O Orfanato: Orfanato Ou Hospício
9 Dois Corações Juntos Como Um Só
Notas iniciais
Algumas semanas se passaram e amanhã será a apresentação da peça. Os figurinos estão prontos, o cenário foi montado, as falas ensaiadas e hoje foi o ensaio geral. Estou na sala de aula, o sino acaba de tocar e, como sempre, eu sou a última a sair. Assim que saio, me deparo com o Hayden.
Hayden: Eu estava pensando... Tudo tem sido tão corrido... Nem me lembro da última vez que estivemos a sós.
Amber: Eu sei, parece que fazem décadas.
Hayden: Então, você quer “sair” comigo? E com “sair” eu quero dizer ficar acordada até tarde no jardim comigo.
Amber: Eu quero.
Eu o abraço. Ele enrola os dedos no meu cabelo. Ouço as ritmadas batidas no seu peito. Seus braços agora me entrelaçam, deixando-me aquela escolha de me libertar ou não.
Hayden: Vamos?
Amber: Vamos.
Ele me solta e segura a minha mão. Andamos em silêncio até chegar à bifurcação que separa os nossos caminhos.
Hayden: Até mais tarde.
Amber: Até.
Eu ando até chegar ao 21. Abro a porta e entro. Lembro-me de quando eu era recebida pelo abraço da Kate. Sinto uma dor aguda no meu peito. Sinto falta dela... Eu a vejo todos os dias, mas não é a mesma coisa... Calma, Amber, ela está viva e se recuperando. Sento-me na cama que a Kate dormia e com o rosto no seu travesseiro, eu respiro fundo, sentindo o que resta do seu cheiro. Apesar da exaustão, levanto-me rapidamente ao lembrar que está quase na hora de sair para visitar a Kate (agora eu visito ela depois das aulas para não perdê-las). Visto um vestido azul escuro até a cintura e com a saia com pequenas flores vermelhas e laranjas. Coloquei um par de brincos pretos em formato de rosas, passei um batom vinho e maquiagem básica: um tom café com leite e um marrom mais escuro. Por fim, coloquei uma sandália preta com salto baixo.
Amber: Alex, você acha que a maquiagem ficou boa?
Alex: Ficou. Eu não sabia que você sabia se maquiar. Você até que não é ruim. Eu poderia te ensinar alguns truques...
Amber: Obrigada, eu vou querer, mas agora eu tenho que ir para não chegar atrasada. Beijos, tchau meninas.
Todas: Tchau, Am.
Eu saio e ando até a sala da Tia Hattie.
Assim que chego, ouço vozes discutindo. Levo minha mão à porta e antes que a mesma toque a porta de madeira, a mesma se abre. De lá sai um garoto de cabelos dourados como o próprio ouro e o reconheço assim que seus olhos azuis como o céu se voltam para mim. Ele abre um sorriso perverso.
Amber: Oi, Peter.
Eu digo amargamente.
Peter: Olá, Amber.
Seus olhos me examinam da cabeça aos pés e volta sua atenção para os meus olhos.
Amber: Você está bloqueando a passagem.
Seu sorriso se expande.
Peter: Nossa, por que tanto mau humor?
Amber: Você vai sair da frente ou não?
Ele sai andando pelo corredor cinzento com a mesma determinação do Hayden, mas tem passos firmes e movimentos certeiros.
Peter P.O.V
Algumas semanas se passaram desde a minha briga com o Hayden, a qual eu supostamente perdi. Mal sabe ele que eu havia planejado tudo, só não esperava que ele fosse demorar tanto para aparecer. É fato que eu sou muito mais forte que o Hayden, mas decidi não usar isso a meu favor. Seria chato. Passei noites em claro bolando um plano perfeito, infalível. Conheço Hayden desde quando éramos crianças, consequentemente, conheço os seus medos, suas fraquezas. É simples, decidi atacar aonde mais dói, seu ponto fraco, seu “calcanhar de Aquiles”: Amber.
