O Mundo de Narem
6 O Dente-de-leão
Notas iniciais

Pronto! Este é o meu quarto!
– Muito bonito, menina Sofia! Onde poderei me acomodar?
Sofia pareceu pensar por um momento. Logo decidiu:
– Um segundo! Vou pegar umas coisas que te servirão!
A garota sai atrás de algo. Procura em cima de seus armários, em suas gavetas, e embaixo da cama. Até que encontra uma grande mala, encoberta de poeira. Ao abri-la, se depara com uma casa de madeira velha, provavelmente de uma boneca antiga. Pega um pano que estava no armário, e passa a limpar a pequena casinha. Deixa a casa de madeira, desenhada com pequenas flores rosadas, e apanha móveis do tamanho de sua mão: uma caminha laranja, com um colchãozinho, um travesseiro e um lençol, algo que parece um criado-mudo, e por fim, uma banheirinha. Após todos serem limpos, e arrumados, a menina decidiu perguntar:
– Então, o que achou da sua nova casa?
– Viva os deuses do Sol e da Lua! Está melhor do que poderia imaginar!
– Sabe, é melhor você diminuir um pouco. Talvez uns 10 centímetros sejam suficientes para você caber aí direitinho!
– Oh, sim! Sofia, tens toda a razão!
E assim, o pequeno e velho Sammy, diminuiu e adentrou em seu novo lar. Estava certo que ele não tinha um teto, mas as paredes cobriam cada pedacinho. A caminha era macia e aconchegante, o criado-mudo era espaçoso, e a banheira era grande o suficiente para ele.
– Pegue, aqui tem água e um pedacinho de sabonete pra você tomar banho! Ah! Ia esquecendo! Esta aqui é sua toalha! – disse ela entregando um pedaço de pano. – Sabe, eu só não sei se posso providenciar roupas...
– Quanto minhas roupas, não se preocupe! Eu as trouxe comigo.
E puxou uma malinha minúscula do cinto. E quando a abriu, um montueiro de roupas caiu aos seus pés. Arrastou todas para um canto, e se jogou na cama. Sofia teve a certeza de que ele estava se sentindo em casa, pois já começara a bagunçá-la.
– Bom dia!
– Bom dia!
– E então, Sammy se acostumou com a nova casa? – perguntou Miguel.
– Absolutamente! Eu achei uma casinha velha de boneca, e ele gostou bastante.
– Ninguém o viu, não é?
– Tenho certeza que não! Não se preocupe, ele estará seguro! Aliás, pegue. Leve ele com você.
Miguel apanhou Sammy, que lhe deu um “Oi!”, mas logo foi guardado no bolso de seu casaco.
– Vamos para Narem hoje, não vamos? – perguntou ele.
– Claro que vamos! Não temos mais nada pra fazer...
Assim, os dois montaram em suas bicicletas e partiram para o início da trilha que os levaria até o mundo mágico que era Narem. Mas, quando chegaram, sentiram que algo estava estranho. As sereias estavam do lado de fora do lago, conversando agitadas. Mas, quase nunca elas saíam de lá. Os duendes estavam junto delas, alguns choramingando alto. Os centauros estavam com suas espadas, prontos para atacar a qualquer sinal. Mas, o pior de tudo, era que Narem não parecia Narem. Tudo estava estranhamente apagado. Os cabelos das sereias pareciam palhas de aço, não eram mais macios. Os centauros estavam com menos pêlos do que o habitual, e os duendes estavam fraquinhos, não conseguiam segurar uma sacola sequer. A única que parecia inatingível, era a rainha Lydia.
– O que houve aqui? – perguntou a menina quando chegou perto deles.
– Um desastre menina palha! Um verdadeiro desastre! – gritou o duende mais próximo.
– Sim, Sofia... Um desastre – repetiu Lydia.
– Mas... O que aconteceu? – indagou Miguel.
– O dente-de-leão. Ele foi roubado!
Quando ditas estas palavras, mais duendes passaram a choramingar, muitas das sereias juntaram-se a eles.
– Dente-de-leão?
– Sim! Era o que sustentava o Sol supremo de Narem, e era o Sol que nos sustentava! Estamos fracos, sem poderes, sem mais nada... – explicou Lydia.
– Como assim roubado? Por favor Lydia, nos explique melhor! – pediu Sofia.
– Aqui em Narem, possuímos um deus supremo. Que é o Sol de Narem. É como a estrela gigante dos humanos, mas o nosso é inteiramente colorido, cheio de vida, cheio de magia. Mas, um pouco abaixo dele, era cultivado um único dente-de-leão. Nunca entendemos o porquê, mas era aquele pequeno dente-de-leão que sustentava o nosso Deus. E hoje, tudo nos céus escureceu de repente, os seres perderam sua capacidades mágicas, as flores murcharam, todos enfraqueceram... E quando vimos, o dente-de-leão havia sumido. E o sol... Bem, a cada minuto, ele diminui! Se não acharmos o dente-de-leão em vinte e quatro horas, todos morrerão.
Os amigos olhavam-se incrédulos. Quem seria capaz de fazer uma brutalidade dessas com os seres de Narem?
– Mas, isso não é o pior de tudo – continuou Lydia. – Há uma lenda histórica que diz: “No momento em que o Sol de Narem for dizimado, onde estiver magia, ela sumirá. E onde a magia não estiver, ela retornará”. Isso quer dizer, que enquanto nós perdemos nossas forças, nossas maiores inimigas retornarão para se vingar.
– Mas quem poderia ter feito isso? Quem seria capaz de querer ver o próprio povo dizimado, sendo levado para as trevas? – indagou uma sereia.
– Lydia, você tem alguma idéia? – perguntou Miguel.
– Imaginamos. Mas a nossa teoria é praticamente impossível! Não pode ser o que imaginamos, jamais aconteceria...
– E qual é a teoria de vocês?
– Que as fadas tenham conseguido ultrapassar o escudo e tenham roubado o nosso dente-de-leão. Achamos que elas estarão aqui em breve, prontas para nos matar. Um por um, sem dó nem piedade.
– Como elas teriam conseguido fugir?
– Não sabemos... Por isso digo que isso é impossível!
– Mas, nós não podemos ficar aqui parados! Devemos ir atrás do dente-de-leão! – berrou Sofia.
– Há um problema. Do mesmo modo que elas não podem passar para nosso lado, também não podemos ultrapassar o Vale das Fadas! Apenas... apenas humanos conseguiriam.
Sofia e Miguel olharam-se por alguns minutos. Os dois entendiam o que o outro queria dizer apenas com o olhar. E eles estavam decididos a ajudar o povo que os acolheu tão bem, que os recebeu da melhor maneira possível.
– Então, nós iremos entrar no Vale das Fadas – disse Miguel. – Elas ainda estão sem poderes, talvez a gente consiga. Traremos o dente-de-leão de volta.
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