Notas iniciais
musicas: http://www.youtube.com/watch?v=oCbLAv1NMs0 (friends never say goodbye) - a partir do momento que ela sai do hospital http://www.youtube.com/watch?v=6V5BK3vlcGk (guren no yumiya – lullaby) - para o resto

Ando nervosamente pelos corredores da escola. Pela primeira vez desde o começo dos tempos não estava atrasada para a aula, mas o nervoso que se acumulava no meu peito, fazendo meu coração bater ensurdecedoramente, era mais do que o suficiente para não me deixar andar com calma. Primeiro, faziam semanas que Peter me ignorava sem nenhum motivo, ou pelo menos nenhum motivo aparente. Eu jurava, as vezes aquele menino parecia uma mulher na TPM! Segundo, e muito mais estressante, eu não sonhava com Elizabeth desde que ela havia me dado os “olhos” que até agora, não tinham feito nada.

Tirando aquele incidente no banheiro, mas eu tinha certeza que havia uma explicação lógica para aquilo. Ou pelo menos era o que eu ficava repetindo mentalmente.

Sou jogada para fora de meus pensamentos por uma batida em um tronco humano. Resmungo um xingamento em japonês e levanto a cabeça para ver quem era a pessoa em que havia batido.

– Ren? – Joe pergunta.

Faço meu melhor para levantar uma sobrancelha, estava começando a adquirir a habilidade, mas paro quando examino melhor a expressão de Joe. Seus olhos estão arregalados e cheio de pavor e seu maxilar contraído, como se o homem pudesse socar a parede mais próxima até virar pó.

Alguma coisa estava errada.

– O que aconteceu? – pergunto, não me importando em esconder a apreensão em minha voz.

Joe arregala os olhos ainda mais e pisca algumas vezes, tentando se livrar do mínimo resquício de lágrimas visíveis.

– Venha comigo – ele murmura, sua voz sai tão fraca que tenho que ler seus lábios para entender o que ele havia dito.

Deixo Joe me segurar pelo braço e começar a me arrastar para fora do caminho. Meu coração começa a bater mais rápido. Joe estava assustado, muito assustado e pelo pouco tempo em que eu conhecia ele, podia dizer, que ele não se assustava fácil. A não ser que alguma coisa muito ruim tivesse acontecido.

Relembro de minha conversa com Peter sobre os assassinatos. De todos os segredos que havia contado para ele e das memórias que havia tornado minhas. Por algum motivo, minha intuição dizia que isso, tinha alguma coisa a ver com o assunto.

A pressão no meu braço me faz encarar Joe mais uma vez e percebo, com certa hesitação, que ele estava me machucando. Abro a boca para falar para ele diminuir o aperto, mas nessa hora vejo algo de relance.

Viro minha cabeça de supetão e dou de cara com paramédicos parados na frente de uma sala, a sala de biologia de Hideyoshi, e a pior parte, a policia. Meu estômago embrulha quando vejo aquela imagem, mas não consigo me lembrar do porque e de repente, estou lutando para escapar das mãos de Joe e correr na direção deles.

Passo correndo pelo corredor, sem prestar atenção se Joe estava me seguindo. Aproximo-me dos policiais e paramédicos, que imediatamente tentam me barrar, mas, utilizando meu tamanho e agilidade, passo pelos braços deles e deslizo dentro do quarto de Hideyoshi.

O cheiro quase me nocauteia. Cheira a carne podre e chorume. A bile sobe pela minha garganta, mas forço ela de volta, não podia vomitar. Olho para a cama do professor e vejo seu corpo deitado ali, imóvel, com as mãos em cima do estômago. Eu quase podia dizer que ele estava dormindo pacificamente, se não fosse pela pele extremamente branca recobrindo a expressão dura e seca de sua face.

Ele estava morto.

Sinto a sala girar ao redor de mim. Memórias fluem pela minha mente, enquanto eu relembro de ver outros corpos assim. Parados, imóveis e duros, tão pálidos quanto a neve. Olhos negros e foscos me veem a mente, olhos sem vida e a bile sobe novamente. Me sinto tonta e fraca e caio de joelhos, sentindo mãos se enrolarem em volta de mim.

O que vocês estão fazendo?

Meus olhos ardem, com lágrimas que se recusam a cair. E algo mais.

Ele está morto!

Os braços tentam me puxar para fora, mas eu não quero sair, eu me recuso a sair e começo a me espernear, tentado me livrar do aperto sufocante. A pressão no meu corpo só aumenta e a pessoa me segurando não desiste. Minha visão começa a ficar embaçada, não consigo nem mais ver o corpo nitidamente.

Ele não era para ter morrido!

Minha cabeça gira, meu corpo está mole e minha garganta queima com o desejo de esvaziar meu estômago. Minha voz ecoa pelo quarto, tenho consciência de estar soluçando de tristeza, mas não escuto som nenhum. A dor no meu peito aumenta e meu corpo finalmente perde a batalha. Caio de joelhos no chão, tossindo toda a comida do meu estômago, entre lágrimas e mais lágrimas rubras.

A pessoa me segurando me dá espaço, posicionando uma mão confortavelmente na base das minhas costas e murmurando palavras agradáveis.

O que vocês estão falando? O QUE VOCÊS ESTÃO FALANDO?

O conteúdo da minha barriga finalmente se esgota e meu corpo é deixado em curtos e espaçados espasmos. Passo a mão pelo meu rosto, manchando meu cabelo de vermelho e em seguida cobrindo-o com as mãos. Os murmúrios começam a aumentar e minha cabeça lateja com toda a informação.

Ele não pode estar morto.

Dor passa pelo meu corpo em ondas e faz todos os meus músculos se retraírem em resposta. A dor física me atinge de repente e eu começo a escutar os soluços que ecoam pelo quarto.

Meu corpo é levantado do chão e começa a ser retirado do lugar de antes. O movimento faz meus pulmões pegarem mais uma inspirada do cheiro azedo do quarto, que faz minhas entranhas se contraírem mais uma vez. Quero tampar meu nariz, mas mantenho as mãos sobre meus olhos, vagamente ciente de que não poderia deixar as pessoas me verem com lágrimas de sangue.

Porque dói tanto?

O murmúrios não param. Sinceramente, será que as pessoas não podiam simplesmente calar a boca?

Estava de luto, será que ninguém podia respeitar?

O cheiro vai diminuindo o que indica que estamos saindo da sala, sou arrastada para fora, com esforço. Porque por mim, eles poderiam me deixar apodrecer naquele lugar, pelo menos era melhor do que a crescente dor que assolava minha mente.

Porque?

Minha consciência beira um abismo e começa a dar pequenos passos em direção a escuridão. Eu só quero cair, cair dentro dele e esquecer a dor do mundo real, toda essa dor que vem para mim.

Porque?

Sinto-me pulando abismo abaixo e caindo em um mar de escuridão que aos poucos entorpece meu corpo e arrasta ele para um estado de sonolência. Estou quase livre da dor.

Mas porque?

Quase no fundo do abismo.

