Quinta-Feira 10:50h
Eu estava na minha aula vaga, mas preferi não ficar na sala, quando os professores não estão lá as brincadeiras de mal gosto daqueles grupinhos são mais insuportáveis. Ao menos aqui, na biblioteca, eu me sinto mais livre e segura. A moça bibliotecária nunca deixou ninguém entrar aqui além daqueles que querem estudar ou ler, em silêncio. Ela tem essa autoridade para mandar saírem daqui aqueles que querem fazer gracinhas ou pensam em fazer.
Já tinha devolvido o livro anterior e agora eu me encontrava sentada em uma mesa bem distante que ficava perto da janela, estava lendo um livro de mistério que tinha por título “O príncipe da Névoa – Carlos Ruiz Záfon”. O início dele estava me prendendo muito pois eu estava tão focada na leitura que nem percebi alguém por perto, ou melhor, quase. Não havia ninguém aqui na biblioteca além de mim antes.
Era um aluno, nunca o vi antes. Era incrivelmente alto ele estava vasculhando uma estante pouco próxima da minha mesa, uma mão estava segurando pelo menos três livros e a outra estava parada na prateleira, foi ai que notei que ele estava me olhando, ou talvez olhando para o livro que eu estava lendo? Seria um novato? Bom, mas por que eu me importava? Se ele for logo iria ouvir os famosos boatos sobre uma aluna bruxa fantasmagórica que amaldiçoava apenas se olhassem pra ela ou chegassem perto. Eu era a tal aluna bruxa.
Ele estava com sua mochila e nela eu vi algo que me chamou a atenção, um pequeno chaveiro de um violino, isso poderia ser normal mas como eu sou obcecada por esse instrumento não pude deixar de reparar.
Eu virei o rosto rapidamente assim que ele olhou para minha direção de novo, talvez ele tenha percebido e agora deve estar pensando que eu o estava encarando e está vendo o quão boba eu sou. Ele foi para o outro lado da estante, alivio. Vou parar de pensar nisso e voltar para o meu pequeno e escuro mundo, voltei a página que havia parado.
— Oi! — Mal tinha lido três palavras e sua voz baixa me fez pular da cadeira, ele caminhou e apareceu na minha frente, não me atrevi a olha-lo. — Desculpa eu não quis te assustar. Então... gosta de violino? Ou talvez miniaturas? — Me pergunta em seguida, agora tive que levantar os olhos para enxerga-lo um pouco e ver se não estava blefando. — Eu vi que você ficou encarando meu chaveiro bem surpresa, tem interesse em algum? Eu que os faço manualmente, fiz vários durante a semana e trouxe para escola para tentar vender.
Não conseguir pensar em algo para responde-lo, então ele se sentou na cadeira a minha frente e abriu a sua mochila tirando de lá uma caixinha já desgastada, a abriu e colocou todas as miniaturas esculpidas em madeira na minha mesa uma por uma. Tinha outro violino, mas de cor preta, era lindo. Também havia outros instrumentos, veículos, um navio a vela daqueles antigos, um relógio de bolso só que bem menor do que um original costuma ser. Foram mesmo esculpidos por ele? Estavam muito bem feitos, meu rosto provavelmente estava com uma expressão fascinante.
Será que ele estava falando sério? Eu estava interessada no violino preto, mas e se fosse uma pegadinha? Não Alina, desse jeito você nunca vai tomar atitudes se continuar pensando, pensando e... pensando.
— Estou vendo que você gostou, nesse caso enquanto pensa, deixa eu comentar sobre esse relógio de bolso aqui, é o meu preferido. — Ele pegou a miniatura e ficou observando. — Eu me inspirei no mesmo relógio que aparece nesse livro que você estava lendo agora. — Ah, então era mesmo para o livro que ele estava olhando antes.
— Está vendo os desenhos de uma lua que estão marcadas em cada hora? — Ele prosseguia e apontava para os detalhes do pequeno relógio enquanto explicava. — São formados pela luz do sol, igual é descrito no livro, e funciona mas obviamente apenas com a luz do sol, aqui dentro da escola não é possível ver, lhe mostro em outro momento se quiser.
— São muito bons... estão bem feitos. — Consegui pronunciar algo dessa vez.
— Obrigado, eu devo ao meu pai ele que me ensinou. — Ele ficou olhando para o relógio com um semblante longe, mas voltou em si em alguns segundos. — Ei, me indica algum livro? Eu cheguei hoje, estou um pouco apressado e bem indeciso, você parece já ter lido vários daqui estou certo? Pode ser qualquer gênero, desde que você tenha gostado e leria de novo, eu leio de tudo um pouco. — Está bem... isso me pegou de surpresa, havia vários livros em mente mas só lembrava mesmo de um no qual eu gostei tanto que li ele mais de três vezes, não iria fazer mal se eu respondê-lo, ele não iria rir de mim... não é?
— Bem então... “Annie — Thomas Meehan”, é um clássico.
