tenho quase certeza de que pela fibra que possui, o império que hoje você tem foi erguido por suas próprias mãos. Imagino a raiva e a mágoa que lhe causei... Mal posso pensar em tudo que já sofreu na vida.
As palavras de Aurélio bagunçavam a mente de Julieta. Ele estava ali, olhando-a nos olhos. Pedindo desculpas, reconhecendo seus méritos. Algo que homem nenhum jamais tinha feito. Ele também não estava julgando-a. Estava querendo entendê-la.
Se lembrou do dia do baile de máscaras. Do ódio que sentiu de Aurélio por ele afirmar que tudo o que ela tinha era devido ao finado marido. O marido asqueroso e nojento que tinha lhe trago tanta dor e sofrimento. Marcas que carregava como cicatrizes na alma. Lembrava também, da raiva que sentiu por ele insinuar que ela usava métodos tortuosos para ganhar as negociações. Da paixão que sentiu inflamar no beijo. O beijo que ela jurava que tinha sido roubado. Mas, que bem lá no fundo sabia que não. Agora, porém todas as lembranças pareciam bem distantes daquele momento.
Nos olhos de Aurélio era visível o remorso e o pedido de desculpa. Sorrindo acariciou levemente o rosto de Julieta. A pele macia dela parecia ainda mais linda sob a luz da Lua.
— Eu vou me reerguer Julieta!_ afirmou_ Irei levantar a minha família, conseguir o perdão de Ema. E quem sabe, algum dia, eu consiga ter o seu coração. E quando tudo isso acontecer, eu serei o homem mais feliz do mundo!
Ela o olhava enternecida. Sentiu os olhos úmidos. Queria dizer algo. Perguntar o porquê daquilo tudo, o porquê dele a amar. Mas preferiu que as perguntas se calassem. Deixou os lábios de Aurélio irem de encontro aos seus. Queria morar naquele beijo. Naquele abraço.
Colocando delicadamente a mão em seu rosto, o afastou. Sentia-se desorientada. Se levantou abruptamente. Não poderia deixar a emoção a comandar tão facilmente. Não era uma mulher para sentimentos. E sim, para negócios.
—Me desculpe, mas devo ir!
—Julieta, por favor espere!
Ela se virou. Queria ir embora. Ao olhar o chão viu a pequena arma. A arma que mais uma vez tinha sido jogada ao chão por causa daquele homem que tanto perturbava sua mente. A pegou e saiu. Porém antes olhou para Aurélio. Este ainda estava sentado a observando, sem entender o que estava acontecendo e o motivo por ela sair sem explicação.
No caminho da trilha Julieta tentou achar a bolsa. Estava escuro. Resolveu deixar para que algum funcionário procurasse amanhã. Naquele momento só queria chegar em casa. Sabia que aquela conversa com Aurélio era só uma parte de tudo aquilo que ainda precisavam conversar.
Quando chegou ao carro, viu que o motorista estava cochilando. Bateu com força a porta do carro, o acordando em um susto.
—Desculpe-me senhora! _ disse ao perceber que havia dormido.
—Vamos para casa, por favor!
O motorista consentiu. Achou melhor não perguntar o porquê dela estar molhada. Deu marcha no carro.
Julieta olhava ansiosa pela janela. Uma parte dela queria que Aurélio aparecesse enquanto outra queria que não. No momento em que o carro partiu, Aurélio chegava ao fim da trilha. Carregava consigo a bolsa de Julieta e o grito pelo seu nome na garganta.
Durante o caminho, Julieta olhava para o céu. Uma lua cheia brilhava. Sorriu ao lembrar do toque de Aurélio. Delicadamente levou a mão á boca. Conseguia sentir os beijos dele.
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