O Mundo Secreto De Ágatha.
18 Abandonada no Reino do Norte
Notas iniciais
Ouvi a voz do garoto ao longe me perguntando o que havia acontecido. Respondi de maneira polida e rápida que eu havia quebrado as costelas e por isso mancava daquela maneira. Eu mal conseguia encara-lo de tão constrangida que eu estava. Eu nem conhecia aquele soldado, ou seja lá o que fosse, e sua mão se encontrava na minha cintura tentando me dar apoio. Eu estava receosa, percebi certa possessividade naquele gesto. Por um segundo um pânico irracional me atingiu. Aquele cara poderia fazer o que bem entendesse devido ao meu estado debilitado. Lembrei-me, porém, de que sou uma espadachim treinada e mesmo com uma fratura posso me defender.
Eu estava com muita raiva de Diogo por simplesmente me abandonar em uma lugar estranho em que eu não conhecia ninguém! E se o rapaz fosse um assaltante, meliante, ladrão, assassino, sei lá! As paredes de pedra crua do castelo me provocavam com suas reentrâncias como se olhos me observassem de todos os lugares, como se tudo aquilo fosse uma grande armadilha. E poderia ser! E mesmo assim Diogo foi embora! E o que me irrita mais é que eu não queria precisar dele, mas se fosse mesmo uma armadilha eu bem que poderia usar um par de braços a mais. E um par de costelas novas não seria nada mal.
─ Pode andar? ─ Perguntou o rapaz retirando-me dos meus devaneios.
─ Acho que sim. ─ Respondi praticamente monossilábica. Minha voz se resumia num fino resquício de som. Olhei rapidamente para o seu rosto e me espantei. Não porque ele me encarava, eu já havia sentido seu olhar, mas porque ele possuía um olho azul bem claro, chegando quase ao branco.
Sim, isso mesmo UM olho. Seu outro olho era escarlate. Uma cicatriz disforme transpassava seu olho, como se alguma coisa o houvesse machucado e o seu sangue houvesse tingido a cor da íris. Mas aquilo não o deixava feio. De maneira nenhuma. Dizer que o garoto era bonitinho seria uma calunia. Se eu pudesse resumir Sexy em uma palavra, ah meu deus com certeza seria seu nome, seja lá qual for.
Seus cabelo era cinza. Isso mesmo. E aquele estilo acabei-de-acordar-e-não-achei-a-porcaria-do-pente me lembrava um pouco Jack Frost. Um desenho que eu gostava. Ele tinha uma áurea que me sugava e me intrigava. Era convidativo. Seu olhar duro; seu perfume, uma mistura doce de pinho, eucalipto e um cheiro masculino inebriante; seu queixo... Na verdade confesso que estava um pouco desapontada por ele ser tão bonito. Sabe como é, concorrência deve ser grande. Mas no momento eu estava embasbacada de tal maneira que tudo que eu conseguia fazer era encara-lo intensamente e tentar balbuciar alguma palavra que se aproximasse do português. ─ Seus olhos. ─ Murmurei.
─ É eu sei. ─ Disse sem graça. E lá se foi minha primeira impressão. O cara devia escutar aquilo todos os dias.
─ Desculpe-me. ─ Falei recompondo-me. Ainda estávamos parados no mesmo lugar em que Aquele-cara-que-eu-estou-com-raiva-demais-pra-falar-o-nome me abandonara ao meu próprio destino com o garoto dos olhos coloridos. Será que ele não havia percebido nada? ─ Eu nem ao menos perguntei seu nome. ─ Continuei. Ele me olhou espantado. Seus lábios agora entreabertos pareciam ainda mais convidativos.
─ Você não sabe quem eu sou?
─ Deveria saber? ─ Perguntei desconfiada arqueando uma sobrancelha. Sabia que ele seria convencido. É um mal que abate a maioria dos caras da categoria decente pra cima no quesito beleza.
─ Provavelmente não. ─ Disse escondendo um sorriso torto. ─ Sou Jogral, mas pode me chamar de Jotta.
─ Sou Agastar. ─ Me apresentei de forma meio ríspida. Ele não usava armadura, apenas uma fina camada de tecido branco e uma calça de couro preta. ─ Vim falar com o rei. Ele requisitou uma reunião. ─ Mudei de assunto, voltando a analisar a estrutura do castelo.
─ Estou ciente dessa reunião, porém receio que terá que esperar um pouco. O rei está ocupado no momento finalizando uma questão imprescindível para o reino. ─ Pensei ter sentido um leve tom de sarcasmo ao final da frase, mas ignorei.
─ E quem é você exatamente?
