Outros que contem passo por passo.
Eu morro ontem, nasço amanhã. Ando onde há espaço.
Meu tempo é quando

Vinicius de Moraes

Antony acordou com o chamado. Viera no meio do sono, como que em um sonho de música, cores e sons de harmonia única que instrumento algum conseguiria reproduzir. Era o som do inconcebível, do nada de antes da criação, as cores do deserto, das profundezas e do impensável. Desperto, não conseguiria contar o que viu, mas sabia com absoluta precisão e certeza que uma invocação havia sido feita e não vinha de perto. Sabia também que comparadas às antigas invocações, aquela não era digna dele. Ainda deitado, lembrou do cheiro dos incensos, da energia vital escorrendo da carcaça ofertada em tributo, das vozes entoando cânticos tão antigos quanto o mundo em imensos edifícios de calcário. Aquele tempo havia passado e, hoje, tudo que tinha era isso: impressões enviadas durante o repouso do corpo.

Decidido a não responder, preparou o café. Bacon e ovos para começar mais um dia de trabalho. Tira por tira, cada uma precisava ficar no ponto certo. Fritava a carne com a calma de quem pinta um quadro. Vez por outra pincelava um pouco de manteiga. Novo chamado. Mais rápido, mais superficial. Não respondeu. Não responderia. Havia acabado de se mudar para aquela terra e não pretendia ser levado agora a qualquer lugar que não fosse para o trabalho que tanto gostava. As invocações eram raras e nunca vinham com boas notícias. Ou serviam para encontros saudosistas entre parentes ou para discussões e debates tão infinitos quanto a sua natureza.

– Não dessa vez – deixou escapar em voz alta no meio de um sorriso rouco – Virão até mim, ou não faremos contato. Deixe um recado após o bip – brincou consigo mesmo, enquanto pescava uma fatia de bacon perfeitamente vermelha para dentro do prato com motivos florais.

A primeira refeição do dia foi tomada no escuro da sala, por trás de pesadas cortinas de plástico que impediam a entrada do sol. Era quase um ritual repetido diariamente antes de sair. Para onde ia, levava o costume. No Peru, tomava um chá forte no lugar do café. Na França, preferia o vinho. Ali o café era forte e fazia que precisava fazer: alimentar o corpo bem o suficiente para que a consciência estivesse plena e alerta durante todo o dia, mais um dia de delicioso, recompensador e maravilhoso trabalho. Terminado o café, o velho Antony levantou da mesa que ocupava o exato centro da sala vazia do pequeno apartamento, andou até a vasta janela que tomava toda a parede e puxou as cortinas para finalmente encontrar-se com o círculo solar.

Da janela do terceiro andar, dava para ver boa parte de Al Bayda, cidade no oeste da Síria, local que chamava de lar há um ano. Eram poucos os focos de incêndio na cidade naquela manhã. Também ainda não tinha escutado tiros. Sentiu o vento, encheu os pulmões e constatou: nenhuma morte na últimas horas. O dia não parecia promissor, mas aquilo era uma guerra civil com profundos e intrincados motivos políticos e, cedo ou tarde, alguém mataria em nome da sua verdade, e ele estaria lá. Precisava se alimentar. Bacon e ovos não seriam suficientes para aplacar sua fome. Jamais foram.

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Na Organização Não-Governamental onde era voluntário, Antony era um dos mais prezados pelos colegas. Jamais se negava a fazer o difícil trabalho de devolver a famílias arrasadas seus entes queridos levados pela guerra civil que se arrastava no país. Desde a Primavera Árabe, que havia derrubado o ditador do Egito, momento de grande diversão e prazer para Antony, quase um retorno a um passado distante onde acompanhava a alternância de poder de perto, as revoltas haviam se espalhado pelo Oriente Médio, área de onde raramente saía. Sentia-se em casa ali, e a Síria o havia recebido tão bem quanto qualquer outro país no qual tinha fixado residência por algum tempo.

Aquela terra, no entanto, passava por momento especialmente interessante para Antony. Ainda que as grandes redes de televisão do mundo não mostrasse a guerra síria como religiosa e o próprio governo negasse, aquele era um conflito religioso. Mais que isso, aquele era, para as facções envolvidas, o início da última grande guerra, o início do fim do mundo. O Profeta Maomé havia previsto a grande guerra do final dos tempos e por ela, lutavam jihadistas muçulmanos sunitas. Já para os muçulmanos xiitas oriundos do Líbano, Iraque, Islã, o conflito iria trazer de volta o Imã Mahdi, descendente de Maomé desaparecido há mais de mil anos. Seu retorno instalaria o governo islâmico global que precederia o fim do mundo. Para Antony, nenhum lugar poderia ser melhor que aquele.

