O Motivo!
4 Espelho
Encontrar um curso de coreano não era nada fácil. Idiomas como japonês e alemão se propagavam consideravelmente, mas coreano... Ham, nem um pouco...
A procura de Mara perdurou quase duas semanas. Doze dias de incansáveis pesquisas na internet, muitas perguntas aos amigos que compartilhavam os mesmos gostos... Não podia descansar um só segundo, mas desistir não estava na lista das opções, pois Mara tinha um motivo muito sólido pra continuar, por maior que fosse o número de dificuldades que encontrasse: tinha muito amor pela banda, muito amor por ChangMin. Chegou a sonhar com isso várias noites! Sonhava consigo própria na sala de aula, dizendo suas primeiras palavras no mesmo idioma que o amor de sua vida, com o próprio a olhá-la, surpreso... Acordava suspirando, sentindo-se ainda em meio a sonhos.
O destino andava parecia estar a seu favor, pois, apesar da demora, Mara acabou encontrando o curso que tanto queria sendo anunciado em um site qualquer, era um pouco longe de seu bairro, mas isso não era nenhum problema, o importante era que ela o tinha encontrado e que estava feliz. Sentia o coração quase explodir de tanta felicidade. Pensou melhor e viu que não era tão longe, só precisava de um ônibus. A viagem era longa, mas só utilizaria um veículo. \"Estou sendo realmente premiada!\" pensava ela.
—Finalmente! Finalmente! – Gritava ela em frente ao computador, prestes a pular e correr pelo quarto... Não conseguiu se conter, precisava extravasar toda aquela alegria, então logo obedeceu a seus instintos e correu pelo quarto. Após algumas voltas, decidiu que compartilhar a felicidade com alguém seria menos cansativo, então ofegante, Mara pegou o telefone sem fio e discou o número de uma de suas melhores amigas, Gisele.
—Gi, você não vai acreditar! Adivinha! Adivinha! – Disse a menina, atropelando as palavras, parecendo estar mais que feliz ou eufórica. De fato, estava.
—Me diz, Mara! Você parece tão feliz! Sério! Só de te ouvir assim, já fico feliz também!
—Obrigada, amiga! Vou te contar! Eu encontrei um curso de coreano pela internet, o curso fica na cidade próxima a nossa e estou indo pra lá agora. As matriculas já começaram e parece que as aulas vão começar semana que vem. Eu não estou me agüentando de felicidade! Era tudo o que eu queria! – Disse a menina num só fôlego, enquanto arrumava a bolsa, já estava indo trocar de roupa para sair.
—Mas isso é ótimo! Você não falava em outra coisa! Não estou nem conseguindo acreditar no que ouvi... Mas tem certeza que é confiável?
—Ainda não... Só sei que estou indo pra lá agora. – Informou a garota, enquanto, toda atrapalhada, tentava vestir uma calça skinny preta, falando ao telefone.
—Quer que eu vá com você? – Pergunta a morena, prestativa.
—Quero sim. – Disse Mara, já tinha vestido a calça que lhe assentava muito bem.
—Gi! Qual eu coloco? A baby look preta com estampa de estrela ou a social básica de botões em xadrez preto e branco? – Perguntou ela, enquanto olhava para as blusas no guarda-roupa.
—A preta. – Disse a outra.
—Okay! Espera aí! – Colocou o telefone sobre a roupa e vestiu a camisa. Logo depois o pegou de volta e continuou a conversar enquanto ia em direção a sua escrivaninha. – Vou passar na sua casa daqui a pouco! Vê se você se arruma rápido. Agora vou desligar porque tenho que terminar umas coisas aqui. Beijos! Te amo!
—Beijo! Te amo também, gatinha!
—Eu não acredito! Como você consegue tudo isso? Sem duvida nasceu com essa bunda branca virada pra lua! – Gisele ria muito enquanto falava.
—Nem eu consigo entender. Só sei que isso está acontecendo. Mas só você sabe, viu? Não vai contar pra ninguém.
—Claro que não, gatinha! Não quero que ninguém fique colocando olho gordo nisso. Mas posso te dizer que a invejo um pouquinho... Se o Micky me mandasse uma mensagem... Ah, acho que morreria. – Disse Gi, abraçando a amiga e suspirando de olhos fechados só em cogitar a possibilidade.
—O quê?! Morreria nada! Ficaria a ponto de ter um ataque cardíaco, mas se controlaria. Você teria que respondê-lo, né?
—Haha! Com certeza!
—Hey! Desceremos na próxima.
—Ai! Não acredito! – Mara colocou as mãos sobre o rosto enquanto jogava seu corpo contra o banco. – Finalmente! Ai, caramba!
—Calma! – disse Gisele se levantando. Não vai ter um treco.
—Oppa! Claro que não! – Mara também se levantou.
—Você vai fazer o curso comigo, né, Gi?
—O que? – a menina arregalou os olhos e se virou para a amiga.
—É! Vai ser meio chato sem ninguém lá... Eu queria você lá. – Informa a loira fazendo uma expressão suplicante.