— Ótimo! Vou procura-lo então. Obrigado e... — Antes que ele pudesse continuar, um outro aluno surgiu atrás dele o chamando.
— David! O professor já está na sala, é melhor ir agora ou ele não vai te deixar entrar. — Ele disse e logo após saiu correndo da biblioteca, David voltou a minha atenção como se nada tivesse acontecido.
— Ok... terei que deixar o livro para depois. Então, você gostou do violino, certo? Você não para de olhar pra ele. — David me perguntou sorridente e já se levantando da cadeira, guardando a caixinha de volta.
— Sim! É... quanto ele custa?
— Nada, eu te dou! — Respondeu colocando miniatura sobre a palma da minha mão.
— Mas... espera!
— É seu, considere como um presente de um... novo amigo. Bom, até mais! — Disse por fim e saiu ás pressas.
Amigo... amigo? Mas desde quando alguém quer fazer amizade comigo? Até mesmo um desconhecido por ai que nunca ouviu falar de mim iria tentar manter distância, então por que? Deve ser pegadinha, claro! Ele já deve ter ouvido sobre mim e podem ter sugerido ele a fazer esse tipo de brincadeira, quantas vezes isso já aconteceu mesmo? Foram tantas que já perdi a conta... não seria agora que eu iria acreditar.
[...]
12:30h
Fui até a minha sala buscar o meu almoço e entrei no refeitório a procura de Júnior, as vezes ele resolve não se reunir para comer junto com os colegas dele e me espera sozinho em alguma mesa desse lugar. Olhei para todos os lados e não o encontrei, hoje ele deve estar com os amigos, então nesse caso só me resta ir para o pátio. Na primeira vez que almocei sozinha nesse lugar, eu saí daqui completamente suja de comida que Amanda e seus amigos me fizeram tropeçar e cair em cima de duas marmitas que foram colocadas no chão de propósito.
Antes de me virar eu avistei David em uma mesa lotada bem no centro, todos estavam rindo e se divertindo, então um novato como ele já se enturmou? Bom, não era de ser novidade, ele parece ser bem extrovertido. É melhor eu ir logo antes que ele me veja e resolva chamar atenção.
13:15h
Eu estava sentada em um dos bancos do pátio, embaixo de uma arvore onde tinha uma ótima sombra, eu ficava lá quase todos dias no intervalo, estava continuando a leitura do mesmo livro que peguei na biblioteca, já havia terminado de comer e em alguns minutos eu voltaria para a sala. O pátio só tinha algumas pessoas e eu estava ouvindo passos se aproximando do meu banco, virei a cabeça e... David.
— Oi! Te vi saindo do refeitório, eu ia te chamar mas você já tinha ido...
— P... Por favor, nunca faça isso. — Sussurrei implorando, mas percebi que não foi uma boa ideia, será que ele deve estar pensando que tenho vergonha dele? Ele estava com a testa franzida e pensativo.
— Ah, você não gosta de chamar atenção, é isso? Se o caso for esse eu te entendo, claro! — Ele respondeu depois de alguns segundos.
— É... é isso! Me desculpa, bem...
— Olha, tá tudo bem, isso é normal, sério. Eu te entendo, não vou te chamar com voz alta em público, não se preocupe. — Concluiu sorridente. — Então, qual o seu nome? Não tive oportunidade para lhe perguntar na biblioteca. — É sério que ainda não falaram de mim pra ele? Na mesa em que ele estava no refeitório tinha duas pessoas que implicam comigo de vez em quando... não comentaram nada? Ou é a mesma brincadeira?
— É Alina.
— Alina, um nome bem único por aqui. Bom, eu sou o David mas acho que você já soube na biblioteca né... então, qual é a sua sala?
— 3C...
— C, é? Então eu fico do lado da sua, a minha sala é 3B. Eu conheci duas pessoas da sua sala no refeitório, eram... Vinicius e Kaylane, pareciam ser bem simpáticos, vocês se dão bem? — E agora? O que eu respondo? Se eu disser que não e ele não estiver brincando comigo mesmo? Será que ele iria no diretor? Mas ai seria exagero da parte dele...
— As vezes...
— As vezes? — Me pergunta confuso e eu fiquei procurando alguma resposta para encerrar esse assunto, mas felizmente o sinal tocou bem na hora. O universo está do meu lado hoje.
— Eu tenho que ir, não posso me atrasar para a aula de agora... — Disse rapidamente e me levantei do banco já me virando para ir embora.
— Tudo bem, conversaremos mais tarde se quiser, até logo, Alina!
Até logo? Eu estou mesmo começando a viver isso? Uma possível amizade? Me virei pra ele e acenei positivamente com a cabeça, após isso voltei a andar saindo dali.
[...]
Depois da última aula de história eu já estava chegando no corredor que levava para a saída, a minha frente estava caminhando David conversando com uma garota ruiva de cabelo curto, ele ainda não havia me visto então passei a andar mais lentamente para que não me percebesse. Mas para o meu desespero, Júnior apareceu de repente pronunciando meu nome não muito alto, mas suficiente para David e a menina se virarem para nós dois.
