O Mundo Secreto De Ágatha.

12 Um cara no meu armário


Notas iniciais
Geeeente fiz com todo carinho espero que gostem. Amei escrever esse capitulo.

Sentei emburrada e ainda um pouco assustada em uma pequena bancada na cozinha.

‒ Vou fazer alguma coisa para comermos. ‒ Disse ele se dirigindo à geladeira em seguida ao fogão. Sua camiseta branca e encharcada nas costas, devido a um péssimo hábito dos homens de não se secarem direito, estava transparente e percebi curiosa e confesso, com um pouco de medo, que manchas roxas enormes e cicatrizes disformes cobriam toda a extensão de suas costas. Sabe-se lá mais onde. Levantei-me, caminhei até bem próximo, puxei sua camisa para cima e toquei suas cicatrizes. Senti que ele se sobressaltou e sua pele se arrepiou ao meu toque em suas costas geladas e tensas. Dante se empertigou, duro como se tivesse levado um choque de repente. Ele se afastou de modo brusco, enxotando minhas mãos com rispidez.

‒ Não toque nisso!

‒ Onde você conseguiu isso?

Ele acenou negativamente a cabeça como se aquilo não importasse no momento.

‒ Nunca mais toque nisso. ‒ ele saiu furioso da cozinha e entrou em um quarto qualquer distinto do cômodo em que o cachorro se encontrava. Tentei escutar algo vindo dali, ouvindo através da parede e pela fresta debaixo da porta, mas não escutei nem mesmo meus próprios pensamentos. Fiquei ali parada, estática por alguns instantes sem sabem o que fazer ou o que pensar. De onde teriam vindo aquelas cicatrizes? Seria ele de alguma gang, será que ele era perseguido por algum valentão? Será que havia sofrido algum acidente?

Comecei então a andar errante pelo apartamento vazio, mantendo-me distante do quarto do cachorro e sempre próxima do de Dante, busquei por alguma pista no quarto, na sala, na cozinha, até mesmo no banheiro. Qualquer coisa que me desse uma pista do que havia acontecido, no entanto nenhum outro som foi ouvido e nenhuma pista encontrada. Além do quarto em que Dante estava, o do cachorro e o banheiro apenas uma última porta restava. Ela era diferente das demais sua madeira, mais grossa, sua aparência, mais velha.

O cheiro de pinho era forte como se nunca tivesse deixado de ser a arvore que outrora fora. Sua cor era escura e difusa e a madeira antiga e decorada estava suja de tinta como se alguém tivesse errado ao pintar as paredes de várias cores. Como escritora e como uma pessoa simplesmente curiosa que eu era, a simples visão daquela porta instigou minha imaginação e antes mesmo de sentir a madeira gelada contra os dedos mil histórias sobre sua origem passavam pela minha cabeça. Comecei a empurrá-la devagar, a porta estava entreaberta, mas ainda que tentasse vislumbrar algo o breu original era a única coisa visível.

Lentamente formas distintas começaram a dançar na minha retina me provocando como se não fosse capaz de descobrir o que são, até que escutei um barulho muito alto, aparentemente vindo do quarto em que Dante estava. Me assustei, fechei a porta bruscamente (Ok, talvez eu tenha uma forte tendência a fechar portas ‒ ou bater minha cara nelas ‒ quando estou assustada) e corri para o quarto de Dante.

‒ Dante? ‒ Bati na porta desesperadamente. ‒ Você está bem? ‒ escutei um baque surdo contra a madeira como se subitamente alguém apoiasse seu peso sobre ela.

‒ Estou bem! ‒ Gritou ele do outro lado.

‒ O que aconteceu?

‒ Nada! Eu só... Não foi nada. ‒ Obviamente eu não engoli. Entrei no banheiro e encarei a porta de conexão com o quarto dele por alguns instantes perguntando-me o que eu deveria fazer. Lenta e silenciosamente girei a maçaneta da porta e entrei no quarto. Ele não escutou, continuou apoiado contra a porta, assim como eu havia imaginado, respirando ofegante. Confesso que eu estava mais preocupada com ele do que com a origem do barulho. Espera, eu acabei de pensar isso? De qualquer maneira dei apenas uma olhada rápida, e devo dizer que o quarto parecia um lixo. Eu sei que o quarto da maioria dos homens não é lá muito arrumado mas acho que isso era um pouco de exagero. Além do que dado o estado de arrumação do resto da casa, acredito que esta foi a origem do barulho. Entrei com cuidado, tentando pisar apenas nas coisas que não faziam muito barulho, uma vez que o chão não era nem mesmo visível. Parei a alguns centímetros dele, chamando-o. Ele se assustou e virou para me encarar, mostrando-se surpreso por me ver ali. Abri a boca para dizer alguma coisa, qualquer coisa, mas ele roubou minhas palavras ao me abraçar tão forte que por alguns instantes fiquei sem ar. Eu simplesmente não sabia o que fazer, então eu apenas o abracei. Queria perguntar novamente se ele estava bem, porem por algum motivo não me parecia ser a hora certa para isso.

