O Mistério da torre de cristal
20 Visitas inesperadas
Quando entrei na sala, Alex e Verônica já estavam lá, com Victor, cada um com um copo cheio na mão, conversavam animadamente.
— Finalmente, Bela adormecida – Verônica não disfarçou sua ironia, dei-lhe um sorriso dissimulado.
— Quer beber algo, querida? — Meu marido indagou, como sempre educado.
— Só água, por favor. Estou com muita sede.
— Você pode estar doente – Alex interpôs.
— Acho que não. Estava bem hoje à tarde.
— Pode ser um começo de gripe ou algo parecido – Verônica opinou, talvez, estivesse certa, me sentia bem estranha.
O jantar decorreu como sempre, com conversas superficiais e sobre assuntos que desconheciam, não podia negar que estava especialmente irritada àquela noite e quase sem fome.
— Soube que você foi nos visitar hoje, Lívia – Alex falou, em tom simpático.
— Nos visitar? –Verônica não entendeu.
— Lívia foi a empresa hoje, almoçamos juntos. – Victor explicou.
— Que romântico! Alguma data especial – ela quis saber.
— Não, só me deu vontade de visitar o meu marido. Você está trabalhando na sede, agora, Alex? Pensei que trabalhasse apenas nos canteiros de obras.
— Eu trabalho na diretoria a maior parte do tempo, só de vez em quando, visito uma das obras.
Era com uma trama que amarrava ponto a ponto, e não estava gostando do desenho que surgia diante de mim.
Fiquei calada o resto da noite, não consigo parar de pensar, se Alex teve a ver com a minha escolha para o cargo de recepcionista da empresa, afinal, foi alguém da diretoria que interveio ao meu favor, mesmo com a oposição da chefe do departamento de RH, Alice, mas, por que ele faria isso? Talvez, para ajudar um amigo a conseguia uma parideira perfeita, órfã e desamparada, para seu herdeiro? Os dois tinham uma amizade muito próxima, como Vanessa me disse quase inseparáveis, até o meu casamento.
Os outros comensais não percebem minha alteração de humor, mal conseguia comer. No fim do jantar, a conversa continua animada, porém, pedi licença para me retirar mais cedo. Vou para o quarto e, alguns minutos depois, Victor veio atrás de mim, já me encontrando deitada na cama.
— O que houve, Lívia? Você está doente?
— Não. Pelo menos, acho que não, só estou com muito sono.
— Menos assim, acho prudente você procurar um médico.
— Farei isso na segunda, caso não melhore.
Assim que ele saiu, eu caí no sono, quase de imediato. Desperto lentamente, sei que não estou no mundo real, mas naquele entre o inconsciente e a vigília, onde o tempo é mais lento, não há atos abruptos, sei que não estou sozinha no quarto, muito antes de abrir os olhos, e que minha companhia já não pertence mais ao mundo dos vivos, seria só minha imaginação, um sonho, uma fantasia. Levanto-me calmamente, olho para a mulher translúcida parada diante de mim.
— Mariane, o que está fazendo aqui? – indago, sem abrir a boca. – Nós a libertamos, fizemos justiça ao seu nome, por que não fica em paz?
Mesmo sem ouvir a sua voz, sei que está lá para me avisar, me proteger, diz que somos iguais, que preciso tomar cuidado, pois corro perigo.
Digo que não, que somos diferentes, meu marido é diferente, não há nada de errado comigo, que não preciso de ajuda e quero que ela me deixe em paz.
Ela apenas sorri, seus olhos são tristes, me pede para ter cuidado, no momento que sinto mãos sobre mim, alguém me segura com força, tento fugir mas elas me arrastam.
— Lívia! – Ouço a voz de Victor e abro os olhos, não consigo respirar, puxo o ar com força, meu coração bate apressado, meu marido me olha preocupado.
— Você estava tendo mais um pesadelo — informa. –Você não está bem, Lívia.
Sento-me na cama, passo a mão sobre a minha testa úmida de suor, minha garganta está seca.