— O que eu falei sobre não gritar o meu nome? Sabe que eu não gosto... — Sussurrei para Júnior.
— Mas eu não gritei e mal tem gente aqui... — De repente ele percebeu David nos olhando de uma forma bem simpática, ele se aproximou de nós. — Vai de Metrô também, Alina? — David me pergunta.
— Sim, vamos... — Respondi incluindo Júnior na conversa, David o notou só agora pelo visto, os dois acenaram com a cabeça amigavelmente, acho que vão até se dar bem pois ambos são entusiasmados.
— David! Eu vou indo, até amanhã. — Disse a menina.
— Ok, até amanhã, Isabel!
Não, não, não... não pode ser aquela Isabel? Pode? A pessoa que afastou todos os meus antigos colegas de mim, que me fez se sentir invalida e inferior até hoje... me fez ser culpada por algo que não fiz, bem que aquela cicatriz no joelho dela era familiar. Ela não deve estar estudando aqui certo? Certo, a família dela sempre quis que ela estudasse num colégio rico, não tem como ela estudar aqui...
— É sério isso mesmo, Alina? — David me trouxe de volta para a realidade assim que disse o meu nome. — Você ouviu? Olá? Terra chamando.
— O que?
— Eu estava perguntando se foi o seu irmão que fez esse desenho. — Ele me mostrava o caderno aberto de Júnior, tinha um belíssimo desenho em preto e branco de um personagem de anime. Eu sabia que Júnior desenhava coisas simples até um tempo atrás, mas não sabia que ele ainda fazia isso... e ver essa evolução de agora me deixou um pouco... perplexa?
— Na verdade, ela não sabe que eu ainda desenho, olha a cara dela. — Júnior disse gargalhando de leve e pegando o caderno de volta. — Digamos que Lina não se interessa muito com as coisas que eu faço...
— Não diga isso... — Eu disse tentando conter a minha voz entristecida. Ouvir isso dele só faz parecer que eu não conheço o meu próprio irmão o suficiente. Ele me olhava de soslaio enquanto puxava a mecha crescida do seu cabelo na frente dos olhos, ele sempre faz isso quando está aborrecido.
— Gente, vamos perder o Metrô, bora lá. — Comentou David andando na frente tentando aliviar o nosso momento estranho, Júnior caminhou ao lado dele e já estavam conversando novamente, é incrível como David atrai as pessoas rapidamente.
[...]
Estávamos no metrô que estava bem lotado inclusive, ficamos em pé e aqueles dois já criaram amizade, eu só observava apenas, não queria participar de uma conversa onde eu não me encaixava ou então eu poderia passar vergonha.
— Eu assistia uns animes quando eu era criança também, hoje em dia só leio livros. — Comentava David.
— De livros eu não entendo nada. — Disse Júnior.
— Sério? Eu achei que lia também já que tem uma irmã leitora... geralmente parentes que leem juntos são mais comuns, tipo um incentiva o outro. — Ele disse por fim e me olhou sorridente.
— Eu cheguei até tentar, mas Alina não parece ser do tipo que incentiva...
— Por favor, de novo não... — Eu sussurrei o que já esperava dizer a muito tempo. — Eu... já tentei fazer isso mas você mesmo me ignora e diz coisas como essas!
— Isso mesmo! Você só tentou e desistiu, não se esforça, eu não consigo enxergar que você quer me entender pois não demonstra isso! — Ele disse no mesmo tom de voz que eu para não chamar atenção dos outros passageiros, David estava ouvindo tudo mas se manteve em silencio, porém, algo em seu rosto dizia que ele queria que isso acontecesse... acho que entendo agora. Então esse tempo todo Júnior só queria minha atenção?
Me lembro que desde criança ele sempre procurava me mostrar algo que ele mesmo fez ou tentava realizar tarefas junto comigo e eu... o ignorava, sempre o ignorava, tentava cortar a nossa conversa por que eu tinha que passar horas planejando o meu dia seguinte na escola, tomando precauções para evitar criar confusão com os alunos que implicam comigo, ou para evitar andar no mesmo caminho que eles.
Meus dias eram corridos por causa disso, mal percebo quando os meses se passam, me preocupo tanto com essas coisas que esqueci de passar os momentos com a minha família, mas eu jamais esqueci deles... eu sempre os observo assim que tenho oportunidade e guardo cada ação e ato deles. Agora eu queria conhece-los melhor.
— Então... me deixa eu tentar de novo? Dessa vez eu prometo que vou me esforçar. — Eu disse o mais baixinho que eu conseguia, apenas para Júnior ouvir.
— É sério?
— Sim! Eu quero te mostrar alguns livros que são a sua cara. — Eu disse por fim e Júnior abriu aquele sorriso que eu não via a tanto tempo, seus olhos verdes ficaram mais brilhantes agora, neles eu podia ver a ansiedade para chegar em casa o mais rápido possível e conhecer o meu mundo dos livros da minha humilde estante.
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