O Motivo De Akira
1 One-shot
Notas iniciais
Eu entrei no ônibus que me levaria para casa depois de um dia bastante cansativo, sem o menor ânimo pra mais nada... E o ônibus ainda estava superlotado...
Fui andando para o fundo como podia, já que transitar por ai era completamente inóspito... Segurando a mochila pesada com apenas uma das mãos pra que não batesse em ninguém... Infelizmente, muitas mochilas me esmagavam contra os bancos ou contra outros passageiros que me olhavam, enviesados... Não podia me importar... Quando chegássemos à estação, quem estivesse mais perto da porta teria alguma salvação e era apenas isso que me motivava...
Alcancei cheia de felicidade os últimos bancos, encontrando um que estava desocupado (exceto pela mochila do ocupante do banco ao lado, que dormia profundamente). Meus pés dormentes exigiam que eu deixasse meus constrangimentos de lado e acordasse o rapaz, para que eu enfim pudesse me sentar... Mas onde eu encontraria coragem pra fazer isso, se eu preferia calar milhares de vezes a ter de interagir com uma pessoa que eu nunca tinha visto em minha vida?
— Ana, é melhor você acordar esse cara logo, antes que eu acorde ele do meu jeito – ouvi uma voz grossa, sussurrada ao pé de meu ouvido e me virei espantada.
— Não tinha visto que você pegou esse ônibus também, Akira – disse, também sussurrando e ele parecia indeciso se sorria ou se resmungava, fazendo um pouco dos dois ao mesmo tempo.
— Quer que eu tire esse cara daí pra que você possa sentar? – seu tom de voz saiu um pouco mais alto e eu temi que ele aumentasse ainda mais a voz, sendo rude com o rapaz.
— Tudo bem, pode deixar que eu mesma faço isso... – me apressei e toquei delicadamente o ombro do rapaz que dormia. – Oi... – disse timidamente e ele me encarou sonolento. – Oi, será que poderia tirar sua mochila, por favor?
— Nossa, me desculpe! – ele se apressou a tirar a mochila e eu lhe sorri. – Desculpe mesmo!
— Não tem problema – sorri novamente.
Akira se aproximou, aparentemente mal humorado ainda. Qual era o problema dele agora que o menino tinha tirado a mochila?
— Quer que eu segure pra você, Akira? – perguntei, me virando para ele, que finalmente sorriu aquele sorriso lindo que tinha, tirando de seu ombro e colocando sobre meus joelhos a própria mochila.
— Arigato gozaimasu, querida! – ele disse com certa ênfase e eu senti minhas faces pegando fogo. Ele não pareceu se importar, mas o rapaz ao meu lado se virou para a janela, a mochila encaixada ao seu lado, aparentemente convencido a voltar a dormir. – Como foi sua aula hoje? – ele perguntou gentilmente.
— Uma droga! – tinha sido mesmo! Mas meu tom de voz o fez rir. – Não é brincadeira...
— Eu acredito que não... A minha também não foi grande coisa...
— Por que está voltando de ônibus hoje? – perguntei, curiosa e ele afagou minha face, que tornou a ficar corada e quente.
— Sem carona pra hoje... Kouyou faltou...
— Ah... Que pena... Ele está bem? – Kouyou não era de faltar na faculdade a não ser se simplesmente não pudesse se mover... Eu tinha a impressão de que ele preferia ir morrendo do que faltar...
— Doença de criança... – ele respondeu com simplicidade, parecendo divertido. – Foi o que ele me disse ontem... Mas a mãe dele estava determinada a deixá-lo de cama hoje... Vai sobreviver... Eu acho... Kouyou detesta ficar no ócio... Um grande baka, na minha opinião... Não tem nada melhor do que você poder ficar sem fazer nada...
— E por que você não faltou também, então? – brinquei. Ele mordeu seu lábio inferior, avaliando minha pergunta e isso me fez me arrepender de tê-la feito. – Se eu pudesse, não teria vindo hoje...
— Isso seria muito ruim... – ele tornou a morder aquele lábio pecaminoso que roubava o foco de minhas atenções. – Eu tinha um propósito pra vir, mesmo sem carona... Seria péssimo se meu propósito não viesse...
Não quis perguntar do que ele estava falando, mas não tinha conseguido entender sua linha de raciocínio... Ele tornou a afagar minha face distraidamente e eu sorri acanhada.
— Não sei dizer se você sorri pelo que eu disse ou se eu a deixo realmente desconfortável...
