Notas iniciais
musicas do cap: (http://www.youtube.com/watch?v=ytBR7ET_6uU) Fireflyes - owl city e para Sabado (http://www.youtube.com/watch?v=2x6CotdelIk) Not like me - mandopony

Encaro meus pés. Uma superfície congelada encontra-se abaixo de mim. Consigo ver meu reflexo na lagoa congelada.

Deslizo meus olhos pela superfície e percebo que é um lago, ou melhor são vários lagos, congelados e enfileirados. Começo a andar para fora do espelho no chão e piso em terra firme depois de alguns passos, a grama do outro lado era quente e macia, contrastando com o frio. Levanto a cabeça e dou de cara com uma floresta, ou, acho que era uma floresta.

Cogumelos gigantes se estendem na minha frente, enquanto pequenas lanternas feitas de pedaços do mesmo, balançam embaixo do chapéu vermelho sangue. No chão, perto da grama esmeralda, flores douradas crescem caídas, enquanto um néctar da mesma cor escorre por entre as pétalas, sendo derrubado gentilmente em cima de aberturas estrategicamente colocadas no chapéu de pequenos cogumelos no chão.

Pequenas poças de uma água azul safira, balançam. Aproximo-me, apenas para perceber que não eram poças, mas sim enormes lagartos azuis, cujas escamas safira brilhavam sob a luz emanada dos cogumelos e imitavam o movimento de ondulações.

Pisco repetidamente tentando me acostumar com a visão. Durante toda a minha vida eu tinha tido minha porção de sonhos estranhos, mas esse sonho não era estranho, era real e não um real estilo sonho, era realmente, real.

Começo a andar pelo lugar, deparando-me com mais coisas extraordinárias. Vaga-lumes dançam em volta de uma enorme arvore, cujos galhos são asas de anjos, que batem suavemente, criando pequenas ondulações no ar.

De um lado, uma floresta, cheia que coisas extraordinárias, do outro, um sequência de lagos congelados. Continuo caminhando, até que escuto uma voz. Viro-me subitamente e deparo-me com uma pequena fada, pele bronzeada e cabelos cacheados, voa levemente quando bate suas asas.

No mesmo segundo que a vejo, o chão treme levemente, e quando dou por mim, milhares de outras fadas saem dos lagos, batendo as asas freneticamente e murmurando canções. Tento me concentrar em uma, mas toda vez que consigo distinguir palavras, outra passa na frente e meus ouvidos se perdem de novo.

Vejo uma menina com longos cabelos negros e pele pálida, que logo some, dando lugar à um homem velho que voa perto do meu tornozelo, fazendo cócegas com sua longa barba branca. O ruído das asas batendo se confunde com as canções e começa a fazer minha cabeça girar, sinto-me confusa e desnorteada.

Quero descobrir o que elas estão falando, tenho que descobrir! Mas são tantas palavras, tantos sentimentos. Minha cabeça gira enquanto tento me focar em uma só canção, mas palavras gritam e meus sentidos começam a tornarem-se inúteis. Estou caindo, estou desmaiando. Quem sou eu? Será que eu sou uma pessoa escutando as vozes de tantas outras? Ou essas vozes pertencem todas a mim?

“Por favor não faça isso” dor emana dessas palavras e perfura meu corpo.

“Eu estou aqui, não precisa chorar”, sinto a tristeza das palavras e colapso no chão.

“Você vai destruir sua vida!”, eu não consigo parar, vozes perfuram meu corpo. Tão triste, tão doloroso, tão... assustador.

“Faz isso parar!” uma garotinha chora.

“Eu não sei onde eu estou” um velho.

“Eu sinto muito” uma garota.

“Eu matei eles”

“Eu não quero ir embora!”

“Me desculpe mãe”

“Pare de chorar!”

“Eu não quero a sua dor!” uma voz grita, meus lábios estão abertos e minha garganta arranhada. A sensação de rouquidão toma conta de mim, fui eu que gritei? Logo todas as outras vozes começam a desaparecer e as fadas voltam lentamente a entrarem no lago.

Meu corpo continua ali, deitado no chão, tremendo assustado. Respiro, tentando fazer meu coração parar de bater tão rápido. Sento no chão e abraço meus joelhos, concentrando toda minha energia em parar de tremer, mas não choro, nunca choro, então me abraço mais forte tentando confortar meu coração. Minhas pernas tremem, mas tento respirar contidamente, sabia que iria ajudar a me acalmar.

– Muito? – uma voz suave sussurra por trás de mim. Eu não ouso encara-la. Uma mão delicada pousa em meus ombros – Encare-me Ren – ela fala gentilmente. Meu coração começa a se acalmar e minha cabeça, novamente, é preenchida de bons sentimentos, meu tremor ainda não para, mas diminui.

