Chegamos ao palácio, onde uma comitiva nos recebeu. Áurea estava de prontidão para ajudar os feridos, enquanto as fadas ofereciam “comida” e roupas a quem quisesse.
Joseph ainda estava ao meu lado quando ouvimos uma pequena comoção na entrada do palácio. Abrimos caminho até lá, para ver Hadrian segurando uma Verena inconsciente e ensanguentada. Os cabelos claros dela estavam sujos e bagunçados, seus braços cheios de machucados que sangravam cada vez mais. Eu não sabia que era possível um vampiro sangrar assim, sem se curar. Hadrian estava desesperado. Alguém trouxe uma maca e colocaram Verena ali, e uma equipe levou ela para um lado enquanto outra levava Hadrian para o outro. Joseph seguiu Hadrian e me deixou ali, sozinha.
Não tinha nada que eu pudesse fazer para ajudar, então junto com outros subi para o quarto e comecei a encher a banheira.
Desliguei a água e estava separando minhas roupas quando Joseph apareceu, do nada, na porta do quarto. Seu rosto entregava o alívio que era me ver ali, só com um roupão branco, e a preocupação por Verena. Sorri para ele, que se aproximou.
— É ótimo te ver aqui. Não sabe o quanto me preocupei com você lá fora.– diz ele, me abraçando.
— Eu me preocupei também, Joseph.- beijo seus lábios, de leve.
— Você é uma ótima lutadora, Mandy. Se não fosse tão perigoso, eu lhe diria para se tornar uma caçadora.- Comenta.
— Sou mesmo. Eu derrubei vários lobisomens!
— Verdade. E de vários jeitos inovadores!
Rimos juntos. Aparentemente, ninguém nunca tinha pensado em arrancar corações.
— Vou te deixar tomar banho. Nos encontre lá embaixo depois que terminar.
Joseph sai e fico sozinha novamente. Tiro o roupão e entro na banheira. Minhas roupas ficaram ensanguentadas, mas felizmente meu corpo não. As pequenas manchas de sangue nas minhas pernas e braços saem facilmente com a esponja. Lavo os cabelos, mergulhando na banheira. Quando termino, visto um vestido branco e leve, como tudo naquele lugar. Tanta brancura e delicadeza já estavam me irritando.
Desso até o primeiro andar, como me foi pedido. Todos os outros estavam ali, exceto Hadrian, Verena e as irmãs; quem estava ali parecia apreensivo, principalmente os mais antigos da Liga.
— Irmãos e irmãs – Lilith sobe na mesa e começa o discurso – Todos lutaram bravamente hoje. Tivemos algumas baixas, mas todos tínhamos a noção de que isso poderia acontecer. Todos estão de parabéns. Por hora, Harriet não deve atacar em breve. Mas lembrem-se de que o perigo ainda existe. Agora, todos devem se alimentar, pois amanhã voltaremos para casa. Para os que querem notícias, Verena deve ficar bem. Ela está sendo cuidada por Amélie e Áurea, e mais duas bruxas de confiança. Agora, por favor, relaxem e se alimentem.
Lilith termina e desce da mesa, sentando-se em seu lugar. Ganhamos bolsas de sangue mais uma vez, acompanhadas das expressões de nojo das fadas mais jovens. Recebo a tarefa de levar bolsas para Hadrian e as irmãs no quarto. Alguém me mostra o caminho e vou, sozinha. Bato na porta e sou atendida por uma fadinha, que me deixa entrar.
O quarto está uma bagunça, e as duas bruxas fazem algum feitiço com os olhos fechados de um lado, enquanto as irmãs tocam Verena de outro. Hadrian está parado perto da janela, preocupado. Toco seu ombro e lhe entrego as bolsas, saindo logo em seguida.
