Carta enviada à um destinatário anônimo.

"Meu nome é Samuel Ferreira, nasci na cidade de Antinópolis, São Paulo, onde fui criado por minha mãe e meus dois irmãos mais velhos. Meu pai morreu quando eu tinha quatro anos, ao cair de um edifício em construção no qual trabalhava.

Nunca fui um jovem religioso, podia-se dizer que eu não me assustava fácil. Quando finalmente entrei para a faculdade, as coisas começaram a mudar. Passei com certa dificuldade na USP, mas consegui. Prestei vestibular para Medicina, que era meu sonho desde moleque. No início do ano, quando eu tinha dezenove anos, mudei-me com muita dificuldade para a capital, onde fui morar no CRUSP (Conjunto Residencial da USP).

Dividi um apartamento do bloco B com um mais dois estudantes de medicina, chamados Jonas e Bernardo. No início foi bem complicado para eu me acostumar. A rotina era puxada, a comida era diferente e na maioria das vezes eu me alimentava mal. Na hora de dormir eu apagava que nem uma pedra, pois estava exausto. As primeiras semanas foram as piores, a mudança, a enturmação...mas eu consegui vencer.

Já estava quase na metade do primeiro período quando as coisas começaram a sair dos eixos. Até então, meus dias se resumiam à estudar e estudar, eu e meus novos amigos precisávamos descontrair um pouco, então resolvemos dar uma pequena festinha no nosso apartamento, chamamos a galera do nosso bloco e ficamos naquela bebedeira até tarde da noite. Quando fui me deitar já era quase duas da madrugada, estava me sentindo cansado e doente, como se tivesse pegado um resfriado.

Tomei um banho frio, pois estava me sentindo febril e fui me deitar. Jonas e Bernardo não pareciam a noite no apartamento, pois haviam saído com a galera para sei lá onde. Eu me recusara pois estava desanimado e sabia que na manhã seguinte teria sérios problemas para ficar acordado durante as aulas. Quando me deitei, fui tomado por uma forte dor no corpo. Me encolhi na minha cama por um tempo, tentando pegar no sono, mas por mais que eu estivesse cansado, não conseguia.

Quando olhei no relógio faltava dez para três da manhã, e eu ainda não havia dormido nada. Comecei a ficar agitado e irritadiço, me remexia na cama e cada vez me sentia mais febril e enjoado. Então virei-me de barriga para cima e fechei os olhos com força, tentando escutar somente o barulho da minha respiração. O quarto estava frio e eu me sentia estranhamente pesado. Deve-se ter passado alguns minutos, quando comecei a sentir uma sensação estranha, como se estivesse sendo observado.

Os pelos da minha nuca se arrepiaram e meu coração acelerou. Alguém estava de pé ao meu lado, debruçado sobre mim, me olhando bem de perto. Eu podia sentir sua respiração contra meu rosto, o cheiro que emanava dele era ruim, semelhante à carne estragada. Fiquei extremamente amedrontado, a vontade de abrir os olhos era tremenda, mas eu estava paralisado. Podia ser um ladrão, e embora eu pensasse nisso, havia alguma coisa me forçando a acreditar que não era.

Eu sentia sua presença próxima à minha pele, ele era frio, estranhamente frio e isso me deixava ainda mais aterrorizado. Ele pareceu se aproximar mais ainda. Sentia em meu rosto o poder de seus olhos me fitando, como um formigamento que percorria todo o meu corpo. Minha respiração começou a ficar falha e eu tentei me acalmar. Estava prestes a abrir os olhos quando as luzes se acenderam e Jonas e Bernardo apareceram. Abri os olhos imediatamente, mas não havia ninguém ali, a não ser os dois que haviam acabado de chegar. Olhei ao redor, procurando por alguém, andei pelo apartamento inteiro. Meus amigos bêbados me perguntavam oque eu estava procurando e eu não os respondia.

No relógio marcava 3:10 da manhã.

Resolvi me deitar novamente e tentar dormir, mas o sono não veio, acabei ficando a noite inteira de olhos bem abertos.
Pela manhã eu estava mais do que exausto. Meu corpo estava se arrastando, lutando para ficar em pé. Dormi durante as aulas e comi super mal. Olheiras profundas circundavam meus olhos e eu me sentia mais doente do que no dia anterior.

Pela noite, quando fui me despir para tomar um banho, notei algumas manchas arroxeadas pelo meu corpo. Nos braços, barriga, coxas. Eu não me lembrava de ter batido em nada, e elas não estavam doloridas, achei aquilo muito estranho e cheguei a ficar preocupado, mas estava cansado demais para pensar naquilo. Tomei um remédio para insônia que havia catado de uma amiga minha e fui pra cama bem cedo.

De praxe não consegui dormir. A noite parecia calada demais, nem mesmo conseguia ouvir as respirações de meus colegas de quarto. Me revirei na cama de todos os jeitos e não conseguia arranjar uma posição confortável. Por fim me levantei e fui até o banheiro. Enquanto eu urinava, senti aquela sensação novamente, como se estivesse sendo observado. Eu não sabia dizer de onde vinha, e nem quem poderia ser, mas a sensação era tão forte que me fez estremecer. Me apressei a lavar as mãos, e enquanto fazia isso me olhava no espelho. Havia uma espinha no meu queixo que vinha me incomodando, então abri o armário do espelho para pegar uma pomada para acne. Passei a substância viscosa em minha pele e a guardei novamente, quando fechei o armário saltei. Meu coração foi parar em minha boca por um segundo, ao ver um vislumbre fantasmagórico no espelho. Olhei para trás imediatamente, mas não havia nada lá, nem em lugar nenhum. Começava a questionar minha própria sanidade. Eu havia visto órbitas me fitando, escuras como a noite, e embora não houvesse olhos, o ódio que emanava delas foi suficiente para me fazer tremer por inteiro. Tentei me convencer que aquilo não passara de uma pegadinha do meu cérebro e voltei para a cama, me enrolando nas cobertas como uma criança.