‒ Vem. ‒ Sussurrei em seu ouvido. ‒ Vamos fazer alguma coisa para você comer. ‒ Ele assentiu com a cabeça encostada em meu ombro, porém quando tentei me afastar ele não me soltou. Soltei um riso nervoso aquilo me deixava meio... bem, nervosa. ‒ Dante, assim fica difícil.

‒ É a primeira vez que você me abraça de volta. ‒ Sussurrou ele soltando-me apenas o suficiente para me encarar profundamente. Sem jeito desviei o olhar e tentei me afastar dignamente dele. Claro que eu não consegui, acabei por tropeçar em algum maldito breguete que estava no chão, cai sentada na cama e fiquei apenas abrindo e fechando a boca como um peixe idiota, sem saber o que dizer. Dante ainda me encarando riu, provavelmente da minha patética tentativa de “manter a minha dignidade” e se dirigiu à porta do banheiro. ‒ Vem, vamos pra cozinha. ‒ Disse saindo dali. Eu apenas o segui e voltei a sentar na bancada.

‒ Você sabe cozinhar mesmo? ‒ Perguntei.

‒ Claro que sei. ‒ Disse ele virando as costas e voltando para o fogão.

‒ O que você vai fazer? ‒ Perguntei esticando o pescoço para enxergar o que havia dentro da frigideira.

‒ Segredo. ‒ Eu não podia ver, mas eu tinha certeza de que ele estava rindo.

‒ Pode me dizer, agora. ‒ Mandei levantando e indo até bem próximo dele para vislumbrar alguma coisa. Ele apenas afastou para o lado tapando minha visão.

‒ Nada disso. ‒ respondeu teimoso. Cheguei mais perto e tentei empurrá-lo para o lado mas ele não cedo.

‒ Sai daqui.

‒ Eu quero ver! ‒ Briguei parando de empurrá-lo. Ele largou a frigideira como se estivesse irritado e me agarrou.

‒ Quer ver o que? ‒ Ele estava me encarando. Por que ele tinha que me encarar? Ele começou a andar na minha direção ao mesmo tempo que comecei a andar pra trás. Eu sabia que não devia ter entrado ali.

‒ O que você vai fazer... N-na frigideira. ‒ Bati com as costas na parede.

‒ Você quer ver o que eu vou fazer? ‒ Repetiu ele como se ponderasse. ‒ Certo... vou te mostrar o que eu vou fazer. ‒ Disse pressionando meu corpo contra o seu. Ai meu Deus... eu estava sem saída. Ele começou a se aproximar ainda mais e eu quase me fundi com a parede, fechando os olhos.

‒ Por favor... ‒ Ele parou onde estava ‒ Não faça isso.

‒ Não fazer? ‒ ele roçou os lábios no meu pescoço subindo e descendo e mordeu minha orelha. ‒ Tem certeza?

‒ N-não. ‒ O que diabos eu estava fazendo? Por que eu não o empurrava logo? por que estava enrolando desse jeito? Dante mordeu meu queixo. Ai garoto...

‒ Não!? ‒ Repetiu ele surpreso. ‒ Você quer ou não? ‒ Boa pergunta Ágatha. Quer ou não?

‒ Acho melhor não... ‒ Falei empurrando-o. Ele cedeu sem dizer nada. ‒ Sabe, acho melhor eu ir. Meu irmão não vai gostar de acordar e não me ver em casa.

‒ Você não acha nada. Senta ai que antes de ir você vai comer. ‒ Falou ele colocando um grande omelete em um prato e preparando algum tipo de liquido quente em duas pequenas xícaras. Ai garoto... o que você está fazendo? Sentei mais uma vez na bancada, coloquei um pequeno pedaço de omelete no prato e dei um gole no liquido. O maravilhoso e doce sabor do cappuccino inundou minha boca e acalmou meu estomago. Aquele definitivamente era o melhor cappuccino que eu já havia tomado. Dei um suspiro e fechei os olhos.

‒ Isso está tão bom...

‒ Obrigado. Cuidado com o omelete, está quente. ‒ Disse colocando um enorme pedaço de omelete na boca. Nossa, aquilo simplesmente desapareceu dentro da boca dele. Se eu tivesse colocado um troço daquele na boca, metade teria ficado para fora. Como aquilo coube? A boca dele devia ser muito grande. Estranho, parece normal pra mim. Ok, parei. Como foi que eu cheguei nisso? Certo, vamos olhar para o omelete agora. Comi um pedacinho e caramba... aquilo estava muito, muito, muito, muito bom.

‒ Ai meu Deus...

‒ Eu falei que estava quente.

‒ Isso está muito bom. ‒ Dante me encarou de um jeito estranho e eu comecei a ficar sem graça. ‒ O que foi? Tá sujo em algum lugar?

‒ Não, não...