─ Sou Jotta. É o que precisa saber por enquanto. ─ Não sei se foi impressão, mas aquele precisa soou mais como um Vai. ─ De qualquer maneira, o rei está indisponível. Venha comigo, eu a farei companhia. ─ Eu queria ter negado. Seu ar convencido e mandão o repelia automaticamente, mas eu estava hipnotizada por seus olhos e também cansada. Precisava no mínimo sentar. Então em balbuciei um tudo bem e ele me levou para dentro das grossas portas de carvalho. O rapaz me conduziu até uma das salas laterais do corredor principal onde apenas uma governanta franzina e encurvada limpava os livros empoeirados das prateleiras. O quarto era de certo modo aconchegante e um sofá macio realmente marcou pontos positivos comigo.
─ Então você é uma espadachim? ─ Preguntou ele me ajudando a sentar.
─ Sim, e você?
─ Digamos que sim. ─ Sempre vago. Ele se apoiou em uma mesa em frente ao sofá, ficando mais ou menos sentado. ─ Qual a sua especialidade?
─ Espada e escudo e a sua?
─ Duas espadas. ─ Incomum. O primeiro que eu via em anos. ─ Então teoricamente somos inimigos?
─ Teoricamente concorrentes, mas acho que no momento não represento real ameaça. ─ Ele meneou a cabeça concordando. ─ Por agora. ─ Enfatizei. Ele sorriu discretamente.
─ Nós deveríamos treinar juntos algum dia...
─ Eu treino sozinha. ─ Falei rápido tentando me levantar. Ele sentou ao meu lado.
─ Porque não? Está com medo que eu te de uma surra? Não se preocupe eu pego leve.
─ Gosto de treinar sozinha. ─ Repeti ─ E sozinha implica dizer sem mais ninguém. ─ De repente me senti profundamente interessada pelo cabo da minha espada. Ele suspirou. ─ Você vive por aqui? ─ Perguntei mudando de assunto novamente.
─ Às vezes. ─ A governanta se aproximou lentamente. Na verdade alguns minutos se passaram até que eu percebesse que ela tentava vir em nossa direção. Talvez ela tenha começado a vir entre o teoricamente e o concorrentes.
─ Jogral, venha comigo. ─ Ralhou a mulher com sua voz que mais parecida uma lixa arranhando o metal e seu olhar de peixe morto.
─ Só um segundo. ─ Pediu ele sem desviar seus olhos dos meus.
─ Jogral... ─ Chamou ela com mais insistência e dessa vez podia jurar que vi um lampejo de raiva nos seus olhos.
─ Eu disse que já vou! ─ Gritou ele dando um soco na lateral do sofá e finalmente olhando enraivecido em sua direção. A mulher o olhou com desprezo reciproco. Ela se arrastou para a saída enquanto Jotta massageava suas têmporas. ─ Mulherzinha terrível essa. ─ Disse ele mais para consigo mesmo.
─ Porque? ─ Eu fiquei meio assustada com o desenrolar da cena, mas se esse cara é realmente perigoso, é melhor que eu não demonstre medo algum. Ele me encarou como se acabasse de lembrar que eu ainda estava ali.
─ Direi no nosso treino. ─ Respondeu com um meio sorriso.
─ Mas...
─ Assim que ficar boa. ─ Completou saindo em seguida e me deixando ali com cara de tacho.
E agora o que? Permaneci sentada por longos minutos tamborilando os dedos no apoio de madeira. Quem era aquele cara? Jotta parecia perigoso e ao mesmo tempo não. Sim confuso. Mas o que posso fazer? Ele é bipolar! Uma hora todo atencioso e engraçado e de repente vago e explosivo. Não vou mentir, a ideia de treinar com ele não me seduzia. Pode me chamar de louca por não querer vê-lo novamente, eu sei que ele é lindo, mas eu ainda tenho um pouco de amor para com minha própria carne e a ideia de ser morta/esquartejada/estuprada/ou seja lá o que ele pode fazer, não me atrai. Meu masoquismo não chega a esse ponto. Depois de vários instantes de profunda reflexão da minha parte Jotta retorna à sala e sem nada dizer me ajuda a levantar.
─ Aonde estamos indo? ─ Perguntei irritada.
─ O rei vai te receber agora. ─ Respondeu ele calmamente. Ele me encarou, sorriu discretamente e me conduziu de volta ao corredor principal. ─ Ele ficou terrivelmente penalizado pela sua fratura. ─ Jotta em um movimento brusco, me colocou no colo e subiu as intermináveis escadas. Fiquei tão surpresa com o gesto que quando pensei em protestar as escadas já estavam no fim. Ele voltou a me colocar no chão e pediu que um dos guardas me ajudassem. Por algum motivo os dois soldados pareceram relutantes em se aproximar.
─ Espera você não vem? ─ Ele sorriu tristemente.
─ Digamos que o rei não gosta muito de mim. ─ Ele piscou seu olho vermelho em minha direção e saiu. Esse Jotta é tão bipolar que estou começando a ficar do mesmo jeito. Nesse exato momento, por algum motivo, um sentimento de pena e tristeza me preencheu. Talvez ele não fosse assim tão perigoso. Ou será que era?
Fale com o autor