Amber P.O.V
Entro na sala e me deparo com uma Tia Hattie descabelada tateando a mesa de madeira a procura de seu pincenê. Eu o pego e a entrego.
Tia Hattie: Obrigada, Amber. Está pronta?
Ela abre um sorriso ao pegar as chaves do Volkswagen Kombi (mais conhecido como Bessie).
Amber: Estou.
Nós caminhamos pelo corredor cinzento, que agora conheço como a palma da minha mão, até chegarmos à garagem. A Tia Hattie abre o portão e nós entramos.
Tia Hattie: Boa noite, Bessie. Pronta para mais um passeio?
Ela destrava o carro e nós entramos. Depois de os cintos serem afivelados, ela liga o carro e dá partida. Fico olhando as gotas de chuva escorrerem delicadamente pela janela. Estamos passando pela Chinatown. Noto que apesar da chegada da noite, a cidade continua iluminada por coloridas luzes de todos os tipos, de placas neon a simples semáforos.

Passamos na floricultura mais cedo e compramos um buquê de margaridas brancas para a Kate. Ela dissera-me uma vez que são suas preferidas.
Tia Hattie: Chegamos.
Ela abre a porta para mim. Após desafivelar o cinto, eu saio do carro. Tia Hattie trava as portas da Bessie e corremos para dentro do hospital, tentando nos molhar o mínimo possível.
Janet: Boa noite, Hattie e Amber.
Diz ela assim que entramos.
Tia Hattie e Amber: Boa noite, Janet.
Cumprimentamos a sorridente recepcionista dos lábios rubros.
Janet: Vieram visitar a Kate?
Amber: Sim.
Janet: Creio que já saibam o caminho. Sim?
Amber: Já sabemos, Janet.
Janet: Então vão logo, a Kate deve estar com saudades.
Eu sorrio.
Amber: Até mais, Janet.
Janet: Até mais.
Tia Hattie e eu andamos pelo corredor até o quarto que a Kate está. Entramos. Sento-me em uma cadeira ao lado da Kate e após tirar o buquê murcho do vaso de vidro, coloco o que compramos hoje. Tia Hattie joga as flores murchas no lixo.
Tia Hattie: Amber, eu esperarei na recepção. Se precisar de algo, me chame.
Amber: Ok, obrigada.
Ela sai e encosta a porta.
Volto a minha atenção para a Kate. Ela está vestida com aquelas camisolas brancas dos hospitais. Seus cachos dourados soltos caindo sobre os ombros. Ela continua com um braço e uma perna engessados e respirando pela cânula. Eu seguro a sua mão.
Amber: Que bom que desenfaixaram a sua cabeça. Os seus cachos dourados são tão bonitos... Sinto falta dos seus olhos verde-claros. Alguns dias depois que você nasceu, a mamãe contou que você nasceu quietinha, calminha, de olhinhos fechadinhos. Foi uma surpresa quando você os abriu. A mamãe ficou tão feliz... Ela também disse que você nem chorou, ficou olhando para ela e o papai.
Eu sorrio.
Amber: Diferente de mim. Ela e disse que eu sou curiosa desde que nasci. Eu olhava para todos os lados, numa tentativa (falha) de absorver tudo a minha volta, lembrar de tudo o que eu vi para sempre. O engraçado é que eu nem me lembro da sala de parto.
Amber: Hoje ainda não aconteceu nada de especial, mas mais tarde eu terei um encontro com o “tio Hayden”.
Amber: Ah! Quase esqueci. Amanhã é a apresentação da peça. É uma pena que você não possa ir... Mas eu vou pedir para a Alex filmar pra eu te mostrar quando você acordar. A Alex é a responsável pelo figurino. Ela ainda não me deixou ver... Mas amanhã eu verei.
Ouço o ranger da porta se abrindo e viro-me para ver quem é.
Tia Hattie: Amber, perdi a hora, são oito e meia! Temos que ir, o horário de visitas já acabou.
Eu dou um beijo na testa da Kate e me levanto.
Amber: Tchau, pequeno passarinho.
