O Mistério de Edenvill
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Nunca teria imaginado que depois de tanto sangue e devoção contribuídos pelo seu antigo trabalho acabaria em uma cidade como Edenvill, com pouco menos de quarenta mil habitantes e trabalhando em uma lanchonete chamada Clary’s Dinner, que não se satisfazia em ter apenas o nome como brega, mas também o próprio estabelecimento. Com um papel de parede desgastado cor creme, pequenas flores de lis marrom decorando, mesas e cadeiras estáveis de tecido vermelho e branco, um pequeno balcão centralizado no fundo e um outdoor simples e convidativo no lado de fora com nove vagas de estacionamento, o Clary’s Dinner abrigava em torno de vinte a trinta pessoas ao dia na pequena cidade esquecida pelo mundo e não mencionada com muita frequência na lista de cidades da Carolina do Norte. Apesar de a breve descrição dar a impressão que a urbe escravizava todos nascidos nela, Charlotte Armstrong havia se ajustado a vida simples e passava a imaginar seu futuro naquele velho e olvidado lugar, o seu melhor analgésico desde então para fugir da dor e agonia causadas por uma antiga vida enterrada nos confins de seu coração.
Com um pano e um prato nas mãos prevendo um plano de fuga para afirmar estar trabalhando, Charlotte passou a prestar atenção na mesa colada na parede a sua direita, a duas mais distantes do balcão. Dois policiais recém-chegados discutiam sobre a mais grotesca, cruel e alarmante morte já registrada na pequena Edenvill até o momento. O caso da garota encontrada na floresta, a garganta perfurada por quatro linhas profundas que julgavam ser um animal de grande porte, pelo pouco que conseguira se informar. Como bem conhecia, ela sabia que a Policia guardara o máximo de informações possíveis sobre o estado físico da garota a fim de não atemorizar mais ainda as pessoas da cidade, e que no fim o caso seria arquivado com uma desculpa tola como a de ter sido atacada por um animal, um urso talvez, mesmo a cidade não abrigando nenhum. Tornou-se natural o pensamento de que os seres humanos passavam a adotar respostas bobas para perguntas incompreensíveis.
– Vincent Madden, mais conhecido como Policial Madden. Foi transferido de Kentucky para cá a mais ou menos um mês e este é o seu primeiro caso, o da garota encontrada na floresta – iniciou Carey um monologo um tanto estranho aos olhares da mulher ao lado. – Agora que já conhece sua presa pode parar de comê-la com os olhos e atacar.
Charlotte desviou seu olhar novamente para a mesa, afeiçoada ao hábito da amiga de lhe empurrar para todo o homem bonito que via, já que para ela não ter um relacionamento sério dentro de dois anos era loucura.
– Eu não estava secando-o, Faith – explicou a situação como que para uma criança ao observar o homem que não estava de costas para as duas. – Ao menos prestei atenção nele, mas sim na conversa. Estou curiosa para saber mais sobre o caso.
– Esse é um assunto da Policia Lotte, sabe que pode se meter em problemas se envolvendo de mais no assunto. Até onde sabemos pode ser um animal.
– É claro que um animal local abriria o estômago da vítima, comeria seus órgãos – citou ela, relembrando um dos rumores que a amiga havia lhe contado -, e continuaria habitando a cidade, ainda despercebido.
– Na próxima vez não te dou detalhe sobre caso algum – prometeu a fofoqueira, fingindo estar tristonha. Era inevitável não se atualizar sobre as últimas notícias quando se fazia uma amizade com Faith Hayes. – Agora vá lá atender aquele bonitão e tire isso da mente.
Pela primeira vez Charlotte admitiu que sua amiga estivesse certa, julgado pelo fato do seu motivo de ter se mudado para a pequena e atual cidade. Ser uma caçadora de lobisomens nunca foi fácil, e para alguém como ela, perder todas as pessoas que amava fazendo aquilo era apenas o começo de uma história que não estava disposta a terminar. Mudar de vida foi sua solução, e agora não poderia fraquejar.
Substituindo o pano e o prato por um pequeno bloco de anotações ela andou com passos lentos até a mesa, imaginando-se o mais distante possível de qualquer situação que a ligasse com o homicídio e ignorando as palavras que saiam da boca dos dois policiais.
– O que vão querer? – foi direta, desconhecendo o fato de estar parecendo antipática com a feição tão séria, e mal educada por ter lhes interrompido.
O moreno, que até então não podia ver por estar de costas, lhe respondeu: – Uma torrada, e um chá de maracujá para acalmar o meu amigo aqui.
