O Ogro da Ponte
1 Benkei no Tachi Ōjō
Notas iniciais
Com orbes negras de fera indomada, o oniwaka continuou a brandir a sua naginata com a força de um tornado, o que lhe era possível por seu porte colossal. Um verdadeiro festival de sangue se seguia a cada uma de suas sequências. O solo era pavimentado por ossos, sangue e tripas humanas. Cacos de ferro e madeira, que minutos antes foram escudos, espadas ou armaduras, misturavam-se aos restos mortais numa visão abominável. Desencorajados, os guerreiros começaram a se afastar, um por um, temendo ser a próxima vítima do ogro impiedoso que brandia sua arma sem descanso e sem nem mesmo dar mostras de cansaço por isso. O pavor era evidente no olhar de cada um, exceto no do capitão, que tentava escondê-lo convencendo-se da importância de manter a razão em seu posto.
– O inimigo é só um, não recuem! – Mas o encorajamento não surtiu efeito nos guerreiros amedrontados.
– Ele não é humano, senhor! – Entrecortou uma voz aparvalhada por entre os murmúrios. Nada poderia encorajá-los a continuar, se não uma proposta de ambição.
– Aquele que conseguir golpeá-lo será elevado de posto e ganhará o triplo da recompensa! – Exclamou, para surpresa geral, o capitão. Todos os outros surpreenderam-se, e ficaram divididos entre suas ambições e o que lhes restou de sua razão. Mas em qualquer humano lúcido, a ambição vem em primeiro lugar. Superamos mais fácil a perda de algo que tínhamos do que a perda de algo que poderíamos ter tido.
E uma dezena de ousados guerreiros, tentados pela proposta feita, empunharam novamente suas espadas e lanças e saltaram na direção do ogro, que os partiu ao meio em exatamente três golpes, sem que fosse sequer arranhado pelas armas contra ele empunhadas.
Benkei já não era o mesmo de outrora; deixara de ser aquele rapaz imprudente e leviano naquele dia, anos atrás, na ponte Gojo, quando conheceu aquele homem. Na ponte, o jovem ogro abordava cada um dos passantes que empunhasse uma arma, desafiando-os para um duelo um a um, cuja recompensa era a arma do derrotado. Meses e talvez até anos se passaram, e Benkei ampliou cada vez mais a sua coleção de armas: eram ao todo 999 espadas obtidas à base de vitórias consecutivas. Mas tudo mudou com o seu último duelo.
O guerreiro que, segundo acreditou Benkei, completaria a sua coleção, era Minamoto no Yoshitsune, filho do senhor Minamoto no Yoshitomo. Mas Yoshitsune foi aquele que pela primeira vez, submeteu Benkei através da força; Não força propriamente dita, uma vez que talvez ninguém no mundo tivesse músculos mais avantajados do que o ogro da ponte, mas astúcia; Com suas duas katanas, Yoshitsune esquivou-se de cada um dos ataques de Benkei. Ao quinto golpe, desferido horizontalmente, o samurai saltou por sobre o monge com a leveza e perfeição de um pardal. Antes que o monge pudesse se virar, uma das lâminas estava apontada para o seu pescoço e a outra atravessando o seu braço. O ogro foi submetido pelo pardal.
Desde aquele dia, Benkei tornou-se um valioso aliado de Yoshitsune, que lhe permitiu conquistar várias vitórias, até um dia que suas realizações voltaram-se contra ele; O ambicioso Yoritomo, seu irmão, almejando as conquistas do mais novo, declarou-o como traidor. Mesmo após serem declarados e caçados como foras da lei, Benkei não abandonou o seu senhor.
