O Mistério de St. Reeve's
1 Tela Preta
– Atchim! – ergo minha mão para coçar meu nariz. Um grunhido sai da minha boca e levanto a mão para fechar a entrada do ar-condicionado.
Esfrego minhas mãos e sinto os pelinhos arrepiados, agarro o meu suéter de lã e o coloco. Perdi a noção de quantas horas já perdi nesse avião, um voo do Japão para a Escócia não era curto e sinto como se a avião tivesse parado de se mexer a horas.
Expiro profundamente e levo a mão ao lado do meu corpo fazendo uma careta quando encontro uma bainha vazia, minha mãe havia me dado aquela arma quando eu era pequena, mas como era menor de idade não podia sair andando ou viajar com ela, então deixei ela no Japão com Kaede-sama.
O sinal para colocar o cinto acende com um *plin* e me assusta, afivelo o cinto de novo e abro a janela. Adorava sentar na janela e poder enxergar as construções crescendo conforme íamos descendo.
Quando saio do avião sigo a multidão ate o lugar em que uma enorme esteira rola as malas uma por uma, avisto uma pequena mala preta e a apanho, encostando as rodinhas no chão e agarrando a alça.
Olho em volta e encontro um balcão de informações, me direciono a ele e vejo um homem com uma longa barba branca e óculos escuros com armação rosa atrás da mesa olhando fixamente para um livrinho.
– Com licença senhor – começo e ele desgruda a cara do livro – O senhor sabe onde é o internato St. Reeve’s?
Ele não me responde, ao invés me da um folheto e abaixa a cara para o livro de novo. “St. Reeve’s bus” leio em voz baixa, confiro rapidamente o horário em que passam os ônibus e vejo que um chegara daqui a aproximadamente uns 4 minutos.
Me viro para agradecer ao homem, mas ele parece tão entretido no livro que acho melhor não perturba-lo, dou meia volta nos meus tênis pretos de corrida e vou ao encontro do ônibus.
Quando chego no ponto, o ônibus já está parado e há pessoas entrando, encaro elas. A maioria são meninas acompanhadas pelos pais carregando uma quantidade absurda de malas. Entro no ônibus por último levando minha mala comigo até um bando e a colocando embaixo do assento.
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O ônibus para em frente a um enorme castelo. Saio dele e passo pelos enormes portões me sentindo impotente diante da grandeza do monumento. Pequenas plaquinhas me indicam o caminho até a secretaria e as sigo até encontrar uma sala escrito “secretaria” em cima, quando entro me deparo com uma enorme fila.
Entro depois de uma família que aparenta ser da Escócia mesmo. Quando minha vez finalmente chega sou atendida por uma mulher negra com lábios grossos, leio seu crachá, seu nome aparentemente é Ababuo. “Ela deve ser africana” penso. Me apresento e entrego a ela o bilhete de Kaede-sama
Quando ela termina de ler, guarda-o em uma gaveta e me estende uma caneta com um sorriso, quando a pego ela tira aponta para um livro.
Me aproximo e escrevo meu nome; Ren Kouhen, seguido da minha assinatura e minha data de nascimento. Passo uma linha sobre o nome da mãe e o nome do pai, em seguida escrevo Kaede Hoshizora em responsável seguido de um telefone para contato.
Assim que termino Ababuo me encara e sorri.
– Trouxe apenas isso de bagagem querida – ela pergunta com uma voz doce.
– Eu tenho pouca roupa.
Ababuo acena com a cabeça e me entrega um mapa circulando uma parte em vermelho.
– Aqui é o seu dormitório, e aqui está sua chave – me entrega uma chave prata com um chaveiro preso junto com os numero 123.
– Obrigada.
Dou um chute na mala para que as rodinhas encostem no chão de novo e saio da secretaria. No segundo que ponho meus pés para fora meu celular vibra no bolso dos meus shorts pretos, apanho o aparelhinho o abro e atendo a ligação.
– Kaede-sama.
– Ren – escuto a voz do outro lado da linha falar – como você está? Já chegou?
– Sim Kaede-sama, estou bem, já cheguei e vou ficar bem.
– Ok então, boa sorte Ren e lembre de me ligar se precisar de algo.
– Sim, obrigada.
Desligo o celular e encaro o plano de fundo preto, não é anormal mas achar alguém que não tenha nada para colocar lá é estranho, mas fazer o que. Não quero relembrar que meus pais morreram toda vez que abro o celular.
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Destranco a porta do meu quarto e abro-a, o quarto é bem aconchegante. Pelo visto vou estar dividindo com outras 3 meninas. Há dois beliches no cômodo, um de cada lado, entre elas encontram-se duas escrivaninhas, e no centro do quarto duas cadeiras de plástico e um baú de metal. Entro no quarto e jogo minha mochila e minha mala em uma das camas de cima de um dos beliches, não me incomodo de desfazer as malas, vou ter tempo para isso mais tarde.
Saio do quarto trancando a porta atrás de mim e guardando a chave no bolso.
