O Orfanato
4 A dança da vergonha
Quando desliguei o telefone, pensei em tudo o que o Sam havia me dito e em como tinha sorte de ter um namorado como ele. Quando eu tinha uns quatorze anos e imaginava o namorado perfeito, eu nunca imaginaria que um dia teria um. Na verdade, eu pensava que não existia uma pessoa assim. Perfeição não existe isso é fato. Mas o Sam é perfeito para mim. Estávamos namorando há um pouco mais de um mês, mas era como se nós já estivéssemos junto há muito mais tempo.
Uma pilha de louça enorme para lavar. Acho que só irei terminar tudo depois de quinze longas músicas de no mínimo cinco minutos. Eu ouço música lavando a louça. Faz o tempo passar mais rápido e se torna até divertido. E essa louça toda é só de ontem. Toda a minha família veio aqui em casa para jantar e nenhuma bondosa alma se ofereceu para lavar a louça. Queria que o Sam tivesse vindo ontem também, mas ele tinha ido passar o final de semana na casa dos avôs na Serra e não pode vir. Nossa música estava tocando agora, Fred Astaire da Clarice Falcão, inclusive, essa foi a música que estava tocando quando ele me pediu em namoro no orfanato. As crianças sabem que eu adoro aquela cantora e sugeriram essa música para ele.
Que saudade das minhas crianças. Como em dezembro nós fomos lá duas vezes, Cristina proibiu a nossa visita em janeiro. O Sam até vê elas de vez em quando, já que ele mora ali perto, quando a bruxa sai, a Maria o deixa ver elas rapidamente. Já eu, não tenho essa sorte. Estou ansiosa para que chegue o dia treze. Estou preparando várias surpresas para as crianças.
Estava lavando a louça, ouvindo a música mais divertida que tenho no meu celular e óbvio que eu estava dançando também, e provavelmente eu deveria estar dançando feito uma pessoa que não sabe dançar e quando acabou a música eu ouço aplausos. Eu pensava que o Sam ia demorar mais, não sabia que o mais tarde dele era meia hora depois de desligar o telefone. Eu sabia da surpresa e mesmo assim ele me surpreendeu. E me deixou morta de vergonha.
– Como você dança bem. Poderia me ensinar alguns passos qualquer dia desses... – Ele falou tentando me imitar e me deixando mais envergonhada ainda.
– Algo me dizia que eu deveria ter fechado a porta da cozinha. Que vergonha. Eu sei que eu danço muito mal, mas é que eu não esperava que alguém fosse olhar a minha dança ridícula.
– Para! Eu adorei a sua dança. Tão espontânea, divertida e sexy. Como você. – Ele falou fazendo uma cara maliciosa.
– Por favor, a minha dança pode ser tudo, tudo mesmo, menos sexy. E eu ainda estou encabulada.
– Eu realmente gostei da dança – ele falou se aproximando. Estava com saudades.
– Eu também estava morrendo de saudades – falei isso e em seguida ele me beijou. Que saudade daquele beijo.
Quando ele chegou eu parei de lavar a louça e então fomos para o meu quarto, o Sam adora mexer nas minhas coisas. Ele sabe que eu detesto que mexa e mesmo assim ele o faz. Ele já sabe onde fica tudo, se duvidar, ele sabe mais do que eu. Depois que o Sam fez uma nova inspeção no meu quarto, fomos passear na pracinha que tem perto da minha casa. Brincamos de gira-gira e gangorra. Parecia que eu tinha sete anos novamente. Quando estávamos no balanço, o Sam parou de se balançar e eu parei em seguida, querendo saber o motivo.
– Eu já sei! – ele falou como se tivesse descoberto a América.
– Sabe o quê? – indaguei curiosa.
– Em poucos dias eu faço dezoito anos, serei maior de idade, e então nós podemos entrar com um processo contra a Cristina e tirá-la do orfanato.
– Realmente sua ideia é ótima, eu já havia pensado nisso antes, mas não é tão fácil assim.
– Eu vou falar com o advogado da minha família e me informar direitinho. A gente vai conseguir. Já pensou? Nós dois cuidando das nossas crianças juntos? – ele falou com uma voz doce.
– Da onde você saiu?
– Como assim? – ele perguntou, me fazendo entender que ele não captou o sentido da minha pergunta.
– É que eu nunca imaginei que um dia eu fosse arrumar um namorado, muito menos um assim, como você.
– Assim como? Lindo, perfeito, maravilhoso, esbelto, um metro e setenta e oito, quase dezoito anos, cabelo castanho, olhos cor de mel ou verde dependendo do momento... – precisei interromper.
– Não posso mais elogiar que já fica se achando. Não falo mais nada – e passei as minhas mãos pela boca fingindo estar fechando um zíper.
– Não vai mais falar comigo? – ele perguntou fazendo uma cara triste.
Neguei, movendo a cabeça de um lado para o outro.
– Tem certeza disso?
Assenti com a cabeça.
– Acho que a senhorita está enganada. – E então começou a fazer cócegas em mim e eu me rendi.
– Eu me rendo! Eu me rendo! – falei gritando e rindo ao mesmo tempo. Isso não foi justo e o senhor sabe disso! Cócegas é o meu ponto fraco e você se aproveitou da minha fraqueza.
Começamos a rir e então nós ficamos em silêncio. Ele começou a me olhar e então eu olhei para ele. Como na primeira vez que nos olhamos. Sam me olhava como se estivesse fazendo um reconhecimento, analisando cada centímetro do meu rosto. E eu do seu. Então rompi o silêncio.
– Já sei o que vou comprar pra você! – nesse momento a minha voz era de descobrimento da América.
– O que? – ele falou imitando meu tom de empolgação.
– Óbvio que eu não vou contar, né? Mas eu acho que você vai amar!
– Lógico que eu vou. O presente vem de você, como eu não vou amar?
– Que bom que eu não vou saber se você vai amar ou odiar. Mas me diga, como se sente com quase dezoito anos?
– Velho? Não sei, ainda não tinha pensado nisso. Bom, daqui a dois dias eu poderei ser preso e pensando por esse lado, não é bom. Mas também, eu não faço nada fora da lei, então, tanto faz.
– Como você é sem graça. Quando eu fizer dezoito anos, vou me sentir como a Mulher Maravilha. Vou poder fazer qualquer coisa! – falei fazendo uma cara de super heroína.
– Pra mim você já é a Mulher Maravilha.
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