O Orfanato

7 A volta dos que não foram



Quando cheguei à frente do portão da casa dele, notei que a porta estava meio aberta. Resolvi fazer uma surpresa para ele, mas quando eu abri a porta, a surpreendida fui eu. O que ela estava fazendo ali? O que os dois estavam fazendo rindo? Rindo do que? Aquela cena fez parecer que nada havia acontecido. Que ela não havia traído o Sam, que não havia feito uma aposta ridícula, que não havia estragado o aniversário dele e que não havia partido seu coração. Com certeza a dona Andreia não está porque se ela estivesse, a Michele não estaria com todos os dentes na boca para espalhar o belo sorriso de propaganda de creme dental que tinha. Assim que me viu, Sam foi me cumprimentar.

– Nós estamos quase atrasados. – eu disse, confusa com a cena que havia presenciado há pouco.

– Sim! Eu só estava esperando por você. Michele, nós temos que ir para o orfanato agora. Outro dia a gente continua a conversa. – Ele disse se direcionando para a escada – eu só vou lá em cima buscar a caixa com os brinquedos e já desço.

Ficamos nós duas sozinhas no meio da sala. A ex e a atual. A vagabunda e a mocinha.

– Então, vocês estão namorando há quanto tempo?

– Há quase dois meses.

– O Sam é demais, não é?

Se ela achasse isso não teria feito o que fez com ele.

– Sim.

Mas às vezes ele cansa, você não acha? Com todo aquele excesso de amor. – Ela falou movimentando os braços.

– Eu não acho. – Espero que a minha cara tenha saído a mais séria possível.

O Sam estava demorando demais. Onde ele tinha ido? Fazer todos os brinquedos de novo depois fazer a caixa de papelão?

– Está pesado isso aqui. – ele disse aparecendo no alto da escada. – Mas eu consigo sozinho.

Depois que ele desceu, nós fomos para a porta. Os três.

– Eu posso ir com vocês? Sempre tive curiosidade de visitar um orfanato.

Eu não estava acreditando naquilo. Além de ter estragado o aniversário do Sam, ela queria estragar a minha visita ao orfanato também?

O Sam viu que a minha cara não estava nada boa, e então disse: – Só podem ir duas pessoas ao mesmo tempo. E eu e a Sofia prometemos as crianças que iríamos hoje. Você pode visitá-las outro dia.

– Poxa. Então ta, outro dia eu venho. – Ela disse dando um beijo na bochecha do Sam e o abraçando e depois fez o mesmo em mim.

Quando estávamos os dois sozinhos, eu perguntei ao Sam por que eles estavam rindo quando eu cheguei.

– Nós estávamos nos lembrando da época da escola.

– Eu pensei que você não gostasse de se lembrar disso.

– Você está com ciúmes da Michele?

– Não, Samuel, é só que quando eu cheguei à sua casa, a sua cara não estava combinando com o que você havia me dito na minha casa, um dia depois do seu aniversário. Só isso.

– Eu e a Michele conversamos, e ela me pediu desculpas. Eu resolvi perdoá-la. Do que adianta manter esse ódio para sempre. Não quero me tornar uma pessoa rancorosa.

– E agora vocês viraram amigos novamente?

– Não, Sofia, nós não viramos amigos novamente. Eu só quero seguir com a minha vida.

Eu não estava gostando daquilo. Ele tinha razão em resolver não guardar rancor, mas também não precisava de tudo aquilo. Em parte, eu confesso que estava com ciúmes.

Não falei mais nada depois daquilo. Quando chegamos ao orfanato todas as crianças foram nos receber nos abraçando simultaneamente.

– Você está triste? – a Cecília me perguntou depois que todas as crianças já estavam no meio da sala.

– Não estou, meu amor. Só estou cansada. – Tentei enganá-la, mas percebi que ela não acreditou. – Vamos brincar?

– Sim! – ela disse me puxando. – Vamos brincar de ‘gato mia’? – Cecília sugeriu.

– Pode ser. – O Sam disse olhando pra mim para ver se eu concordava também. – Mas depois nós vamos brincar com as coisas que eu e a Sofia trouxemos.

– Quem vai pôr a venda? – eu perguntei.

– Você! – a Cecília respondeu.

– Tudo bem! – eu disse pegando a venda de cima da mesa, colocando nos olhos e amarrando.

– Sam, vai lá ver se a venda está mesmo tapando toda a visão dela! – a Cecília mandou.

– Pode deixar. – E assim ele o fez. Chegou bem perto de mim e eu pude sentir o seu cheiro. – Quantos dedos têm aqui?

– Eu realmente não estou enxergando nada. Vamos começar! – então as crianças me giraram três vezes, e o jogo havia começado.

A primeira pessoa que eu achei foi o Augusto e em seguida a Bia. Eu já havia achado todos, menos o Samuel.

– Posso fazer uma pergunta? O Samuel ainda está aí? – eu perguntei parada.

– Sim. – O próprio respondeu.