– Quem é você? – pergunto, ainda não virando o rosto.

– Você saberia se me encarasse.

Não respondo e lentamente me viro desenterrando a cabeça dos meus joelhos. Encaro uma mulher, ela sorri para mim, longos cabelos lisos e pretos escorrem do lado de sua pele pálida e vibrantes olhos azuis claros encaram-me, olhos da mesma cor que as duas bolinhas que aparecem nos meus sonhos.

– Ainda não sei quem você é.

– Não saberia. Foi só uma desculpa – ela aperta meus ombros gentilmente e sorri.

Não sabendo como reagir sorrio também, logo depois ela larga de mim e abana uma mão no ar, que treme ao redor da pele clara e uma imagem começa de se formar.

– Você reconhece isso? – ela pergunta. “sim”, penso, encarando uma imagem de uma enorme Obelisco preto.

– Sim – sussurro.

A imagem então desaparece, e deixa-me encarando a misteriosa mulher. Ela expira e aproxima-se.

– Lembre-se dessas palavras Ren Kouhen, pois você precisará – as palavras atingem meu cabelo de forma gentil e ela toca minha bochecha, antes de começar a sussurrar uma canção.

“*Banish your feelings to the back of your head, and carry the pain you do not want to bear” A imagem ao redor muda, e antes que eu perceba, estamos no meio de um vulcão, lava vermelha borbulha em baixo de nossos pés, e uma enorme nuvem cinza, nada nos céus, derrubando pequenos flocos de neve, que levantam fumaça quando aterrissam na fervente superfície, sinto suor escapar de minha testa e escorrer pelo meu queixo, podia sentir o calor do vulcão, mas mesmo no meio de toda essa lava, o calor era aconchegante e bem vindo. O vulcão não cheirava a enxofre como havia lido, mas sim a lenha, lenha queimada na fogueira. Um cheiro agradável que lembrava-me de uma tarde aconchegante em casa, quando meus pais voltavam do trabalho e tomávamos chá quente.

Sou arrastada de meus pensamentos pela suave voz da mulher. Ela espreme minhas mãos nas dela e canta o próximo verso.

“**Away from the people, away from the pain. Let go this feeling and throw it away” O cenário então muda novamente, e eu abro os olhos para uma densa e gelada floresta, o ar frio penetra nas minhas narinas, congelando meu cérebro. Sinto cheiro de grama molhada e recém cortada, misturada com troncos fungados e úmidos. Posso ver um pedaço da praia por entre dois, grossos, troncos, o som aconchegante das ondas quebrando na areia contrasta o clima gelado e sombrio de dentro da floresta. Luz emana da praia e ilumina a clareira onde estamos, folhas penduram-se dos galhos das arvores, espiando-nos como se querendo descobrir segredos íntimos. Algo naquele lugar me era familiar, o jeito como parecia frio, mas guardava algum tipo de segredo e a praia que lembrava-me de uma personalidade agradável escondida pela fachada de frieza.

A mulher novamente me traz de volta a realidade, agarrando meus ombros e forçando-me a encarar seus olhos. E ela volta a cantar.

“***Hold in to your pain, that aches your heart. Don’t you let it go, it will break you apart” Fecho meus olhos, esperando pelo fim das palavras. Quando a canção acaba, abro-os e encontro meus pés enterrados em camadas de neve. É noite e o céu está enfeitado por uma enorme aurora-boreal que brilha no céu, cores se esticando e se misturando com o azul da noite. Quando minha atenção deixa o céu noturno, percebo uma casa de madeira à alguns metros de onde estou. Ela está meio enterrada na neve, mas mesmo assim, fumaça escapa pela pequena chaminé no topo de telhas de madeira, gentilmente colocadas, de modo a não deixar nenhum floco de neve arruinar o clima quente de dentro da casa.

Era frio, mas aconchegante, como uma pessoa machucada que procura esconderijo dentro de seu próprio coração, tendo certeza que esse foi trancado a sete chaves.

Sinto um aperto nos ombros e sou trazida de volta aos lagos congelados, tento falar, mas uma súbita tontura me derruba na chão, meus lábio param de responder e minhas pernas bamboleia, uma névoa densa começa a aparecer nos cantos dos meus olhos e deixar tudo embaçado. A mulher segura-me antes que eu caia e sussurra confortavelmente para mim.

– Está tudo bem, você está apenas acordando.

Medo se apossa de mim, medo de que eu nunca volte aqui, medo de nunca mais ver essa paisagem e medo de nunca mais ver ela e não poder perguntar tudo que está assolando minha mente agora. Abro a minha boca, mas palavras não saem, meus olhos começam a caírem e pouco a pouco meu corpo vai adormecendo.

– Está tudo bem Ren, tente não falar, vai ficar tudo bem – ela me garante com um sorriso.