‒ Então porque está me olhando assim?

‒ Assim como?

‒ Você está me olhando estranho. ‒ Ele encheu a boca de omelete.

‒ Não estou não.

‒ Está sim!

‒ Não estou não. ‒ Falou pausadamente dando ênfase às palavras.

‒ Tá... ‒ Falei irônica. Terminei aquele café da manhã maravilhoso e me levantei. ‒ Certo, tenho que ir. Meu irmão vai acordar a qualquer momento. ‒ Dante se levantou e virou a xícara de cappuccino de uma vez.

‒ Ok, vamos.

‒ Dante é sério. Deixa eu só resolver isso com meu irmão e eu encontro você depois.

‒ Nada disso. Não vou deixar você escapar. ‒ Bufei irritada. ‒ Volto em um minuto. ‒ Ele correu em direção ao quarto e confesso que pensei em ir embora naquele momento, mas de alguma maneira não gostei nem de imaginar a sua expressão por eu não estar ali. Podem me chamar de idiota mas não gosto de magoar as pessoas intencionalmente e em todo caso ele já estava voltando pelo corredor, dessa vez vestido com uma camisa verde e seca, escondendo as manchas roxas e as cicatrizes. A verdade é que eu preferia a outra, porque agora eu sabia que elas estavam lá e isso tornava as coisas diferentes. Voltamos rapidamente para a minha casa e quando entravamos na sala por uma infeliz coincidência meu irmão vinha vindo sonolento em nossa direção. Empurrei Dante para a cozinha que era o cômodo mais próximo dele e parei no meio do caminho do meu irmão.

‒ Bom dia.

‒ Sai do meio esquisita.

‒ O que você está fazendo? ‒ Ele me encarou cético.

‒ Eu só vou pegar o leite e o cereal. ‒ Disse irritado e tentando me empurrar.

‒ Eu pego! ‒ Disse com a voz mais aguda que o normal. Pigarreei. ‒ Senta, eu vou pegar. ‒ Ele me olhou desconfiado, mas sentou na mesa. Voltei para a cozinha e encontrei Dante colado na parede que nem uma lagartixa. Tentei puxá-lo, mas ele apenas gesticulou.

‒ Estou invisível. ‒ Ele parecia segurar o riso. Puxei-o até o armário enorme da cozinha, abri a porta e gesticulei para que ele entrasse. Talvez o armário não fosse tão grande assim, pois Dante não cabia exatamente dentro dele. Seu pescoço fazia 90 graus e suas mãos tentavam se encaixar no pequeno espaço livre. E como se essa cena não fosse cômica o suficiente, ele ainda estava fazendo caretas.

‒ Agora você está invisível. ‒ Sussurrei segurando o riso.

‒ Por que você está falando com o armário esquisita? ‒ Levei um susto tão grande que fechei a porta com força na cara de Dante e soltei um grito que mais parecia um cachorro sendo atropelado. ‒ O cereal está aqui, disse ele pegando o cereal na dispensa e o leite na geladeira. ‒ O que deu em você hoje?

‒ Nada. ‒ A porta do armário começou a abrir lentamente e eu me encostei nele. Peguei um pacote de iogurte e comi lentamente, esperando meu irmão ir embora.

‒ Tchau esquisitona.

‒ Tchau. ‒ Respirei aliviada quando a porta se fechou e meu irmão finalmente foi embora e abri a porta do armário.

‒ Ai Ágatha. ‒ Falou Dante saindo dali e massageando o nariz que sangrava.

‒ Desculpa, eu me assustei. ‒ Em toda minha vida, nunca pensei que em algum dia eu fosse esconder um cara no armário. Ok, talvez eu tenha pensado, mas isso não quer dizer que eu fosse fazer. ‒ Vem, o meu quarto tem um kit de primeiros socorros. ‒ eu o puxei pela camisa, tranquei a porta do quarto para o caso do meu irmão voltar, abri meu armário e peguei a gaze dentro do kit. ‒ Toma usa isso pra estancar o sangue.

‒ Não se preocupe, foi coisa pouca, já já passa. ‒ Deitei-me na cama sonolenta e Dante me imitou. Ele estava engraçado com aquele tampão no nariz. Sorri sem querer e novamente ele começou a fazer caretas enquanto eu gargalhava e quase caia da cama.

‒ Então, eu tinha planejado ir de táxi, apesar de ser meio caro, já que a editora é do outro lado da cidade. Tive até que usar meu fundo de garantia, mas já que você vai, pode me levar de carro.

‒ Não vai dar. Meu carro tá na oficina. Mas eu divido a corrida com você.

‒ É, isso já ajuda um bocado.

‒ Durma um pouco. Umas 7 horas eu te acordo.

‒ Não, você é visita, tenho que te fazer companhia.

‒ Não se preocupe, eu vou sobreviver.

Notas finais
E ai o que acharam? O que será que vai acontecer agora hein? SURPRESAAAA. Comentem.