Eu dei um passo para frente e então eu pude sentir a respiração dele.

– Gato mia? – eu pedi apenas para não sair do jogo.

Em vez de miar ele me beijou.

Eu ainda estava brava com ele.

– Gatos miam, Samuel.

– Eu sou um gato diferente então.

Depois nós brincamos com os jogos que trouxemos e a Maria puxou-me para um canto para conversar.

– O que está acontecendo entre você e o Sam?

– Nada. Nós não brigamos, mas eu estou brava com ele. Uma ex dele voltou e eu não estou contente com isso.

– Não briga com ele por isso. Eu aposto que é isso que essa ex quer. Fazer vocês brigarem e então em um momento de fraqueza do lado masculino, ela o pega de volta. Não faça isso. Não deixe o caminho livre para ela.

– Você está com razão. Só que é mais complicado.

– Então descomplique. Vocês nasceram um para o outro. O casal mais lindo que eu já conheci. Não deixa ela estragar.

– Eu vou tentar. Mas eu não vou aceitar tudo. Vou voltar a brincar com as crianças.

Eles estavam brincando, quando a Cristina chegou e acabou com tudo.

– Saiam, saiam! Já passou a hora de vocês. – Ela falou gritando.

– Me deixa só recolher esses brinquedos e colocar na caixa para as crianças. – O Samuel retrucou.

– Mais dois minutos e quero vocês fora daqui.

Fui me despedindo delas enquanto o Samuel estava recolhendo os brinquedos e em seguida se despediu delas também.

Já estávamos na frente da sua casa quando ele puxou assunto.

– Quer ficar aqui em casa? – ele perguntou parando e me fazendo parar.

– Não posso. Eu tenho um jantar para ir hoje com a minha mãe. – Era verdade, eu realmente tinha que sair.

– Você está me evitando?

– Não, Samuel, eu não estou evitando você. Eu só tenho um jantar para ir, e começa às oito, agora são quase seis, e eu tenho que tomar banho, arrumar meu cabelo, fazer maquiagem e ficar apresentável.

– Por que você está me chamando assim?

– É o seu nome. – eu respondi sendo sarcástica.

– Você nunca me chamou assim. Você só me chama de Sam. Isso tudo é por causa da Michele? Para de ser infantil, Sofia.

– Eu não estou sendo infantil, Samuel. Em um dia você fala que odeia ela, e que nunca mais quer vê-la e no outro você está na sua sala, sentado com ela, conversando e rindo, como se nada tivesse acontecido. Eu entendo que você não queira guardar ressentimentos, mas é difícil de assimilar. Me deixa ir pra casa, eu estou atrasada.

– Se você quer brigar por nada, tudo bem. Quando estiver mais calma nós conversamos.

Cheguei em casa e fui tomar banho. Não queria ir àquele jantar. Estava sem cabeça para nada. Queria deitar na minha cama e acordar só em 2015.

Quando a minha mãe chegou eu já estava pronta.

– O que aconteceu? Por que essa cara emburrada?

– Nada, mãe. Vamos pro jantar.


Era uma mesa para umas trinta pessoas. Uma mesa bem longa. Ao meu lado estava sentado um rapaz, ele era alto, tinha olhos azuis e era loiro, deveria ter uns vinte anos.

– Oi, você é a filha da Márcia?

– Sim. Mas eu prefiro que me chamem de Sofia, por favor. – respondi brincando.

– Ok, Sofia. Eu me chamo Bento. – Ele olhou para a minha mão e viu a minha aliança de compromisso. – Que belo anel.

– Eu ganhei do meu namorado quando ele me pediu em namoro. – Isso me fez lembrar aquele dia. Quando a Michele não existia nas nossas vidas.

– Ele não veio? – ele perguntou procurando.

– Não, ele não pôde.

– Então eu vou fazer companhia pra você hoje. Pode ser?

– Pode.

Por mais lindo que ele fosse, eu estava com saudades do meu namorado. Eu queria ter o chamado para vir comigo, mas o momento não permitia. Enquanto nós estávamos conversando, o meu telefone tocou. Nem vi quem era e atendi.

– Sofia, não desliga! Eu quero lhe pedir desculpa. Eu sei que eu mudei muito rápido em relação à Michele, mas eu realmente quero que você me entenda. Eu não falo mais com ela, se esse for o caso.

– Samuel, eu estou no jantar. Mal te ouço. Eu ligo pra você quando eu chegar em casa. – e desliguei o telefone.

– Aconteceu algo? – Bento perguntou ligado na minha conversa com Samuel.

– Era o meu namorado. Nada demais.

– Vocês brigaram?

– Não. Quer dizer, sim. Eu não sei. Mas não é nada. Daqui a pouco a gente faz as pazes.

– Vocês brigam sempre?

– Não, na verdade, nós nunca brigamos. Essa é a nossa primeira briga. Por que você perguntou se nós sempre brigamos?

– É que você disse que daqui a pouco fariam as pazes como se isso sempre acontecesse e fosse normal.

– Mas não é normal.