Meus olhos estavam fechados contra o travesseiro, mas eu sabia que ele ainda estava ali em algum lugar. Senti ele se aproximando lentamente de mim, o olhar fixado nas minhas costas. Meu corpo inteiro tremia de medo. Logo ele estava do meu lado, comecei a suar frio, meus olhos agora estavam abertos encarando meu travesseiro. Ele estava atrás de mim, me fitando. Num súbito de coragem comecei a virar meu rosto para vê-lo, mas novamente, não havia ninguém, só o breu do quarto. Vasculhei todos os cantos o máximo que pude com minha visão limitada e então suspirei. Voltei-me para o meu travesseiro e berrei, saltando para o chão. Deitado ao meu lado estava ele. Num momento, pelo menos por um segundo, pude vê-lo bem de perto. Um homem magro e alto, cujos olhos haviam sido brutalmente arrancados de seu rosto por alguma coisa ou alguém. Ele emanava ódio, desejo e acima de tudo, dor.

Esfreguei meus olhos e voltei para o banheiro, fechando a porta e deixando a luz acesa. Fiquei a noite toda acordado, encolhido num canto, a cabeça atolada entre as pernas.

Passou-se semanas assim, noites extremamente mal dormidas. E todas as noites eu acordava com aquela mesma sensação. Um terrível aperto no peito, suor escorrendo pelo pescoço e a certeza de que estava sendo observado.

Estava definhando, parecia um cadáver ambulante. Eu não sabia oque estava acontecendo e não sabia a quem recorrer. Numa sexta à tarde, quando minha mãe me ligou e perguntou se estava tudo bem, pensei em lhe contar oque estava acontecendo, mas não consegui. Tinha medo de que achassem que eu estivesse louco. Oque provavelmente eu estava.

Minhas notas caíram horrendamente, logo eu perderia meu lugar na CRUSP. Foi então que as coisas pioraram.

Eu vinha questionando Jonas e Bernardo sobre isso, perguntava se eles não vinham sentindo nada estranho. Eles me olhavam como se fosse louco e riam da minha cara. Então numa noite de quarta-feira, resolvi colocar uma câmera para gravar. Logo ele apareceu, no silêncio da noite, mas permaneceu distante. Eu sabia que ele estava ali, mas não entendi o porque não queria se aproximar. Será que ele sabia sobre a câmera? Então eu me levantei e olhei ao redor, procurando por qualquer coisa. Qualquer coisa. Mas não havia ninguém lá.

Eu queria sair correndo, queria voltar para Antinópolis, para minha casinha simples e trabalhar na oficina do meu irmão. Queria que meu pai estivesse ali, ele saberia o que fazer. Mas ele não estava. Ninguém iria me ajudar.

Nas noites que transcorreram, eu passava em claro, não estava comendo e meus amigos perceberam. Começaram a me fazer perguntas e eu ficava nervoso e saía de perto. Os professores também reclamavam. Durante uma aula acabei sendo expulso por ter xingado outro aluno que me pedia uma caneta emprestada. Os roxos aumentavam, eu ficava mais doente à cada dia e não sabia até quando iria aguentar aquela maldição.

Então numa madrugada de sábado tudo mudou. Eu havia conseguido tirar um cochilo, mas acordei sobressaltado. Pulei da cama no escuro e comecei a andar pelo apartamento. Meus amigos dormiam como rochas. Fui até o banheiro e fiquei encarando meu reflexo, estava tão cansado que cedi sobre o sanitário. Respiração pesada, uma sensação fria apertando meu estômago. Minha cabeça doía e minha boca estava seca. Senti um calafrio percorrer minha espinha, mas não dei atenção àquilo, meus olhos fechavam-se devido ao cansaço. Acabei cochilando sentado por pouco tempo, até que me assustei com alguma coisa.

Quando abri meus olhos e olhei para baixo, vi mãos ao redor do meu peito. Eu queria gritar e o teria feito se minha garganta não estivesse fechada. Então algo soprou meu pescoço, e ao me virar eu o vi. Tão próximo que poderia me beijar. E eu soube que ele era real, e que não podia fugir dele. Não sei oque se sucedeu depois disso. Ouvi dizer que me encontraram todo encolhido no banheiro, havia me mijado e murmurava coisas sem nexo.

Hoje estou preso no CAISM. Recebo visitas uma vez ao mês e mal recebo ligações. Vivo trancado num quarto separado, pois dizem que sou uma ameaça para os outros pacientes. Sou só eu e ele agora. Minha única companhia, e não importa o quanto eu tente manda-lo embora, ele sempre continuará ali, me fitando, desejando algo que não posso lhe dar. Do pouco que sei posso lhe dizer. Ele segue aqueles que não acreditam, aqueles que não sentem medo e que nunca procuraram entender. Ele observa seus passos, a cada segundo do dia, observando de um ponto escuro, e quando finalmente ele te escolhe, sua vida se torna um inferno. Ele sugará sua vitalidade com aquilo onde antes existia olhos. Ele te fitará de tal forma que você se sentirá nu. Lembre-se de todas as vezes que você se sentiu assim, sendo observado. Lembre-se de quantas vezes se sentiu cansado sem motivo. Febril e doente. Lembre-se e tente fugir, por que se você não o fizer, ele vai te achar."

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