Eu mal conhecia ele.

Quase no fundo.

De quem é essa dor?

Quase no fundo.

E porque meus olhos ardem como se estivessem pegando fogo?

E minha consciência escapa.

°_°_°_°

Tomo consciência dos meus arredores no momento que gotas de chuva caem no meu rosto, gentilmente escorregando pelos meus braços e caindo da ponta dos meus dedos.

– Eu voltei – murmuro para ninguém em particular. Meus pés fazem um som de “squish, squish” debaixo da grama e eu noto que estou descalça.

– Surpresa por haver retornado? – Elizabeth pergunta. Ela se posiciona atrás de mim e, embora ainda não possa ver seu rosto, a chuva me conscientiza de sua expressão dolorida.

– Já fazia tempo que não vinha aqui – encaro o horizonte, agora borrado pelas nuvens de chuva – Eu pensei que talvez, não fosse mais retornar – a tristeza escapa na minha voz antes que possa impedi-la e me repreendo mentalmente.

Não soe tão fraca, estupida!

Elizabeth se aproxima de mim.

– Eu sei querida, mas você precisava de tempo para pensar e desvendar seus poderes tão complicados – sua voz soa neutra, sem o tom de arrependimento e tristeza. Ela parece ter aceitado o que havia feito comigo.

– Porque dói tanto? – minha voz escapa antes que eu possa impedir. Ela soava tão fraca a impotente. Quando foi que a minha vida se tornou tão complicada? – Eu mal conhecia o professor e mesmo assim senti como se tivesse perdido meu pai, ou avô. Tio, amigo, irmão, tudo! – exclamo, incerteza brotando no meu coração – eu nem sei porque me sinto assim?!

Meus ombros tremem em baixo do toque de Elizabeth.

– Esse é o seu poder. Você se arrepende de ter pedido por ele?

– Eu nunca pedi pela dor de outras pessoas! – respondo virando de frente para a mulher.

– Você pediu pela minha – o peso de sua voz quase me sufoca.

– E só a sua, então porque eu recebo a de todos?!

Elizabeth tira as mãos de cima de meus ombros e se afasta de mim. Seu cabelo está encharcado e alguns fios insistem em caírem em cima de sua testa, mas a mulher os retira repetidamente com movimento fluidos e graciosos.

– Me responda! – exclamo, quando ela não para de se afastar – porque eu tenho que receber a dor de todos?

Desespero começa a tomar conta de mim e sinto minhas mãos tremerem, não sei se pelo frio da chuva ou pelo medo de estar sendo abandonada. Quando foi que a minha vida se tornou tão difícil? Quando foi que tudo começou a dar errado? Porque isso está acontecendo comigo?! Porque eu?!?

– Me responda! – grito, a raiva se apossando do meu corpo. Quero me livrar dela, quero me livrar de todos e tudo que esta me fazendo sentir isso.

Esmago minhas mãos nos meus ouvidos para tentar parar o zumbido irritante que me rodeia. Tantas vozes gritam dentro do meu cérebro, fazendo ele sangrar, arder.

Stop.

Parem de jogar tudo em cima de mim! Eu não sou a pessoa para fazer isso, eu não posso cura-los, não posso perdoa-los, não posso fazer a vida de vocês feliz novamente!

Stop!

Começo a andar, bamba, pela grama molhada, esperando que isso faça com que a dor diminua, mas não melhora nada e meu desespero cresce. Agarro meu peito e rasgo as roupas que o cobrindo, arranhando a carne em baixo, em uma tentativa de arranca a parte que estava doendo tanto.

Mas não para.

Stop!!

– Me responda!!! – grito entre soluções de dor para a mulher, mas como antes ela está parada a alguns metros. Completamente imóvel.

O pânico começa a crescer mais e eu me dou conta de quanto a chuva está gelada e queima quando em contato com a minha pele. Sacudo-me tentando me livrar dos pingos de chuva, mas isso só faz minha dor de cabeça aumentar.

Vou dando pequenos passos para trás em uma tentativa de fugir de tudo, quando meus pés se chocam de encontro com uma enorme poça de água.

Os lagos?

Tento me virar para ver se eles haviam descongelado, mas antes que possa sequer me mexer, pequenas mãos agarram o tecido da minha saia e começam a puxa-lo para baixo, em direção ao fundo da lagoa.

NO! STOP!

Tento me livrar delas e das milhões de outras fadas que saem do lago e se amontoam em cima do meu corpo, arranhando minha pele e me puxando cada vez mais para o fundo. Sinto minhas pernas falharem e afundo até a cintura, ficando cada vez mais fraca.

A chuva aumenta e a água que espirra em volta de mim se junta a água da tempestade, preenchendo minhas narinas e me afogando. Dou um soco no ar, como minha última tentativa de afastar as fadas, mas isso também não da certo e, perdendo minhas últimas forças, sou arrastada para dentro do lago, sem manejar inspirar um último punhado de ar.

As fadas se pressionam contra o lado do meu corpo, forçando-me a, aos poucos, liberar o precioso ar que havia capturado. Minha dor de cabeça aumenta devido a falta de oxigênio. Estava sufocando, minhas costelas doíam pelas picadas agoniantes das pequenas fadas e da pressão crescente do lago.

Tento ver alguma coisa acime de mim, mas tudo que há é a profundeza azul da água. Já estava muito fundo. O fraco azul do céu começa a ser pintado de negros e meus olhos falham na ausência de oxigênio.

Meu braços adormecem e paro de sentir a pressão dolorida das fadas. Agora meu corpo já não está mais sendo arrastado, ele afunda suavemente, cada vez mais fundo, dentro das águas profundas dos lagos de Elizabeth.

°_°_°_°

Abro meu olhos de supetão e me jogo para cima, imediatamente me arrependendo quando meu estômago se espreme e tentar fazer a comida subir novamente. Felizmente não havia mais nada para ele jogar fora e minha tentativa de vomitar some em uma crise de tosse.

– Senhorita Kouhen? – uma voz pergunta atrás de mim.

Viro-me lentamente e dou de cara com... Não tenho certeza. Tento responde-lo, mas minha voz não sai e mais uma crise de tosse me acomete.

– Não force tanto senhorita Kouhen. Você precisa descansar – o homem me passa um copo de água.

Olho meio desconfiada para o líquido transparente, mas a dor na minha garganta me faz mudar de ideia e viro toda a água de uma vez. No segundo que sinto a sensação fria atingir meu estômago me arrependo de ter tomado tudo e pulo da cama. Corro para o banheiro me debruçando sobre a privada e cuspindo a água junto com a bile que subiu do meu estômago.

– Senhorita Kouhen...

– Não... – tusso – não me chame de Kouhen. Por favor – limpo os cantos da boca e dou descarga, fechando a tampa e me direcionando a pia – Ren está bom.

Faço um bochecho rápido e volto para o quarto sentando na beirada da cama. O médico estende mais um copo de água para mim e meu estômago se embrulha.

