O Moço que Acordava Cedo e outras histórias
2 A Janela
A Janela
Sentado na poltrona do quarto, mexendo no celular, ele tinha a visão através da janela.
Do décimo segundo andar, podia enxergar os quintais de algumas casas. Mas isso não lhe interessava. Seu foco estava nas mãos, nos movimentos rápidos sobre a tela.
Até que ele a viu.
Nos primeiros dias, sentiu — e de soslaio percebeu — uma figura agitada na área de serviço da casa dela. Ela ficava ali por algum tempo e, depois, sumia.
Essa rotina dela, aos poucos, começou a fazer parte da rotina dele. Talvez ela sempre estivesse lá, mas sua falta de interesse pela vida alheia, somada à descrença em olhar pela janela, nunca o permitira enxergá-la antes.
Ele chegava da escola, largava os tênis no chão enquanto ouvia a mãe reclamar da mochila esquecida na sala e de outros rastros de bagunça. Em outros dias, era o som das batidas na porta e os gritos chamando-o para almoçar, enquanto ele se atirava na poltrona, o celular já nas mãos.
E assim os dias passavam. Até que a movimentação lá fora começou a incomodá-lo.
Entre uma risada ou outra, enquanto mergulhava nos vídeos curtos das redes sociais, notava um vulto que se agitava lá embaixo. Até que, certo dia, incomodado, olhou pela janela.
Ela varria o chão, lavava roupa, regava as plantas, cantava, estendia as roupas no varal, recolhia-as depois. E então voltava para dentro.
Era jovem, com cabelos lisos e compridos. Vestia sempre camiseta e shorts.
Ela entrava. Ele voltava para as redes sociais.
Mas começou a perceber algo diferente. Em pouco tempo, a vitalidade dela começou a desaparecer.
Um dia, ela apareceu um pouco mais corpulenta, menos ágil. O semblante parecia mais firme, mais sério. Percebeu que não cantava mais.
Em outro dia, ela se movia devagar, parando de tempos em tempos para colocar as mãos nas costas, como quem sentia cansaço. Ainda assim, recolhia as roupas e desaparecia para dentro de casa.
Ele, que agora já estava acostumado a observá-la, notava as mudanças, mas não com qualquer interesse malicioso. Ele era apenas um jovem; ela, uma mulher mais velha. Havia algo nela que o intrigava: as mudanças rápidas e estranhas.
Ele começou a notar que nem todos os dias ela aparecia. Mas ele, sim, estava sempre ali. Sua rotina de sentar na poltrona com o celular era sagrada.
Até que ela surgiu novamente. Ele estreitou os olhos, tentando reconhecer se ainda era a mesma pessoa. E era. Os gestos dela não mentiam, mesmo que estivessem ainda mais lentos.
Mas sua aparência havia mudado drasticamente. A pele estava envelhecida, os ombros mais curvados. Um lenço floral cobria parte dos cabelos agora brancos. Com dificuldade, ela varreu o quintal, estendeu algumas roupas, regou as plantas já murchas. Recolheu o que havia no varal e entrou na casa.
E então, um dia, ela não apareceu mais.
Apesar da distância, a ausência dela fazia falta. Ele olhava para a janela, esperando vê-la surgir novamente. Mas ela não veio.
Desviou os olhos para o celular e, estranhamente, notou suas próprias mãos. Elas estavam enrugadas. Seus dedos, envelhecidos.
Chamou pela mãe. Ninguém respondeu.
Levantou-se da poltrona para procurar por ela. Mas, ao se erguer, viu seu reflexo no vidro da janela.
O rosto que o encarava não era mais o de um menino. Era o de um homem. Barbas espessas, óculos, cabelos grisalhos e uma pele marcada pelo tempo haviam tomado o lugar do jovem que ele fora.
Ficou parado, encarando o reflexo. E, lá fora, através da janela, o quintal estava coberto de folhas secas. As plantas haviam morrido, e o varal estava vazio.
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