O Mistério das Pedras - Os Guardiões
5 Uma Mão, Um Rosto, Um Tapa
Notas iniciais
Já era quase uma da tarde quando os meninos saíram da sala de refeições. Daniel, Tiago e Orlando saíram em direção ao jardim. Augusto resolveu aproveitar a tarde para dormir. À noite, no baile, ele falaria com a irmã.
Acordou com o barulho de algo batendo forte. Percebeu que o céu lá fora já estava escurecendo, o que significava que dormiu a tarde toda. Devia estar realmente cansado. Olhou o relógio e viu que já era quase seis horas, o que lhe deixava com um pouco mais de meia hora para se arrumar.
Viu que a luz do banheiro estava acessa, Daniel devia já estar se arrumando. Foi só quando olhou para os pés da sua cama, que Augusto percebeu que não tinha guardado a suas coisas. Resolveu organizar tudo enquanto Daniel não saia do banheiro.
Quando terminou o que tava fazendo Augusto percebeu que Daniel ainda não tinha saído do banheiro. E para desespero dele, o professor Pedro não parecia estar brincando quando disse que chegassem no horário, ou desistissem da festa.
Faltavam apenas quinze minutos quando Daniel saiu do banheiro, já estava pronto para o baile.
— Pensei que ia morar no banheiro! Poderia ter trocado de roupa aqui. — Disse Augusto com o rosto em fúria. Pegou a tolha e bateu a porta do banheiro o mais forte que conseguiu.
Nem cinco minutos depois Augusto estava de voltava. Enquanto com uma mão secava o cabelo, com a outra tentava encaixar os botões nas casas correspondentes. O seu sapato tinha ficado invisível, e a gravata parecia que tinha manteiga, de tantas vezes que escorreu de suas mãos.
— Droga de veste de baile! — xingava Augusto cada vez que algo dava errado.
Faltava apenas três minutos e Augusto havia localizado apenas um sapato, o que não conseguia entender, uma vez que tinha pegado o par.
Só quando já estava de saída foi que ele percebeu a ausência de Daniel.
“O imbecil já deve estar no baile, espero que tenha uma câimbra e não dance durante a noite toda!”
Finalmente chegou a sala de estar, mesmo que os alunos já estivessem começando a sair. O professor esperava na porta todos os alunos passarem.
— Teve sorte dessa vez. Só não garanto que terá na próxima.
“Não responda, não responda, não responda...” Augusto esperava que repetindo isso inúmeras vezes em sua cabeça, evitasse ganhar uma suspensão antes mesmo da primeira aula.
O saguão de entrada estava todo decorado nas cores da escola: vinho e branco. Já havia bastantes alunos no local, mas nem Laura nem suas novas amigas foram avistadas por Augusto, por certo não haviam chegado ainda.
— Essa noite serei o responsável por todos vocês então, por favor, comportem-se! — e olhando diretamente pra Augusto acrescentou — As minhas primeiras aulas serão com o segundo ano.
Augusto olhava o professor se afastar, mas em sua mente a única coisa que passava era o quanto ele ia odiar essas aulas.
— Ótimo! Começar o ano logo com aula dele.
— Falando sozinho maninho?
Dois braços o envolveram, e ele reconheceu na hora de quem era àquela voz.
— Pensei que não iria lhe ver mais hoje. — disse Augusto enquanto abraçava a irmã, que mal lhe chegava aos ombros.
— Também pensei, já que não veio almoçar.
— Quem disse? Para sua informação eu vim sim almoçar, você que não me viu. Tava muito entretida com as novas amigas.
— Você tá falando da Catarina e da Valentina? Vem, vou te apresentar a elas.
Ele não tentou nem protestar enquanto a irmã o arrastava saguão a fora. Conviver com Laura durante quatorze anos o fez entender que quando ela decide ninguém a faz mudar de ideia. Quando Augusto mal percebeu já estava frente a frente com as novas amigas da irmã, que observavam a cena um pouco assustadas.
— Não se preocupem, ele não morde.
— Laura, por favor, não faz isso.
— Relaxa Augusto, elas são gente boa. — Augusto resolveu não estragar sua noite contrariando Laura. — Chegamos! Meninas esse é o meu irmão Augusto Drumontt.