—Nyaaaa. – a morena a abraçou. – Com essa carinha... Não tem como dizer não!
—Yey! – Mara deu alguns pulinhos, a outra só ria.
—As aulas vão começar semana que vem e o horário é das 14h às 15h:30min. Se vocês desejarem fazer curso de japonês também, nós oferecemos ótimos descontos.
—Não! Por enquanto, só coreano mesmo.
—Ai! – passou a mão onde levou o beliscão e logo depois falou com uma cara não muito feliz. — O que foi? Quer arrancar um pedaço do meu braço?
—Olha, Gi! Olha!
—Ele é a cara do Min-nie... – disse a loira suspirando e também com cara besta;
—A cara? A cara e tudo mais... Ele parece o irmão gêmeo dele. – Gisele sorria.
—Meninas... Meninas! Alô! – a recepcionista tentando chamar a atenção das duas que continuavam abobadas. Até que, finalmente, Mara a ouviu.
—Hum? Que? – olhou pra ela.
O menino sósia do ChangMin ria das duas, seu ego estava lá em cima. As duas eram notavelmente bonitas e para ele era um privilégio ser alvo de olhares de jovens como elas.
- As matriculas de vocês duas já estão prontas. Espero que gostem do curso...
- Ah...com certeza elas vão gostar. – disse ele com um ar safado olhando para as duas de cima em baixo. Elas, por sua vez, quase que desmaiaram com todo o charme daquele garoto que tinha um ar meio cafajeste, mas totalmente envolvente.
- Vão fazer o que? – perguntou ele dirigindo o olhar em especial para Gisele.
- Coreano! Você vai fazer curso aqui também? – respondeu ela com um aberto sorriso.
- Claro! Vou começar semana que vem e também farei coreano.
- Nossa! Que coincidência. – disse Gi ainda sorrindo. Mara só conseguia ficar olhando pra ele, abobada, besta, com cara de idiota. Pensava: \"Não! Não pode ser! Só pode ser um sinal... Mas sinal de que?\". Ela era muito supersticiosa e acreditava que nada acontecia por acaso, que ele estava ali por algum motivo, mas qual? Só iria saber com o tempo...
- Espero ver as duas muitas vezes. – ele olhou para o relógio. – Agora tenho que ir. Tenho ensaio da banda.
- Banda? – As duas juntas em uníssono.
- Sim! Toco numa banda de hardcore. Pelo que vejo vocês devem curtir o som... – o menino dizia isso porque reparava no estilo singular das garotas.
- Claro! Adoramos! Mas somos bem ecléticas. – respondeu Gi. Ela estava se dando muito melhor com o garoto que nenhuma ainda nem sabia o nome. Mara só babava e babava e babava pensando em como ele se parecia com o \"homem mais perfeito do mundo\"...
- Bom... Tenho que ir. – ele se despediu com um beijo no rosto de Gisele e apenas acenou para Mara. Que não sabia o que dizer.
Ele se foi ainda sendo observado fixamente pelas meninas. Logo ao sair Gisele se virou para a amiga e perguntou com uma voz inquisidora:
- Hey! Por que não falou nada?
- Ah... – suspirou. – Eu não sei... Vi o Min-nie na minha frente e não sabia o que fazer...
- Entendo... – agora com a voz bem mais calma ela continuou. — Se fosse o Micky também ficaria assim... Mas droga! Porque só você tem essas sortes? – deu uma pedalada de leve na outra. As duas riram e saíram abraçadas.
- Ah amiga... Vou passar um pouco dessa minha sorte pra você...
- Acho bom! Mas e ae- Mas é claro! Essa é uma das minhas metas e não vou desistir até conseguir...
- É assim que se fala!
E assim as duas voltaram para suas casas...? Vai dar \"uns pega\" no guri clone do Max? – Gisele cutucou a outra com cotoveladas e riu.
O menino foi se aproximando e já estava bem próximo a elas, quando percebeu ser o alvo dos olhares das duas deu um sorriso meio sacana e foi falar com a recepcionista.
As duas nem queriam saber o que ele estava falando. Só babavam e se entreolhavam dando risinhos. O menino finalmente parou de falar e se voltou para elas se recostando no balcão da recepção. Não falava nada, também só às olhava.
A menina olhou para onde Mara apontava e também o viu. Ficou com uma cara besta, olhos arregalados e boquiaberta.
Mas a outra parecia não se importar muito, só olhava na direção do garoto que se aproximava cada vez mais. Então ela começou a apontar em sua direção e disse:
- Então está bem. Se mudar de idéia, é só falar comigo. – disse a recepcionista, que logo depois começou a preencher a ficha das duas no computador.
Enquanto isso, elas ficavam olhando tudo a sua volta. Toda a euforia de Mara permanecia. Ela não conseguia acreditar e não se agüentava de vontade de chegar em casa e contar tudo a ELE.