— Eu não fico desconfortável com você, Akira... – disse, um pouco rápido demais, talvez, porque ele quase gargalhou.
— Não fica? Isso é verdadeiramente bom! Não que eu seja uma pessoa que me importe em deixar os outros confortáveis... Sempre me importei bem pouco com os outros...
— É uma característica bastante engraçada pra alguém que estava preocupado se me deixava desconfortável falando sobre coisas que eu entendo pouco do significado...
— Você não se enquadra “nos outros”, Ana...
— Ah, não? – perguntei, surpresa. – Achei que eu fosse uma pessoa diferente da que você é... E isso que me qualificaria como uma dos outros...
— Os outros são aqueles que eu não conheço ou aqueles que eu não quero conhecer... Você, eu conheço e quero conhecer muito mais... – ele se inclinou na minha direção, se segurando apenas com uma mão para não cair enquanto o ônibus sacolejava. – Você consegue me entender agora?
— Você... – eu disse pausadamente, mas o final dessa frase nunca chegou a nascer. Ele se reergueu e deu risada.
— Nós já vamos descer, querida, não é melhor se levantar? – ele tirou sua mochila e a minha de meus joelhos e carregou as duas juntas, como se não tivessem peso algum, depois estendeu sua mão na minha direção e eu peguei automaticamente, sem pensar direito sobre o que eu estava fazendo.
Akira passou o braço por minha cintura e nós dois descemos do ônibus juntos, eu ainda estava um pouco em órbita, tentando unir os pedaços que tinham sobrado de minha mente.
— Nós vamos pro mesmo lado... – ele disse, quando entramos juntos novamente no próximo ônibus, muito mais vazio do que o primeiro em que nos encontramos.
Dessa vez pudemos nos sentar lado a lado e ele não tirou seu braço de meus ombros. Seus olhos não desviavam de mim e eu o encarei, questionadora.
— Posso te acompanhar até em casa? – ele pediu de repente, e eu arregalei os olhos, surpresa.
— Você...
— É, Ana, eu mesmo – ele riu, talvez por me ver parando no mesmo ponto anterior ao que eu tinha empacado. – Posso?
— Pode – respondi rápido de novo e ele riu. – Claro que pode... – experimentei alongar minha frase pra ver se ainda era capaz de fazê-lo.
Nós ficamos em silêncio e eu abaixei meu rosto, temendo estar ainda mais corada. Por que é que eu tinha de ficar corada daquela maneira perto de Akira? Minhas faces eram sempre mais pálidas do que as de uma pessoa normal... Mas ele era capaz de dar cor às minhas bochechas com uma facilidade enorme.
Fiquei olhando sua mão tamborilando sobre sua mochila no colo, acompanhando os mínimos movimentos, até que ela caminhou inesperadamente na minha direção, prendendo meus dedos aos seus com uma leveza fofa. Ergui os olhos pra encará-lo novamente e ele sorria mais lindo do que qualquer outro sorriso que eu já tivesse visto... Mais lindo até mesmo que a Lua cheia brilhando no firmamento de uma noite sem estrelas...
Lentamente (ou talvez essa foi a sensação que eu tive) ele levou nossas mãos entrelaçadas até seus lábios e beijou muitas vezes minha pele, me fazendo ofegar. De repente, seus lábios já não beijavam apenas minha mão, mas se deslizavam pela palma que ele deixara aberta sobre sua mão, pelo meu pulso, subindo pelo antebraço... Fechei meus olhos e fui apenas sentindo suas carícias. Sua respiração bateu contra a pele de meu pescoço e ele deixou um beijo ali também.
— Gosto dessa forma de conversar sem dizer nada... – ele sussurrou ao meu ouvido e eu ofeguei novamente.
Sem dizer mais nada, Akira puxou meu rosto com gentileza para o seu e eu não me atrevi a abrir os olhos. Seus lábios encontraram os meus e ele tinha razão... Nada era preciso ser dito... Bastava o silêncio que nós saberíamos muito bem nos entender... Eu só queria mais daquele beijo delicioso... Mais daquele corpo maravilhoso que me puxava e me abraçava...
— Agora você entendeu porque eu não poderia faltar hoje? – Akira disse num sussurro lindo, deixando um beijo em minha bochecha e eu ri.
— Ainda bem que eu tinha a ver com o motivo... – brinquei e seus braços me apertaram mais contra ele.
Ele selou nossos lábios sorrindo.
— Você é meu motivo!
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