— Oi! — murmurou Augusto contra vontade.
— Oi? Eu trago você até aqui pra te apresentar as minhas novas amigas, e tudo que você tem a dizer é um simples ‘oi’?
— Calma Laura ele só está com vergonha. Prazer sou Valentina Andrade.
Valentina mal tinha erguido a mão, quando Augusto soltou um sonoro:
— Ah... Você é a nerd.
Ficando vermelho logo em seguida. Ele nunca agradeceu tanto ser negro, a pele escura disfarçava a vermelhidão das suas bochechas.
— Vejo que o Daniel já passou a nossa ficha completa. O que eu sou? Deixa que essa eu adivinho. A amiga interesseira que só tá atrás de respostas? A propósito, prazer. Sou Catarina Azevedo.
— É... ele disse algo sobre você também.
— Augusto... — começou a reclamar Laura.
— Não Laura, ele não tem culpa. Daniel e sua turminha dizem coisas como essas desde o ano passado.
— Você nunca pediu para que eles parassem? O seu pai é o professor.
— Logo no início sim, até ameacei contar ao papai, mas depois desisti. Não quero envolver ele nisso.
Por um momento ninguém soube o que falar, nada parecia ser o suficiente em casos como esse.
— Augusto o que aconteceu com sua gravata? — Laura resolveu quebrar o silencio com uma conversa mais engraçada.
— Ah... isso? É, você sabe. Eu nunca acerto fazer esse nó.
— Vem, deixa eu te ajudar.
Augusto não sabia como Laura conseguia fazer isso tão rápido. Em menos de dois minutos a sua gravata estava perfeitamente ajustada em seu pescoço. Porém só agora Augusto percebeu a maneira como a irmã estava vestida.
Ela estava usando um vestido azul de manga comprida, que lhe cobria apenas um ombro. O modelo lhe apertava a cintura e descia reto por seu corpo. Uma fenda se iniciava no meio da sua coxa esquerda, e seguia até o fim do vestido.
— Que vestido é esse Laura? — Augusto não conseguia acreditar no que estava vendo — Rasgou e não deu tempo de costurar, foi? Ou você só sente frio em um braço?
— Augusto, olha o vexame. Você nunca implicou com minhas roupas antes.
— Porque antes você não usava esse tipo de roupa.
— Augusto eu não aceito que você estrague minha noite. Amanhã você pode dá o chilique que for, mas hoje não. E olhe em volta, eu não sou a única usando esse “tipo de roupa”.
Ele tinha que admitir que a irmã estava realmente certa. Havia garotas com roupa ainda mais decotada que a da irmã. Catarina, por exemplo, estava em um vestido vermelho, longo assim como de Laura, porém as costas da garota estavam totalmente descobertas. Já Valentina usava um vestido roxo, sem mangas, que descia colado ao corpo, e na altura do joelho se abria em uma espécie de cauda.
— Não quero saber o que as outras estão usando, elas não são minhas irmãs. Se você não for tirar esse vestido agora, irei ligar para o papai.
— Ótimo, faça isso. Aproveita a ligação e pergunte se a mamãe está por perto, ela também gostará de saber da história.
Contra isso Augusto não tinha como lutar. Dessa vez a vitória era de Laura.
— Acho que estão lhe chamando. — Avisou Catarina, olhando para alguém atrás de Augusto.
Com uma rápida virada de cabeça ele pode ver seus mais novos amigos lhe acenando.
— É melhor eu ir lá saber o que eles querem.
Quando Augusto virou em direção aos meninos, sentiu Laura lhe segurar o braço.
— Se eu souber que você falou qualquer coisa sobre as meninas, ou sobre qualquer outra pessoa, você sabe que não precisa mais falar comigo, não sabe?
— Sei.
— Ótimo.
Ela finalmente largou seu braço.
Enquanto andava em direção aos meninos, podia sentir o olhar de Laura lhe queimar as costas.
— O que achou delas? — Daniel foi o primeiro a perguntar.
— Hãn?
— O que achou delas? Da Valentina e da Catarina? — repetiu a pergunta com impaciência.
— Legais, não parecem ser a nerd e a rebelde que vocês me falaram.
— Eu não as acho chatas, elas são bonitas.
