O Morto
1 Prólogo
Notas iniciais
Ele podia ser visto de muito longe...
O silêncio daquele noite era interrompido pelos passos apressados do garoto, que desistira de tentar se camuflar por entre a brisa fraca que soprava ali, de tentar acompanhar o silêncio imposto naturalmente daquele momento, de tentar ser guiado.
O imponente portão de entrada parecia se afastar, fazia-o sentir necessidade de abandonar seus leves e singelos passos para alcançá-lo. Apenas quando finalmente chegou na calçada esburacada, pôde perceber que suas mãos tremiam e seu corpo relutava em adentrar aquele lugar, expressando-se de forma desesperada. Fechou os olhos e tocou o ferro sem nenhuma sutileza, sentindo-o frio sob seus dedos pálidos e trêmulos, tentando criar forças físicas e emocionais para empurrá-lo e, assim, abri-lo. Seus joelhos ameaçavam falhar, tremendo tanto quanto seus punhos.
Desistindo de tamanho esforço, soltou o portão e se apoiou no muro ao lado, tentando recobrar sua sanidade. Quando o medo se expressa pelo seu corpo, é melhor não discutir. Encarou a grama descuidada que crescia na extensão da pedra, encarou as gotículas de água que jaziam por entre as folhas úmidas devido a garoa, que refletiam a luz da lua cheia e brilhante, envolta de pequenas estrelas das quais a falta de iluminação local permitira que fossem vistas à olho nu.
Era uma noite linda, que implorava para ser observada, admirada. E assim ele o fazia, para tentar se acalmar. Ainda apoiado no muro, encarou cada estrela, cada poça de água na calçada cinzenta, cada pequeno detalhe que a natureza deixava por entre o rastro sujo e nojento de humanidade deixado em todo o resto, encobrindo tamanha beleza que, dessa vez, dessa única vez, destacou-se diante de seus olhos escuros. Humanos não gostam de passar despercebidos, e suas trilhas eram evidentes em tudo e todos. Não sabia o quão simples era, voltar seu olhar para a pureza impura daquilo criado do além de sua compreensão, e muito menos o quão bom era ter tal olhar.
Tudo parecia refletir na enorme esfera branca, que era, por sinal, a maior fonte de luz daquele rua. Encarou-a diretamente, quase maravilhado. E quando voltou a encarar as poças, inclinou-se levemente para a frente, deixando seu rosto sob elas e assim, seu próprio reflexo substituíra o reflexo brilhante da lua. Encarou o curto cabelo negro que lhe caía sob os olhos escuros e apáticos, o rosto fino e pálido, sua falta de expressões; tudo de forma turva, conforme a brisa remexia a água.
Fechou os olhos novamente e desprendeu-se do muro. Não hesitou em ir até o portão, agarrar com as duas mãos e o empurrar com força, abrindo-o. Ignorando o que seu corpo e sua mente suplicavam para desistir e voltar, caminhou o mais calmamente possível por entre a terra lamacenta, deixando pequenas marcas por onde passava. A sacola em suas mãos balançava e batia constantemente em seu quadril, o que o deixou irritado. Passava por vários túmulos de diferenciados tamanhos e tipos. Era fácil distinguir os mortos de família rica, com suas grandes estátuas de cimento e uma grande e chamativa lápide na frente, ostentando flores e homenagens, dos mortos de famílias humildes — ou, sem família alguma — onde jaziam lápides simples e solitárias com poucas flores, e alguns completamente vazios.
E naquele mar de solidão e tristeza, ele podia ver um feixe de luz, muito bem escondido por entre a escuridão. Provavelmente era errado encontrar a luz num lugar como aquele, mas já se acostumara com o politicamente incorreto. Aquele pequeno raio de sol que aparecia timidamente por entre a lua o fazia se sentir bem. Como um filete de sangue que escorre, sempre indesejado, sempre tentando ser impedido de seguir seu trajeto. E o garoto se sentira ridiculamente bem ao pensar que era diferente de tudo aquilo. Não havia sensação mais gratificante que saber que não havia nenhum curativo que pudesse parar seu sangue. Ele continuaria caminhando tranquilamente por entre o desespero, admirando a paisagem.
Perdido em seu próprio ego, mal percebera que chegara em seu objetivo: uma modesta lápide, que ao olhar alheio, parecia apenas mais uma que caíra no esquecimento, porém, se vista pelos olhos certos, com o olhar certo, exalava um incontestável poder que poderia facilmente derrubar as mentes mais fracas e influenciáveis na escuridão do abismo onde jazia.
Ajoelhou-se, um pequeno sorriso formando em seus lábios finos e trêmulos; fazia tanto tempo...
Tocou a pedra irregular, tateando a escrita mal feita e improvisada com seu próprio nome, sentindo-a profundamente. Parecia sentir sua própria morte sob sua pele naqueles letras. Era difícil distinguir as verdades das mentiras, quando elas se tornam naturais e necessárias ao seu dia-a-dia. Para mentir às pessoas, é preciso aprender a lidar com o fato de que você está mentindo à si mesmo também. Orgulhava-se de seu ótimo trabalho em ambos os lados: tanto o sucesso que obteve ao enganar-se quanto a dificuldade que fora fazê-lo.
Afastou-se brevemente, apenas para retirar de sua sacola branca, uma rosa.
Observou-a, admirando sua beleza. Agarrou o caule mais firmemente, sentido sua pele sendo levemente perfurada pelos espinhos.
Maravilhou-se com a elegância daquela pequena flor, que tinha o poder de fazer a dor se tornar atraente diante dos mais inocentes olhos, aqueles que ainda continham o brilho, a fé e a esperança que lhes seriam tirados futuramente pelo mundo afora, sem malícia, temporariamente imune ao desespero e a dor do ainda desconhecido.
Encarou o filete de sangue que escorria por entre seus dedos. Era, de certa forma, incrível saber que tal bela e inocente planta causara aquele sangue, que deveria transpassar horror, continuava sendo aconchegante e reconfortante.
Com esses pensamentos em mente, arrancou lentamente pétala por pétala, deixando-as alinhadas em frente à lápide. Em seguida, fez o mesmo que o caule espinhoso e viscoso devido ao seu sangue, juntando-o com suas pétalas, dando um fim ao breve momento de vida que teve.
Passando lentamente os dedos uma última vez por seu nome na lápide, permitiu que uma única lágrima solitária escorresse por sua pele, até cair na grama escura, misturando-se com as gotículas de água da chuva. Um último — e digno — adeus para si mesmo.
Talvez, algum dia, ele sentisse falta de poder sangrar novamente. Mas, até lá, faria com que valesse a pena manter o sangue correndo por suas veias como gasolina, e dançaria no topo das chamas antes que fossem apagadas. Faria com que sua vida não fosse em vão como sua morte fora.
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