– talvez você queira tomar esse mais devagar – ele sugere e me estende uma pílula, provavelmente para enjoo. Recuso o remédio com um aceno e pego a água, dando pequenos golinhos.

Quando a sensação de enjoo não volta me sinto mais confiante e tomo uma quantidade maior de cada vez.

– Parece que você teve uma recaída mental muito forte senho... Ren.

– Eu vou ficar bem doutor, não se preocupe. Acho que foi só a surpresa.

– Não duvido – o médico não diz mais nada, apenas espera eu terminar de bebericar minha bebida e pega o copo de volta – você gostaria de sair agora, ou preferiria permanecer aqui?

– Eu gostaria de voltar para o meu dormitório. Se possível? – levanto da cama e vejo o homem acenar positivamente. Tomando isso como um “sim”, começo a sair do quarto.

– Ren – ele exclama, antes que eu fique fora de vista – tome cuidado com a sua condição.

– Condição? – viro-me para encara-lo de frente.

– As lágrimas.

Antes que possa evitar minha mãos voam até minha bochechas e um barulho imperceptível escapa meus lábios.

– Haemolacria – o medico fala, empolgado – é uma condição fascinante e extremamente rara.

– Haemolacria? O que é isso? – sinto meu medo diminuir e desço a mão do meu rosto.

– Sua condição Ren. Não me diga que não sabia? – sua expressão muda e ele adquire um semblante preocupado.

Faço que não com a cabeça, esperando que ele me explique do que estávamos falando.

– É uma condição caracterizada por lágrimas feitas parcialmente de sangue. É o que acontece com você quando chora não?

– Acho que sim – passo a mão despercebidamente pela minha bochecha. Ele deve ter visto as lágrimas de sangue quando eu fui trazida aqui – já fazem alguns anos desde que eu não choro.

– Oh – o homem se aproxima e pousa uma mão em meus ombros confortavelmente – é normal para uma pessoa com essa condição se sentir mais fraca do que o normal após uma crise de choro, então não se preocupe, esse cansaço é natural.

– Obrigada doutor....?

– Derek – o homem exclama, batendo de leve no meu ombro e se retirando – se qualquer dia você chorar demais venha me ver, nunca se sabe quando é necessária uma transfusão de sangue.

– Obrigada – exclamo e abro um sorriso.

Saio da ala do hospital o mais rápido que posso e distancio-me dos prédios, adentrando um pouco nos jardins. Ainda sinto meu corpo fraco pela falta de comida, exageradas emoções e perda de sangue.

Inspiro profunda e lentamente, tentando usufruir do oxigênio no ar. Era normal ele disse, é uma condição rara ele disse, você vai ficar bem ele quis dizer. Mas é claro, que ele não sabia que essas lágrimas rubras nunca foram, e nunca serão minhas.

°_°_°_°

Sinto que já estou sentada nesse jardim a dias, mesmo que saiba que só foram alguns minutos. Tenho que levantar e ir para o dormitório, mas não quero me levantar ou encarar outras pessoas. Só queria um pouco de paz no momento.

Escuto passos se aproximando e descubro ser o fim da minha paz. Com movimentos lentos e contidos, devidos a minha fraqueza, consigo me por de pé e sorrir para o nada, impedindo que outros descubram meu estado patético.

Mas meu sorriso morre no segundo que um tufo de cabelos pretos sai de trás de uma arvore e olhos azuis claro aparecem junto, sem nunca me olhar diretamente.

– Você está bem? – Peter murmura, incerteza em sua postura.

– Como se você se importasse – respondo, ácida.

O garoto parece entender minha indireta e se recolhe mais ainda dentro de si, fechando os ombros e enfiando as mãos mais profundamente dentro dos bolsos da calça.

– O que você está fazendo aqui? – pergunto.

– Me pareceu certo?

– Por que? – pergunto ironicamente, não fazendo questão de esconder a raiva na minha voz – não parecia muito certo considerando essas últimas semanas.

Minhas palavras calam o rapaz novamente. Sinto vontade de ir até ele e obriga-lo a me encarar como um homem. Quero obriga-lo a me contar o que estava acontecendo, porque até agora, me sentia como se um importante ato estivesse acontecendo e eu era a figurante estúpida que não leu o script.

– Me responda Peter – exclamo, controlando minha voz para não gritar – Olhe para mim – minha paciência diminui e meu tom de voz aumenta – Olhe para mim Peter! – grito – Peter!!!

Minha voz parece convence-lo e ele me encara de frente. Seus olhos me perfuram, ele parecia tão zangado, assustado e perdido. Como se estivesse negando o paraíso, ou o tão esperado perdão.

Meu coração se contorce. O que estava acontecendo?

Continuo encarando o menino, mas ele não fala nada, abrindo um abismo entre nossos corpos e nossa relação. Podia sentir todos os bons momentos entre nós virando cinzas e se perdendo no vento. Sinto minhas pernas ficarem moles, não sabia como ainda estava conseguindo ficar em pé, mas me recusava a cair e deixar ele ganhar essa rodada da batalha.

Uma parte de mim já havia entendido que esse era o fim. Que o que quer que tivesse acontecido mudára-nos para sempre e que a nossa, até então, preciosa amizade já havia se enforcado com a fina corda que antes a segurava.

Mas uma outra parte ainda queria acreditar que esse não era o fim. Que agora Peter falaria alguma coisa estúpida e nós faríamos as pazes como mágica.

– Say something – murmuro, essa era a minha última esperança. Por favor não quebre meu coração. Por favor não me deixe sozinha. Por favor não me abandone aqui no meio de toda essa escuridão! – I’m giving up on you.

Espremo minhas mãos em punhos e enterro as unhas nas palmas, em uma tentativa fútil de fazer elas pararem de tremer. Espero e espero. Espero Peter começar e rir e me dizer a verdade. Espero ele dizer que estava tudo bem e que éramos amigos e isso nunca iria mudar.

Mas minha espera era em vão.

Em um rápido movimento Peter vira de costas para mim e começa a andar para longe. Meu coração se quebra.

Era o fim.

Se eu achava que perder alguém para um shinigami era ruim, isso era muito pior. Encaro suas costas ficarem cada vez menores e mais distantes, abrindo cada vez mais o abismo entre a nossa relação. Porque isso tinha que acontecer?

Eu preferia que você estivesse morto.

Fecho os olhos cuidadosamente para não deixar as lágrimas escorrerem e espero. Não queria ver as costas de Peter novamente, porque elas doíam mais do que qualquer ferida, mais do que qualquer morte, porque se ele tivesse morrido eu teria uma desculpa para não correr atrás dele.

Mas agora, parada aqui, meu amigo se afastando cada vez mais, entendo que tudo que eu precisava era uma desculpa para não ir atrás dele, tudo que eu precisava era de um motivo besta para não lutar pela nossa amizade.

Porque nesse instante, minha única desculpa era minha covardia.

E minha covardia me assustava e me lembrava quem eu realmente era. Sem importância, covarde, egoísta. Tão cheia de falhas. E ver Peter se distanciando cada vez mais apenas refletia toda as falhas do meu ser. Então, como um espelho, viro de costas também e começo a me afastar.