Sucumbo pouco a pouco ao sono e sinto minhas forças indo embora, deixando-me em um grande vazio. Reúno toda a força que ainda restava no meu corpo, murmuro uma ultima pergunta roucamente:

– Quem é você?

Ela sorri, meus olhos cedem ao cansaço e fecham-se, recusando a abrirem-se novamente.

– Eu imagino?

Minha consciência escapa e sinto-me deslizando para longe, guardando em minha mente o rosto da mulher em meus sonhos.

Pulo da cama. O quarto estava vazio, então, logicamente eu estava atrasada. Estico-me para constatar isso no relógio de pulso amarrado na ponta da minha cama. 8:30, estava 20 minutos atrasada para a primeira aula.

Suspiro, não dando muita importância e contorço-me, abrindo as gavetas da cama e tirando um caderno de desenhos, abro em uma página qualquer e rabisco um desenho da mulher em meus sonhos. A medida que o lápis percorre o papel, sinto como se fosse lembrando, mais e mais sobre o sonho.

Perco-me nas lembranças e nos traços do grafite e quando olho no relógio de novo, já eram 10:00. “Droga!”, penso, o recreio já estava na metade e eu havia perdido as três primeiras aulas. Colocando o caderno de lado, pulo do beliche e começo a me preparar para a quarta aula.

°_°_°_°

Segunda

Entro na sala de física, alguns milésimos de segundo atrasada, e o professor me encara com um olhar desaprovador. Sirén não costumava dar bom-dia e sempre pulava direto para um discurso de como aulas eram importante, não estou dizendo que não eram, mas custava dizer uma rápido bom-dia?

Ando meio correndo até uma carteira livre no meio da sala e sento, amaldiçoando, novamente, minha altura. Cabeças e mais cabeças, é tudo que consigo ver, tento me mexer no assento e procurar por um ângulo em que possa ver, pelo menos, um pedaço de Sirén. Quando acho um, entre uma cabeça loira e cachinhos marrons, vejo ele se empolgar com o assunto e dar um passo em vão.

Seus pés procuram pelo chão do tablado, que havia acabado centímetros antes, e sua cara voa em direção ao chão. Infelizmente, uma carteira impede o rosto do professor de física de encontrar o amor de sua vida. O resultado é desastroso, ele bate o nariz na carteira e se espatifa no chão momentos depois. Uma multidão se aglomera para ver o estrago e seguro-me para não rir. Ali, deitado no chão, nosso professor sangrava um pouco pelas narinas, distorcidas pela queda.

Vejo uma menina sair correndo da sala, mas não me importo, continuo encarando-o e pensando que, apenas alguns momentos atrás, ele estava todo empolgado falando de conhecimento. É, física pode ser bem perigosa...

Logo depois a enfermeira entra correndo na sala e, com ajuda de alguns empregados, carregam Sirén para fora. O diretor entra segundos depois do corpo do professor ser retirado.

– Muito bem alunos – sua voz grave ressoa pela sala, não atraindo muitos olhares, todos estavam preocupados em cochicharem uns com os outros sobre a queda – entendo que, por seres disciplinados como são, não deixarão esse pequeno... – ele faz uma pausa, como que procurando pela palavra certa – imprevisto, atrapalhar seus estudos. Aqui está uma lista de exercícios para serem aplicados. Confio que algum de vocês irá escreve-los no quadro e o resto irá fazer comportadamente!

Ele abana uma folha de papel no ar, esperando algum voluntário, quando ninguém levanta a voz, o diretor simplesmente coloca a folha sobre a carteira de uma aluna e dirige-se para a porta.

– E eu espero também, que sejam pessoas decentes e respeitem seu professor, não falando sobre a... a...

– Queda da Bastilha? – pergunto cortando o homem.

A sala sufoca em risadas contidas e o diretor me encara sério. Suas sobrancelhas juntam-se no meio da testa e marcas de expressão adornam suas feições, ele realmente odiava ser interrompido.

– Já que a senhorita não parece ter problemas em falar fora de hora, imagino que também não tenha problemas em colocar os exercícios no quadro? – ele recupera a folha da carteira da garota e abana-a para mim.

Sinto-me inclinada a desistir e agir como uma boa aluna, mas logo o sentimento some.

– Não consigo estabelecer uma conexão clara entre essas duas atitudes... senhor – respondo, forcando um tom mais chique e palavras rebuscadas.

Ele encara-me, claramente descontente pelo meu comentário, mas não desiste.

– Não há conexão nenhuma minha jovem. Apenas estou dizendo que espero que isso sirva de lição para uma aluna tão insubordinada como você – sua voz retumba grave, e com um resquício de raiva.

– Se me julga assim tão insubordinada, porque acha que irei obedecer-lhe?

