O Mistério Índigo
2 O Dilema de Daniel
Passamos duas noites em claro no apertado apartamento de Daniel. Não foi tarefa fácil convencê-lo de uma possível ligação entre os fatos, mas feito isso nos desvencilhamos dos demais investigadores para estudarmos sozinhos essa possibilidade. Demorou algum tempo para nossa primeira conclusão ser tomada.
"Agenda particular de investigação, Jonhathan Indigo e Daniel Alphonse.
Pichações ao redor da cidade em quinze diferentes pontos, nove mensagens restauradas de arquivos policiais, vide lista abaixo. Data de 12 de março do ano de 1975.
uble, avim, albu, tches-eng, airoa, zuzaro, redom, sliz, bieniesk
Respectivamente anagramas para azul em francês/inglês, turco, esperanto, chinês, japonês, italiano, esloveno, coreano, polonês.
Supõe-se relação com os pássaros azuis.
Harry descobriu isso e foi morto por um turco de nome Mavi.
Prisioneiro que em interrogatório provou-se inocente das acusações de participação no incidente das pichações.
A presença constante da cor azul e do número quinze pode e deve ser um fator relevante."
— O que me diz, meu caro Watson?
— Eu acho, Sherlock, relevante citar que mês passado li um livro chamado "Operação Azul". Me lembro especialmente de ele ser divido em capítulos de 15 paginas cada. Isso pode vir a ser relevante, creio eu?
Nada relevante, o livro não parecia suspeito quando averiguado e provou-se uma inocente e pacata história. Foi submetido a todo tipo de suspeitas, mas nada foi levado em conta nas investigações.
Rodamos por todos os arquivos em nosso alcance em busca de algo referente à cor azul e ao número quinze e nada nos pareceu ser de grande relevância. Mesmo depois de anotar, enumerar e estudar cautelosamente os resultados relevantes, provaram-se tentativas inúteis. A maioria tratava-se sobre linhas aéreas ou pessoas.
Coincidentemente, nesse mesmo dia, fomos visitados por nosso colega de trabalho, Ethan, que dizia ter descoberto algo vital sobre o caso. Ouvimos-no assim que nos aconchegamos no apartamento.
— Vou direto ao ponto. — disse ele severamente — Antes de qualquer mérito ou inquérito definidamente acusador, gostaria de conversar com os dois melhores detetives poiroticos que a Inglaterra já conheceu.
— E aonde nós entramos na história? — brinquei enquanto bebia um gole de cerveja — Prossiga, Ethan.
— O homem preso, senhor Mavi, era participante de um grupo. Uma seita, se assim quer chamar. Mas não gostaria de atrapalhar vossas visões do caso com coisas potencialmente irrelevantes. — ele fez uma pequena pausa — O caso é: Mavi não é seu nome verdadeiro e foi usado na Inglaterra em apenas numa ocasião, e sabe do que estou falando: pode ter sido um grande esquema, talvez envolvendo a seita...
— Mas? — disse Daniel, como se soubesse exatamente que havia algum detalhe a acrescentar.
— Não conseguimos contrapôr seu álibi. Aparentemente, seu nome falsificado tinha relação com sua ex-esposa, Srta. Catherine, uma senhora de descendência turca.
— Continue. — disse, soando um pouco arrogante — Conhecendo você, sei que precisaria de um pouco mais de prova para estar nos falando isso.
— Srta. Catherine foi assassinada poucos anos antes do acidente de carro, e ainda na Turquia, para onde há muito tempo haviam se mudado. Depois de poucos dias, já era suspeita de ter cometido o crime. Então mudou seu nome e arrumou uma nova vida em outra cidade do país, com a identidade de um turco.
Depois de por algum tempo ponderar nas possibilidades, chego a conclusão de que um detalhe parecia errado. Talvez fosse apenas minha intuição, mas eu sabia que tinha algo faltando. Ele não teria admitido tudo isso se era tão mais fácil admitir a relação com a seita e se livrar de demais acusações.
— Será de grande ajuda. — digo, como se agora tudo tivesse se tornado claro como o dia — Obrigado por compartilhar.
Infelizmente, seu álibi se provou verdadeiro após uma busca nos arquivos turcos: seu nome de nascença era Charles Edwards e se mudou pra Turquia logo após seu casamento com Catherine Carter ( nome de solteira ), em 1962, conseguiu fugir da polícia por quatro anos com a suspeita de envolvimento no crime.
Danny, como eu agora o chamava, foi ao supermercado comprar algo para comermos, me deixando sozinho em meus pensamentos. Num momento de súbita inspiração, troco o canal da TV e me inspiro em paisagens para desenhar. De alguma forma aquilo me deixava harmonioso, e eu sabia que precisava daquilo.
Danny voltou e o estalar da porta me fez voltar à realidade, parei de desenhar e nem me preocupei em comer naquela noite, apenas em continuar investigando até uma explicação que nos parecesse razoável.
— Daniel, meu caro Danny. — pergunto em meio à noite sem sono — Posso perguntar-lhe algo potencialmente e particularmente pessoal?
— Nada contra, vá em frente.
— Por que terminou com sua última namorada?
— Você bebeu demais ou o quê? — disse ele, constrangido — Ou está tentando personificar um detetive excêntrico...?
— Atea-se na pergunta, por favor.
— Ora, um de nós não gostava mais do outro, como todo relacionamento acaba.
— Então acompanhe-me, por que "Mavi", se assim posso continuar a chamá-lo, não havia se divorciado de sua esposa, se a tinha vontade de matar?
— Manter as aparências, talvez. — ele hesitou, como se parecesse uma resposta óbvia demais — Ficaria muito claro se eles fossem divorciados, não?
— Gosto de como pensa. Simples e direto. Mas leve em conta o tempo em que ficaram juntos e me diga instintivamente se um homem capaz de calcular tão friamente o assassinato de sua esposa e todos os detalhes que o cercavam... será que poderia desesperar-se tão facilmente apenas por ser suspeita do crime?
— Se psicologicamente abalado... — disse ele, em tom convencido — eu faria o mesmo.
— O que poderia motivar um crime frio contra a própria esposa e futuros abalos psicológicos?
— Traição? Um segredo? Uma mentira, quem sabe?
— Ou seja, tudo leva a crer que foi ele, se visto pelo ângulo certo. Não me admira que sabendo disso ele tenha ficado tão desesperado em correr.
— Certo, temos certeza de que ele cometeu o crime, é isso?
— Pelo contrário, estou dizendo que o que parece óbvio pode não ser tão claro. Já pensou que talvez ele não a tenha matado? Um fator me leva a crer nisso, espero que fique claro pra você em breve.
Ele suspirou e voltou a examinar cautelosamente os arquivos que mantínhamos conosco até agora. Pareceu um pouco perturbado pela minha abordagem repentina.
Já estávamos sem esperança e cansados quando por acaso, ao som da televisão que Daniel exigia que fosse mantida ligada vinte e quatro horas por dia, ouvimos no meio de uma reportagem sobre a Austrália a respeito de uma rua que levava o nome de "Blue Street".
— Johnny, eu estava num canal esportivo... por que uma reportagem sobre a Austrália agora?
— Daniel, eu entendo seu comprometimento com a investigação, mas sua precaução exagerada me irrita. Concentre-se apenas nos detalhes importantes.
— Você trocou de canal, não foi?
— Sim, eu troquei. Esse é o ponto. Não preciso se comover por tão pouco.
— Jonathan D. Indigo, em que droga de canal você foi colocar?!
Percebi o que ele queria dizer nesse momento. Receoso ou não, pronunciei em voz alta: "canal... quinze".
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