O último comentário à fez observar o outro homem, que apesar de ter os olhos fixos nela, parecia perdido em seus próprios pensamentos. Com as mãos unidas e cerradas sobre a boca, ela só pôde notar seus olhos, verdes. E então tornou a seu posto novamente, aliviada por um motivo desconhecido.
– Conseguiu o que queria? — provocou Faith.
– Você mesma me aconselhou a ficar longe do caso.
– Não é disso que estou falando – cantarolou de forma provocativa, mas a mulher apenas a ignorou e voltou ao trabalho.
Já havia anoitecido e consequentemente o número de clientes diminuído. Charlotte animou-se com a ideia de que logo voltaria para casa e poderia ter mais uma noite de sono tranquila e reconfortante.
Organizando talheres, limpando mesas e entregando pedidos ela deixou seus olhos correrem duas ou três vezes para as janelas do estabelecimento, podendo por segundos mais curtos do que pareciam ser possíveis, afundar-se em um mar azul meia noite cheio de lembranças, essas que haviam se tornado tão distantes a ponto de serem questionadas reais ou apenas fruto de uma fértil imaginação.
Caçar lobisomens era como ter a vida fadada a correr riscos e nunca ter plena certeza do dia de amanhã, mas apesar de saber o quanto era perigoso, ainda sentia falta dos uivos, tiros, saltos e sorrisos durante a caça, e principalmente, da adrenalina. Caçar havia se tornado parte de sua natureza, que com tanto sacrifício abandonou para não correr mais nenhum risco, porém ver pessoas inocentes sendo mortas mais uma vez era como se estivesse amarrada com correntes em uma árvore enquanto assistia a morte de um querido, e isso a fazia pensar duas vezes.
Charlotte passou o restante das horas no trabalho devaneando sobre sua vida amarga e melancólica, dando fim a esses pensamentos ao ajeitar a alça da bolsa no ombro e despedir-se do dono do estabelecimento, Carl, sua esposa e Faith, as pessoas que mais tinha apego.
Ao passar pela porta começou a dar passos largos em direção aos fundos do estabelecimento, onde seu carro estava estacionado.
O movimento das ruas já não existia mais e a única coisa que não a impedia de cair eram os postes de luz que dissipavam a escuridão. Há algumas horas atrás teria ficado com medo de alguém de sua própria espécie desejar lhe causar mal, mas sabendo que um lobisomem havia chegado à cidade, o terror lhe vinha ao imaginar estar desarmada em frente a um possível voraz. Pelo menos era o que mostravam as pistas.
Abriu a porta do seu Corsa cinza e entrou, jogando a bolsa no banco do passageiro e ligando o carro em uma velocidade nada habitual.
Ao dirigir as lembranças tornavam-se mais fortes conforme refletia sobre o assassinato na floresta. Pensou nos policiais da lanchonete e por um momento desejou que encontrassem o culpado, e que estivessem prontos para a resposta.
Apesar da grande fama, os lobisomens eram imperceptíveis no nosso mundo por serem seres, apesar de tudo, cautelosos, inteligentes e envoltos de uma camuflagem perfeita, tentando conviver entre nós. Era raro e questionável encontrar um que caçasse de forma natural como há algum tempo atrás, não se importando com pistas que apontassem a eles, e apesar de ter caçado durante quatro anos consecutivos nunca havia se deparado com um daqueles. Ou o híbrido era burro, ou gostava de joguinhos.
Não se assustou ao observar os rumos do cruzamento, afinal em torno das duas da manhã em noites de inverno era comum ela ser o único carro ali. Então continuou dirigindo e pensando sobre os acontecimentos recentes, agora assustada com a ideia de que poderia ser alguém realmente perigoso.
Mas o real motivo do seu susto foi o grande vulto negro e peludo seguido de um estrondo vindo do capô do seu carro. O sobressalto foi expresso em um grito, que logo se ultimou.
Um Crinos havia acabado de pular em seu capô de forma agressiva, sumindo repentinamente em meio aos comércios da mesma forma que surgira. Sua respiração estava alta, descompassada e seu peito subia e descia em um ritmo rápido, suas mãos segurando o volante com força. Quando se deu por conta estava posta de pé na estrada, assombrada ao analisar o buraco formado em seu carro.
Demorou alguns segundos para chegar à conclusão de que o assassino a solta havia acabado de pular em seu carro, como uma afronta, um convite para um novo joguinho. E antiga sensação havia voltado, só podendo significar uma coisa: perigo.
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