O Monstro
1 Capítulo 1
O Monstro
Você acredita em monstros? Eu não acreditava, até ver um. Até lutar com um. Era verão de 2013 e estávamos meu amigo e eu indo arrumar o quarto para em seguida dormir. Meus pais estavam na sala, vendo um programa de televisão de qualidade duvidosa, cuja sigla repete três vezes a mesma letra. Estava tudo escuro, apenas com a TV dando luz ao apartamento. Meu pai, um homem grande, cabelo cheio e barba grossa, sentado ao lado da minha mãe, olhos verdes, cabelo castanho bem claro. Dois vidrados na televisão. Era noite de eliminação, eu acho.
Eu e eu amigo, conhecido como João, nos levantamos do sofá lentamente, para não fazer barulho. Tateando tudo à nossa frente, fomos para o quarto. Não é uma travessia gigantesca, meu apartamento é pequeno. Em segundos chegamos lá. Eu fui na frente e abri a porta. Tateei a parede e liguei a luz. Foi meu maior erro naquela noite.
Meu quarto estava bagunçado, com a mochila do João e as coisas jogadas no chão. A janela estava aberta, mesmo sendo de noite. Quando liguei a luz com seu brilho amarelado, eu vi a coisa mais terrível que a natureza poderia criar. Uma barata. Mas não uma barata comum. Era o pior tipo de barata que existe na face do universo. Era voadora. A maldita sentiu a luz acesa, e eriçou as asas marrons. Foi então que eu percebi com o que estávamos lidando.
"João, feche a porta" eu disse "não queremos que minha mãe tenha um ataque." Apenas para constar nos fatos, minha mãe é catsaridafóbica, o que significa pavor desses infelizes insetos que vivem no submundo. Enfim, João fechou a porta e ficou de vigia. Tentamos permanecer parados, para que a criatura não se manifestasse, mas foi completamente em vão. Em segundos a criatura levantou voo, e ficou frente a frente com meus olhos.
"Foi bom conviver com você, meu amigo" eu disse, com a voz trêmula "mas acho que essa é nossa ultima luta juntos"
"Não, cara, não lute sozinho, tem mata-inseto na cozinha" disse João, assustado.
"Não temos tempo. Ela já está no ar" eu disse. A maldita voava na minha direção, e eu não pude fazer nada. "Diga aos meus pais que eu os amo. Adeus, velho amigo." e me preparei para o pior. Foi quando tudo mudou. Quando a criatura do submundo estava bem próxima de mim, um chinelo selvagem voou do lado da minha orelha, e quase acertou a barata, que perdeu altitude, mas permaneceu no ar. Quando olhei para trás, João estava ofegante, com os olhos lacrimejantes. "Não hoje, amigo. Não hoje." E pulou sobre a barata, que deu um rasante e desviou do ataque raivoso do João. Este caiu no chão, mas tentou acertar o chinelo na barata mais uma vez, em vão. Foi aí que eu vi que tínhamos esperança. Peguei uma revista do Superman, enrolei e fiz dela minha arma contra o monstro voador.
Me certifiquei que a porta estava fechada, e saí para o ataque. Dei um golpe raivoso contra a barata, mas ela desviou e me fez acertar a revista na nuca de João. Em seguida, ele se levantou, massageando o local machucado e foi pra cima da barata, com o chinelo em mãos. Na verdade, em uma só mão. Eu corri em direção da barata também, mas ela foi mais rápida que nós dois e deu outro rasante. Estava na hora de acabar com aquilo.
"João, vá para a outra parede e não deixe ela se mover" eu disse "Vamos cercá-la"
E foi o que fizemos. A barata pousou no chão, um pouco cansada, talvez. Eu tentei pisar nela, uma, duas, três vezes. Já não se fazem mais baratas como antigamente. Meu amigo tocou outro chinelo nela, mas o chinelo pegou no meu joelho, me fazendo cair no chão. A maldita levantou voo mais uma vez, e eu peguei o chinelo que me acertou e me levantei. Parei por um segundo pra calcular a distância e a força pra acertar a criatura, então atirei. Minha arma saiu girando, veloz, com força. E com um estrondo, eu quebrei a janela do meu quarto. A barata continuou voando, provavelmente rindo de seus adversários.
Por um instante eu quase desisti. Ela era um oponente melhor que eu e João juntos. Então eu ouvi "Peter, olha lá".
João apontava para a barata pousada na parede. Estava indefesa, cansada de voar. Então eu fiz um sinal para ele, ele entendeu e bateu na parede, sem acertá-la, de propósito. A barata saiu andando para o lado oposto, e eu chutei uma poltrona com toda a força contra a parede. Ouviu-se um barulho nojento, e quando puxamos a poltrona, havia uma marca na parede.
O legítimo "sangue de barata". Ela estava caída, no chão, mexendo uma única antena. Nós vencemos. Dava pra ouvir o som de fundo (we are the champions, my friends... and we'll keep on fighting till the end). Limpamos o suor do rosto, e abrimos a porta do quarto. Nós vencemos.
Meus pais continuavam assistindo televisão, e quando abrimos a porta, eles olharam para nós. "O que houve lá dentro?" perguntou minha mãe. Eu olhei para João, que respondeu com uma risada. "Acabamos de salvar sua vida, mãe. Acabamos de salvar sua vida." É claro que eu tive que limpar a sujeira do quarto, e comprar uma janela nova, mas vencemos a barata voadora, filha do submundo, devoradora de almas.
Notas finais
*selo Carlos Alberto de qualidade*
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