– A tensão está aumentando desde ontem e, ao que tudo indica, haverá baixas hoje – alertou coordenadora da ONG.

Yara, a jovem que curiosamente combinava idealismo e profunda crença religiosa, coordenava a equipe de homens sem frescuras. No meio daquela guerra que lhe era tão estranha, se arriscava para tentar diminuir a dor das famílias dos combatentes. Os corpos eram recolhidos, identificados junto aos registros públicos, preparados e devolvidos à família. Tratar os feridos também era uma das prioridades e, ainda que escassos, os médicos que trabalhavam com a ONG já tinham salvos algumas vidas. Para que isso ocorresse, no entanto, era necessário um grupo de pessoas dispostas a entrar no campo de guerra para resgatar os corpos e feridos.

Quando Yara conheceu Antony numa época e alguma calmaria, imediatamente viu nele um possível membro do grupo de resgate. De constituição forte, na altura dos seus 40 anos, Antony era alto, de ombros largos. Era forte o suficiente para carregar pessoas desacordadas e esguio o suficiente para sobreviver no meio de uma guerra. Tão logo passou a integrar o grupo, fiou claro que a jovem diretora estava certa. Antony era extremamente ágil. Gostava de agir sozinho e, por mais que sempre estivesse no lugar certo, no centro dos conflitos, jamais saíra ferido. Nenhum arranhão, nenhuma torção, nenhuma bala o atingira em dois anos de trabalho. Silencioso, cuidadoso e quase metódico em meio a uma guerra, Antony chamava a atenção de todos à sua volta pela eficiência e, embora raramente conversasse por mais de 5 minutos com alguém, inspirava uma simpatia, um reconhecimento em todos que com ele cruzavam.

Tinha características únicas, algumas não muito boas para a organização, mas não lhe cobravam que agisse diferente. Yara sempre tivera curiosidade sobre um desses traços e naquela tarde, enquanto os grupos anti-Assad caminhavam para mais um conflito com as forças do ditador, resolveu falar.

– Você é calado...

– Nunca há muito o que falar. Pessoas exageram na comunicação. Muito que fala é invisível.

– É difícil conhecer as pessoas com pouco papo. Você por exemplo, é um dos melhores da equipe de resgate. Está aqui diariamente pronto para o trabalho, mas não faço ideia do que vive, de onde veio...

– Nada disso importa. Minha história não é diferente de qualquer outro que termina por lidar diariamente com a morte. Há algo que impõe silêncio àqueles que lidam coma única certeza da humanidade – respondeu à jovem diretora enquanto amarrava os cadarços do seu cuturno.

– Noto que você não traz feridos, mas apenas os mortos. Alguma questão pessoal te leva a resgatar os corpos para as famílias?

Antony não tinha notado que a jovem líbia prestava atenção em seu trabalho com tantos homens e mulheres sob sua direção. Não tinha uma resposta para aquilo, não uma oficial, que pudesse ser dada naquele momento. Optou pelo clichê.
– Sim. Uma questão pessoal. Algo do passado. Esse é meu trabalho aqui e será até que não seja mais interessante para vocês.

– De forma alguma. Perdão se minha pergunta foi mal colocada. Apenas curiosidade. Você sabe, conhecer o pessoal é uma das minhas obrigações aqui e você sempre foi um desafio nessa área. Você falou do passado...

Uma rajada de tiros pipocou ao longe e interrompeu a conversa dos dois. Os gritos de mulheres, crianças e combatentes anunciaram o início dos enfrentamentos naquele dia, já no cair da tarde. Antony se colocou de pé. Chegara a hora que esperou todo o dia. Sem falar mais nada, saiu da pequena casa usada como sede de duas ou três ONGs internacionais que agiam na cidade.

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A rua estreita, transversal a uma maior de onde aparentemente vinham os tiros já estavam vazias. Os últimos dias tinham sido violentos e as pessoas desapareciam a maior parte do dia. Escolas que raramente abriam estavam fechadas naquele inicio de tarde. Até o último censo, a pequena Al Bayada abrigva apenas 1629 pessoas. A guerra do fim do mundo, no entanto, havia atraído muitos para aquela região. As forças do ditador Bashar Al-Assad promoviam pesadas incursões na área e, só por isso, aquele pedaço de chão semi-esquecido virou questão de honra, de crença. O movimento que araía as pessoas par a a luta nos países vizinhos acabara por compensar os muitos que fugiram do país quando estourou a guerra. Aqueles que chegavam estavam dispostos a matar ou morrer e nenhum lugar poderia ser melhor que aquele para Antony.