Afinal, eu não sou nada de mais, eu não sou alguém que mereça lutar por essa amizade e não sou alguém digna de possui-la. Meu coração dói e minhas pernas entram em modo automático, porque eu não quero pensar no que aconteceu, eu só quero me distanciar, cada vez mais e me esconder dentro da minha concha particular.

Minha bela concha de covardia.

Who said that friends never say goodbye?

°_°_°_°

Sento no chão do ginásio, abraçando minhas pernas. Era aqui que eu havia tido minha batalha com Joe. Sorrio levemente, aquela batalha com certeza era uma memória agradável, mas agora ela parecia flutuar em uma canto distante do meu cérebro, como se nem tivesse acontecido nesta vida.

Ainda não entendia o que havia me trazido aqui. Eu estava chateada, então porque não ir para um lugar onde sabia que ninguém iria me perturbar, como a biblioteca? Suspiro fundo, tentando expulsar as memórias da minha briga com Peter para o canto do meu cérebro, junto com as memórias de todos os meus dias ruins. Mas como toda a memória ruim, ela não queria ir.

– Uau! Isso é que é um suspiro.

Viro minha cabeça assustada e imediatamente desabraço meus joelhos, indo para uma posição de batalha. Joe? Paro imediatamente no meio da ação, com meus braços semi-levantados e as pernas meio dobradas, prontas para levantar.

– Calma ai garota – ele exclama defensivamente. Pousando uma mão nos meus braços levantados, para me assegurar que estava tudo bem. O homem senta do meu lado, a uma distancia respeitosa.

– O que você está fazendo aqui? – abaixo meus braços e volto a sentar abraçando meus joelhos.

– Esse é um jeito de dizer que você não me quer aqui – ele responde, falsa mágoa na voz – mas tenho certeza que há meios menos agressivos.

– Sorry – murmuro – vou mudar minha pergunta. Porque você veio aqui?

– Eu venho aqui o tempo todo Ren, você é que nunca está aqui para encontrar com minha pessoa – seu tom é orgulhoso. Sinceramente, eu nunca achei que fosse encontrar alguém com o ego maior do que Peter, mas aparentemente isso não é verdade.

Minhas entranhas se contorcem imediatamente ao lembrar do meu ex-amigo. Tento disfarçar rapidamente, mas Joe percebe minha mudança de humor, imediatamente desmanchando o sorriso audacioso.

– Eu deveria perguntar se você está bem?

Olho para ele surpresa. Ele estava pedindo permissão para perguntar sobre o meu bem estar? Que tipo de pessoa faz isso?

– Que tipo de pessoa pergunta isso?

– Eu pergunto. Sei como é irritante ter alguém perguntado para você se você está bem, quando, claramente, você não está.

Olho para Joe estarrecida. Era verdade, mas, nunca tinha pensado que alguém fosse realmente avaliar a situação antes de perguntar.

– Se você sabe que eu não estou bem, porque perguntar? – encaro seus olhos por um segundo. Eles eram azuis, o que aqui, nessa escola, era algo tão normal que nem me impressionava mais.

– Não sei. Você mentiria e responderia que está tudo bem, mesmo que não estivesse – Joe não soa sarcástico.

– Verdade.

– Então não está tudo bem? – ele parece meio impressionado e meio assustado com o rumo que a conversa estava tomando.

– Pensei que isso já fosse obvio – releembro-o.

O homem apenas solta um leve gargalhada e muda o olhar para o teto do ginásio. Rio também, não sabendo exatamente o porque e pouso o queixo nos joelhos, esperando pela retirada do homem. Mas ele não se move.

Silêncio paira sobre nós e tudo que consigo escutar é o barulho incessante do treinador checando bolas de vôlei eu um canto e jogando-as em uma cesta. As bolas caem na cesta com sólidos “thumps”, fazendo minha mente entrar em sintonia com o barulho.

Elas continuam caindo, brancas como a neve dentro da cesta. Devem ser bolas novas, porque são tão brancas e puras, como flocos de neve caindo do céu. Me distraio tanto com o ritmo que não percebo quando o canto dos meus olhos começa a arder. Eu tinha razão, elas realmente pareciam com flocos de neve, caindo tão delicadamente do céu, que parecia mágica.

Mágica, a mesma que envolve um pequeno menino fazendo-o parecer... lindo, gracioso, eterial.

– Venha Lizzie! Olha! Olha! – ele exclama excitado, feliz por agarrar uma mão pálida e guia-la pelos campos cobertos por uma grossa camada de gelo – É como magica! E eu sou como um feiticeiro – ele grita, correndo feliz ao redor da pessoa cujo corpo eu estava dividindo. Mas em um segundo toda a alegria some e seus olhos são tomados por pavor – você não vai contar para ninguém, certo? Eu serei queimado se eles souberem.

Meu coração dilata, o que é isso? Porque eu sinto tanto amor por esse menino?

– Nunca – eu, ela, a outra pessoa responde – eles nunca vão tocar você, eu nunca deixaria – e com essas palavra dois braços puxam o garoto para um abraço apertado. Sinto a pressão do corpo contra o meu. Ele era mais baixo que eu, mas apenas por alguns centímetros.

De repente eu me sinto tão bem, abraça-lo faz meu estômago se encher com um sentimento agradável e... inexplicável. Era como se ele fosse tudo para mim e eu sabia que faria tudo que pudesse para protege-lo, se isso significasse que nós ficaríamos juntos para sempre.

Para sempre.

Mas as lágrimas que correm pelo meu rosto começam a me dizer que, para sempre é muito tempo.

– Ren! – Joe grita e pelo tom de sua voz, essa não era a primeira vez.

– Ah – eu consigo resmungar, virando a cabeça para encara-lo. O que havia acabado de acontecer?

– Uou! Essas luzes devem ser muito estranhas mesmo – Joe exclama, aproximando seu rosto do meu e encarando-me atentamente.

– Porque? – tento criar alguma distancia entre nós, deslizando um pouco para o lado.

Percebendo meu desconforto, Joe senta reto novamente, distanciando seu rosto do meu.

– Quando você estava olhando para frente, eu quase achei que seus olhos estavam dourados – meu coração pula uma batida – mas não dourados tipo, marrom dourados, mas tipo... dourados, dourados. O que deve soar muito estranho, porque eu não tenho certeza se essa cor de olho existe.

Joe prossegue em resmungar sobre tons de cor de olhos e nem percebe que eu já não estava mais prestando atenção. Dourados? Como eles podiam estar dourados? E o que foi aquela visão? Elizabeth disse que os olhos iria me ajudar a ver quem ela era. Era isso que ela era antes? E quem era aquele menino? O que ele tinha a ver com Elizabeth?

– Ren! – Joe exclama, chacoalhando uma mão na frente do meu rosto.

– Joe!

– E ela acordou. Estava longe dessa vez – o homem assume a postura anterior novamente – tem certeza que você não sofre de dissociação né?

– O que?