Caminho um pouco pela escola notando que quase não há orientais, me sinto uma anão de 1,57 perto de todos os gigantes de 1,70. Passo a mão pelo meu cabelo curto e preto tirando a franja da frente do meus olhos e brincando com os cachinhos que ele fazia no final, na altura do ombro.
Leio uma placa ao longe. “Sala de tiro” Tiro! A palavra ecoa na minha cabeça, não havia tocado em uma arma desde que sai do Japão e realmente sentia falta.
Quando abro a porta vejo uma sala inteira branca e impecável, do lado direito há uma mesa. Atrás dela um homem, nos seus 45 anos de idade, dorme com a cabeça pendendo para trás e os pés em cima da mesa. Sua boca abre e fecha constantemente liberando roncos graves, ele tem uma braba e cabelos pretos com alguns fios brancos se destacando.
Rio com a situação e sem querer incomodar abro uma segunda porta dentro da sala revelando uma típica área de treino, uma bancada de madeira dividida por tabuas, na frente da bancada um painel com alvos e um espaço vazio para treinar a distancia, afinal todo mundo acerta um tiro se estiver a um palmo da vitima. Na parede oposta diversas armas de fogo estão presas na parede, todas, obviamente, descarregadas.
– Oh! Não tenho certeza se você pode ficar aqui – uma voz fala atrás de mim.
Pulo para longe e levo minha mão a bainha da arma, sorte a dele que eu não estava com ela. Olho para o menino que me assustou, ele é extremante alto, me faz sentir mais baixa do que já estava sentindo desde que cheguei, tem cabelos escuros e desalinhados e olhos azuis claros.
– Desculpe – falo tirando a mão da bainha e a colocando no bolso numa tentativa de disfarçar a ação.
– Não tem problema – ele responde, andando até a parede de armas, pegando uma qualquer e a virando de modo a segura-la pelo cano.
Assisto enquanto o menino se aproxima do homem deitado na poltrona e bate na cabeça dele com a arma, fazendo-o grunhir de dor e cair da cadeira para o chão
– Hora de acordar bela adormecida – ele exclama, animado.
– O QUE VOCÊ PENSA QUE ESTÁ FAZENDO SEU BASTARDO!!!! – o homem grita se levantando e jogando o primeiro objeto em cima da mesa na direção do menino. Felizmente o objeto era uma bolinha de papel que atingiu-o inofensivamente.
– Salvando seu emprego – ele responde virando a arma e segurando-a apropriadamente pelo cabo.
– Está salvando é o emprego da enfermeira – ele responde tocando no galo que a pancada havia deixado – Aluna nova?
– Acho que sim – o menino responde me encarando.
– Meu nome é Ren Kouhen – me apresento – prazer.
– Prazer, meu nome é James – se apresenta o homem saindo de trás da mesa e estendendo a mão – mas pode me chamar de Jaime.
Pego a mão dele e a chacoalho com um sorriso.
– Eu sou o responsável/professor/instrutor/guardião...
– /preguiçoso/ irresponsável/ só sei dormir no trabalho dessa sala de armas – corta o menino moreno.
Jaime lança um olhar de raiva na direção dele mas depois volta a olhar para mim.
– Mas ainda cuido dessa seção – ele termina em um tom superior que faz as sobrancelhas do garoto franzirem em desaprovação.
– Eu sou Peter – se apresenta o menino moreno de olhos azuis – Peter Hollow.
– Prazer – completo chacoalhando sua mão também.
– Então – Jaime começa – você gostaria de fazer aula aqui?
– Go... Gostaria – balbucio. Estava nervosa.
– Se importaria de fazer um teste para ver o quão experiente ou não você é?
– Nem um pouco – respondo, empolgada de poder mostrar o que podia fazer para outra pessoa.
Jaime se dirige a mesa e destranca uma gaveta pegando uma recarga de munição, depois entra na sala de treinamento e me entrega os óculos de proteção e os protetores auriculares.
– Tente atingir os 5 alvos enfileirados – ele fala me entregando a arma recarregada.
Seguro-a nas mãos e me sinto bem. O metal parecia se aconchegar perfeitamente entre meus dedos. Aponto para o alvo e em 5 tiros certeiro abaixo o braço sorrindo ao ver as expressões dos dois.
Jaime sorri e se aproxima, ele troca os alvos e recarrega minha arma de novo.
– Mais uma vez. O mais rápido que conseguir
Sorrio com o desafio e repito a sequência, acertando todos os alvos perfeitamente.
– Há! 42 segundos – ele exclama – você não é ruim, não é nem um pouco ruim – ele sorri, aparentemente gostou da minha performance – na verdade até diria que você é... Boa.
Sorrio com o elogio, James não parecia ser o tipo de pessoa que falava as coisas da boca para fora. Peter sorri e pega uma arma para ele, a estendendo para Jaime como quem pede doce aos pais. Jaime olha para ele com um olhar preguiçoso e sai da sala. Quando ele volta vejo que trouxe algumas munições com ele.
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