– Sou seu diretor! Tenho esse direito.

Ele soa satisfeito com o que fala, sei que é verdade, mas nunca gostei de pessoas com ele, e juro que me mataria antes de tornar a vida deles fácil.

– Sim senhor, senhor! – levanto e bato continência – não sabia que aqui era o exército e que você precisava recorrer a esse tipo de atitude para controlar os alunos – levanto-me e arranco a folha de suas mãos – talvez seja por isso que você não saiba como lidar com alunos insubordinados.

Ele bufa para mim, irritado. Certamente não esperava essa resposta.

– Tenho certeza que esse vai ser um ótimo ano, não? – ironizo e sigo para o quadro, começando a escrever uma serie de exercícios.

O diretor sai da sala, batendo a porta atrás de si e no mesmo instante o mundo explode com risadas e todos se viram para conversar uns com os outros. Umas meninas tentam me chamar para conversar com elas, mas eu declino a proposta e vou para minha carteira, abrindo meu caderno e começando um novo desenho.

Um pouco antes de encostar o lápis no papel, penso ter visto um vulto com o canto dos olhos, viro a cabeça, mas não tem nada lá. Encaro o vazio por alguns segundos e volto ao meu desenho.

°_°_°_°

Segunda

Encaro meu prato de comida e inalo mais uma vez o cheiro apimentado. Era a semana mexicana no colégio. Nunca tinha comido comida mexicana, então escolho um taco de carne e uma quesadilla de queijo. Sento em uma das mesas e tento pegar o taco em minhas mãos, mas minha falta de conhecimento faz com que migalhas e pedações de carne caiam no prato. “Comer comida mexicana é mais difícil do que eu pensei”.

– Aqui – Peter estica os braços por trás de mim e pega o taco – segure ele como você segura uma arma, firme mas não esmagando, confie que ele vai parar nas suas mãos.

– Obrigada oh grande mestre da comida mexicana.

– De nada jovem padawan. Continue assim e logo será uma jedi na arte de comer tacos.

Rio e sigo o conselho dele conseguindo, finalmente, dar uma mordida. Era picante e crocante.

– Gostou?

Murmuro um sim de boca cheia, e Peter pega a indireta, começando a comer também. Comemos em silencio, apreciando a comida apimentada e bem temperada. Quando terminamos, descartamos as badejas e saímos do refeitório, ainda sem falar uma palavra.

– Então? Você vai ficar quieta o dia inteiro, ou vai despejar algum comentário? – Peter anda alguns passos à frente, em direção a parte frontal do colégio.

– Porque estamos indo para a frente do colégio? Não tem nada lá.

– E ela acordou – Peter gira nos calcanhares, começando a andar de costas – finalmente falou alguma coisa, pensei que tinha ficado muda.

Rio suavemente.

– Como se você não fosse gostar se eu ficasse muda.

– Iria odiar, quem iria comprar briga com o diretor se você não falasse?

– Oh! Você sabe... – não imaginava que os rumores fossem viajar tão rápido.

– Relaxe – ele cutuca minha bochecha – é um rumor pequeno, já está sendo engolido pelo jogo de lacrosse que vamos ter esse sábado. Então não deve ser um problema – ele responde a minha pergunta não pronunciada.

– Se você diz... Mas sério, Peter, pare de andar de costas, está me dando agonia, você vai bater!

– Relaxe Ren – ele soa calmo e seguro de cada passo – eu tenho espelhos retrovisores, sei para onde estou indo.

– Espelhos retrovisores? Onde? Na bunda?

Peter ri ironicamente e pisa forte no chão, não mudando a direção do corpo.

– No interior do meu cérebro, cara discípula. Quem sabe um dia eu ensino você a usa-los.

– Então você só não é um jedi na arte de comer tacos, mas também na arte de andar de costas? De qualquer maneira, me sentiria honrada se o senhor pudesse me treinar... Mestre – junto as mãos na frente do peito e faço uma saudação japonesa.

Ele ri e gira nos tornozelos de novo, andando para frente. Começamos a conversar enquanto andávamos, até que uma multidão de pessoas ao redor da fonte chama minha atenção.

– O que é aquilo? – aponto para a fonte e o aglomerado humano.

– Não sei – ele parece confuso e agarra minha mão, puxando-me para perto.

Tentamos passar pela multidão e ir em direção a fonte, o que foi meio complicado para Peter, já para mim, bom... ser pequena tem as suas vantagens. Debruço-me na borda do chafariz da entrada e constato que ele se encontra vazio. Prendo a respiração e concentro-me nas vozes das pessoas ao lado.

“Mas estava cheio até ontem!”, “Esse chafariz tem litros de água, quem conseguiria ter esvaziado tudo isso?”, “Como assim ninguém viu quem fez isso?”, “É por isso que câmeras de segurança deveriam ser instaladas aqui.”, “Será que foi uma pegadinha dos novatos?”, “Mas como? Ninguém poderia ter feito isso.”