Uma lágrima rola pelo meu rosto traçando uma linha até o meu queixo e então cai.
A Tia Hattie e eu saímos do quarto , andamos pelo corredor, passamos pela recepção, nos despedimos da Janet, saímos do hospital e, enfim, entramos no carro. Abotoamos os cintos e partimos. Perco-me nos pensamentos até que sou despertada pela Tia Hattie.
Tia Hattie: Amber?
Amber: Sim?
Tia Hattie: Eu disse que perdemos o jantar. Você quer comer Mac Donnalds?
Amber: Sim, como estou com saudades de um hambúrguer!
Ela ri. Depois de um tempo, passamos pelo drive through e ela me entrega um hambúrguer, uma coca média e uma batata pequena. Eu como no caminho e quando chegamos vou direto para o 21 e me jogo na cama que a Kate dormia.
Amy: Dia cansativo?
Amber: Mais ou menos. É mais provável que eu só esteja com preguiça mesmo.
Elas riem.
Alex: Eu estou tão orgulhosa, os figurinos ficaram ótimos!
Amber: Mal posso esperar para ver.
Amber: O banheiro é meu!
Eu pego a minha toalha, um roupão cinza do orfanato que eu quase não uso e corro para o banheiro. Fecho a porta, tranco, abro o boxe, dispo-me, regulo a água para o meu quente (que seria o fervendo para os outros) e entro debaixo do chuveiro, deixando a água quente escorrer pelo meu corpo. Depois que termino o banho, me enxugo, visto o roupão e enrolo o cabelo em um turbante com a toalha. Saio do banheiro.
Amber: Alex, me arruma, por favor?
Alex: Encontro?
Eu aceno a cabeça em afirmação.
Ela abre a porta do guarda-roupa e começa a vasculhar. Quando ela termina, ela estende a roupa para mim e eu me troco no banheiro. Depois que já estou vestida, ela faz uma trança embutida no meu cabelo e a maquiagem. Por fim, me olho no espelho. Ela escolheu uma roupa bonita: um vestido branco de bolinhas pretas com um cinto preto na cintura, um par de sapatos vermelhos de salto, sombra prata e preta, batom vermelho.
Amber: Estou parecendo uma triz de algum filme antigo.
Nós rimos.
Amber: Obrigada, Alex.
Alex: Ta, ta. Eu sei que eu sou diva. Agora, tira essa sua bunda gorda daqui e vai lá buscar o seu homem.
Eu começo a rir e ela me leva até a porta e a fecha.
Alex: Fala pra ele que ele tá me devendo uma.
Ela grita lá de dentro.
Eu rio e ando até o jardim, passando pelo imenso corredor. Ao chegar, eu procuro pelo Hayden até que o acho. Ando até ele.
Hayden: Boa noite, Srta. Thomas.
Ele abre um sorriso que curaria o câncer.
Amber: Boa noite, Sr. Blake. Que bela noite, Sr. Blake. As estrelas encantam o céu.
Hayden: Mal posso vê-las, Srta. Blake. Para quê olhar para aquelas estrelas distantes se a mais bela está bem aqui na minha frente?!
Eu sorrio.
Amber: Pois o senhor é um verdadeiro cavalheiro.
Ele ri.
Hayden: Como a Kate está? Ela ainda vai poder levar as nossas alianças no pônei cor-de-rosa ou teremos que achar uma substituta?
Amber: Como você ficou sabendo disso?
Hayden: A Alex me contou. Mas, sério. Como ela ta?
Amber: Semana passada os médicos me disseram que ela não está piorando, mas também não melhora. Isso os tem preocupado. É uma situação delicada. Eles me disseram que decidiram dar um tempo para ela melhorar.
Hayden: Eu espero que ela fique bem. E como você está?
Amber: Quando penso sobre o assunto, sinto um aperto no peito. Mas eu fico melhor quando estou com você.
Hayden: Então acho que esse encontro foi uma boa ideia.
Hayden: Você já sabe quando vai embora?
Amber: O que?