— Preciso de um pouco de água – digo, fazendo menção de ficar de pé, porém, ele me impede com um gesto, vai até o pequeno frigobar do nosso quarto, pega uma garrafinha e serve em um copo, bebo um gole, agradecida. – E Verônica e Alex?
— Já foram.
— Victor, por favor, deite-se aqui comigo – peço.
Nos braços do meu marido, não posso acreditar que meu casamento faça parte de uma trama maléfica, apesar de todos os indícios, parece uma loucura, algo de filme policial. Eu me aconchego mais junto ao corpo dele, sinto seu calor, sua mão desliza pelo meu ventre, sobe até o seio, sua ereção cresce nas minhas costas, estou úmida e quente, o desejo tanto. Com a mão livre abaixo a calça dos seus pijamas e ergo a minha camisola, afasto as minhas pernas. Nunca o ato foi assim tão espontâneo, tão sensual e ardente. Sabia que iria ficar tudo bem.
Na manhã seguinte, acordei radiante, contudo, minha cama estava vazia, levantei-me a procura do meu marido, só encontrei um bilhete, onde dizia que havia ido jogar tênis com Alex, que não o esperasse para o almoço. Pois bem, seria mais uma manhã, solitária, já que não poderia telefonar para Monique, pois sábado era o dia de maior movimento no salão, assim como Eduardo deveria estar em aula.
Poderia fazer algo diferente, quem sabe sair, fazer compras, almoçar fora, ir ao cabelereiro. Assim, decidi pedir um carro, mas qual foi a minha surpresa, quando a campainha tocou da porta tocou, era estranho, significava que deveria ser alguém do prédio. Estava certa, era Vanessa.
— Bom dia, Vanessa. Você por aqui? E a senhora Valdez?
— Desculpe-me vir sem avisar, mas a senhora Valdez tinha um almoço com as amigas e, como vi seu marido sair cedo essa manhã, supus que estivesse sozinha. Por isso, eu vim convidá-la para almoçarmos juntas, se não for muito atrevimento para minha parte?
— Não, nenhum, eu estava pensando em sair para almoçar.
— Infelizmente, não posso, pois devo ficar por aqui, caso a senhora Valdez retorne mais cedo.
— Sendo assim, almoçaremos aqui mesmo e faremos companhia uma a outra.
Mais tarde, almoçávamos, na varanda, era bom ter companhia, principalmente de alguém como Vanessa.
— A senhora é uma mulher de muita sorte, por se apaixonar e casar como um homem como o senhor Rahner tão bonito e rico – ela comentou de modo casual, mesmo assim, eu não gostei, havia algo no tom de voz dela, talvez, inveja, mas imagine quantas mulheres teriam esse mesmo sentimento por mim?
No restante, o almoço decorreu tranquilo, Vanessa era uma mulher inteligente e refinada, que havia cursado bons colégios, às custas de um patrão benevolente da sua mãe, estava na faculdade de direito, por isso, trabalhava como acompanhante da intratável senhora Valdez, mas, em breve, essa fase da sua vida terminaria.
Tive que reconhecer que ela era uma mulher corajosa e com muita determinação, deveria me espelhar dela, continuar a cursar a faculdade, fazer algo a mais da minha vida do que ser esposa de um homem rico. Por fim, ela foi embora, esperar pela chegada da sua patroa, antes que Victor regressasse para casa. Ele voltou e estava mais bonito que antes, a pele bronzeada, os músculos retesados pelo exercício e um sorriso a base de muita endorfina.
— Parece que a manhã foi muito proveitosa – disse, quando ele me deu um beijo no rosto.
— Sim, eu e Alex formamos uma dupla, ganhamos todas.
— Que bom.
— E você, o que fez?
— Almocei com a secretária da senhora Valdez, Vanessa.
— Eu não a conheço – Seria impressão, mas o semblante dele mudou. Eu precisava parar de ficar vendo fantasma em todos os lugares.
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