Entre milhões de comentário, um me chama atenção, “Ninguém estava aqui domingo passado, mas mesmo assim, essa fonte tem muitos litros de água para ser esvaziada a mão”.

Engatinho para fora da multidão e encontro Peter sentado em uns banquinhos próximos ao tumulto. Corro até ele e sento do seu lado.

– E...? O que aconteceu? Alguém morreu? – ele parece empolgado.

– Ok, primeiro: você não deveria se mostrar tão empolgado por um suposto assassinato. Segundo: não, ninguém morreu. Terceiro: drenaram a fonte completamente. E quarto: porque ninguém estava aqui domingo passado?

Peter pisca algumas vezes para mim, absorvendo a informação e depois de alguns segundos abre a boca:

– Primeiro: mas, assassinatos são tão legais – ele parece entusiasmado de mais para o meu gosto – Segundo: tem certeza? Não quer checar de novo e ver se o corpo do diretor não está lá dentro? Terceiro: Como assim drenaram a fonte? Isso é impossível. E quarto: por causa do ônibus para a vila, quase todos foram ontem.

– Que ônibus?

– Só respondo se você responder as minha outras perguntas – ele cruza os braços e desvia o olhar, fingindo indignação.

– Tá bom! Primeiro: pare de ser um psicopata. Segundo: sim. Terceiro: não sei. E quarto: Que ônibus!?!

O garoto ri, entretido com a minha reação.

– O ônibus para a vila. No ultimo domingo de cada mês, um ônibus vem pegar os alunos no colégio e deixa eles na vila.

– E depois vem nos pegar de tarde – concluo.

– Não, não, nos temos que voltar correndo de lobos selvagens! – ele ironiza.

– Oh! Bom saber, assim eu faço uma nota mental para nunca ir.

Peter mostra a língua para mim e belisca minha bochecha.

– Pinch.

Olho falsamente irritada para ele e retiro a mão da minha bochecha com um esfregão. Tínhamos sorte da escola não estar aqui domingo de tarde, porque tenho quase 100% de certeza de que aquela água que quase nos afogou no túnel, não era água do mar.

°_°_°_°

Sábado

Abro a porta para a sala de armas, o horário do almoço já havia acabado a 20 minutos e esse era o horário que Jaime me disse que estaria de volta na sala de armas, mas a sala encontra-se vazia.

Deslizo a segunda porta, procurando por algum sinal dos meninos na sala de treino. Nada de novo, Peter e Jaime haviam sumido.

“Aquelas pestes, eles mentiram para mim!” penso, deslizando a porta de novo. Chateada volto até a primeira sala e sento na poltrona de Jaime brincando de girar de um lado para o outro. Bato a perna na mesa de tempos em tempos para manter a cadeira girando e troco de direção para não ficar tonta. Quando paro a cadeira foco os olhos nos materiais em cima da mesa de Jaime. Ele tem um abajur verde, vários livros sobre guerras e manutenções de armas e um porta retrato com uma foto dele em um velho uniforme militar.

Ergo o porta retrato e puxo ele mais perto analisando a foto. Quando passo o dedo pelo lado da moldura, sinto pequenas garrinhas na lateral da superfície de madeira, pressiono uma das garrinhas e de repente ela abre derrubando a foto no chão. Solto um grito abafado e abaixo-me para pega-la, mas para a minha surpresa, não havia somente uma foto dentro do porta retrato. Descansando do lado do pé da mesa estava uma outra, provavelmente colocada atrás da de Jaime com uniforme militar. Levanto essa para poder enxerga-la na luz. Essa parece mais nova do que a de cima.

Sorrindo dentro da foto está um homem lá pelos seus 30, ele tem uma barba de um dia e alguns poucos fios brancos na cabeça. Do seu lado encontra-se uma mulher, não muito mais nova, segurando uma criança pequena. A mulher sorri para o menino no seu colo enquanto ele brinca com os cabelos negros dela. Reconheço o homem como Jaime, o mesmo sorriso e o menino no colo da mulher tem os mesmos olhos azuis claros e cabelos pretos desalinhados de uma certo amigo. Era Peter.

Meu cérebro processa a informação extremamente lentamente e quando minha ficha cai quase derrubo todas as fotos no chão. Jaime era o pai do Peter!?!

– Rude – uma voz grossa e irônica exclama atrás de mim.

Viro-me assustada e dou de cara com Jaime. Ele está sorrindo com as mãos enfiadas dentro do bolso da calça jeans preta.

– Desculpe – respondo estendendo as fotos de volta para Jaime – não era minha intenção, foi... foi um acidente.