Encontro Joseph no quarto, deitado na cama. Me deito ao seu lado. Ele olha para mim de lado, sem mover a cabeça. Percebo que ele não vai falar nada. Eu também não tenho nada a acrescentar, por isso só ficamos ali, deitados lado a lado. Penso que vamos passar a noite assim e não me importo, só queria sua companhia, mas me engano quando ele me puxa e beija meus lábios. A posição era meio desconfortável, por mais que os beijos fossem bons, por isso o empurro, nos separando. Ele me olha confuso. Coloco minhas pernas dos lados de sua barriga e me abaixo para beijá-lo. Ele corre as mãos pelas minhas costas quando faço isso, retribuindo. Em certo momento, ele segura minha cintura com força e nos vira, me deitando de costas no colchão e ficando por cima de mim.
Horas depois, estamos novamente deitados lado a lado. Sento, apoiada na cabeceira da cama, e ele faz o mesmo.
— O que Harriet fez conosco?
— Ela nos fez humanos por alguns segundos. É uma das habilidades dela. E nós, como humanos, já estamos mortos. Você não se lembra, mas aquela foi a dor que sentiu quando caiu. Pelo jeito, você quebrou a coluna. Mas eu não sei como morreu.
— Eu caí de um precipício e quebrei a coluna e praticamente todos os ossos do meu corpo. Você caiu no lago e morreu de frio. Harriet tem uma boa arma.
— É verdade.
— Por que ela me quer no time dela?
— Porque você tem uma habilidade que ela não tem no acervo. Ela me quer também, mas você seria mais útil.
— No que ela estava pensando?
— Como assim?
— Ela pensou em alguma coisa no campo. O que foi?
— Ela me fez ver todos que eu amo morrendo. Hadrian, Verena, Lilith, Amélie, Áurea, Petrus, Valentim, Aaron, Arthur. Você. Mostrou toda a Liga morta, a mansão em chamas. Essas coisas. E eu sozinho.
— Sinto muito, Joseph.
— Tudo bem. Já acabou. Estamos todos bem agora. Amanhã voltaremos para a casa, e tudo isso vai ficar para trás.
— Tá bom.
Passamos o resto da noite discutindo banalidades, até que o sol surgisse no horizonte. Desta vez, não iríamos no barco grande, e sim em vários barcos pequenos.
“Você se importa se eu for com Hadrian e Verena?” foi o que Joseph me disse antes de partimos. “Capaz, claro que não” foi o que respondi. Agora, eu estava no barco com Áurea e Amélie, rindo muito e ouvindo elas tagarelarem sobre as fadas e como os homens de lá eram bonitos. O barco era movido a motor e nos revezávamos na direção. Por mais que a viagem estivesse muito divertida, estávamos muito para trás dos outros.
Em dado momento, Áurea, que dirigia, parou o barco.
— Áurea, o que foi? Quer nos deixar mais para trás ainda?
— Amélie, irmã, sabe onde estamos?
— Sim. No meio do oceano, consideravelmente atrasadas.
— Não. Estamos perto da Fenda.
— Fenda?- Disse eu, confusa. O que era a Fenda?
— A Fenda, Mandy – Amélie resolveu me explicar – é um lugar muito mágico onde vive uma colônia de…
— Sereias! — Áurea interrompe a irmã- Por favor, vamos lá, Amélie. Mandy não conhece as sereias, e elas são muito incríveis, Mandy!
— Acho que tudo bem. Você quer ir, Mandy?
Penso por um segundo. Já estávamos longe dos outros mesmo, e quando eu teria uma chance dessas de novo? Por que não, então?
— Claro. Vamos!
Em um movimento rápido, Áurea vira o barco e disparamos pelo oceano. Em pouco tempo, ela anuncia que chegamos, tirando os sapatos e pulando na água. Ninguém me avisou que teríamos que mergulhar, mas faço o mesmo que ela e me jogo na água salgada e fria. Meu vestido sobe e o puxo para baixo, mas não adianta nada. Pelo menos enquanto nadamos ele fica no lugar certo. Eu e Áurea esperamos por Amélie, que logo se junta a nós. Mergulhamos e vamos descendo, até chegarmos a tal da fenda. Entramos ali e logo avistamos luzes coloridas. Vejo uma cidade de mármore e ouro, brilhante. Entramos pelo arco e logo podemos ver as maravilhosas mulheres, com cabelos longos e caudas reluzentes e coloridas. Era tudo muito bonito.
