Meu dia começou como qualquer outro. Meu avô tinha deixado um cartão por cima do meu travesseiro, avisando que tinha saído mais cedo de casa para fazer algumas compras para o aniversário da minha avó, e deixou também algum dinheiro para que eu apanhasse o metrô para a escola.

E aí eu me lembrei, que era dia 16 de Fevereiro, dia em que minha avó faria 60 anos caso estivesse viva, fazia alguns anos que ela tinha falecido.

Meu avô vivia com uma doença qualquer que fazia a pessoa não querer acreditar que quem ela amava, já não estava viva. E era o mesmo enredo todos os anos. Meu avô ia para o mercado gastar dinheiro comprando bolo de aniversário, balões e todas essas coisas, e organizava uma festa para a minha avó.

Olhei para a meteorologia, e estava um tempo fresco lá fora. Mas isso não me impediu de usar os mesmos ténis pretos, a mesma jeans azul escura e o mesmo casaco preto de todos os dias.

Autoestima não era algo comum no meu dicionário. Era quase inexistente. Eu olhava para as meninas querendo ser modelos, seguindo padrões absurdos de beleza. E eu? Eu só queria que o dia terminasse, eu pudesse voltar para o meu quarto, e adormecer com os fones de ouvido, pra não ter que ouvir meu avô cantando parabéns pra fotografia da minha avó.

Saindo de casa com a mochila nas costas, percebi que o tempo estava mais fresco que eu pensei, e me arrependi de não ter colocado mais um casaco. Andando em direção ao metro, ouvi alguém chamando por mim:

— Hey, Mary Linn- eu reconheci de imediato aquela voz.

Um carro azul se aproximou de mim. Um garoto no inicio da puberdade que tinha uma paixão platônica por mim, Jonathan, e sua mãe, Diane. Ela era a melhor amiga da minha mãe.

— Mary Linn, está frio hoje- disse Diane- porquê que você não pega carona com a gente? Ou você irá congelar até a estação do metro.

Diane fazia aquilo todos os dias. Eu sentia a pena nos seus olhos. Minha mãe e Diane eram melhores amigas desde o o jardim de infância. Daquele tipo de amigas que planejam uma vida juntas. Irem pra Faculdade juntas, casarem juntas e terem filhos ao mesmo tempo.

Mas minha mãe não seguiu bem a norma do ''juntas'', quando engravidou de mim aos 17 anos. Diane começou sua nova vida fora da cidade quando foi pra faculdade, e minha mãe? A vida dela só piorou depois disso. Meus avôs obrigaram-na a casar com o meu pai, e foi aí que a tragédia da minha vida, começou.

Recusei a carona, por mais frio que estivesse sentindo. Eu era orgulhosa demais para reconhecer que eu precisava da carona, não queria ter que lidar com a pena dela. E também não queria ter que lidar com Jonathan.

— Tá certo- Diane esticou sua mão pela janela do carro para alcançar meu braço- eu sei que dia é hoje, se você quiser ficar lá em casa esta noite, você sabe que é bem-vinda.

Assenti com a cabeça e continuei andando para a estação do metro. Tal como eu disse, eu sabia que tudo aquilo era por pena.

Quando cheguei na estação do metro, percebi o quão essencial é acordar cedo, pois estava lotado. Eu me perguntava por onde toda aquela gente estava indo. Olhei para um senhor com um terno preto, e logo percebi que talvez fosse casar, ou estava indo para o trabalho. Uma senhora com uma roupa não tão apropriada para o inverno, nem tão decente assim. Embora tenha tentado, não consegui perceber onde ela iria. Vi um cara, aparentando ser bem jovem, com um buquê de flores vermelhas na mão. Aquele com certeza não fazia ideia da besteira que estava quase cometendo se fosse se declarar pra alguém. E quando olhei para o meu lado esquerdo, me deparei com o que se pode dizer de ‘’um assalto bem planejado’’.

Uma idosa, que estava há três pessoas de distancia de mim, colocou sua carteira com dinheiro no bolso do casaco.

Um cara que estava vestindo exatamente o mesmo que eu, colocou sua mão no bolso dela e arrancou a carteira. Eu presenciei aquilo, vi tudo acontecer. Foi tudo em câmara lenta, lembro detalhadamente como aconteceu, e lembro de ter encarado nos olhos desse mesmo cara, lembro de ter olhado para a mão dele, lentamente saindo do bolso da idosa para o dele. Lembro de ter sentido o seu suspiro. Ele levantou sua mão, e contou até cinco. Era como se ele estivesse esperando a reação de alguém, alguém que tivesse visto o que ele fez. E foi quando ele olhou pra mim, e nossos olhares se cruzaram, que ele percebeu pela minha expressão, que eu sabia de tudo.

Ele voltou a contar até cinco, talvez pra ver o que eu faria a seguir, mas eu permaneci intacta, olhando pra ele e ele pra mim. O barulho do metro se aproximando me despertou, e atraiu imediatamente meu olhar. E quando voltei a me virar para vê-lo, ele já não estava ali. A idosa caminhava até a entrada do metro, e eu não sabia o que fazer. Denunciava ele? Avisava para a idosa que tinha sido assaltada? Bem, não fiz nenhuma das duas coisas. Medo? Não. Insegurança? Talvez.

Mas eu senti que não devia denunciar ele, porque naqueles olhos eu vi segredos, das quais eu estava disposta a saber.

Notas finais
Espero que gostem, estava super inspirada pra escrever essa história. Curtam e beijos.