O N E S H O T - Anjo - Imagine PJM
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Eu poderia separar em capítulos menores, mas iria ficar ruim porque era para ser um one-shot e eu não gostei de como ela ficou, quando eu tentei separar em capítulos, então aqui estamos.
Boa sorte mesmo pra quem vai ler!
Eu acredito em magia.
Anjos, demônios, planos paralelos ao nosso...
Desde criança, eu era uma pessoa sensitiva. Energias a minha volta me afetavam, e sempre tive uma boa percepção para o bem e o mau, por conta disso.
Me aproveitava disso para me livrar de situações de risco, acidentes, ou coisas piores, era, ou deveria ser o motivo pelo qual minha infância era perfeita, mas não era assim tão simples.
— Mãe, hoje de noite, antes d'eu dormir, ele estava no meu quarto de novo...
Enquanto caminhava, balançando as mãos de um lado para o outro, contava sobre a presença que sempre sentia no meu quarto.
Certo dia eu simplesmente senti como se não estivesse sozinha naquele cômodo, sabia que realmente havia algo ou alguém naquele cômodo, mas, só aparecia exatamente na hora em que eu estava sozinha, se aparecia alguém, sua presença diminuía, até não poder mais sentir nada no local...
— Está te assustando, minha querida? — A doce voz ecoava um tanto distante, por conta da diferença de altura que tínhamos, mas seu tom sempre parecia suave.
Respondendo sua pergunta, neguei com a cabeça, a final era exatamente o contrário.
— É bonzinho, mamãe. — Foi o que pude responder, sorrindo o máximo que pude. Para mim, era o máximo ter aquela presença toda noite, me fazendo companhia.
— Deve ser seu anjinho da guarda! Ele deve estar feliz por você ter sido tão comportada esse ano.
Poderia ter sido apenas uma conclusão infantil e precipitada, mas, de alguma forma isso me inspirava tanto a me comportar e ser uma boa garota, tão boa que até os seres mais puro, como os anjos sentiriam orgulho de mim.
Certo dia, a pessoa que me deu a luz, simplesmente começou a adoecer. Embora ela tentasse esconder e fingir que estava bem, eu sempre pude sentir como se tivesse algo sugando sua energia, uma energia ruim a rondando...
Em um sentido figurativo, minha mãe era uma mulher que brilhava, resplandecia da forma mais atrativa e límpida.
Seres vivos em geral se sentiam atraídos por sua existência. Era uma pessoa facilmente amada. Meu eu infantil e inocente simplesmente não fazia ideia do peso que era simplesmente existir de forma positiva nesse planeta e embora estivesse ao seu lado, não sei até hoje pelo o que ela teve que aguentar sorrindo e agindo de forma tão esperançosa e graciosa.
Por outro lado, tudo a nossa volta estava parecendo mais escuro e como uma nuvem carregada de cinzas de vulcões.
Se era em termos financeiros, tudo estava a despencar, faltava muitas coisas... Mudei de escola, e o casamento de meus pais parecia apenas que iria terminar de quebrar com o mínimo toque de uma pluma.
Ainda lembro da primeira briga que ouvi... Não houve agressão física, por sorte, mas foi o suficiente para fazer com que meu eu pequeno se recostasse no canto do quarto, com as mãos tentando tapar os pequenos ouvidinhos...
Aquela foi a primeira vez que eu senti o seu toque. No meio do meu desespero, senti como se alguém estivesse sentado ao meu lado, tocando meu rosto com suavidade, seguido de algo me cobrindo, como um tecido feito com a seda mais delicada que existisse, ou melhor, não existente no meu plano, era tão suave que nem mesmo os momentos em que minha mãe me dava carinho, — e não eram poucos — se comparavam com aquele toque.
Era apaziguador.
Pela primeira vez dormi de baixo daquele suave tecido, sentindo as gentis mãos do meu "anjo da guarda" percorrer minhas bochechas.
Anos se passaram e por volta dos meus 13 anos, eu pude finalmente entender que, o mau sempre nos rodeia e cabe a nós tentarmos nos manter alertas para ele. Minha mãe, uma pessoa espiritualizada, era a verdadeira defesa de nossa casa, com ela me sentia segura... Até que aquele dia aconteceu e... Ela se foi.
De uma misteriosa doença, a qual corroeu sua vida, suas emoções. Comparada a fonte de energia positiva que era aquela pessoa, em sua morte, parecia apenas uma casca vazia. Toda sua existência foi passada para outro plano, o qual eu acreditava, e sabia que não teria mais volta.
Era surpresa para alguém que a pessoa que eu chamava de pai, logo iria se casar novamente? Nem mesmo um ano havia se passado e o mesmo já estava planejando o outro casamento... Todos os meus instintos gritavam para que eu fugisse.
Gritavam dizendo que nada de bom poderia acontecer naquele casamento, mas, o que uma adolescente de 13 anos e meio poderia fazer?
Para onde iria? Não tinha ninguém, afinal... Era apenas eu e a presença do anjo que sempre me acompanhou.
Devo dizer que tentei o máximo para seguir como se nada tivesse acontecido, não tenho certeza se naquela época obtive o sucesso, pois a doce presença daquele ser, ou entidade, já nem sabia mais ao certo, estava mais presente que nunca.
Fosse em noites, me acalmando de pesadelos, ou até mesmo durante a escola, depois de ter ido mal em alguma prova, tudo era mais claro e mesmo sem poder vê-lo diretamente, sua aparência era algo que eu enxergava.
Era como uma miragem se formando dentro de meu cérebro, uma pintura feita com os mínimos detalhes. Seus olhos, seus cabelos, que combinavam bem com sua roupa igualmente branca e uma delicada capa, de tecido — mais uma vez — branco, quase transparente que cobria seus ombros. Seu porte físico, sua altura. Tudo era tão claro em minha mente.
Esse foi o motivo de ter começado a estudar pinturas e desenhos, apenas para desenha-lo, sua beleza era estonteante.
Anos foram se passando e nem mesmo sei o que poderia falar, minha madrasta fazia um belo jus ao nome. Ela não acreditava em coisas como anjos da guarda, quando comecei a desenha-lo de forma apropriada, acrescentando belos detalhes em tinta brilhosa, recriando suas asas, —as quais nunca podia ver, naquela tal "visualização mental", mas insistia em colocá-las no desenho. — ela detestou e isso foi um problema.
Tinha que esconder os papéis em que desenhei Anjo, ou eles seriam rasgados por aquela pessoa desprovida de compreensão. Eu não sabia como agir devidamente com toda aquela repreensão religiosa, mas sabia que aqueles sentidos eram meus, o que eu gostava, o que tinha medo, tudo o que presenciei e o que acreditava formavam "eu" e não negaria quem eu era.
Na época, com meus 15 anos, eu estava mais para aquelas garotas que apenas vestiam preto e preferiam se isolar do resto da turma, vivendo em seus mundinhos, e ao menos tentando fazer aquilo que gostava.
Amizade não era a coisa que eu esbanjava. Na verdade, a única pessoa com quem eu realmente conversava, era com um garoto, um ano mais velho que eu. Seu sorriso era alegre e o mesmo emanava uma energia muito positiva... Positiva até demais.
Não foi surpresa quando confirmei que o mesmo também era sensível para o mundo espiritual, até mais que eu. A verdade, é que devido a falta de compreensão que minha madrasta tinha com coias que iam "conta sua religião" — a qual ela também não fazia a menor questão de seguir —, eu era limitada com o que podia fazer.
Ainda assim, não ficava livre dos castigos, contudo, eles apenas serviam como comprovação de que meu anjo da guarda estava ali comigo, pois o mesmo sempre dava um jeito de influenciar tudo com sua boa e apaziguadora energia.
Não era fácil, mas ao menos estava sobrevivendo.
— Então, pronta para tentar, mais uma vez, entrar em contato com o seu amado anjo da guarda?
Hoseok caminhava ao meu lado enquanto saíamos da escola, graças a ele, meus anos escolares estavam sedo muito mais alegres.
— Nem, eu tenho que ir direto pra casa, você sabe que se eu não passar, as coisas irão ficar feias pro meu lado. Além de tudo, você nem acredita que ele seja um anjo!
Desde que passei a conversar com Hoseok, era mais fácil perceber tudo a minha volta, era como se as nossas energias aumentassem quando estávamos unidos. Não sabíamos se iria dar certo, mas, tentávamos nos concentrar e entrar em contato com o Anjo.
Bem, eu não sabia seu nome, então "Anjo" era o único modo que eu tinha como me referir a ele.
— E por acaso alguma vez não dá ruim pra você?