As duas estavam quase aéreas quando um menino chegou. Imediatamente, os olhos da loira se voltaram para ele. Ela não conseguia acreditar no que estava vendo, passou a mão nos olhos, pensava se tudo aquilo era ou não uma ilusão. Quando voltou a olhá-lo, constatando que era real, sentiu suas pernas bambearem. Logo beliscou a amiga que gritou:
As duas pensaram e Mara falou:
Já na recepção...
As duas amigas já tinham descido e estavam bem próximo ao curso.
As duas já estavam chegando.
Mara também ria:
As duas desligaram.
Mara começou a procurar por um prendedor de cabelo. Seu quarto era uma bagunça, sempre estava perdendo coisas lá dentro. Em um momento de brincadeira sua mãe até tinha dito que qualquer dia encontrariam um dinossauro escondido por qualquer canto. A menina riu ao se lembrar disso, porque tinha acabado de achar um de seus estojos de pintura que estava a \"séculos\" perdido. Logo abaixo dele, na gaveta, ela encontrou o prendedor. Prendeu seus cabelos lisos que naquela fase estavam loiros e com mechas rosa, mas que já tinha sido de tudo o que é cor, até preto com mechas vermelhas. Depois disso, passou uma leve maquiagem, calçou seu inseparável companheiro, o All Star® e foi direto para a casa da amiga, que não ficava muito longe. Ao chegar, para sua surpresa, a outra já estava pronta. Isso era um verdadeiro milagre porque a morena costumava demorar consideravelmente pra se arrumar, mas isso não chegava a ser um problema. Mara a entedia perfeitamente, pois também era assim. Só que, naquele dia, tinha sido diferente para as duas.
Pegaram o ônibus e ficaram sentadas nos bancos do fundo conversando sobre o assunto preferido das duas: Dong Bang Shin Ki. A loira com mechas rosa já tinha viciado a morena e elas comentavam sobre suas músicas e principalmente sobre as mensagens que a menina estava trocando com ChangMin.
Mara era magra, dona de um corpo que muitas gostariam de ter, mas poucas sabiam que ela só conseguira tal proeza em razão de um transtorno alimentar que tivera anos antes, porém este já estava superado. Contudo, desde então ela não conseguia ganhar muito peso, pesava 58 kg com 1,70m de altura. Mesmo assim a moça tinha algumas curvas. Aquela fase da sua vida já tinha, felizmente, passado e anorexia era um assunto esquecido. Ela só conseguia se lembrar a razão para tudo aquilo...
Quando sua mãe resolveu levar o maldito companheiro dela para dentro de sua casa a menina logo a avisou que ele tinha cara de que não prestava, mas a mulher nem a ouviu. A discussão entre Mara e seu padrasto era mais que freqüente naquela época, pior até do que as atuais. Os bate-bocas sempre eram pesados e isso mexia muito com ela, chegando a parar de ter vontade de comer, principalmente quando o homem uma vez lhe disse que com certeza nenhum garoto a queria porque era gorda. O comentário desse homem era cheio de veneno e totalmente falso, pois Mara sempre teve um corpo proporcional, mas acabou se deixando influenciar por aquilo e desenvolveu a doença. Só que, como naquela época era muito mais forte, saiu sem nem precisar de terapia.
A menina agora estava em seu quarto escolhendo uma blusa.
Na verdade, Gisele era uma das poucas amigas que Mara realmente confiava e sabia que podia contar pra tudo. Na época em que estava sofrendo com suas crises depressivas, Gi era uma das poucas que a procurava e a colocava pra cima. Os outros, que se diziam \"amigos\", preferiam sair, namorar, entre outras coisas. Diziam que ficar ao lado de uma garota depressiva era um saco e que tinham outras preocupações na vida. \"É tão independente, não é? Que saia dessa sozinha!\", pensavam.
Sua mãe e seu padrasto haviam saído naquele dia, estavam comemorar alguma coisa da qual Mara não fazia questão de saber. O importante era que eles não estavam lá e que ela não teria que dar muitas explicações, só quando voltasse.
Gisele acariciava a barriga do seu gatinho que estava todo esparramado e quase dormindo com todos os carinhos.
A morena no outro lado da linha logo foi contagiada por toda aquela alegria, fazia tempos que não notava tanta felicidade na voz da amiga. Ela se sentou na cama e seu gatinho, Saul, imediatamente pulou em seu colo. Entre risos, pediu:
Gisele jazia sobre a cama, quase adormecida, quando Love in the Ice entoou no recinto. Gisele era uma morena de pele bronzeada, cabelos lisos que batiam pouco abaixo dos ombros, tinha olhos castanhos e uma altura avantajada. Rapidamente, levantou-se e dirigiu-se a penteadeira, onde se encontrava seu celular. Teve uma surpresa ao olhar o visor e ver a foto da amiga com o nome \"Mara Shim\" abaixo, era difícil receber uma ligação da outra, simplesmente pelo fato desta odiar telefones. Atendeu ao telefone e, antes mesmo de falar \"alô\", já ouviu berros do outro lado da linha.
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