Antes de entrar na avenida principal, durante um breve período sem tiros, ele aproveitou para avaliar a situação. Encostado contra uma parede, assim que colocou o rosto na avenida principal, o vento trouxe o cheiro inconfundível, incontrolável e incontestável daquilo que procurava. Amotinados atrás de carros virados, um grupo de revoltosos gritavam palavrões para a pequena força de segurança do governo Assad. Esses aguardavam protegidos em uma esquina. Antony desconfiava que havia feridos em ambos os lados, ou o ataque não teria cessado. Escolheu rumar para os revoltosos. Soldados eram mais disciplinados com seus feridos e mortos.

Colado à parede, correu até a próxima esquina. O plano era aproveitar o momento e percorrer todo o caminho da pequena avenida — que, em outros países por onde passara, não seria chamado de nada além de uma rua comum – até os sírios amotinados. Naquele ponto, no meio do caminho, há apenas um quarteirão de distância, já escutava os gritos. Ainda correndo, levantou a cabeça e respirou fundo. Em algum lugar atrás daquele carro, duas pessoas estavam feridas. Uma delas não resistiria muito tempo. A outra poderia sobreviver, mas estava desacordada. Colocou ais força nas pernas. Precisava alcançar o grupo antes que os tiros recomeçassem. Os insurgentes conheciam a camisa verde que usava com o símbolo da ONG, mas os soldados não. Se fosse confundido com reforços, poderia ser alvejado e isso lhe traria sérios problemas. Quando passava por mais uma esquina, já entrando no quarteirão onde se juntaria aos rebeldes, sua vista explodiu em cores e sons. As muitas sombras que via no lugar onde deveriam estar os guerrilheiros lhe impediam de ver seu destino final. Incapaz de seguir caminho, se jogou na rua paralela. Caiu no chão, encostado a uma parede, quando os tiros recomeçaram.

Aquela nova evocação havia sido mais forte que as anteriores. Não havia sido apenas um chamado como as anteriores. Mais forte, o havia cegado por alguns segundos e ainda agora, não conseguia escutar as rajadas de tiros que eram disparadas do seu lado. Eles estavam ali. Seus irmãos haviam vindo até ele. Não conseguia imaginar qual ou por que haviam se dado o trabalho de ir até ali, no meio do nada, para encontrá-lo, mas estavam próximos. Quando os sinais da invocação passaram, apertou os olhos e limpou o suor do rosto. Havia levado um tiro na perna, não sabia bem como ou de onde. Odiava a sensação do metal dentro do corpo, mas aquilo não o impediria. Agachado atrás da parede, olhava fixamente para um dos combatentes escondido atrás do carro. Com uma granada na mão, mas muito longe das forças do governo para jogá-la, o rapaz dava cobertura aos companheiros caso mais contingente do exército aparece por trás deles. Em ambos os lados da guerra, muitos haviam morrido na guerrilha urbana por causa de ruas mal protegidas na retaguarda. Seu papel era importante, mas naquele exato momento, o rapaz sentia a urgência de levar os dois feridos para longe dali. Sentia que precisava proteger aqueles dois que estavam incapacitados. Sentia que mais importante que qualquer coisa naquele momento, sob tiros de fuzil, era entregar os dois companheiros ao homem da ONG de resgate que esperava na rua logo ao lado.

O combatente, um homem por volta de sues 30 anos, não avisou aos companheiros que iria levar os dois feridos até um local seguro. Apenas largou os outros embarricados atrás do carro e, com um ferido em cada lado do corpo, os arrastou para fora da barreira. Os outros gritaram em um misto de pavor e raiva. O rapaz estava praticamente se suicidando. Chegou ileso à esquina, no entanto e desabou à frente de Antony. Levantando com dificuldade, exausto e sem saber direito por que deixou os amigos para levar até aquele homem os companheiros feridos, o rapaz fez o que podia. Ajudou Antony e arrastá-los até um beco naquela mesma rua e voltou correndo para trás do carro e de volta à guerra que se desenrolava.

Antony colocou ambos os feridos deitados lado a lado. Um deles respirava com dificuldade. Com reverência ancestral, cruzou o braço de ambos os feridos sobre o peito. Um deles já tinha a respiração tão fraca que era impossível ver sua barriga subir e descer, mas Antony sabia que ele ainda estava ali. Acocorado entre os dois, Antony colocou a mão sobre a testa de ambos e fechou os olhos. Sua boca se movia sem proferir som. As fórmulas ancestrais há muito esquecidas voltavam a ser ditas no mundo. A cada fonema, a força no beco se intensificava. Como os chamados que havia recebido ao longo do dia, aquela era a força do nada, do antes do mundo, uma energia que pulsava pronta para tomar forma para, milésimos de segundos depois, se dissipar. Cada músculo do corpo de Antony estavam retesados. Seu toque sobre a testa dos feridos, no entanto, era leve como uma brisa. Sabia que tão logo fosse terminado o ritual, impulsos invisíveis marcaria seu exato lugar no mundo. Sua localidade reverberaria para muito, muito longe, muito além do tempo e espaço. Havia sido ignorado por muito tempo, mas com parentes em seu encalço, aquilo seria o mesmo que atender a convocação. Podia, como fez outras vezes, aguardar os chamados diminuírem até desaparecer. Até o seu povo desistia depois de um tempo, mas precisava fazer aquilo agora e não haveria escapatória.

