O Monstro

1 O Monstro


Notas iniciais
Gente, eu não sei muito bem o que foi isso. Também não sei se está bom. A ideia simplesmente surgiu e eu escrevi. Reviews são muito bem vindos, quero saber a opinião de vocês.

O garoto entrou em seu quarto um tanto desajeitado devido ao peso de sua mochila. Devia ter mais ou menos uns sete anos, era um tanto magro para sua idade, tinha cabelos e olhos negros. Seus olhos fundos eram aumentados por olheiras fracas. O quarto estava escuro, iluminado somente pelos fechos de luz que vinham dos buracos na cortina. Era possível ver nos feches a poeira flutuando. Ao andar, o chão velho de madeira rangia embaixo de seus pés. Ele largou a mochila em um canto e se sentou na cama, coberta por apenas um lençol branco fino. Uma figura indistinta sentada numa cadeira em sua frente o encarava. Era difícil para o garoto ver a figura, ela parecia se esconder na escuridão.

– Não vai falar comigo? – perguntou a figura.

– Minha mãe me disse para não falar com estranhos. – respondeu o garoto.

– Mas eu não sou um estranho, eu sou você. – continuou a figura.

– Eu sou estranho. – disse o garoto.

– Acho que não foi isso que sua mãe quis dizer.

– Talvez tenha sido.

– Pode ser, mas se você também é estranho, isso não anula a regra?

– Acho que sim.

– Então você pode falar comigo. – concluiu a figura.

– Acho que posso. Sobre o que você quer falar?

A figura se aproximou. Era um menino da mesma idade do garotinho e seus cabelos eram igualmente negros. O que mais chamava atenção nele eram seus olhos vermelhos como o sangue que, assim como os do garotinho, estavam delineados com olheiras. Ele parecia solitário.

– Como se chama? – perguntou o garotinho.

– Não sei. – respondeu a figura. – Como eu sou você, não é você quem devia me dar um nome?

– Acho que sim. – disse o garotinho. – Não vou te dar meu nome, mesmo que você seja eu. Que tal Marcus?

– Marcus?

– É.

– Acho bom. Então eu sou Marcus.

– Eu sou Jin. – disse o garotinho. – Prazer em te conhecer, Marcus.

– O prazer é todo meu. – disse Marcus, com um sorriso em seu rosto.

Três anos se passaram e o cômodo permaneceu o mesmo. Ainda com os mesmo lençóis brancos, as mesmas cortinas esburacadas, a mesma cama, a mesma cadeira e a mesma figura sentada sobre ela. Era a mesma figura, mas de certa forma não era. Estava mais velha, maior, os cabelos estavam mais longos e desgrenhados, mas os olhos vermelhos eram os mesmos. A figura permanecia ali, sentada, encarando o garoto.

– Pensei que não estaria aqui quando eu voltasse. – disse Jin

– E já ocorreu de eu não estar?

– Não, mas....

– Então você não precisa se preocupar.

Jin se sentou na cama. Tinham se passado três anos desde que ele conhecera Marcus, mas ainda assim, sabia muito pouco sobre ele. Marcus sempre estivera em seu quarto quando não tinha ninguém. Ele também aparecia, às vezes, quando Jin estava sozinho. Jin já tinha se acostumado com a presença de Marcus, quem ele considerava seu melhor amigo. Marcus devia saber tudo sobre ele, mas ele não sabia nada sobre Marcus.

– Eu estive pensando... – começou Jin. – O que realmente é você?

– Eu sou você.

– Disso eu sei, mas o que eu quero dizer não é quem e sim o que. – continuou Jin — Nenhuma das pessoas que eu conheço tem um outro “eu”. Ninguém nunca viu você além de mim. Você realmente existe?

– Claro que eu existo. Eu sou muito real. Mas as pessoas não gostam de mim. Dizem que eu sou um infortúnio, que eu não deveria existir.

– Que coisas horríveis de se dizer. Quem diz esse tipo de coisa?

– Todos. E eu acho que você também dirá um dia, quando descobrir o que já fiz e o que sou capaz de fazer. Algum dia você também vai querer que eu suma. – disse Marcus. – Você perguntou o que eu sou, não é? Só você pode me ver porque eu sou uma parte de você. Você queria escapar do sofrimento e da solidão, então você me criou. Você me criou querendo se livrar daqueles sentimentos, tirá-los de seu corpo. E, ao mesmo tempo, você queria alguém que te ouvisse e ficasse com você. Eu sou seu desespero, sua agonia, sua tristeza e solidão. Eu sou tudo que você mais deseja que suma, mas minha presença te traz uma sensação de conforto e familiaridade, pois você cresceu comigo e com esses sentimentos.

– Mas eu gosto de você.

– Por enquanto. Você não pode saber o que é estar triste se nunca tiver ficado feliz. E, confie em mim, quando você experimentar a felicidade, vai querer distância de mim. Não vai querer esses sentimentos de abandono. Você vai deixar de gostar desse quarto escuro, vai tentar fugir de mim e se livrar de mim. Você vai descobrir que as coisas que eu sussurrei em seus ouvidos, que mandei você fazer, machucaram os outros. E você, mais que ninguém, sabe o que é ser machucado e não vai querer isso para eles. Por isso vai parar de me escutar, vai me ignorar, vai parar de me ver. Mas eu ainda estarei aqui, mesmo que você não perceba. Eu estarei ai no fundo, esperando o dia que você se lembrará de mim e perceberá o monstro que criou.

– Monstro?

– Sim, todos têm monstros dentro de si. Alguns mais que outros e alguns monstros são tão pequenos que ninguém nunca os percebe. Mas eu não sou pequeno. Você me alimenta e eu cresço com você. Você pode ser muito novo, mas algum dia vai se arrepender de algo que fez, ou melhor, que eu te fiz fazer, e vai finalmente entender o que eu quis dizer. Você nunca teve medo do escuro porque eu faço parte dele e você não tem medo de mim, mas algum dia terá. Algum dia terá medo de ficar sozinho comigo. Você nunca procurou por monstros debaixo da cama, porque você sempre soube que eles estavam dentro de você.

Notas finais
E ai, o que acharam?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!