Ele estende os braços e pega as fotos das minhas mãos. Por um segundo penso que ela vai me expulsar da sala, mas ao invés, sorri e se coloca do meu lado, sinto cheiro de café e pimenta mexicana emanando dele, “ele deve ter acabado de almoçar”, penso.

– Aqui – aponta para a mulher na foto – essa é a minha esposa.

– Esposa? – minha surpresa é clara. Nunca pensei que ele fosse casado, nunca pensei que um nenhum professor de internato fosse casado!

– Esposa. E esse menino aqui – ele aponta para o garotinho – bom, acho que você sabe quem é.

– Peter – sussurro depois de uma pausa – Esse é o Peter.

Jaime apenas acena com a cabeça. Não falo mais nada, apenas observo o homem em silêncio enquanto ele se perde em memórias sobre a foto. Não acho que ele queira falar sobre o assunto, então tento não forçar.

– Clara – ele fala depois de minutos de silêncio – O nome dela era Clara.

– Clara – sussurro, guardando o nome em minha mente – O que aconteceu com ela? Digo, onde ela esta?

O sorriso de Jaime desaparece e sua expressão se torna de perda. Tenho medo de ter tocado em um assunto delicado, então dou alguns passos para trás na tentativa de realizar uma saída estratégica. O que falha miseravelmente.

– Em coma – Jaime se vira para mim e dá um sorriso fraco, minhas pernas param imediatamente e meu plano de saída estratégica evapora – Um ano antes de eu voltar da guerra ela entrou em coma.

Minha cabeça cai, “coma”, sussurra uma voz dentro da minha cabeça. Sinto a dor vinda das palavras dele e uma aura negra baixa sobre a sala, uma aura triste e assombrada, eles eram como eu... pobres coitados suportando uma grande perda.

– Você quer falar sobre isso? – pergunto.

Jaime desvia o olhar e pega o porta retrato do chão colocando as duas fotos de volta.

– Café?

Ergo a cabeça e vejo ele parado em frente a uma cafeteira, no armário atrás da mesa. Ele sorri por trás da barba de uma dia, como na foto.

– Não gosto de café – respondo.

– Entendo – ele soa surpreso e pouco crente, acho que nunca tinha encontrado alguém que não gostasse de café.

O homem dá de costas para mim e começa a mexer os braços, preparando a cafeteira para um copo quente do líquido preto. Ele passa algum tempo virado de costas para mim até que começo a escutar o barulho da máquina funcionando e sinto o cheiro característico de café inundar a sala. Quando o barulho para, ele vira-se para mim e senta na poltrona, segurando uma caneca estampada com a frase “****Best sister ever” para esquentar as mãos.

Não há mais cadeiras na sala, tirando a pequena cadeira de praia, então fico em pé em frente a Jaime.

– Então? Você quer falar sobre ela?

Ele sorri.

– Sabe de quem é essa caneca?

– Não...

– É dela, da Clara.

Abro a boca para tentar falar, mas, realmente, não sabia o que falar, ou pensar.

– “Best sister” ? – pergunto.

– Peter – Jaime sussurra de volta para mim – Clara não é a mãe do Peter e eu definitivamente não sou o pai! Ela era, é a irmã mais velha do menino – Toma um gole do café e faz uma careta – Quem foi que colocou chocolate dentro da minha máquina de café?

Jaime soa irritado e coloca-a de lado. Rio suavemente, óbvio que foi Peter.

– Aquele moleque – o homem apoia o queixo na mão e sorri maliciosamente – quando eu vir ele, eu juro que vou pendura-lo pelos pés e usa-lo como alvo de tiro.

Rio mais uma vez e dessa vez, ele me acompanha. Jaime ri despreocupadamente e passa a mão pelo cabelo, em um gesto quase automático.

– E é por isso que eu não consigo ficar bravo com ele – Ele suspira.

– Bravo? Quer dizer, com Peter?

– Não é obvio – ele se levanta e pega a caneca fazendo um gesto para segui-lo. Entramos na sala de prática e Jaime abre a porta embutida na parede, adentrando o quarto e rumando para o banheiro.

Sento na cama e escuto o som de água corrente e uns resmungos de um homem frustrado com uma caneca de chocolate. Quando Jaime sai, a caneca está limpa e ele senta do meu lado.

Um silencio desconfortável instala-se.

O barulho da brisa é agradável e uma fina linha de ar penetra no quarto pela fresta na varanda, sinto o cheiro salgado do mar e escuto o barulho das ondas quebrando na praia. Estava tudo muito quieto, quieto de mais. Com o canto do olho vejo uma sombra preta se mexer e viro a cabeça assustada, mas não havia nada.

“Talvez eu só esteja ficando paranoica”, penso.

– Ren, tudo bem? – Viro a cabeça e encaro James. Ele parece preocupado.