— Tiago, uma pessoa ser bonita, não significa dizer que é legal também.
— Orlando em nenhum momento eu disse que elas eram chatas. — se defendeu Tiago.
— Tudo bem Tiago, entendemos o que você falou. E Orlando, deixa ele se expressar da forma que quiser.
— Caramba Augusto, você não passou nem vinte e quatro horas com o Daniel e já está falando como ele.
— Chega Tiago, você já falou asneira demais pra uma noite só. — Declarou Daniel irritado.
Tiago estava pronto para retrucar quando de repente todas as conversas cessaram. Augusto olhou para o topo das escadas e viu o diretor Carlos, vestido impecavelmente com seu terno preto. A blusa de dentro era vinho, provavelmente uma forma de homenagear a escola.
— Boa noite a todos os presentes. — O saguão estava em completo silencio, era até mesmo possível ouvir o farfalhar das copas das árvores, que se agitavam a medida que o vento as tocavam. — Mais um ano se inicia na Instituição de Ensino Santa Clara. Não vou cansar a todas repetindo as mesmas palavras que disse pela manhã. Espero que aproveitem o nosso tradicional baile de abertura. O horário das aulas estará colado no mural de cada sala de estar. O baile durará até meia noite. Afinal, não queremos que o feitiço se quebre, não é mesmo? — Algumas risadas baixas foram ouvidas pelo local, aquele homem realmente sabia falar em público. — As aulas começarão a partir das nove da manhã. Por hora é apenas isso. Aproveitem a festa.
Nesse momento dois funcionários abriram as portas que davam acesso à sala de refeições. As mesas que mais cedo estavam espalhadas por todo local, agora se encontravam acomodadas nos cantos da sala, o meio surgia como uma enorme pista de dança.
— Hoje a noite promete! — Augusto só faltou ter um ataque cardíaco quando mais uma vez na noite reconheceu a voz que animadamente proferiu essa frase.
Ele virou lentamente na direção de onde a voz havia vindo, a pessoa estava de costa pra ele, provavelmente não o tinha visto.
— O que a sua noite promete Laura? — Ela com certeza não esperava que o irmão estivesse bem ao seu lado.
— Ai Augusto, que susto! Não se chega assim de repente perto das pessoas.
— Não muda de assunto Laura. O que sua noite promete?
— Eu... é... não é nada disso que você está pensando, calma, você entendeu tudo errado. O que eu quero dizer, é que...
— O que foi Laura? Tá com medo que o irmãozinho fique bravo com você? Você sabe não é? Ele o único que se importa com você mesmo. Nem o seu pai liga muito. Será que é porque ele não é o seu pai? Pra falar a verdade nem o Augusto é o seu irmão. Só te atura porque os pais te adotaram...
Nem mesmo Augusto foi mais rápido que Laura. Eles não tinham percebido, mas a discussão já tinha chamado atenção de todo o salão. Augusto se sentiu mais uma vez na festa das empresas BeloMonte, a única diferença é que a mão que acertou Daniel foi a de Laura e não a sua. No momento seguinte Tiago e Orlando já seguravam sua irmã, enquanto ele ainda tentava entender tudo que acontecia ao eu redor.
— Sim Daniel, eu sou adotada, não tenho vergonha disso. E talvez seja essa o motivo de apenas o Augusto me aturar, como você mesmo deixou claro. Mas pelo menos eu tenho a adoção pra usar como desculpa, e você nem isso têm. Seu pai não gosta de você pelo imbecil, arrogante e hipócrita que você é. Eu tenho pena de você.
Laura saiu do salão sendo observada por todos. Ninguém se atrevia a dizer nenhuma palavra. Augusto só voltou a si quando viu Daniel, que nesse momento possui uma grande marca vermelha em sua bochecha, sair pelo caminho contrario a Laura.
— É melhor irmos atrás dela. — Disse Catarina mais pálida do que o normal.
— Não precisa, eu mesmo vou. Só me digam pra onde ela foi.
— O caminho que ela saiu vai dá nas estufas de biologia. Mas ela pode ter pegado um atalho pra qualquer lugar do castelo. — Explicou Valentina olhando alarmada para Augusto.
— Ela está lá. A natureza a acalma.
E dizendo isso, Augusto saiu atrás da irmã.
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