Dei-lhe um soco no braço, o mesmo interrompeu suas risadas e começou com sua sessão de drama e fingiu chorar, como se seu braço realmente estivesse doendo. Apenas revirei os olhos e continuei andando, eram raro os dias em que Hoseok não chamasse a atenção das pessoas a volta, o melhor a fazer era seguir em frente.
"Eu não conheço essa pessoa".
Caminhamos até a casa onde eu morava, queria não precisar entrar lá, ou no mínimo não ouvir reclamações durante todo o dia, poderia até tentar dormir na casa do meu bem aventurado, melhor amigo, mas conseguir passar uma noite na casa de Hoseok era completamente difícil. Para a minha madrasta, ele era apenas um cafajeste que queria se aproveitar de mim, dizia que não confiava nele, que tudo era para o meu bem, e enchia os ouvidos de meu pai com essas coias, o qual acreditava piamente naquela mulher.
Até mesmo usar a desculpa de que estava indo lá apenas para ver a irmã do garoto, não funcionava.
Ele simplesmente não me ouvia, nem ouvia ninguém, apenas a ela, era como se ele estivesse preso em uma amarração ou algo do tipo. Credo.
Isso resultou em eu ser a única de minha sala a não ter qualquer tipo de rede social, e acesso a internet. Mesmo quando o assunto eram escolares, eu era vigiada.
[ 16:15 — Quinta-Feira ]
Embora eu estivesse sentada na cadeira, olhando para os livros e exercícios de física passados naquela semana, eu apenas conseguia prestar atenção na presença... Ele estava sentado na cama, me observando.
Parei de fingir que escrevia alguma coisa e apenas quis me virar para encará-lo, encontrando apenas o vazio.
Suspirei.
Não era nenhuma surpresa, eu sabia que não iria encontrá-lo, mesmo com ele estando ali, mas ainda assim era meio frustrante. Lembrava dos relatos que tinha lido — quando Hoseok me emprestava seu celular e finalmente tinha algum tipo de contato com a internet — em que algumas pessoas afirmavam terem visto seus anjos da guarda em carne e osso — ou quase isso —, bem, era o que elas aparentavam acreditar.
Sentia inveja. Por que eu não podia vê-lo se ele sabia tão bem que eu reconhecia sua existência? Por que ele me permitia apenas ver sua figura em pensamentos e não por meio dos meus olhos?
— Anjo... Eu queria poder falar com você, sabia?
Soltei as palavras baixinho por medo de ser ouvida por "pessoas que não convinham"... Ajeitei minha postura de volta para a mesinha e deixei minha cabeça cair por cima dos livros.
Um silêncio ainda mais pesado se estabeleceu pelo quarto.
Não era como se isso me deixasse triste... Tá bom, isso me deixava triste. Eram muitas perguntas e raramente conseguia alguma resposta.
Se no mínimo eu tivesse a oportunidade de receber ajuda e pudesse passar essa barreira, seria perfeito. Meu único medo sobre esse assunto seria se fosse realmente algo errado nos vermos. Pensar dessa forma fazia com que meu coração se apertasse de maneira dolorosa.
O tanto que já nos comunicamos, se apenas por uma flor que eu queria e não podia ver, aparecendo voando na minha janela, ou o livro que estava procurando caindo bem na minha frente.
Sentir minha mão ser segurada antes de atravessar a rua, assim como a de uma criança, mesmo já sabendo atravessar sozinha. Eu não entendia nada.
— É errado querer te ver, Anjo?
Era como se meus olhos estivessem cheios de lágrimas, embora nada saísse deles realmente. Ouvi leves passos e abri um sorriso mínimo — Até mesmo o barulho de seus passos eram delicados e prendados — logo sentindo sua mão acariciar algumas mechas de meu cabelo.
— Eu ainda não entendo isso!
Certo, devo admitir que talvez aquela frase tenha saído mais em um tom birrento do que um tom raivoso.
Um barulho de algo batendo na porta do meu quarto com toda a força fez com que eu levantasse a cabeça rapidamente, por conta do susto, logo senti a tontura seguida de uma pequena dor percorrer minha cabeça. Até mesmo a minha visão havia ficado borrada com tudo aquilo. Certeza que se eu estivesse em pé, tombaria para os lados, ou até mesmo cairia.
— Falando sozinha de novo? Sinceramente, não sei como seu pai ainda insiste em não querer te jogar em um manicômio!
Revirei os olhos, já acostumada com essas palavras, é incrível a gente é capaz de se acostumar a todo tipo de situação e até damos risada delas.
Olhei para o vazio, do quarto por alguns momentos, em silêncio, ignorando a existência daquela pessoa e esperando que a mesma resolvesse sair daquele lugar.
Alguns minutos de paz e ouvi barulhinhos de pedrinhas sendo jogadas na minha janela.
Era engraçado pensar que, para meu melhor amigo poder falar comigo ele teria que dar a volta na casa e fazer esse tipo de coisa... Achei que seria algo legal, como nos filmes adolescentes que eu costumava assistir, mas na verdade não era.
Nada era tão legal quanto nos filmes.
Esperei o momento em que ele parou de jogar as pequenas pedrinhas, abri a janela e acenei para ele. Tinha que tomar cuidado, pois se ele não me visse, eu poderia levar uma pedrada na cabeça e passar um bom tempo com um mini galo na testa.
Seria ridículo.
Hoseok acenou para mim de volta, segurando uma bola de papel em suas mãos, ele parecia mais sorridente que o normal, e olha que ele sorria bastante.
Fiquei curiosa e o esperei jogar a bola de papel para mim, eu a peguei a bolinha, a desamassei e comecei a ler o bilhete.
" Yahhoo!
Sendo muito infernizada pela embuste ou se derretendo toda pelo seu anjinho? Haha!
Não fique brava, na verdade, eu tenho boas notícias...
Um amigo da minha família abriu uma lanchonete esses dias e está precisando de garções ou garçonetes que possam se virar para atender as pessoas.
Pensei logo em você e te indiquei.
Não importa o que vão te dizer aí, amanhã, quando as aulas terminarem, eu vou te levar lá e você vai fazer a entrevista!
Sei que vai passar, você é capaz! O salário não é tão alto, mas ao menos um celular, você consegue.
Fighting girl!!
PS: Não precisa dizer que sou um anjo na sua vida, eu sei que sou!
ღゝ◡╹)ノ♡ "
Soltei o papel amaçado e tampei minha boca com as mãos, tentando segurar meu grito de felicidade.
Realmente Jung Hoseok era um anjo! Não consegui controlar os pulinhos pelo quarto, o que resultou em mais alguma reclamação, mas, sinceramente, quem conseguiria ouvir qualquer coisa em um momento como aquele?
Corri para minha mesinha, arranquei uma folha do meu caderno e comecei a escrever.
" Eu não acredito no que você fez! Você definitivamente é o melhor, Hoseok!
Eu nem mesmo sei como agradecer, você quase me matou do coração, sabia?! Obrigada demais, você é mesmo um anjo iluminado!"
Senti um leve empurrãozinho em meu braço, nada demais, nem mesmo foça aquele empurrão teve, afinal, eu sabia que o Anjo, jamais me machucaria. Eu apenas ri de seu ciúmes e falei rápido, indo em direção a janela.
— Se está achando ruim, poderia deixar eu te ver e falar mais diretamente com você, não?
Joguei o papel para Hoseok, que leu a menagem e apenas sorriu, fazendo uns de seus charminhos, mandando um beijinho.
Não podia deixar de sorrir com suas graças.
Depois de um certo tempo comemorando, eu pode parar para voltar a fazer aquelas tarefas que nunca me serviriam para nada, pois não era a área que eu escolheria para trabalhar, com certeza.
Durante o jantar, tudo foi um pouco mais denso.
Chamei a atenção do meu pai para falar sobre a entrevista. Até pensei em esconder, mas, não daria certo e provavelmente tudo pioraria caso eu escondesse. E se fosse preciso alguma autorização de um responsável, já que eu era de menor?
O único jeito foi arriscar.
A expressão de desgosto daquela mulher seria cômica se a situação não fosse séria. Completamente contra. Mas, por outro lado...
— Isso é ótimo. Vai te ajudar a ter mais independência, você já está grandinha...
Ouvir aquelas palavras foram como trombetas celestes tocando, comemorando uma vitória.
— Sim, amor, você tem razão. — Começou, a falar, limpando o canto de sua boca com o guardanapo, ajustando sua postura, olhando com um ar superior. — Isso também será uma ajuda quando chegar no fim do mês. Sabe, algumas contas, ela mesma irá poder pagar. Se é que irá conseguir esse emprego mesmo. — O tom de deboche no final dava náuseas.
— Sinceramente, mulher, deixe a menina, ela ainda é nova. Além de tudo, a gente não tem a necessidade disso agora, deixe ela começar uma poupança para o futuro.