Yoshitsune, buscando manter sua honra e limpar o seu nome, decidiu que a saída mais cabível era uma morte honrável através do ritual de seppuku. Mas sequer morrer com honra lhe seria permitido. Enquanto Yoshitsune preparava o seu ritual de suicídio no templo, soldados portando espadas, lanças e arcos foram enviados para capturá-lo e julgá-lo como um traidor, desonrando o seu nobre nome. Mas o ogro da ponte não permitiria isso. Como que num último esforço, ele se fixou ali, na ponte que conduzia ao templo, empunhando tacitamente sua naginata contra todo e qualquer um que viesse desonrar o seu senhor.
– Saitō no Musashibō Benkei, nós conhecemos os seus valorosos feitos ao lado de seu senhor, Minamoto no Yoshitsune. Mas nossa prioridade é levar apenas a ele. Caso você decida se render e permitir que cumpramos nossa ordem, saiba que há um cargo de alta patente no exército e muitas recompensas esperando por você.
– Minamoto no Yoshitsune-dono é o meu único senhor. – Proferiu Benkei em tom inflexível. O capitão apenas certificou-se de algo que já soubera desde que pisou ali: o oni não estava aberto a negociações.
– Como quiser. Soldados, as flechas! – Bradou o capitão, apontando a lâmina que empunhava na direção de Benkei. A luta já tinha decorrido por algumas horas, e talvez o ritual de Yoshitsune já tivesse sido concluído, mas ainda assim, Benkei seguiria a ordem de seu senhor de não permitir que ninguém interferisse até o seu último suspiro.
As flechas foram disparadas de uma única vez. Nem todas atingiram o seu alvo, mas as que o fizeram, atingiram-no superficialmente nas placas da armadura. O ogro sequer se moveu. O capitão bradou, e outra saraivada de flechas foi disparada contra o sohei. Desta vez, foi possível ver gotas de seu sangue respingarem pelo chão. Mas ainda assim, o ogro se manteve imóvel, encarando-os com seus olhos negros de fera indomada.
– Você pode ser durão, mas ainda sangra como um mortal qualquer. Soldados, as flechas envenenadas! – Bradou insatisfeito o capitão. Como por ele foi solicitado, as flechas envenenadas foram disparadas. O ogro se manteve imóvel mesmo ao ser perfurado por várias delas. Nem mesmo uma exclamação ou murmúrio audível de dor foram proferidos por entre os seus lábios crispados.
Insatisfeito como estava, o capitão ordenou que continuassem a disparar as flechas, até o ponto que o corpo de Benkei tornou-se quase irreconhecível; era impossível ver seus olhos antes negros, e o corpo mantinha-se de pé, rígido como uma estátua, sobre uma poça de seu próprio sangue e atravessado por dezenas de flechas, envenenadas ou não.
– Bakemono! Oni! Yōkai! – foram as exclamações gerais, sucedidas pela fuga desesperada de grande parte dos soldados, que acreditavam de fato estar enfrentando um ser sobrenatural, cuja força estava além do compreensível.
Irritado, o capitão vociferou insultos para os fugitivos, e aos “corajosos” que ali permaneceram, ordenou que fossem dar o golpe final no ogro. Sua ordem foi claramente desobedecida, e os que restaram não demoraram a se juntar aos demais fugitivos.
Agora, o capitão estava sozinho com o oniwaka na ponte. Empunhando sua espada com as mãos trêmulas, caminhou em passos lentos na direção de seu oponente implacável, prostrado de pé e imóvel como uma estátua na outra extremidade da ponte. Olhado daquele ângulo, a coisa adquiria um ar um tanto sarcástico; a visão de um único guerreiro que, empunhando uma naginata, deteve o avanço de um exército. Enquanto pensava nisso e o seu pavor aumentava à medida que ele pisava nos restos de seus soldados, o capitão continuou a caminhar na direção do ogro. O sol já estava por se por. O capitão tentou encontrar no que restou daquele rosto ensanguentado as duas esferas de azeviche que resplandeciam com a chama negra do espírito implacável do sohei, mas não encontrou nada além de duas negras e profundas cavidades, as janelas do vazio. Estava agora a um palmo do monge, e só então pôde constatar que o ogro há muito havia expirado.
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