Hayden: Você disse que tem um casal querendo te adotar.
Amber: Ah, é... Eu tinha me esquecido.
Hayden: Então?
Amber: Ainda não sei. A Tia Hattie me disse que contaria assim que soubesse.
Hayden: Eu não posso dizer que queria ir com você pois isso faria de mim, seu irmão e eu não quero ser seu irmão...
Amber: Então, você quer ser mais do que isso?!
Hayden: É. Eu poderia ser seu tio...
Amber: Há, há, há. Muito engraçado.
Ele sorri e se ajoelha. E segura as minhas mãos.
Hayden: Amber Rose Thomas, eu pensei muito em como te perguntar isso, mas cheguei à conclusão que eu nunca conseguiria fazer uma declaração como você merece. Porque você merece muito mias do que qualquer tipo de declaração possível. Então eu decidi fazer uma coisa simples. Amber, você quer me dar a honra de ser minha namorada?
Amber: Nossa, eu esperava mais de você... Brincadeirinha! Eu quero.
Ele me puxa pelas mãos e caímos na grama macia. Ele me beija.
Lilly: Ei, ei, ei. No meu turno não.
Hayden e Amber: Ahh...
Lilly: Voltem mais tarde.
Amber: Ta bom, ta bom.
Nos levantamos e andamos pelo corredor cinzento.
Hayden: Aqui!
Ele para.
Amber: Aqui o que?
Hayden: Aqui ela não vem.
Ele abre a porta de uma sala escura e entra.
Hayden: Você não vem?
Ele estende a mão para fora. Eu a pego e ele me puxa para dentro gentilmente.
Amber: Tá escuro, me ajuda a achar o interruptor.
Hayden: Não. Não acenda a luz, por favor.
Amber: Mas eu não consigo ver nada.
Hayden: Não se preocupe, eu serei seus olhos.
Eu sorrio. Sua mão solta a minha e eu tateio o ar na sua procura.
Amber: Hayden? Aonde você está?
Ouço uma música tocar. Uma música calma que eu já ouvi em algum lugar.
Hayden: Estou bem aqui.
Ele pousa uma mão na minha cintura e segura a minha mão com a outra.
Amber: Hayden... Eu não sei dançar...
Hayden: Sério? Então eu vou ser o seu professor.
Eu sorrio.
Hayden: Coloque a mão no meu ombro.
Eu o faço.
Hayden: Eu te guiarei, faça o que o seu coração mandar.
Amber: Tá.
Ele dá um passo para o lado e eu faço o mesmo.
Hayden: Ta vendo? Você não é tão ruim assim.
Eu rio. Ele dá mais um passo e outro, e outro, se movimentando no ritmo da música. Eu continuo seguindo-o calmamente.
Ele solta a minha cintura, mas continua segurando a minha mão.
Hayden: Agora gire.
Amber: Como?
Ele levanta a sua mão que segura a minha e coloca a outra na minha cintura, me dando um leve impulso e então me fazendo girar.
Hayden: Assim.
Amber: Como você aprendeu a dançar?
Hayden: Quando eu era pequeno, o meu pai tinha uma academia de dança. A minha mãe era professora de Ballet e Jazz e o meu pai de tango. Eles me ensinaram.
Amber: O que aconteceu?
Hayden: A academia faliu, então veio o divórcio e, coo nenhum dos dois me quis, me trouxeram para cá.
Amber: Eu sinto muito, eu...
Hayden: Não sinta. Se eles não tivessem me trazido, eu não teria te conhecido.
Eu paro de dançar.
Amber: Por hoje já deu.
Hayden: Você já vai?
Amber: Não.
Hayden: Então, o que você vai fazer?
Amber: Te beijar, não é óbvio?
Ele ri e nos beijamos. Ele envolve as mãos na minha cintura e eu ouço as batidas do seu coração junto ao meu.
Hayden: Você me completa.
Fico envolvida no seu abraço por um bom tempo, na segurança dos seus braços e com, sempre, aquela liberdade de sair ou não.
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