— Eu concordo, mas sobrará mais dinheiro no final do mês com a ajuda dela. Ela também usa energia e água.
— Ao menos uma partezinha, ela poderia ajudar.
— Como se eu pudesse fazer algo! Até de usar um celular eu sou proibida! — Retruquei.
— Não posso negar. Desde criança, ela nunca reclamou ou exigiu ter algo, deixe ela aproveitar ao menos um pouco.
Não sabia de onde estava vindo tamanha calma e bom humor para o meu pai, mas eu de fato agradecia.
— Mas...
— Assunto encerrado. Vamos voltar a comer. O jantar está uma delícia hoje...
Em silêncio voltamos a comer, mesmo que o olhar raivoso caísse por mim, eu estava tão eufórica que mal conseguia me concentrar em alguma coisa.
Terminei o jantar tão rápido que mal pude perceber.
Naquela noite eu mal consegui dormir, estava ansiosa para que as aulas terminassem o quanto antes. Infelizmente, na hora de acordar para ir para a escola, eu estava exausta, e se não fosse por Anjo olhando o caminho por mim, durante o caminho para o colégio, eu talvez acabasse passando na frente de algum carro sem querer.
Diferentemente do usual, eu esperei o Hoseok na porta da minha sala, pois alguns alunos saíram correndo, dizendo que provavelmente teria alguma briga no horário da saída. Provavelmente aquela típica e idiota ameaça "Te pego na saída".
Durante um tempo, eu apenas procurei em volta até ver a cabeleira avermelhada, se destacando entre a multidão de alunos. Ele não estava usando o chapéu de quando o vi chegar pelo começo das aulas, então as duas pequeninas trancinhas eram mais visíveis, misturadas aos fios soltos e o deixava com um tom fofo, e combinava perfeitamente consigo.
— Ufa, andar no meio dessa coja toda tá difícil. — O Jung era meu melhor amigo desde muito tempo que eu estudei naquele colégio e se havia uma coisa que ele não sabia fazer, era mentir. O modo como ele estava olhando para o lugar que a provável briga iria acontecer, não era normal. Hoseok não gostava de brigas, por isso apenas podia pensar que ele sabia um pouco sobre o que estava acontecendo.
— Você está preocupado, com quem? — Perguntei direta.
Jung parou de olhar em volta por alguns segundos e me encarou sério e pôs-se a falar:
— Foi mal, mas, eu podeira te pedir um favor? Poderia ir para a enfermaria e me esperar lá?
Ele não costumava falar daquele jeito, seu tom sempre era brincalhão, mesmo que ele fosse uma pessoa responsável.
Eu concordei, e ele me estendeu sua mochila e correu para onde as outras pessoas estavam se reunindo.
Se ele iria se meter naquela confusão, eu pensei que seria melhor ir atrás, mas, mas senti a mochila do Hoseok ser levemente puxada da minha mão, como um sinal para fazer o que foi combinado.
A enfermaria estava vazia, não era tão comum assim os alunos se machucarem, então, facilmente aquele lugar se encontrava vazio, talvez fosse a explicação do meu melhor amigo ter pedido para que eu o esperasse ali.
Encarei as paredes de azulejos brancos e o cheiro de produtos de limpezas, não tão fortes quanto o de um hospital, mas tinha seu cheiro único e irritante.
Quando a porta abriu e Hoseok entrou, junto com um garoto, esse tinha olhos grandes — embora um deles estivesse machucado por um provável murro —, seus cabelos estavam bagunçados e uniforme completamente bagunçado e sujo de areia.
Fiquei em silêncio, apenas os observando, Jung reclamava com o outro, que parecia ser mais novo que nós. E esse apenas fechava sua expressão ou revirava os olhos para as reclamações do meu amigo.
— O que eu faço com você, heim, Jungkook? — Então aquele era o nome dele...
— Ah, valeu por trazer as minhas coisas pra cá, desculpa ter demorado, foi difícil separar aqueles dois da briga haha!
Hoseok se dirigiu a mim, o que fez com que Jungkook olhasse para mim, pela sua expressão, ele não tinha me notado até aquele momento.
Ao menos naquele momento eu pude ver com clareza os seus olhos... Talvez fosse por causa da iluminação, mas eles passavam um ar de que guardavam tantas coisas como uma galáxia... Eles brilhavam, porém eram escuros e profundos.
— Vocês deveriam ver as caras de vocês! — Foram as risadas de Hoseok que fez o tempo voltar a correr e me fez perceber que aquela pessoa e eu estávamos nos encarando, era vergonhoso!!
— Hope! — Choraminguei envergonhada, aquelas risadas não melhoravam as coisas em nada!
O mesmo apenas deu de ombros e começou a mexer nas coisas da enfermaria, provavelmente daria problemas caso a enfermeira nos visse mexendo nos remédios sem permissão, então eu fiquei vigiando a porta, para caso ela viesse. Por mais difícil que eu achasse disso acontecer, era melhor que ficar em silêncio, no canto da enfermaria.
Vez ou outra eu podia ouvir Hope dizendo para Jungkook olhar para mim e olhar para ele.
Tudo o que eu pensava era que aquele tal garoto estava me achando uma idiota, mal educada, eu nem cheguei a falar com ele, eu apenas fiquei o encarando.
"Ah, onde estava a educação que recebi da minha mãe naquele momento?!" Talvez eu devesse falar mais devidamente com ele, mas eu estava com vergonha! " O que eu devo fazer?!"
— Pronto, terminou, posso ir embora?
A voz de Jungkook me fez "tirar a cabeça da porta" e entrar. Hope ainda estava com uma expressão de desgosto na face, bem, ele era uma pessoa que se preocupava com os amigos, não era surpresa que estivesse desgostoso com um de seus amigos ter brigado na escola.
Parando para pensar... Era estranho que a direção não tivesse levado os que brigaram...
— Tá, tá, só não vai fazer esse tipo de merda, okay? — Hoseok enfiou uma de suas mãos pelo cabelo de Jungkook, o bagunçando todo. Era como um pai perturbando seu filho.
Eu que estava encostada na porta, observando tudo, acabei sorrindo um pouco alto, o que fez com que o garoto me encarasse por alguns segundos e logo abaixasse a cabeça, pegando a sua mochila e andando em minha direção, ou melhor, a da porta.
Acabei esquecendo por completo de tentar falar diretamente com ele... Bom trabalho!
Eu tinha apenas um serviço!
Fiquei observando a porta se fechar e senti um pequeno vazio a mais na sala.
— Bem, vamos? — Hope me chamou, voltando ao seu tom alegre de sempre.
Kim Seokjin era uma pessoa divertida, quando se tratava do seu trabalho, ele fazia como ninguém, dava para ver o quanto que ele gostava do que fazia.
Até mesmo no momento de nos instruir ele transmitia uma aura segura de si. Não, ele não era exatamente aquele tipo de pessoa prepotente, e cheio de si. Mas sua estima elevada com certeza alegrava o local.
Ter conseguido aquele emprego era mais como um momento de liberdade para mim, mesmo que algumas pessoas não gostassem de ter que agir de determinada forma, apenas por conta de que era o esperado, eu gostava.
Tinham momentos em que o movimento era realmente assustador, e conseguir dar conta de tudo em tão pouco tempo era difícil, mas era tão divertido. Mesmo que no final das tardes, eu voltasse completamente exausta.
Durante um certo período de tempo, cerca de 3 meses desde que tinha conseguido o emprego, tudo parecia calmo. Até os poucos momentos em que eu estava em casa.
Minha madrasta estava até mesmo tentando ser gentil, queria pensar que ela apenas estava querendo mudar seu jeito rabugento e estressado de ser.
Devo dizer que até mesmo feliz eu fiquei, quando a mesma entregou um lanche feito "especialmente para mim".
Naquele dia em especial, eu deixei o meu lanche guardado em cima de uma estante, o dia estava sendo calmo até.
O único que estava agitado era Anjo... Eu podia sentir, quando o mesmo passava por mim de maneira rápida, até mesmo um dos funcionários sentiu como se alguém estivesse passando atrás dele.
Acabei rindo e o tranquilizando, dizendo que era sua imaginação, ou até mesmo que a janela estava aberta e uma rajada de vento invadiu o local.
Gosto de pensar que aquela desculpa típica tenha o enganado.
— Ah, vocês ainda vão ficar aí? Achei que eram os do turno da noite. — Falou Seokjin, quando eu olhei para o relógio de parede que marcava exatamente umas 18:50, eu não tinha notado que já era aquela hora, eu tinha que correr, se não chegaria tarde para jantar e poderia ser algo ruim.
Jin sorria com o meu colega de trabalho, que falava que não tínhamos notado o horário e que já estávamos indo mesmo.
— Tudo bem, se quiserem fazer hora extra é só falar! — Educadamente negamos e corremos para fora da lanchonete e começamos a caminhar de volta para casa.