– Nada – o homem corta rapidamente, dando um impulso do chão e se levantando – venha aqui – Joe estende a mão para mim. Aceito-a, ainda maio zonza e ele me levanta cuidadosamente – acho que tem alguém te esperando.

Olho para onde o homem aponta e vejo uma figura apoiada no batente da porta do ginásio, com os braços cruzados me encarando.

– Jaime?

– Vai lá – Joe me dá um empurrãozinho – não é bom deixar um antigo soldado que tem acesso a uma sala inteira de armas chateado.

– Nem me fale – murmuro, nostalgia brotando no meu peito.

Aceno um adeus para Joe e corro na direção de James, parando alguns metros na frente. O homem sorri para mim e faz um sinal para que eu o siga. Obedeço e começamos a andar pelos jardins.

– Eu entendo que você eu meu estúpido cunhado brigaram?

Solto um grunhido com resposta o que resulta em uma risada breve por parte de Jaime.

– Como é que você sabe? Nós brigamos só faz alguns dias?

– Eu tenho olhos em todos os possíveis lugares minha cara amiga – Jaime bagunça meu cabelo e me dá um sorriso torto.

Suspiro profundamente e olho para o chão, triste. Jaime parece entender o recado, mas ao invés de me deixar sozinha com meus pensamentos ele estica o braço e toma minha mão nas dele me puxando pelos corredores em direção a biblioteca.

Assim que entramos Jaime me arrasta pelos enormes salões e para perto de uma estante distante de qualquer pessoa.

– Porque estamos aqui?

– Shhh – ele exclama, plantando um dedo na frente dos lábios – seja discreta menina!

Jaime agarra um livro qualquer da prateleira e o posiciona, aberto, em frente ao rosto de modo que esconda seus lábios e abafe sua voz. Seus olhos me mandam fazer o mesmo, então deslizo a mão pelas capas, fingindo interesse em um e apanhando-o.

Imito Jaime e me posiciono ao lado de seu corpo, assim poderia escutar o que ele estava falando.

– Victoria – o homem sussurra e minhas entranhas se contorcem. O rosto cheio de dor de Katherina me veem a mente. Se tinha uma pessoa de quem eu gostaria de apagar a dor, era a dela.

– Sim?

– Ela era amiga da sua colega de quarto.

– Como você sabe? – tento manter minha surpresa baixa para não levantar suspeitas.

– Como eu disse anteriormente. Tenho olhos em toda a parte – seu tom volta a ser animado por um segundo.

Silêncio baixa sobre nós. Sei o que ele quer dizer, se Katherina era amiga de Victoria ela era suspeita de ser sua assassina. Era loucura e eu sabia disso, mas Jaime não conhecia a menina e durante uma guerra, como as que ele esteve, traições eram muito comuns. O que tendia a deixar todos paranoicos.

– Ela não fez nada – murmuro – Não foi Katherina, disso eu tenho certeza.

– Muito bem – Jaime suspira – seu quarto ainda deve estar fedendo a bebidas alcoólicas e drogas, não?

Meu coração dá um salto. Jaime estava falando vagamente, era o que minha mãe sempre fazia comigo. De informações de modo que faça parecer que você concorda com os acontecimentos, mas levante dúvidas que podem ser respondidas facilmente. “Você acha que ela realmente morreu de overdose” foi o que ele quis dizer.

– Não muito – respondo – as mulher limparam tudo antes de nos autorizarem a voltar para o quarto.

– Ah... Mas é uma pena. Victoria era uma das melhores meninas que já conheci, é uma vergonha que não tenhamos uma missa comunitária por causa de sua morte – “esse assunto esta sendo encoberto, tem alguma coisa estranha” foi o que ele quis dizer.

– Concordo. Sendo uma escola católica como somos, deveríamos cuidar para que a alma dela esteja em paz. Deveríamos começar a, pelo menos, fazer um minuto de silencio diário – estudo as palavras cuidadosamente e confirmo se falei todo o necessário. “A escola não vai fazer nada, então nós temos que cuidar disso”.

– Sim – é a resposta de Jaime. Curta, grossa e cheia de significado.

Sim nós vamos descobrir o que está acontecendo. Sim nós vamos tentar parar isso e sim, o Diretor não vai esconder isso para sempre.

– Bom esse é o livro que eu gostaria de levar – Jaime exclama e fecha o livro com um baque – você vai levar esse Ren?

– Não – murmuro – ele não tem o que eu estava procurando.

– Podemos olhar mais pela livraria, o que você acha?

– Acho que aceitarei seu convite James – devolvo o livro a seu devido lugar na prateleira e saio andando, sendo seguida de perto por Jaime.

Regra numero 1 de falar sobre assuntos não permitidos em lugares protegidos. Sempre faça isso a vista e em lugares óbvios e nunca fique em um mesmo lugar durante muito tempo.

Desvio de multidões e paro em uma mesa com uma porção de livros empilhados, com apenas algumas pessoas sentadas do lado oposto. Puxo três livros para perto de mim e abro um em uma página aleatória, folheando ele logo em segunda, fingindo estar procurando algo.

– Você acredita em Deus? – leio o titulo do livro em voz alta, para que Jaime escute.

– Não, eu prefiro poupa-lo disso – o homem se junta a mim e senta-se do meu lado, abrindo o livro que havia trazido consigo.

– Poupa-lo?

– Sim. Se eu acreditasse em Deus ele seria um péssimo “homem”. Então eu prefiro não acreditar – sinto no tom voz dele que nossa conversa cifrada não estava presente no momento.

– Havia uma época em que eu gostaria de acreditar em Deus, em acreditar que todo o sofrimento do presente se transforma em felicidade – decido começar a falar normalmente também – Se fosse assim, eu teria um futuro de ouro, mas...

– Mas, você trocaria um futuro glorioso, por um presente menos doloroso – ele me corta.

– Sim, eu trocaria...

Silêncio paira novamente sobre nós e quando Jaime abre novamente a boca, percebo que o recreio havia acabado e o assunto sério havia retornado.

– Krav maga – o homem exclama animado e meu estômago desce até meu pés.

– Krav maga? – questiono, abaixando o livro.

– Sim – o homem vira um livro para mim – esse é um livro sobre diferentes estilos de luta que existem ao redor do planeta. Krav maga é um estilo de artes marciais utilizado pelo exercito israelense. Muito bom o estilo de luta deles.

– Como você sabe?

– Está escrito no livro – Jaime aponta para o titulo do capitulo – e você Ren, por um acaso sabe como lutar? – “nesse ‘guerra’ que está se aproximando, você tem condições de se defender?”

– Sim – respondo – minha mãe era do exército, ela me ensinou a lutar – falo animadamente – embora eu não seja tão mortal quanto as pessoas que praticam isso.

– O importante é se divertir lutando! Como Joe quando pratica boxe. E ai, que tipo de luta você pratica? – “o quão bem você pode se defender?”

– Você deveria saber não? Afinal de contas já me viu lutando – mudo de assunto em uma tentativa de fazer Jaime entender que não poderia falar disso agora.

