O Orgulho Addams
1 O orgulho Addams
Notas iniciais

Era madrugada, chovia intensamente, as janelas da mansão batiam com força, quebrando algumas vidraças, enquanto o mordomo tentava fechá-las com suas enormes e pesadas mãos, causando estrago na madeira apodrecida que dissolvia quando ele empurrava para fechar.
Gomez Addams não parava de andar de um lado para o outro no saguão de sua casa, em frente a escadaria. Segurava o charuto entre os lábios, enquanto a Coisa tentava a todo custo acendê-lo, saltitando com um isqueiro. Conseguiu quando finalmente seu mestre parou de andar e um choro de bebê ressoou por toda a mansão.
— Nasceu, Coisa! Nasceu, Tropeço! — Ele comemorou, fazendo alguns passos da Mamushka e logo subiu as escadas da mansão, precisava estar ao lado de sua musa naquele momento.
Gomez bateu com euforia na porta de seu quarto, mas vovó Esmeralda ordenou que ele aguardasse no corredor, até que completasse os cuidados do bebê e de Mortícia.
— Não se preocupe, estamos apenas fazendo um ritual para abençoar a criança e fechar os ferimentos no corpo de Mortícia, nada que um sacrifício não resolva. Vem aqui bichano, vem.
Gomez mordeu a mão fechada em punho, colocando a cabeça para dentro do quarto, por uma abertura da porta.
— Então vá de uma vez, vovó, cuide de minha preciosa Tisha.
Algumas horas se passaram, com muita cantoria lamuriosa, muitas velas de chama negra, até que vovó Esmeralda abriu a porta. Gomez estava largado no chão, um olhar perdido, com os cabelos desalinhados e o charuto pendurado na boca. A camisa amassada e o seu paletó de linho risca de giz atirado numa poltrona, os botões da camisa abertos e a Coisa o abanava com precisão.
O mordomo trazia uma água fervente para ele beber com um prato cheio de vicodin. Mas logo que Esmeralda disse que as coisas estavam bem, Gomez levantou-se de forma vibrante e entrou no quarto afobado.
O quarto era iluminado por algumas velas, as cortinas pesadas de veludo vermelho cobriam as janelas fechadas. Mortícia estava deitada na cama, as pestanas fechadas e as mãos sobre o peito, como um anjo da morte após ceifar mil almas. Os negros cabelos escorriam pela almofada, os lábios faceiros gotejantes de amor vermelho ao qual Gomez desejava mergulhar.
Um berço jazia ao lado da cama, Gomez viu o corpinho do bebê estático, não se movia, parecia uma criatura natimorta rodeada de flores murchas e um ursinho de morcego empalhado.
— Essa é a coisa mais linda que já vi na minha vida. — Gomez falou, abaixando-se ao lado do berço. — Tem os cabelos negros iguais ao da mãe e o mesmo cheiro de ferro apodrecido.
— É por causa do sangue. — Comentou a vovó Esmeralda, com um sorriso orgulhoso, mostrando os dentes amarelos e podres dentro da boca. — Vai ser uma bruxa poderosa quando ela crescer.
— Oh! Mamãe... — Mortícia falou sussurrou, abrindo os olhos, sentia-se exausta do parto. — Ela também pode ser uma vadia sem coração, como a vovó Addams, não é mesmo, Querido?
Dessa vez foi Gomez quem sorriu todo emocionado ao recordar-se da grande mulher que foi sua mãe, um demônio em pessoa.
— Me faria o pai mais orgulhoso do mundo todo. — Ele disse, pegando a pequena no colo.
Uma criaturinha a semelhança de sua adorada esposa. Gomez foi fulminado com a ideia de outros homens batendo a porta de sua casa, desesperados de paixão pela mais jovem Addams. Mas quando isso ocorresse, ele iria queimá-los com ácido e jogá-los na fornalha da vovó Esmeralda.
Virou-se para a esposa, um sorriso maníaco.
— Obrigado, cara mia, por me dar o prazer de viver esse momento.
Gomez colocou o bebê no berço e sentou na cama, ao lado da esposa, pegando gentilmente sua mão e beijando-a com amor, fissura e loucura. Tal como era sua paixão.
— Oh! Gomez, estou sentindo uma dor. — Ela gemeu, retorcendo o rosto numa expressão de moléstia.
— É uma dor muito intensa, minha querida?
— Profundamente intensa, mon cher. — Mortícia mordeu os lábios, os gemidos aumentaram, assim como a satisfação em seus olhos.
— Oh! Cara Mia, como sinto inveja da sua experiência. — Ele voltou a beijar sua mão, subindo as carícias pelo braço frio. — Se alguma coisa acontecer a você... eu não respondo pelos meus atos, todos serão enterrados vivos, até que eu a encontre do outro lado. Porque uma vida sem você, não é uma vida completa.
— Querido, eu quero que me prometa... cuide de nossa pequena, ela ainda tem tanto para ver, para regurgitar e sofrer nesse mundo cruel. — Mortícia tocou o rosto do marido, um olhar cúmplice.
— Certo, eu prometo, mas terei a vida mais deprimente e vazia do mundo caso você não esteja ao meu lado. Sou capaz de atirar contra a minha boca na primeira noite que eu for deitar e não a ter em meus braços. Ou na primeira manhã que eu não acordar e ver seus olhos apaixonados.
Eles se beijavam intensamente quando a vovó Esmeralda entrou no quarto, segurando uma bandeja.
— Está bem, está bem, calma os dois, eu já trouxe uma poção para fechar os ferimentos internos, ninguém vai morrer hoje. É uma pena, na minha época pelo menos uma morte a gente assistia após um parto. — A vovó entregou para Mortícia um cálice de prata. — Beba tudo, também trouxe uma mamadeira para o bebê e... aliás, como ela vai se chamar?
Gomez se levantou, decidido e inspirado.
— Como hoje foi o dia que minha amada renasceu, e minha filha nasceu, em homenagem a esse dia nublado e frio, ela vai se chamar Wednesday Addams. — Gomez pegou o charuto da mão da Coisa e tragou, soltando a fumaça sobre o berço.
Seu coração parecia querer escapar de dentro do peito tamanha era a emoção que sentia, aquela sensação de euforia e ansiedade, parecia que ia ter um enfarto. Mas sobreviveu aquela noite cheia de emoções, por sua amada esposa, e agora por sua filha. Pelo orgulho de ser Addams, pelo futuro daquele mundo terrível, que um dia se renderia aos pés de Wednesday, e seu pequenos olhos negros como a noite.
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