Ao menos parte do caminho sempre fazíamos juntos, e em meio a conversas simplórias, eu lembrei que tinha esquecido o meu lanche em uma das estantes do restaurante, o mandei seguir em frente e corri de volta para pega-la.
Estava estranhamente vazio naquela área, não tinham muitas pessoas também, o verdadeiro movimento geralmente começava por volta das 20:00h, até onde eu sabia.
Não dei muita importância para aquilo, porém, quando tentei pegar o recipiente, o mesmo simplesmente foi empurrado para fora da prateleira.
O impacto foi o suficiente para o pote de plástico se abrir e o bolo de chocolate simplesmente se esparramasse pelo chão.
— Anjo! — Reclamei, olhando para o meu lado, e como sempre, apreciando a visão limpa de um belo nada.
Ele não era do tipo de fazer esse tipo de coisa. — Por que você fez isso? Ah, eu perdi o bolo e agora vou ter que limpar isso antes que alguém apareça! — Choraminguei com vontade, o bolo estava com uma bela aparência, vê-lo jogado no chão me fazia pensar em como aquilo era um desperdício.
— Oh, tudo bem aí? — Uma voz profunda, curiosa quase me fez pular para o lado.
Já tinha trabalhado durante umas semanas com Kim Taehyung, porém ele teve que mudar o horário dele por causa da escola, ou algo do tipo...
Dentre todos os que trabalhavam naquele estabelecimento, ele era alguém que não parecia se importar tanto com as aparências e esquisitices das outras pessoas. Era como se ele vivesse no sue próprio mundinho e nada o atingia quando ele estava por lá.
Resumindo, eu o achava legal.
— Sim, eu fui pegar um lanche que eu acabei esquecendo... Mas eu o derrubei sem querer.
Sorri meio sem graça, ele me encarou por alguns segundos e voltou a falar.
— Que azar, esse bolo estava com uma cara boa! — Sua expressão de "ai" era engraçada, Taehuyung era uma pessoa bem expressiva em geral, suas caretas eram impagáveis e ele parecia saber disso, pois sempre as usava para fazer alguém rir, era tão natural, e isso deixava tudo melhor.
— Nem me fala! — Suspirei, indo para os fundos, pegar os materiais para limpar o chão de toda aquela calda de chocolate. Quando voltei, pude vê-lo preparando alguns sanduiches, ele estava de costas, como parecia concentrado, penei em não puxar assunto, mas, o mesmo o fez.
— Sabe... Eu tenho que confessar uma coisa.
"Que não seja algum tipo de pegadinha!!" — P-pode falar, Taehyung...
— Pode me chamar de "TaeTae" e... Desculpe, eu ouvi uma parte do que você falou, quando "você" derrubou o seu lanche.
Senti minha espinha gelar, ele deveria estar achando que eu era uma louca que precisava de ajuda... Bem, eu já vi tanta coisa que nem eu duvido mais disso, mas mesmo assim!!
— Eu disse que era um desperdício, mas... Talvez tenha sido melhor assim, não?
— Taehyung, você... — Antes que eu pudesse terminar, Seokjin adentrou o local, e eu tive que explicar o que eu ainda estava fazendo por lá.
Depois daquele incidente, não trocamos mais nenhuma palavra, TaeTae estava concentrado em fazer o seu serviço e eu terminei de limpar o chão.
Me despedi mais uma vez de Jin e agradeci ao Taehyung por ter me falado aquelas palavras. Assim, eu voltei para casa.
Era tão óbvio que eu me irritava com a minha própria ignorância. Eu sabia em quem eu deveria confiar, afinal.
Durante todo aquele mês, minha madrasta continuava a me mandar lanches feitos "especialmente para mim". Eu os jogava no lixo sem a menor pena, por mais que fossem justamente os petiscos que eu mais gostava.
Isso continuou por mais um tempo até que ela finalmente desistiu de me mandar lanchinhos, eu estava indo bem no trabalho, até mesmo na escola eu estava melhorando, talvez por ter menos peso na minha mente. Tinha até pedido para Hoseok me ajudar a escolher um celular, finalmente eu teria um!
— Parece que alguém finalmente vai ter um pouco de vida em redes sociais, heim? Já vou dizendo, se algum daqueles babacas vier dar em cima da minha menina, eu vou denunciar!
Tínhamos acabado de sair da escola, desde o dia que eu tinha falado desse bendito celular, Hoseok vinha me alertando para tomar cuidado, era engraçado como as vezes do nada ele virava minha mãe.
— Isso não vai acontecer, Hope, e eu nem tenho celular ainda, me deixe conseguir ele primeiro, depois você tem as suas crises de super proteção.
Arrumei minha mochila nas costas, e senti uma sensação estranha, como se, por algum motivo, minhas costas começaram a pesar mais que o normal.
Tentei ignorar, achava que era apenas cansaço de uma semana corrida, a lanchonete do Jin estava muito movimentada.
— Ainda assim! ... Ah, garota! Então, ela continua te mandando aqueles lanches?
Agora que ele tinha falado...
— Na verdade, não... — Dei de ombros. — Ela deve ter percebido que não estava acontecendo nada e desistiu.
— Sei não, amiga, olha... Se eu fosse você, eu tomava cuidado, se ela partiu para fazer esse tipo de coisa, ela pode fazer pior.
Hoseok não era o tipo de pessoa que acusava os outros, para ele estar falando algo assim, ele tinha que estar muito preocupado mesmo.
— Obrigada, eu vou prestar mais atenção! — Tentei ser confiante, mas o mesmo apenas me lança a pérola.
— Será mesmo? Você é muito besta pra essas coisas, mesmo sendo sensitiva...
— O que você quer dizer, Jung Hoseok?!
— Nada, nada, eu sou apenas o seu melhor amigo preocupado!
— Sei! — Medroso.
— Estou falando sério! — Tentava prender o riso, não teve muito sucesso, e isso me irritava.
— Mudando de assunto!
Novamente tentei arrumar a mochila que estava pesada com os materiais da aula de artes.
— Aquele garoto... O ... Jung...Kook? Jungkook, certo?
Tentava me lembrar do nome dele, embora não tenhamos falado um com o outro.
— Sim, o que tem ele?
— Ele está bem? Digo... Eu não o vejo muito pela escola...
— Ah...
Hope diminuiu a velocidade de seus passos, seu semblante também parecia um tanto preocupado.
— Ele geralmente falta bastante... E quando ele vem, geralmente ele fica sozinho na sala dele.
— Entendo...
— Não me diga que você... — Sabe quando você entende os pensamentos que a outra pessoa está tendo apenas com o olhar?
Algumas pessoas chamam isso de ligação, ou conexão... Eu chamo de "Eu sei os amigos que tenho" e eu sabia muito bem o que aquela expressão de Hoseok queria dizer.
— Nem vem com besteira, porque não é! — O cortei. — Eu só estava curiosa.
— Nossa, grossa. — Ele fechou a cara em uma expressão desgostosa. — Se bem que, pelo jeito que vocês ficaram se encarando, eu duvidaria.
Senti meu sangue subir para minhas bochechas. Nem mesmo eu tinha entendido aquela situação, por si só, ela já era desconfortável, e Jung sabia muito bem como piorar qualquer situação e me deixar completamente envergonhada.
— Ficou vermelha, perdeu o argume- AI!
Belisquei seu braço um pouco, e apressei meus passos, o deixando um pouco para trás.
— Agressiva!
Eu podia ouvir seus passos apressados e logo ele estava caminhando ao meu lado novamente.
Aquele dia se passou mais lento que o comum, me sentia cansada. Era como se o ar ao meu redor fosse mais denso, era difícil de respirar.
Consegui terminar todo o meu trabalho, porém, me sentia mais desgastada do que nunca.
— Você está bem? Parece cansada. — Jin me perguntou e o assenti com a cabeça.
— Sim, desculpe. — Sorri, tentando tranquilizá-lo. — Provavelmente é apenas uma virose.
— Não se force muito, descanse um pouco, ok? — Seokjin levou uma das mãos até meu ombro, o tocando suavemente e logo me deixou sozinha. Já estava no horário de ir embora mesmo.
Talvez eu devesse ouvi-lo.
Durante aquela noite, eu iria dormir mais cedo e deixaria algumas tarefas para depois.
Era o que eu pensava.
Ao chegar em casa, todo aquele ar pesado se tornou ainda pior. Tudo o que queria era apenas tomar um banho e me jogar na cama. Meu corpo estava pesado, não sentia a menor vontade de comer.
Pulei o jantar e apenas me foquei em tentar dormir, o que foi complicado, a sensação da febre me assolou durante toda a noite, seguida de calafrios.