O homem assente e se levanta. Fechando o livro e dando uma batidinha na minha cabeça para me fazer olhar para cima. Em um movimento gracioso e preciso Jaime troca de livros comigo, saindo da biblioteca carregando o livro de Deus e deixando o de estilos de luta comigo.

Aperto o livro até que os nós dos meus dedos fiquem vermelhos e conto até 10 repetidamente para me acalmar. Quando sinto que meu sangue volta a correr normalmente abro o livro na página presa entre meu dedão e começo a ler sobre Krav maga.

Era uma sensação estranha ler sobre a luta, quase irreal. Se me pedissem para desarmar uma pessoa eu conseguiria, se me pedissem para lutar com um desavisado eu faria sem problemas, se me pedissem para lutar com um soldado treinado e especializado... eu duraria mais do que outras pessoas. Mas se me pedissem para contar a historia da arte marcial que salvou minha vida tantas vezes, eu não tinha nenhuma ideia.

°_°_°_°

Chego na porta do refeitório e com grande esforço abro-a. Nunca pensei que esse sentimento de impotência e vulnerabilidade fosse retornar. Desde que havia brigado com Peter, desconfiado do Diretor e quase me afogado em um sonho, não me sentia mais como eu mesma. Deslizo para dentro do lugar rapidamente, deixando a porta se fechar sozinha.

Meu coração se contorce quando vejo Peter. Ele está sentado em uma mesa com Danny, sorrindo enquanto o loiro usa duas batatas fritas para fazer um bigode falso no moreno. O canto dos meus lábios se move involuntariamente e dou um pequeno sorriso. Mesmo que nós tenhamos brigado e não sejamos mais amigos, não posso evitar de ficar feliz pela felicidade dele.

Uma felicidade merecida.

Penso em pegar alguma coisa para comer, mas meu estômago me relembra que não está com fome e só a visão de comida já me deixa enjoada de novo. Mudo de ideia e pego um copo de chá verde, procurando alguma mesa vazia para sentar.

Localizo uma no canto e vou me direcionando para ela, mas antas de sentar escuto alguém chamar meu nome e viro a cabeça curiosa. Era Charlie e pelos sinais que estava fazendo, queria que eu sentasse com ela.

Sorrio abertamente e me aproximo da minha colega de quarto, cumprimentando-a e sentando do seu lado. Ela sorri rapidamente para mim, um pouco de tristeza no rosto.

– Por isso você não cresce Ren – a menina aponta para o meu copo de chá – você não come!

– Eu já tive comida! – reclamo, mentindo, mas ela acredita e começamos a falar de outras coisas. Eventualmente mudando de assunto para Danny e Peter, o que faz metade do meu coração se contorcer de dor e a outra se encher de alegria e sorrir abertamente.

Conversamos alegremente e fico feliz por estar com alguém que não me lembre do meu passado. Charlie parecia feliz hoje e isso me contagiava.

– Atenção, alunas Ren Kouhen, Charlotte Mills e Katherina Dobe...Drobre.. – o anuncio me assusta e dou um pulo, fazendo Charlie soltar um risinho – compareçam à sala do professor Thomas imediatamente.

Minha respiração para e o barulho incessante das batidas do meu coração é tudo que consigo escutar por uns segundos. Quando manejo me acalmar viro a cabeça e encaro Charlie. Seus olhos me perfuram e transmitem tanto medo.

Medo do que ele queria, medo do que aconteceria conosco, medo de ter sido descoberta, medo de saber o que ele sabia.

Não percebo Charlie puxando meu braço levemente e caminhando na direção da sala de inglês. Não lembro da caminhada, mas tenho quase certeza que eu arrastei ela tanto quanto ela me arrastou. Percebo que estamos em frente a porta da sala quando vejo Charlie empurrar a porta aberta e entrar.

Faço um breve contato visual com Katherina quando ela se aproxima da sala do professor. Seus olhos parecem me atirar estacas de gelo, porque ela estava olhando para mim como se fosse me assassinar de noite?

– Katherina – chamo, quando ela passa por mim. A menina senta em cima de uma das carteira encarando o chão, completamente ausente de alma.

Sinto a vontade de chama-la de novo e conversar, mas uma mão pousa nos meus ombros, me impedindo. Viro a cabeça e vejo Charlie sacudir a cabeça levemente para mim. Ela tinha razão, nada que disséssemos ia mudar a situação dela.

Sorrio para mim mesma, em uma tentativa de me animar e começo a andar pela sala. Thomas não estava em lugar nenhum, imagino o porque dele ter nos chamado se nem ao menos estaria aqui. Vejo Charlie franzir as sobrancelhas, com certeza estava irritada pelo fato de Thomas ter nos dado o bolo.

Estranho também e continuo vagando, um arrepio sobe pela a minha espinha e começo a ter a impressão que havia alguma coisa muito errada. Vejo um vulto com o canto dos olhos e viro a cabeça instintivamente, mas quando vejo ele de frente, o vulto desaparece como se não estivesse estado lá.

Se acalme Ren. Não encare ele de frente.

Respiro fundo e encaro o horizonte, no segundo que desfoco da nuvem negra, o vulto retorne. Controlo-me para não encara-lo e vou virando a cabeça aos poucos, sempre mantendo a visão no canto dos meus olhos. De repente ele se mexe mais rápido e passa pela porta que ligava a sala de aula com o quarto de Thomas.

Viro a cabeça surpresa e para não perde-lo de vista corro até a porta, abrindo ela com forca e pulando dentro do quarto. Escuto Charlie gritar meu nome e me seguir pela porta. Penso escutar Katherina se levantar da mesa e seguir-me também, mas duvido dessa opção.

Procuro pelo espirito, desesperadamente, dentro do quarto de Thomas. O cômodo era bem parecido com o de Jaime, mas decisivamente maior. Charlie tenta me chamar de novo e avisar que não devíamos estar aqui. Recuso seus avisos com um aceno para ela se calar e volto a inspecionar o quarto.

Um choque percorre meu corpo quando acho o espirito e vejo ele desaparecer no segundo seguinte, deslizando por dentro de uma estante como se fosse ar. Mais um choque percorre meu corpo e me aproximo da estante, colocando meu rosto centímetros da madeira.

Minhas entranhas se contraem e mais um choque, dessa vez mais forte, percorre meu corpo. O que estava acontecendo? Sinto a súbita vontade de virar minha cabeça para a direita, mas sei que se isso acontecer, o vulto vai desaparecer.

Mas não tem nenhum vulto do meu lado. Então porque eu quero virar a cabeça? Minha curiosidade ganha e eu viro para ver o que estava do meu lado.

Uma mancha negra me surpreende. Ela não havia sumido como os outros vultos, mas me encarava atentamente, em um turbilhão de luz e sombras como se tentasse formar uma figura. E de repente eu me lembro. O rosto toma forma em um piscar de olhos e um velho com olhos vazios e negros me encarar, dedo indicador sobre os lábios, e acena a cabeça lentamente.