— Áurea, Amélie, minhas queridas! — Uma garota da nossa idade, os cabelos azuis volumosos e a cauda também azul se aproxima de nós.
— Blue!
— Quem é esta menina, garotas?
— Essa é Mandy, Blue. — Amélie me apresenta. — Mandy, esta é Blue.
— Prazer. — Digo à Blue, que sorri.
— O prazer é meu, amada. Então. Qual é a história dessa garota?
— Mandy é nova. — Áurea começa. — Arthur a transformou sem querer. Ela caiu do precipício. Tem umas habilidades muito legais. Todo mundo gosta dela. Ela já deu uns pegas no Joseph.
— Áurea! O que ela vai pensar de mim assim?
— Ah, querida, fica tranquila. Quem não gostaria de pegar aquele vampiro maravilhoso? Só que ele nunca quer ficar com ninguém, então parabéns, hein!
Dou uma risadinha. Realmente, quem não gostaria de ficar com Joseph? Ele realmente era maravilhoso e beijava tão bem…
Blue nos leva para sua casa, toda decorada com conchas e estrelas do mar. Tudo ali era muito bonito. Depois de duas horas, Amélie notou que todo mundo já devia ter chegado e resolveu se levantar.
— Blue, sentimos muito, foi ótimo te ver, mas devemos ir. Vamos, meninas?
— Oh, tudo bem. Voltem sempre para matar a saudade! Adorei te conhecer, Mandy!
— Igualmente!
Voltamos para o barco e andamos o mais rápido possível até chegarmos à costa. Todos os outros barcos já estavam ali. Corremos, na tentativa de alcançar o grupo, mas eles estavam há mais de duas horas na nossa frente. Continuamos correndo até que, horas e horas depois, chegamos na mansão. Joseph nos esperava na porta, irritado. Nos aproximamos, as três, morrendo de medo do sermão que levaríamos.
— Onde estavam as três madames?
— Estávamos com as sereias- Amélie responde, dando um passo a frente.
— E nem pensaram em me avisar? Todos ficaram preocupados com vocês.
— Ah, qual é, Joseph. Foram só algumas horas. Relaxa.
— Relaxa? Amélie, estamos no meio de uma guerra, sabe o que isso significa?
— Não aconteceu nada.
— Mas podia ter acontecido.
— Foi ideia minha. — diz Áurea. — Eu queria ir visitar as sereias.
— Eu também queria. — Minha vez de falar. Não podia deixar que levassem a culpa sozinhas.- Amélie disse para não irmos, mas a convencemos mesmo assim.
— Vocês não podem fazer isso sozinhas, entenderam? Não sem avisar ninguém.
— Ah, mas por favor, Joseph! Deixa de ser tão careta.- Áurea o interrompe. Ele olha para ela com raiva.
— Sie wissen, was passieren kann! Wir sind im krieg ich glaube nicht, dass das Meer nicht weiß was passiert ist.
— Es ist nichts passiert!
— Konnte aber, Amélie.
Amélie revira os olhos e entra na casa. Áurea olha de relance para mim e segue a irmã. Fico sozinha, cara a cara com Joseph. Ele se aproxima de mim e me abraça, me pegando de surpresa.
— Não faça mais isso. Nós estamos em guerra. Não sabemos o que pode acontecer.
— Tudo bem. Sinto muito por preocupá-lo.
— Não importa agora. E então, o que achou das sereias?
— Ah, são maravilhosas! A cidade é muito linda.
— Verdade.
— Como está Verena?
— Muito melhor. Já acordou e está de pé. Hadrian está mais que feliz. Vamos entrar?
— Claro.
Fale com o autor