Palavras saíam trêmulas e meus dentes se chocavam um contra o outro sem controle nenhum. Quando meu pai me emprestou o seu celular para que eu pudesse avisar a Seokjin que faltaria naquele dia, aproveitei para ligar para Hoseok e avisar que faltaria a escola.
Por sorte, meu melhor amigo era realmente um melhor amigo. Durante a tarde, ele ignorou todas as tentativas que a esposa do meu pai usou para não deixá-lo me ver.
Bem, suas primeiras palavras não foram as mais encorajadoras... Fazer o quê? Era verdade.
— Meu Deus, garota! Você está péssima!
Hoseok me deu alguns remédios para abaixar a minha febre, embora eles não parecessem surtir algum efeito. De dia, eu não conseguia comer absolutamente nada, quando finalmente conseguia fazer com que algum alimento passasse pela minha garganta, corria para o banheiro e colocava tudo para fora.
Durante a noite era pior, era como se uma presença ruim tentasse sugar toda a minha energia, as coisas apenas melhoravam quando eu sentia o peso de alguém sentado ao meu lado na cama.
Não sabia o que era, mas, Anjo parecia mais atento.
Vez ou outra, Hoseok arrastava sua irmã mais velha para ajudá-lo em suas orações, a mesma parecia notar alguma coisa, e logo "expulsava" alguma coisa que estava rondando o meu quarto. Durante os dias em que eles os fizeram, eu me sentia melhor e aos poucos fui me recuperando.
Foi preciso um mês para que eu estivesse de volta, minhas roupas completamente folgadas diziam o quanto que eu tinha perdido durante os dias que mal conseguia me alimentar. Pensar que coisas como aquela podiam afetar os seres humanos me deixava triste.
Minha esperança eram meus amigos e Anjo, que sempre esteve ao meu lado, mas, pensar que pessoas poderiam não ter a mesma sorte, me entristecia.
— Vamos, alegra essa carinha! Vai assustar os clientes!
Dizia, Jiwoo, a irmã mais velha de Hope.
Ela estava sentada em uma das mesas, ao lado da janela.
De lá ela sempre fazia ótimas fotos e postava pela internet. Era típico dela.
— Gostaria que fosse fácil. — Suspirei.
— Ah, amiga, você vai se livrar de tudo isso, eu tô dizendo.
Bebericou seu café, e ficou virando a xícara em cima do piris, fazendo um agradável som.
— Por enquanto, apenas lembre-se que você não está sozinha.
Segurou a xícara, estranhamente a apontando para a frente de seu corpo, como se estivesse apenas concertando sua maneira de segurá-la, porém, ela também apontava para onde Anjo estava.
Ó céus!
Aquela família do Hoseok era a melhor.
A agradeci e voltei para o meu serviço. Era uma sexta feira agitada, o entra e sai da lanchonete acabou me fazendo esperar um pouco mais para que pudesse voltar para casa.
Os carros também pareciam estar agitados, todo o ritmo da cidade parecia conturbado... Por isso, cuidei de andar o mais depressa para casa.
Soube que algo estava errado quando senti o toque de Anjo, segurando a minha mão de maneira firme.
No meio do caminho, encontrei Jiwoo e Hoseok, ambos estavam voltando para casa, disseram que saíram para comprar pão.
Conversa vai, conversa vem, eu me sentia estranha. Sentia como se estivesse bem, por estar com eles, mas, calafrios me cercavam, porém me acalmava logo, pois sentia uma ou outra carícia em minha mão.
Aparentemente eles tinham notado alguma coisa, e acabamos decidindo que daríamos um jeito de eu ir dormir na casa deles.
Eu estava assustada, era como se eu pudesse ver, uma massa negra que nos seguia, até mesmo dentro de casa.
Apenas Deus sabe como conseguimos convencer meus pais, mas agarrei a chance e arrumei uma pequena malinha e os acompanhei até sua casa.
Naquele dia em especial, a avó de Hoseok estava de visita. Lembrava de já tê-la conhecido, mas nunca tínhamos conversado tanto.
Aproveitamos a noite para conversar até tarde, a verdade era que nenhum de nós gostaríamos de dormir.
A avó de Hoseok preparou algumas orações e jogou proteção para nós, mas a sua fala não fez com que eu conseguisse me sentir tão bem assim.
— Senhorita, esteja preparada... Essa noite pode ser algo complicado para você. — A encarei séria, estava tensa, assustada.
Quando minha vida tinha se tornado um filme de terror?
— Quem anda com você, é forte, mas, a entidade que está a sua procura também é. Pode ser que nem mesmo ele consiga te proteger e se isso acontecer, terá que ser forte e decidida.
Acenei com a cabeça, ainda estava cabisbaixa. A única coisa que eu podia fazer, era orar por algum tipo de proteção e torcer para que nada me acontecesse, nem a ninguém daquela casa. Por mais que soubéssemos que eu, era o alvo de tudo.
Não pensei que poderia dormir, ainda mais por sentir quando aquela energia ruim se aproximava de mim. Gargalhadas estridentes, era tudo surreal.
Ainda não sabia exatamente como explicar a sensação de sentir suas energias sendo sugadas, ou a sensação de ser presa por várias mãos e puxada para fora da cama...
Não era como se eu lembrasse de forma certa como tudo aconteceu, e eu apenas apaguei.
Quando abri os olhos me encontrei em um lugar completamente diferente. Era uma estrada, tudo em volta era completamente escuro, e continuava escurecendo mais e mais. Não podia ver onde aquele caminho iria dar, sabia apenas que ele continuava por conta de luzes, meio azuladas, como as de postes que iluminavam as beiradas da estrada de terra.
Eu apenas seguia andando, e não sabia bem o porque. Embora estivesse claro que tinha um lugar para o qual eu estava indo.
Dentre aquelas luzes de tons azulados, eu podia sentir como se uma luz estivesse me seguindo, essa, era completamente branca e realmente clara.
Eu pensava que deveria parar e olhar para trás, embora não o estivesse fazendo realmente.
Me perguntava o motivo.
Durante minha caminhada, podia ouvir resmungos e grunhidos, eles não pareciam humanos, mas eu sabia que eram.
Era como se fosse uma multidão...
Apenas consegui parar de andar, quando da escuridão, uma mão correu para me alcançar. Aquela mão estava coberta de lodo, suas unhas eram enormes, algumas delas estavam quebradas.
Finalmente, consegui dar passos para trás. E Antes da minha mente explodir em perguntas em desespero, me senti ser puxada por duas mãos suaves e ir de encontro ao abraço de alguém. Assim como aquele braço, ser puxado de volta e um grunhido de dor — como os que eram emitidos naqueles filmes de zumbis — pode ser ouvido.
— Anjo! — Minha boca finalmente abriu e aquelas foram as primeiras palavras, ele foi a primeira imagem não ameaçadora que tinha visto naquele lugar e melhor, ele estava lá, eu o podia ver.
Não apenas como uma imagem na minha mente, e sim da mesma forma que podia ver qualquer pessoa.
Havia desejado tanto tempo vê-lo, chega até a ser irônica a minha falta de reação, e ainda mais naquela situação, apesar de não ter esperanças de que seria uma situação normal a que eu o conseguiria ver. Eu não sabia nem se estava realmente viva.
— Graças, você está viva! — Acho que ele respondeu uma de minhas perguntas sem nem mesmo saber.
Senti seus braços me segurando com mais força, como se quisessem comprovar que eu realmente estava ali.
Remexi-me um pouco para conseguir devolver o abraço. Eu podia esperar uns minutos a mais por explicações.
— Finalmente, eu consegui te ver! — Eu gostaria de falar algo mais interessante, entretanto, não conseguia, eu só conseguia sorrir como uma boba.
— Apenas você consegue pensar nessas coisas nesse momento.
Aos poucos ele foi me soltando do abraço e finalmente pude observá-lo, o seu sorriso, o modo como seus olhos se fechavam, deixando apenas dois risquinhos em seu rosto. Era completamente adorável.
Que eu era alguém que seria capaz de observar todas suas feições, cada tracinho, queria saber como era o seu jeito de ser, isso foi comprovado naquele momento;
Aquele anjo poderia não ser o amor da minha vida, mas eu sabia que ele era o motivo de eu continuar viva naquele momento.
— Vamos voltar, não é bom permanecermos aqui. — Afastou-se de mim, estendendo sua mão. Eu a segurei, inicialmente exitante, pois pensei que voltaríamos para o meu mundo, ou sei lá o que, havia tanto que eu gostaria de conversar. — Mesmo que eu nem sequer soubesse por onde começar — E conforme ele me guiava, podia ver uma pequena cidade, ela era cercada por muros velhos.
Até mesmo as casas eram completamente velhas, as madeiras, algumas pareciam podres, quebradas.