Meus dedos gelam e o medo volta a se construir na boca do meu estômago. Penso em gritar, mas estou tão apavorada que nem ao menos minhas cordas vocais me escutam. Dedos finos e pálidos envolvem meus ombros e apertam eles com leveza, tão delicados, mas frios como os dedos de um cadáver.

Viro a cabeça para encontrar o rosto da pessoa me segurando e vejo dos olhos azuis me encarando. Seu rosto, não consigo distinguir se é feminino ou masculino, toda a minha atenção é sugada para o par de olhos me encarando, sugando minha coragem, destruindo minha alma, mastigando o resto de confiança que eu tinha.

Olhos tão frios, tão vazios, tão determinados, tão... familiares.

Quando dou por mim já estou gritando, tão alto que minhas duas colegas de quarto vem correndo na minha direção. Katherina só me encara, seu rosto vazio de emoções e Charlie me sustenta pelo braço, me sacudindo e perguntando se eu estava bem.

– Estou bem – sussurro e manejo abrir um sorriso – só me assustei com uma coisa.

Nenhuma das duas parece muito convencida, mas escolhem deixar o assunto de lado e dão de ombros. Katherina dá de costas e anda para a mesa de Thomas encostando-se na borda e encarando o nada.

– Uau! Nunca pensei que o dia em que fosse sentir falta da voz da senhora enfezadinha chegaria – Charlie reclama, soltando meu braço e tendo certeza que eu estava bem.

– Nunca pensei que veríamos o dia em que vocês duas não começariam a brigar quando no mesmo cômodo.

Charlie dá de ombros e pega quatro livros, delicadamente colocados em cima de uma mesa de centro. Pelo jeito ela mesmo que havia reunido-os.

– Você tem que ver o que eu achei – exclama a menina se aproximando – não vai acreditar.

– São livros Charlie. Temos vários desses na biblioteca.

– Muito engraçado Ren – a menina reclama, tirando um livro do monte e me entregando – Mas é o conteúdo do livro ao que eu estava me referindo.

Dou uma risada breve para ela e encaro o livro que havia me passado. A capa era de couro e aparentava ser bem velho, com detalhes dourados feitos com metal na borda. Esculpido em uma tinta dourada brilhante estava o que chamou atenção da garota: o S semelhante as nossas tatuagens no centro.

– O que é isso? – pergunto.

– É um livro Ren, temos vários desses na biblioteca sabe? – responde sarcástica.

– Obrigada por apontar o obvio Charlie, mas eu estava me referindo ao conteúdo?

Charlie sorri e tira outro livro do monte, me passando-o.

O segundo era diferente do primeiro. Não havia nenhum S na capa, que era vermelha feita com algum tipo de tecido. Dava quase um ar real ao livro.

– E o que tem de tão especial nesse?

– Abra na página marcada.

Charlie aponta para uma página dobrada dentro e acena para eu abri-la. Seguindo instruções, faço como a menina manda e vejo páginas antigas e amareladas, com rodapés decorados lindamente com folhas e linhas delicadas. Começo a ler o conteúdo. Eram diversos nomes e brasões de famílias reais da antiguidade.

Passo os olhos rapidamente, vendo apenas os brasões, até chegar em um determinado desenho. Meu coração dá um salto. O símbolo principal dele era uma cópia das nossas tatuagens. Mudo meus olhos de direção e procuro o nome da família a quem esse brasão pertencia.

– Tem alguém vindo! – Charlie exclama, batendo a mão no livro e despertando-me do meu transe.

– O que? – dou um pulo assustada e fecho os dois livros – Thomas!

Charlie me olha assustada e dispara para guardar os livros.

Não!

Esses livros tinham informações importantes, não podíamos deixá-los para trás, mas ao mesmo tempo duvido que Thomas deixaria que levássemos eles embora. Ou seja nós tínhamos que rouba-los, mas como? Como? Pense Ren. Pense!

– Charlie espere! – grito, correndo até a menina e arrancando os outros dois livros de suas mãos – precisamos desses livros!

– Como é que é? E como você sugere que tiremos eles dessa sala?

– Pela porta!

– Pela porta? Ah claro, brilhante ideia! Vamos sair pela porta carregando quatro livros roubados como se não estivesse nada errado. Melhor ainda, porque não levamos a cama dele, eu tenho certeza que ela é melhor que a nossa! – a menina responde sarcasticamente.

Resisto a urgência de revirar os olhos e empurro ela até o armário pelo qual o espirito passou. Já tinha visto esse armário antes, mas de costas, por isso não o reconheci. E já tinha visto aquele espirito antes, mas do outro lado da porta.

Deixo os livros com Charlie e empurro a estante, que range embaixo das minha mãos. Vejo Katherina sair do transe e se virar para mim, um olhar homicida no rosto. Ignoro-a e continuo empurrando até que a ponta da porta apareça atrás do objeto.

– Não. Essa porta – exclamo, girando o trinco a revelando os túneis do Obelisco.

O queixo de Charlie cai e ela encara a porta, incerteza do que fazer estampada no rosto. Katherina por outro lado arregala os olhos por um segundo, mas logo volta a assumir a postura de reencarnação de frieza.

Charlie joga os livros dentro do túnel e eu fecho a porta. Deslizamos a estante juntas e corremos para fora do quarto, sendo seguidas por Katherina, que fecha a porta atrás de nós. Sento em cima de uma carteira e espero enquanto os passos se tornam cada vez mais altos e a pessoa se aproxima da sala.

Mais perto, cada vez mais perto. E passam reto.

Olho para o lado e vejo o medidor de paciência de Katherina explodir. A menina bufa e sai da sala batendo a porta, claramente irritada com o acontecimento. Fico parada ao lado de Charlie por algum tempo, encarando a porta e revendo a saída de Katherina.

Depois de algum tempo as nossas risadas ecoam pela sala, estávamos rindo de alivio por não ter sido Thomas, da nossa atitude boba por causa do pânico e da reação hilária de Katherina.

°_°_°_°

Caminho tranquilamente de volta ao dormitório ao lado de Charlie, havíamos tentado encontrar Katherina depois do show que ela deu na sala de Thomas, mas não tínhamos tido sucesso. A garota sabia se esconder muito bem quando queria.

– Não adianta Ren – Charlie reclama pela nona vez – Não vamos acha-la, porque não voltamos para o quarto e pegamos os livros antes que Thomas perceba que eles sumiram?

Suspiro fundo. Estávamos dentro da estufa, encarando o homem responsável por cuidar das plantas. Devo dizer que depois de ter escutado ele falar sem parar sobre a semente de um mamão por quase uma hora, desde o segundo que entramos e demos de cara com ele, até agora, tinha sido muito cansativo.

– Ok, vamos voltar para o quarto – concordo com Charlie e me viro para sair.

Metros antes de alcançar a porta o senhor responsável pela estufa aparece novamente na nossa frente, sorrindo como um lunático.

– Mas já vão senhoritas? – ele pergunta, fazendo cara de triste.

Sinto Charlie engolir em seco e vejo os pelinhos de sua nuca se arrepiarem. Devo admitir, aquele homem era muito perturbador.