– Claro, ahm, sim! Eu só... pensei ter visto algo.

– Ok... – franze as sobrancelhas – então, eu suponho que você queira saber a historia. Minha, da Clara e do Peter?

– Jaime, eu sei – começo – sei como é perder alguém muito próximo e – engulo em seco, não tinha imaginado que falar essas palavras seria tão difícil – e... se você não quiser falar, não precisa, eu... eu sei a sensação de...

– Eu quero – ele corta – falar sobre ela. Eu quero falar sobre a Clara, mas, é difícil.

– Eu sei – abaixo a cabeça – mas uma hora ou outra você vai ter que enfrentar isso, porque não agora?

– É – ele levanta a xícara para tomar um gole de café, mas lembra que estava vazia e pousa-a no criado-mudo – Eu não sou a melhor pessoa para falar nisso – Jaime encara as próprias pernas.

Procuro palavras na minha garganta para retrucar, mas não encontro nada.

– Você deveria falar com Peter – ele sorri, um sorriso triste, mas um sorriso – ele... é ótimo nisso. Aquele menino teve um passado complicado, mas mesmo assim, bom, você viu ele – ele me encara e sorri ainda mais abertamente. Sorrio também, podia sentir o quanto Jaime se importava com Peter – ele, está sempre animado, feliz e fazendo piadinhas e pegadinhas. Ele sempre age como se o passado não importasse, eu... eu queria poder fazer isso, mas não dá.

O homem pausa e seu sorriso desaparece, ele enterra o rosto nas mãos e respira fundo. Sem saber o que fazer, coloco as mãos na cabeça dele e acaricio os cabelos grisalhos.

Jaime solta uma risada rouca com meu ato e murmura algo por trás das mãos.

– O que? – pergunto.

– Eu disse – desenterra o rosto – que você é como ele.

Franzo as sobrancelhas, não entendendo o comentário.

– Você é feliz e consegue, sabe? consolar as pessoas e ser o adulto, até para adultos. Eu vejo em você o mesmo que vejo em Peter.

Minha garganta fica seca, durante toda a minha vida eu nunca tinha pensado nisso, Kaede costumava falar que eu lidava muito bem com a morte dos meus pais, mas eu sempre pensei que era algo que ela dizia para eu me sentir melhor.

– O que você vê?

– Vejo duas crianças que passaram por muito, mas que podem fazer isso – ele aponta para minha mão acariciando seus cabelos – podem consolar e ser gentis. Vocês não deixam o que aconteceu no passado afetar tanto o presente. Eu não consigo ser assim.

– Você só... nunca tentou, eu tenho certeza que – paro de falar subitamente e desvio o olhar – não – sussurro. Jaime vira para mim subitamente, seu rosto estampado com surpresa – você está errado. Não sei se Peter também sente isso, mas, também, não sei o que exatamente aconteceu com ele quando era criança então... – faço uma pausa e respiro fundo – Eu não esqueço, esqueci, em nenhum momento o que aconteceu no passado, eu nunca vou esquecer da minha dor. Mas, é exatamente isso que eu quero fazer, eu não quero esquecer.

Jaime me encara, surpreso e confuso. Não acho que ele tenha entendido o que eu quis dizer.

– Meus... pais – engulo a palavra, ela desce pesada – sempre me disseram uma coisa. Que, não importa o que você faça, qualquer sentimento que tente esquecer e todas as portas que você fechar, um dia vão voltar para assombrar-lhe. E, o único jeito de não se deixar abalar por essas lembranças dolorosas, é nunca esquecer delas, é nunca fechar a porta – minha voz soa tremida e meus olhos doem – o que você não esquece não pode voltar para lhe assombrar, pois já virou parte de você. A dor faz parte de você. A dor fez de você quem você é James.

Ele arregala os olhos e encara-me, sua boca abre e fecha várias vezes, posso ver que ele está tentando achar alguma coisa para falar agora. Alguns minutos de silêncio se passam.

– Você... acha que, Peter também se sente assim? Você acha que ele nunca esqueceu ela? Esqueceu a dor de perde-la? – a voz dele sai tremida, como se ele ainda estivesse segurando o choro.

– Eu sei que sim. Porque ela amava ele, e ele amava ela e isso não é fácil de esquecer, ou, no seu caso, de tentar esquecer.

Ele ri com o meu comentário, um riso afogado e rouco. Fungo uma vez para não chorar e respiro fundo, já faziam anos que não chorava, não iria começar agora.

– Então – o homem volta a falar – acho que isso só prova minha teoria.

Encaro-o confusa.

– Que teoria?

– Que eu fico feliz que ele não seja como eu.

– Porque? – exclamo.