Porém, o que realmente assustava, ao adentrar naquela cidade, eram as pessoas.
Suas vestes estavam da cor de terra, rasgadas. Seus cabelos eram bagunçados, sujos, como se não soubessem o que era água, a milhões de anos.
Seus olhares raivosos caíam sobre nós, era desconfortável, embora ninguém falasse nada, mas todos ao redor paravam para encarar.
A raiva em seus olhares me chamava a atenção. Eles pareciam me odiar apenas d'eu existir lá.
Andei para mais perto de Anjo, que sorriu para mim, sussurrando um "está tudo bem".
Também foi o suficiente para que eu me acalmasse.
Quando tentei puxar assunto, ele me pediu para que conversássemos apenas quando estivéssemos em um lugar mais seguro.
Não demorou tanto, até chegarmos em uma casa, não muito grande, e igualmente acabada, como todas as outras.
Ele nem mesmo precisou bater a porta escura e maltratada, quando a mesma se abriu em um ranger estranho.
Um homem de vestes brancas, limpas, abriu a porta, nos encarou e abriu passagem para nós.
Murmurei um "com licença" e o mesmo sorriu gentilmente.
Era apaziguante, depois de tantos olhares de ódio.
— Vejo que você conseguiu. — Falou o homem alto, ele tinha voz firme, porém ainda era gentil. — Você foi muito forte, garotinha. Não é comum, pessoas que chegaram tão perto de lá, simplesmente voltarem.
Encarei o homem de cabelos curtos e rosto sereno, ele tinha um ar estranhamente familiar, mas ainda assim completamente distinto e novo.
Até mesmo o jeito que aquela casa se encontrava. Muito limpa, comparada a qualquer coisa que eu tivesse encontrado do lado de fora, mesmo que alguns móveis ainda estivessem quebrados.
— Sentem-se, querem alguma coisa para comer?
Tanto eu, quanto Anjo, negamos e o mesmo puxou uma cadeira de madeira, e sentou-se de frente para nós.
E em meio a um suspiro, ele novamente começou a falar.
— Jimin me explicou em base, o que estava acontecendo, então, eu sei como vocês vieram parar aqui. — Antes mesmo que ele continuasse com o que iria falar, ergui uma de minhas sobrancelhas e finalmente tomei coragem para perguntar alguma coisa.
— "Jimin"?
— O seu amigo... Ah, esqueci, você não sabia o nome dele não é?
— Tem muita coisa que eu não sei, se é que você me entende... — Acho que o veneno em minhas palavras poderia atingir qualquer um naquele lugar, já que... Jimin... Encolheu um pouco os ombros.
— Não fique irritada — Ele sorriu um pouco. Era a primeira vez que eu via alguém sorrir desde que me vi naquele lugar. — Nem mesmo ele sabia, não é?
— Sim... — Concordou, unindo suas mãos, dava para ver a forma como ele as apertava uma na outra, seus dedos acabavam por repuxar sua pele um pouco. — Desde muito tempo, eu não fazia a menor ideia de quem eu era, ou do que deveria fazer. Até mesmo o que sentia.
— O Jimin na verdade é um dos perdidos entre os planos. — Eu tinha uma certa noção do que ele estava falando.
Lembrava de Hoseok ter falado sobre isso alguma vez, e até mesmo ter lido sobre essas coisas pela internet.
As vezes quando as pessoas morrem e suas almas são separadas do corpo, elas podem reagir de maneira diferente. Alguns passam para o próximo plano sem problemas, e lá vivem uma segunda vida.
Enquanto que outros, podem ficar presos entre os dois planos.
Apenas o observava sem reações, não tinha motivos para duvidar, especialmente por Jimin, que mantinha uma expressão séria, embora nunca tivesse o visto antes — ao menos não de forma tão clara — sabia que aquelas palavras o incomodavam.
Por segundos pensei em desistir e não querer mais ouvir a verdade. Mas, nosso acordo tinha sido outro, algo me dizia que quebrá-lo não seria a melhor opção.
Em momentos assim, amaldiçoava minha própria ignorância, minha própria curiosidade e me sentia mais perdida que nunca perante meus sentimentos.
— É aqui em que as coisas podem mudar, dependendo de cada um.
— Como assim?
— Algumas vezes é melhor não mantermos contatos com pessoas do seu mundo. Veja, por que desde que vocês adentraram na minha casa, eu não lhe perguntei seu nome ou me apresentei devidamente?
Agora que ele tinha falado...
— Quanto mais sabemos sobre o sobrenatural, mais facilmente ele se mostra para nós? — Foi uma frase que eu tinha ouvido a muito tempo.
Ele assentiu com a cabeça e eu apenas sorri. — E eu ainda não me envolvi o suficiente?
Silêncio.
— Desde que esteja confortável para falar, eu estou bem em ouvir.
Quando ele voltou a falar, a voz de Jimin emitia tristeza. Não tinha certeza do que estivesse falando, mas, "vazio" sempre me pareceu algo forte e assustador. Se os vazios fossem aqueles seres que lançaram seus braços para me segurar, mais cedo, sentia apenas angustia por pensar que ele poderia estar entre aqueles, rentes ao desespero e maus tratos.
— Perdi parte de minha consciência, porém, ainda sabia como pensar, alguma coisa me dizia para procurar preencher algo que estava faltando, algo que eu não sabia.
Antes que Jimin continuasse, aquela pessoa se levantou, caminhando até uma prateleira, bem organizada, com alguns livros sobre ela.
— Não lembro de ter visto algum vazio que foi capaz de recuperar sua consciência, muito menos capaz de manter contato com alguém desse jeito e por tanto tempo. — Ele olhou diretamente para mim e voltou a falar. — Embora o números de visitantes tenha aumentado ultimamente, isso não é bom para os nossos mundos.
— Eu devo pedir desculpas? — E ele abriu um pequeno sorriso de forma formal.
— Eu entendo que isso não é totalmente culpa de vocês, mas, vocês deveriam ficar de olho. — Em um suspiro, eu me recostei na cadeira e encarei o teto, levemente empoeirado — Eu imagino que vocês tenham que conversar, o Jimin de agora é capaz de te explicar ao menos algumas coisas. Mas, vocês não poderão ficar muito tempo aqui, eu não posso abrigá-los para sempre.
Concordamos e o mesmo abriu a porta, nos deixando a sós. Inicialmente apenas uma leve quietude se formou na sala. Eu esperava que Jimin falasse o que estivesse pronto para falar, ou o que pudesse falar, — Ainda que a curiosidade me corroesse por dentro — eu gostaria de respeitar isso.
Quando o observava, era simplesmente fácil de ler suas expressões... Parando para pensar, Jimin sempre foi o mais sincero o possível, mesmo sem poder ouvir sua voz, eu sempre sabia como ele estava se sentindo simplesmente por suas energias — mesmo que ela sempre fosse uma energia bondosa —, elas sempre demonstravam tudo sem precisar de palavras.
— Ei... — Jimin me chamou com uma voz gentil e pela primeira vez ficamos cara a cara, sem limitações de planos, ou o que quer que fosse.
Eu não conseguia parar de olhar para seus olhos, eram profundos, bonitos. Era diferente da sensação de se afogar nas águas do seu olhar, pois, não me causavam falta de ar ou qualquer desconforto, pelo contrário, eu me tornava mais calma, sentia como se pudesse observá-los para sempre. E sem desviar nossos olhares, ele começou a me contar tudo do começo.
— Eu não sei dizer quando isso começou, dia ou noite, para mim não tinham diferença, nem sabia o que eram 'horas'. Sendo sincero, mesmo sabendo que eu apenas vagava por lugares, eu não lembro de nada. A única memória que não foi esquecida, foi justamente quando percebi que estava na sua casa pela primeira vez.
Ainda eu lembrando das coisas como eram quando era criança e não sabia direito sobre o que ele era, sabia bem de onde qual parte da casa ele estava falando...
— Aquela foi a primeira vez que meus pensamentos foram fortes. Eu sabia dizer aquelas palavras... "Quarto", "berço" e "Pequena". — Acabei por sorrir envergonhada. — Por esse motivo, passei a me recusar ficar muito tempo longe daquele lugar. Geralmente eu ficava ao canto, observando a sua mãe falando bobagens que todas as mães falam para seus filhos... E assim, ouvindo-a, as coisas em minha cabeça iam mudando.
O modo como seu sorriso se desfez e se tornou em uma expressão dura, desgostosa me chamou a atenção.
— O que foi?
— ... Nada... — Levou as palmas de suas mãos ao rosto, esfregando-o umas três vezes.