– Sim – ela responde, tentando desviar dele.

– Ah, que pena – aproxima o queixo do peito o que faz ele ter ainda menos pescoço do que já tinha antes – mas espero que vocês voltem...

O homem se retira da nossa frente e Charlie corre até a porta da saída, sigo a menina, não querendo encontrar o homem novamente. No momento que Charlie encosta no trinco da porta ele aparece novamente do nosso lado com um grito de “Esperem!!”

Charlie grita de susto e em um movimento automático desço um chute na cara do homem, que cai para trás com tudo, desacordado, e com sangue escorrendo do nariz. Charlie não discute e agarra meu braço, me puxando para fora da estufa e para longo do sinistro cuidador das plantas.

Ando despreocupadamente, como se todos os eventos traumáticos de antes nem sequer tivessem acontecido. Estava tudo bem... agora estava tudo bem.

O súbito aperto de Charlie no meu braço me faz dar um pulo.

– O que? – pergunto, virando para a menina.

Ela não responde e ao invés aponta para um grupo de policiais em torno do quarto, questionando um rapaz. Minha garganta seca e minha mente grita “Peter!”. Com todos os acidentes misteriosos a última coisa que quero é que ele se machuque ou pior!

– O que será que aconteceu? – A voz de Charlie carrega medo. Claro, ela tinha Danny.

– Não sei – respondo rápida e uma ideia maluca brota na minha cabeça – Charlie – murmuro.

– Sim?

– Você pode me fazer um favor?

– Claro – a menina solta o meu braço.

– Eu vou desmaiar agora, preciso que você segure o meu corpo e não se mova até eu acordar, tudo bem? – tento fazer isso soar o mas normal possível, mas o olhar que ela me dá é totalmente incrédulo.

– Como?

Antes que mais duvidas sejam lançadas, concentro minha energia em sair do meu corpo e passar a possuir o de um policial qualquer. No segundo que entro dentro dele ganho completo controle de seu corpo e memórias.

Diferentemente das outras vezes, dessa vez elas são mais fracas e não me atormentam tanto. Mergulho em sua mente e tento fisgar algum pedaço de informação de sua estadia aqui.

É como estar nadando dentro do céu. O fundo azul escuro em que estou mergulhada ondula como a água, enquanto diversos pontos luminosos boiam no meio, brilhando como estrelas. Algumas delas estão mais juntas e formas corpos parecidos com galáxias. Um ponto de luz me chama a atenção e nado em direção a ele.

Pego-o em minha mãos e absorvo seu conteúdo. Surpresa passa por dentro de mim, essas não eram as memórias dessa vez que ele esteve aqui! Não! Eram memórias da outra vez!

Solto a pequena estrela e nado euforicamente pelo lugar. Dou de cara com um estrela menor que, pela minha sorte, era exatamente o que eu procurava. Sorrio e saio do corpo do homem rapidamente, retornando para o meu e encarando uma Charlie estupefata.

– O que foi isso?! – ela exclama.

– Eu explico mais tarde. Venha – puxo a menina para o andar feminino e quando estamos fora de alcance viro para ela – Mike.

– Aquele gordinho com quatro dentes a menos que anda com os populares?

– Andava. Foi ele que morreu – respondo.

– Morreu?

– Com uma faca de manteiga na testa – murmuro a última parte.

– Uma faca de manteiga na testa? – Charlie parece não acreditar em mim. Não posso culpa-la, eu também não acreditaria em mim.

– Sim. E não é só isso.

– Não é só isso?

– Mas pare de repetir tudo que eu falo!

A garota pisca algumas vezes e sorri, acenando para eu continuar a falar.

– Aquele policial que estava questionando o garoto. Ele também trabalhou no caso da morte de Victoria.

Os olhos de Charlie se arregalam e a surpresa é clara em seu rosto, mas ela não me interrompe.

– Aparentemente ela não morreu de overdose – seu queixo cai – mas como ela foi encontrada no meio de tanta bebida o Diretor achou que seria uma boa desculpa para a súbita morte dela.

– E como ela morreu? – Charlie murmura.

– Eles não sabem, mas é como se ela tivesse corrido até a morte, ou se matado de fome. É como se toda a energia do corpo dela tivesse sido sugada.

– Estranho.

– Para alguém que tem telecinésia não acho que você possa julgar – respondo.

Charlie acena, não percebendo o que eu havia citado. De repente sua cabeça vira para mim e seus olhos se arregalam. Assisto enquanto a menina abre e fecha a boca repetidamente, sem uma boa resposta.

– É melhor irmos pegar os livros – murmuro, fechando o assunto e andando em direção ao nosso quarto.

Atingimos a porta do quarto lá pelas 16:00. Ainda não podíamos entrar nele, mas como nenhuma inspetora tinha aparecido, destranco a porta e esperto Charlie entrar, para depois tranca-la e deixar a chave dentro da fechadura, girando-a para que fique diagonalmente alinhada com o trinco. Inspiro o ar do cômodo e sinto alguma coisa que me incomoda, talvez Gwen tenha passado algum tipo de perfume no quarto.

– Para que isso? – Charlie pergunta afastando as escrivaninhas.

– Para trancar a porta, se você deixar a chave assim, ninguém pode abrir pelo lado de fora – respondo, pegando duas lanternas e jogando uma na direção dela.

A menina sorri e começa a entrar dentro do buraco na parede. Começo a segui-la quando de repente me lembro que cheiro era esse. Paro imediatamente e grito para Charlie, a menina volta imediatamente e sai do túnel, andando até mim.

– O que foi Ren?

– Alguém esteve aqui! – exclamo.

– Quem?! – Charlie pergunta, medo começando a construir em sua voz.

Abro a boca para falar, mas no momento, nenhuma palavra me vem a cabeça.

Não sei como não percebi antes. Esse cheiro, não era o cheiro de nada em especifico, era só o cheiro de uma pessoa, um cheiro que me cercou durante tanto tempo, hoje mesmo, há apenas algumas hora e mesmo assim não pude reconhecê-lo.

Porque fomos chamadas para aquela sala? Porque ele não estava lá? Ficamos tão preocupadas com os livros, com Katherina, que nem ao menos percebemos. Ele não estava lá, ele não percebeu que nós não estávamos lá depois. Ele não nos queria lá!

Não.

Ele só queria nos tirar do quarto. Mas porque? O que ele queria encontrar? Porque ele veio aqui? O quanto ele sabe? O quanto nós sabemos?

O cheiro, o cheiro. Me atordoa tão forte, tão simples, tão óbvio e mesmo assim tão perfeitamente escondido embaixo de diversas camadas da mais doce ilusão. Era óbvio, era claro, era o crime mais bem escondido que alguém podia bolar.

– Thomas.

Notas finais
Stop – Pare No – Não Say something I’m giving up on you – diga alguma coisa, eu estou desistindo de você Who said that friends never say goodbye? – quem disse que amigos nunca dizem adeus? Shinigami – deus da morte Sorry - desculpe #Ghost...