Quando a última palavra saiu da boca de Antony e seus lábios se fecharam, o pequeno beco explodiu em uma onda de energia e cores escuras que dançaram no ar à volta do trio. Qualquer um que passasse por ali, veria apenas um homem orando por camaradas mortos. Para os olhos de Antony, no entanto, aquilo era o momento pelo qual se mantinha, dia após dia, no interior da Síria. A cada corpo resgatado e preparado para a jornada, a cada ferido que facilitava a passagem para o outro mundo, a cada ritual executado, sua alma imortal era alimentada e ele era elevado, por milésimos de segundos, ao espaço que ocupou por milênios. Aquele era o êxtase do seu povo. Aquele era o alimento da vida que fazia valer a pena manter todo o teatro da vida comum. Aquilo era a glória, pura como poucos podiam experimentá-la.

Ao se levantar, olhos fechados, cabeça baixa, músculos tensionados, o homem se sentia revigorado, potente, profundo como a escuridão do espaço. A noite havia caído e uma enorme explosão destruiu o carro que os rebeldes usavam para se proteger. Um tiro de bazuca certeiro havia destruído a barricada e matado os revoltosos que ainda lutavam. A energia no beco ficou ainda mais densa. Era quase palpável. O incêndio iluminava o beco. De pé, o homem estava imóvel. Na parede do beco, entre pichações em árabe, a sombra de Antony traía seu corpo e projetava sua alma. A sombra se alongava parede acima formando a imagem de um homem forte, pescoço largo e longas orelhas em uma enorme cabeça de chacal.

– Anúbis – A voz vinha da entrada do beco, às suas costas.

– Sabia que seria impossível me alimentar sem que isso se transformasse em um imenso localizador, mas esperava que algum decoro e respeito fossem observados.

– O assunto é urgente e não há tempo para as fórmulas antigas, Senhor da Morte. Precisamos conversar longe daqui. Cruze a porta comigo.

O silêncio do chacal no Oriente significava uma negação. Nada lhe obrigava a obedecer aquele que vinha à sua busca. Reconhecia aquela força e nem mesmo era um dos seus parentes, embora fosse um dos antigos do seu povo.

– Anúbis – a voz repetia seu nome com uma profundidade pausada, como que marcando cada fonema no próprio tecido do mundo – O receptáculo foi despertado.

Abrindo os olhos vagarosamente, o senhor da passagem virou-se para encarar aquele que o abordava. Contra o fogo, via apenas a silhueta do jovem magro. Não esperava que voltasse a ouvir falar de um receptáculo pelos próximos milênios, mas ali estava um dos seus trazendo a notícia. Deveria ter atendido as convocações, afinal. Embora aquilo não lhe dissesse respeito diretamente, entendia a importância do momento. Sabia que, cedo ou tarde, acabaria forçado a atravessar o tecido e ir ao encontro dos seus iguais. Aproveitaria o momento. Não tinha nada a perder ali. Desapareceria e seria dado como morto e desaparecido. Logo se esqueceriam dele, como se nunca tivesse existido.

– Por onde vamos?

– Antes, buscaremos mais um dos nossos. Você me ajudará.

– Não antes que me adiante as informações que tem. Sabe que não tenho interesse no assunto.

– Dessa vez, senhor da morte, todos temos. Acredite em mim. Por favor, vamos a um local mais adequado para essa conversa.

O jovem rapaz, ainda apenas uma sombra contra o fogo, apontou para uma porta em uma das paredes do beco que, até há pouco, era apenas um espaço vazio entre prédios, sem porta alguma. O rapaz segurou a porta para que Anúbis passasse. Do lado de fora, era impossível ver qualquer coisa dentro da porta. Devagar, quase relutante, Anúbis cruzou o portal. Antes que o rapaz entrasse e fechasse a porta, virou para encará-lo.

– Espero que isso valha a pena, Mercúrio.

– Valerá. Não seja tão descrente.

Em um baque surdo, a porta se fechou. A Síria ficou para trás como uma terra onde um homem chamado Antony jamais pisou. Jamais havia estado ali. Sempre estivera, porém. Privado do chacal, o Oriente pareceu mais escuro por alguns segundos. Ninguém notou e a vida seguiu normalmente.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.