Vê-lo naquela situação era doloroso para mim, eu entendia que aquele plano onde estávamos tinha uma aura pesada, dolorosa, melancólica... Mas, vê-lo ser afetado, se culpando por algo que nem mesmo havia acontecido, realmente me machucava. — Quando penso no que poderia ter acontecido, caso eu tivesse sido atraído por alguma legião de vazios, eu...
— Mas isso não aconteceu! — Levantei da cadeira, ajoelhando, para que eu pudesse ver seu rosto melhor. — Sabe o que me assusta pensar? — Nossos rostos estavam de frente um para o outro, me recusaria não ser encara de frente. — Pensar que eu poderia ter passado todos esses anos em casa, sozinha! — Em um sorriso de canto, fingindo ser uma pessoa madura, apenas soltei as palavras. Afinal, conseguir arrancar um sorrisinho doce de seus lábios era o suficiente para mim.
— Quando a sua mãe me viu pela primeira vez, você estava aprendendo a falar, e não parava de apontar para a minha direção... Esticava os bracinhos, isso me assustava.
Não deixei de rir junto com ele. Pensar que um bebê, provavelmente querendo um abraço o assustaria, não deixava de ser cômico.
— Não ria assim, você me dedurou, sabia?
O que eu podia fazer além de rir mais?
— Dedurado por uma criança que nem sabia falar... Desculpe, mas é engraçado. — Comentei, dando uns tapinhas em seu ombro, logo em seguida, o abraçando — O que posso fazer? Ele tinha me acostumado aos seus abraços desde sempre — o mesmo também sorriu. Céus, o sorriso dele era realmente o mais bonito que já vi em toda minha vida.
— Sim, graças a você, eu passei por dificuldades, sabia?
Me olhou como se me culpasse.
— Sua mãe ficava muito atenta e, bem, ela tinha uma aura defensiva muito forte quando se tratava de você. Hoje eu a entendo.
— Ela era uma boa mãe... — Minha mãe ainda era um assunto sensível, o qual eu raramente tocava, justamente por eu ser tão facilmente afetada por ele.
— Sim, ela era. — Ele completou.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, até que eu resolvi acariciar sua mão direita, ganhando sua atenção.
— Ela sabia o que você era, certo? — Perguntei e apenas o som do vento foi ouvido, antes dele suspirar e voltar a falar.
— Sendo sincero, nem mesmo eu sei o que sou... Não posso confirmar, apenas, sei que possivelmente vocês foram as duas mulheres com a maior empatia que já vi, tanto em vida quanto agora...
— Eu sei que não lembro do meu passado, de nada, mas... É o que eu sinto, como uma afirmação instintiva... Desculpe por não poder explicar isso de forma melhor.
Direcionei minha mão até sua bochecha, fazendo um pequeno carinho nela, aquela era a pele era mais macia que a de um bebê.
— Está tudo bem, sentimentos são a parte mais complicada da nossa existência... Tudo bem não saber de tudo... Vamos tentar aprender mais quando a gente voltar, tudo bem? — Ele abaixou a cabeça, fazendo com que seu cabelo cobrisse seus olhos, pela primeira vez, quebrando nosso contato visual.
— Hey... Não chora...
— Não estou...
Ele claramente estava chorando, era engraçado como as vezes ele podia parecer tão sensível. Isso não era algo ruim, ele apenas tinha sentimentos...
Com a manga de sua camisa branca, ele enxugou as próprias lágrimas, ainda escondendo-as de mim. Eu não iria força-lo a me mostrar, então apenas permaneci acariciando seus cabelos, eles eram um tanto grossos, resistentes, mas ainda assim conseguiam ser macios, com fios brilhosos.
Quando senti seu braço, me puxando mais para perto, me aconchegando mais nele, percebi que finalmente iria continuar. Jimin tinha seu próprio ritmo, um ritmo confortável, sem muita pressa, porém, a cada palavra dita, eu sentia o quão sinceras elas eram.
— A primeira vez que sua mãe se pronunciou para tentar falar comigo, eu não a respondi, na verdade, não sabia como fazê-lo... Era uma mistura de ansiedade e medo. — Sorriu fraco. — Não a culpo. Ela fez perguntas, mas, não pude responder. Mas, eu lembro dela falando que não se importaria de me deixar ficar o tempo que quisesse, desde que eu fosse bom para você.
Por que não estava surpresa? Foi ela quem colocou na minha cabeça que ele era meu anjinho.
— Eu não fazia ideia do que ela estava falando, mas, aos poucos eu fui entendendo.
Desde sempre, você sempre vinha em minha direção, você sempre sabia onde eu estava, mesmo que não tivesse sensibilidade o suficiente para ver a carcaça que estava lá.
Fechei o cenho, não gostava do modo como ele havia se referido a si mesmo, por mais que ele provavelmente fosse diferente do que é agora, ainda assim, isso me incomodava e muito.
— Ah, não, não faça essa cara.
— Anjos não deveriam falar assim, sabia? — Falei, teimosa e o mesmo sorriu.
— Tudo bem, senhorita! Eu não vou mais falar desse jeito, feliz?
— Que não se repita! — E o mesmo caiu na gargalhada.
Me perguntava se ele também achava divertido na época em que eu apenas "falava sozinha", reclamando de não poder vê-lo devidamente.
— Certo, certo, a senhora que manda.
Eu que lutasse, pois sua risada poderia facilmente se tornar um vício para mim.
— Você lembra da primeira vez que me chamou de "Anjo"? — Neguei, para mim, eu sempre tinha chamado-o dessa maneira, era algo natural para mim. — Eu não quero mais esquecer daquele momento... Até então, eu não era nada além de um ser perdido, mas, naquele dia, você falou, enquanto rezava... "Obrigada, senhor, pelo meu Anjo".
— Ah, isso é meio vergonhoso!
— Foi fofo... Mas, graças a observar você, sua família, eu pude recobrar o que era uma vida humana.
Era estranho pensar assim, nunca tinha ouvido falar sobre isso. Se bem que, duvidar de alguma coisa, depois de chegar onde estávamos... Algo meio idiota de se fazer.
— Não acredita?
— Sim, eu só... Não tô acostumada, é estranho pensar assim... Não é como se eu fosse especi... — Ele pôs seus dedos sobre meus lábios, me interrompendo.
— Você é especial para mim.
— Se hoje eu pude relembrar o nome "Park Jimin", foi graças a você. Mesmo se eu estiver completamente errado, eu quero permanecer assim, te protegendo e ajudando, olhando por você. Porque você quem deu um objetivo para não me perder na ignorância e no desespero.
Pela primeira vez, eu fiquei feliz em perder praticamente todas as palavras do meu vocabulário. Porque ouvir aquelas palavras me fez muito feliz.
— Obrigada, Park Jimin!
— Eu que agradeço.
Conversamos por um bom tempo, eu de alguma forma sabia que o estava prendendo dentro da minha realidade, geralmente, quando ouvia relatos sobre esse tipo de história, o certo seria deixar o outro livre, e seguir em frente, mas... Me parecia exatamente o contrário.
Jimin era mais como alguém que precisava cumprir algum tipo de missão antes de prosseguir.
Se eu realmente tinha algum tipo de ligação, iria dar meu máximo para ajudá-lo.
Vi aquele homem voltar, sua volta era o aviso de que nosso tempo daquele jeito havia acabado e tudo voltaria ao normal.
Eu voltaria para o meu corpo, para o meu plano e realidade. Eu não veria mais o Jimin, não sabia se poderia me comunicar com ele melhor, depois de todo esse contato. Bem, ao menos uma coisa eu havia compreendido...
— Então, estão prontos?
Perguntou, com as mãos postas na cintura, olhando para nós de forma curiosa.
Eu e Jimin nos entreolhamos por alguns segundos e afirmamos.
— Ótimo, vou levar vocês de volta. Me sigam.
Caminhamos por um caminho muito semelhante ao do meu mundo, porém, tudo tinha uma uma roupagem antiga, desgastada. Andamos até chegarmos em uma porta de madeira.
A porta era estranhamente bonita e conservada. Destacava-se ao meio de todas as casas que passamos pelo caminho.
— Vocês apenas precisam abrir a porta e passar. Espero que nunca mais apareçam por aqui, podem não dar a mesma sorte.
Sorriu, obviamente curioso com o que tínhamos conversado. Infelizmente as explicações não seriam algo que tínhamos certeza, mas era algo que acreditávamos.
Caminhei para frente, e abri um pouco a porta, nada parecia diferente, ainda era possível ver casas desgastadas e o chão de terra.
— Antes da gente ir... — Parei e olhei para o homem de estatura mais alta. — Sei que é contra as regras mantermos tanto contato, mas, poderia saber o seu nome?
Ele me olhou um tanto surpreso, mas apenas deu uma risadinha, cobrindo o rosto com as mãos, embora as covinhas em suas bochechas fossem bem visíveis, ele tinha uma risada fofa, até.