– Porque eu não conseguiria, eu não sou como ele, nunca fui. Não posso ser feliz como ele, não posso tentar não esquecer como ele, não posso... sorrir com ele. Sempre senti que devia cuidar dele, principalmente depois que Clara entrou em coma, mas desde aquele dia, sinto como se eu precisasse dele muito mais do que ele precisa de mim. Ele é muito mais forte que eu. Existem tantas coisas que eu não posso fazer e, eu com certeza não sou corajoso ou gentil, então, eu só posso ficar feliz que... ele não é como eu.

Reconheço essas palavras, Jaime não acha que é bom o suficiente. Ele tem certeza que não é bom o suficiente e talvez, só talvez, ele não seja.

– Você não precisa ser tudo isso – coloco minha mão nos seus ombros e encaro-o atentamente – Deixe ele ser a criança, ou o adulto no caso. Deixe ele ser feliz, você não precisa ser o mesmo que ele. Seja o que ele não é, afinal, eu sei que Peter ama você de qualquer jeito.

O homem sorri e seus olhos começam a brilhar com lágrimas.

– Talvez, só talvez você não seja bom o bastante para ele, mas... talvez ele também não precise que você seja. Talvez, só talvez... O Jaime com milhões de erros e milhões de más qualidades, seja tudo que ele precise. Afinal de contas, ele te ama não?

Ele respira fundo e passa as mãos pelo rosto, impedindo as lágrimas de saírem de seus olhos. Mais um minuto de silêncio paira em cima de nós, mas dessa vez não é desconfortável, Jaime pensa no que eu falei e eu penso se o que falei foi certo. Nunca fui das melhores para consolar as pessoas, mas me pergunto se dessa vez consegui melhorar a situação de alguém.

Volto ao quarto pelo rangido da cama em que estamos sentados, olho para cima e vejo Jaime levantar-se e estender a mão para mim.

– Vamos logo Ren! – ele exclama empolgado – já perdemos muito tempo aqui, desse jeito quando voltarmos, você não vai saber mais nada sobre como atirar! – Pego a mão dele e sou puxada violentamente para cima, equilibro-me em minhas pernas e sigo Jaime para fora do quarto, ele vai cantarolando durante todo o curto trajeto.

Quando saímos do quarto ele tira uma sniper da parede e entrega-me. Abro a boca surpresa, nunca tinha atirado com uma dessas!

– Pensei que você não podia deixar alunos atirarem com essas!

– Eu não posso – ele resmunga saindo da sala para pegar as munições – mas, eu também nunca fui muito fã das regras do diretor.

Ele volta para a sala com a munição, ou eu acho que é a munição. Entendia muito de pistolas e armas pequenas, mas nunca tinha atirado com algo tão grande e pesado como uma sniper. Meu professor me poupa do trabalho de arrumar a arma, então ele recarrega e a prepara antes de entregar-me.

– Pronta para uso!

Engulo em seco.

– Então, sabe, uhm... como eu poderia falar isso? Eu não sei usar uma sniper! — exclamo.

– Mas você sabe o que é! Já é um bom começo – ele sorri para mim – quando eu mostrei essas para o Peter da primeira vez, coitado, nem sabia como segura-la.

– E agora sabe? – meu tom incrédulo aparentemente o ofende, pois o homem franze as sobrancelhas e aproxima-se com um olhar feroz.

– Não me insulte! – exclama – eu sou o melhor professor de tiro que esse mundo já conheceu! Você vai aprender a usar isso por bem, ou por mal.

Resolvo não discutir mais e deixo ele me guiar por inúmeras instruções de como usar a arma apropriadamente, depois de alguns minutos tento pela primeira vez. Meu tiro não sai tão bem quanto eu gostaria, mas eu dou algum crédito para minha pessoa, afinal era minha primeira vez.

Segurando a sniper daquele jeito e não sabendo nada de como usá-la, quase me dava uma sensação boa, a sensação de que eu não era a criança perturbada e em perigo de antes, me dava a sensação de que eu era só uma criança. Sem traumas, sem perigos e sem a necessidade de crescer mais rápido, quase me fazia sentir... em paz.

Notas finais
A tradução das frases que a mulher fala para a Ren: * - Expulse esses sentimentos para o final da sua mente e carregue a dor que você não quer suportar ** - Longe das pessoas, longe da dor. Livre-se desse sentimento e jogue-o fora *** - Segure na sua dor, que machuca o seu coração. Não se solte, isso vai quebrar-lhe P.S. Desculpe por isso, mas é que elas soavam muito melhor em inglês. **** - Melhor irmã do mundo. “Is this voice someone else inside my head? Or is this the voice of my fears trying to break my soul?” – Essa é a voz de alguém dentro da minha cabeça? Ou é a voz dos meus medos tentando quebrar minha alma? Espero que gostem! #Ghost...