— Kim Namjoon.
— Kim Nam... Joon... — Murmurei em um método de memorização. — Não irei esquecer o que fez, obrigada!
— Apenas vão logo! — Seu tom ainda era agradável, e seu sorriso ainda mostrava covinhas fofas em suas bochechas.
Não tinha mais porque perder tempo naquele mundo, e finalmente atravessei a porta, ainda insegura sobre se voltaria mesmo, se algo teria mudado em minha sensibilidade espiritual...
E o escuro novamente tomou meus olhos.
Quando acordei, estava na cama, podia ouvir os passos de Jiwoo de um lado para o outro, minha mão era segurada por Hoseok, que estava de cabeça baixa, enquanto que ao fundo, ouvia a avó deles falando para eles se acalmarem.
Em meio a todos aqueles sons, eu sentia meu corpo um pouco pesado, dolorido, mas nada que não desse para aguentar. Tudo o que pensei foi olhar para o lado e logo pude colocar a prova, o que tinha compreendido durante aquela provável viagem astral.
Jimin estava ao lado da minha cama, ele olhava para mim, com expressão preocupada...
Não era mais apenas aquela presença, era o próprio.
Não pude impedir as lágrimas de descerem pelo meu rosto e um sorriso se formar em meus lábios. Claro, assim que Hoseok percebeu, o mesmo me puxou para um abraço, dizendo o quanto que estava preocupado comigo.
Jiwoo também acabou se juntando ao abraço.
— Eu disse que vocês não tinham com o que se preocupar! A menina tem uma forte defesa contra energias ruins, isso sem contar que ela não está sozinha. — Piscou um de seus olhos para mim, e concordei, novamente encarando Park Jimin.
Embora estivesse cansada, falei sobre a viagem astral, ou seja lá do que chamassem aquela experiência que eu tive.
Contei sobre algumas coisas que aconteceram, e quando citei o nome "Park Jimin", Jiwoo se ofereceu para me ajudar a procurar mais informações sobre ele.
Meus dias melhoraram, eu tinha conseguido um novo emprego, o qual me proporcionou oportunidade de sair de casa, conversava com meu melhor amigo, tentava escolher para qual faculdade eu iria. Meu pai passou a ser mais gentil comigo e parou um pouco de dar tanta atenção para a mulher dele.
Medo?
Não me importava, para aquele ponto do jogo da vida. Minha felicidade naquele momento era que até mesmo ouvir a voz de Jimin, eu podia. Era incrível como, literalmente de um dia para o outro, pudesse ouvir e conversar com o mesmo sem barreiras nenhuma.
A única coisa que realmente havia mudado, era que agora eu podia controlar minha energia melhor, apenas acreditando.
O que era estranho, pois não podia responder os comentários que meu anjo fazia em público e isso era doloroso.
Era por volta das 09:15 da manhã, quando meu celular começou a tocar, era meu dia de folga, então estava jogada na minha cama, assistindo qualquer coisa pelo celular, quando o atendi.
Era Jiwoo, a mesma falava em um tom alegre e vívido. O modo como aqueles dois irmãos eram energéticos durante praticamente 24 horas por dia me deixava estonteada.
— Espero que esteja disposta a sair agora, pois eu tenho que te falar algo! Venha pra lanchonete do Jin em meia hora! — A audácia!
— Posso ter um spoiler sobre o assunto? — Perguntei, me revirando na cama, ainda repleta de preguiça.
— É sobre o Jimin... Talvez eu tenha descoberto algo...
Não foi preciso mais nada, como se a cama estivesse pegando fogo, pulei da mesma e corri para o banheiro, ouvindo reclamações do próprio Jimin, sobre eu poder escorregar, por isso não deveria correr.
Basicamente ignorei tudo até chegar na lanchonete. "Meia hora"? Eu cheguei em poucos minutos.
Jiwoo estava sentada em uma mesa, ao fundo da loja, a mesma se encontrava mexendo calmamente em seu celular, enquanto um milkshake simplesmente derretia ao lado direito, na mesa.
Corri ao seu encontro, a cumprimentando e a mesma foi direto ao assunto.
De dentro de uma pasta, ela tirou uma papel, no qual havia uma lista com o nome e fotos de pessoas desaparecidas.
E dentre elas, a foto dele estava estampada.
"DESAPARECIDO
Park Jimin.
A última vez que foi visto, era por volta das 18:00, o jovem de 22 anos, voltava de seu trabalho, vigia, o qual naquele dia estava no turno diurno.
Qualquer informação, por favor ligar para o número xxx xx xxx-xxxx-xx
A família agradece a qualquer informação que seja dada."
Senti um arrepio correr minha espinha, Jiwoo também me encarava séria, a expressão de Jimin era um misto de tristeza e curiosidade.
Soltando um suspiro pesado, Jung tomou um gole do seu milkshake, logo o deixando de lado novamente.
— Essa lista é um pouco antiga, mas, nenhuma dessas pessoas foi encontrada até os dias de hoje, nem mesmo um pertence. — Ela segurou minha mão e continuou. — Não acha que, o motivo dele ainda estar aqui seja porque seu corpo nunca foi encontrado?
Quando tinha decidido que procuraria por informações sobre Jimin, acabei esquecendo de certas coisas, de como a morte é algo assustador.
De como as coisas do mundo são. Tinham muitas coisas que se passavam pela minha cabeça, mas, ao menos demos um passo.
— Você não precisa se forçar. — Ele segurou minha mão, como sempre fazia, mas aquele toque também era a motivação que eu precisava para me mover.
— Eu estou decidida. Eu vou dar um jeito e eu vou encontrá-lo.
— Você tem ideia que já fazem décadas? Como você vai encontrá-lo? — Perguntou, apoiando seu rosto em uma das mãos, me encarando.
— Eu vou dar o meu jeito. Nem que eu tenha que levar a vida toda, eu vou tentar!
Talvez Jiwoo quisesse protestar de alguma forma, mas ela não o fez. Apenas me desejou sorte.
Conversamos durante um tempo, muitas coisas se passavam pela minha cabeça, como eu iria prosseguir com esse meu objetivo...
Ficamos assim durante umas boas horas, tínhamos apenas nós duas e os funcionários, que já começavam a guardar e arrumar as mesas para fecharem a lanchonete, além de um Hoseok, que tinha ligado para sua irmã, reclamando de tê-lo deixado sozinho, com uma tia chata, que tinha ido os visitar.
Era noite de lua cheia, tudo estava bem iluminado, era fácil de ver o caminho, mesmo assim, as ruas estavam ainda mais desertas, mesmo aquela sendo uma cidade grande.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você tem certeza que quer fazer isso? — Perguntou Jimin, caminhando ao meu lado.
— Sim. Eu quero arrumar um jeito de te agradecer por ter cuidado de mim esses anos todos.
— Não tem que agradecer, por enquanto, esse é o meu objetivo.
— Que objetivo, Jimin? — Revirei os olhos.
— Te proteger, e te guiar pra você seguir o seu caminho.
Naquele momento, passávamos por uma área que estava ainda em construção, ao longe pude ver o tal colega de Hoseok, o Jungkook.
Não sabia o que ele estava fazendo naquele lugar, mas, a claridade que a lua proporcionava, fez com que eu notasse que seu rosto estava machucado.
Ponderei por um tempo o que eu iria fazer, eu estava ainda com pouca confiança, eu já estava acostumada com o Park me impulsionando para situações como aquelas, sabia que, por causa delas que a minha vida seguiam em frente.
— Jungkook! — Direcionei meus passos, os apressando mais até começar a correr em direção ao garoto.
Se eu iria seguir em frente, ou não, eu estava vivendo, uma coisa de cada vez, ou tudo de uma vez.
Isso não me importava.
Pois, eu sabia que estava vivendo.
Notas finais
Eu posso até ser curiosa, mas o medo fala mais alto kkkk
Por conta disso não coloquei muita narrativa de terror, ME PERDOEM!!
Não nomeei os lugares, pois creio que vocês já sabem um pouco sobre o lugar que eu estava me referindo.
Não sou uma especializada, pois não é a religião que eu pertenço, porém, tentei escrever de forma mais respeitosa possível.
Me perdoem qualquer falha, essa fanfic não foi betada nem nada, por isso devem aparecer erros que passaram despercebidos por mim.
Novamente, sinto muito por qualquer erro,
E é isso. Espero que tenham gostado da história.
Eu não esperava que ela fosse ficar tão grande assim, eu JURAVA que ela não iria passar das 2000 palavras... Iludida, eu!
Que mais inspirações surjam na minha vida e que eu consiga terminar as que eu comecei kkkk
Feliz Natal pra quem leu até aqui!
Muito obrigada, se você leu isso tudo, você é incrível!
Beijinhos ❤❤❤
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