Os meses que antecederam o meu casamento, simplesmente, voaram e eu fiquei muito atarefada cuidando dos todos os pequenos e grandes detalhes. Uma eficiente organizadora de casamento foi contratada para preparar o evento, que como Victor dizia, seria uma cerimônia íntima para apenas 100 convidados, a maior parte dele. Por estar sempre muito ocupado, meu noivo não se envolvia com nada relativo ao evento, deixando por minha conta, todas as decisões, como a escolha dos convites, dos pratos a serem servidos, flores, cores das toalhas, os guardanapos, louças, talheres e, principalmente, o meu vestido, eram tantos pormenores que nunca imaginaria. Minha amiga Monique sempre tentava me ajudar quando tinha um tempinho no seu trabalho, ela era cabelereira das boas com agenda sempre cheia, porém, como eu, também ficava perdida naquele mundo de puro luxo e preços exorbitantes. Nessa época, eu comecei minha pequena mudança para o apartamento de Victor, passava algumas noites ali com ele e dias muito solitários, tentando me distrair como podia, por isso lia muito.

Um desses dias, quando estava na casa dele, após um jantar íntimo, Victor me entregou alguns papéis.

— Gostaria que lesse esses documentos e se concordar, assine-os.

— O que é isso?

— Um contrato pré-nupcial, é de praxe.

— É de praxe quando uma garota pobre se casa com um homem rico – completei, com um tom sarcástico, magoada.

— Não, minha querida, é de praxe em qualquer casamento no meu nível social. – Ele não alterou o tom de voz.

— Uma forma de se proteger contra alguma salafrária, que queira dar um golpe do baú.

— Não seja tão sensível, querida. Leia e verá que os termos são bem favoráveis a você. Que não ficará desamparada, se caso, nós nos separarmos.

— É estranho, pensar em separação antes mesmo de nos casarmos – Minha voz ficou mais branda.

— Seja bem-vinda ao meu mundo, Lívia.

Com o passar do tempo, ficava cada vez mais dias no apartamento de Victor, ele fazia questão disso. Eu gostava quando ele estava lá, mas ficava muito tempo sozinha ali, naquele apartamento enorme e silencioso, isolado do mundo real, lá de embaixo. Nunca mais entrei naquele lavabo, mesmo falando para mim mesma que meu receio era infundado, no entanto, havia tantos objetos antigos espalhados pelo apartamento, tão carregados de memórias de outras pessoas, que cheguei a considerar se fosse por isso que sentia uma energia estranha naquele lugar. Talvez, fosse só cisma minha por ser tão grande e solitário, porém, tinha sempre a impressão que havia alguém nos cantos das salas ou atrás das portas, mas, considerava que deveria ser por causa dos vários quadros e espelhos pendurados nas paredes e algumas estátuas pelos cantos. Quando passava por uma porta, sucessivamente, esperava encontrar alguém à espreita. Minha desconfiança foi tanta que em certa noite, já na cama, antes de dormir, não me segurei.

— Victor, alguém morou nesse apartamento antes de você?

— Não, esse prédio é novo, sou o primeiro proprietário, eu o adquiri praticamente na planta. Por que essa pergunta?

— Por nada, só curiosidade.

— Esse lugar só terá a nossas memórias, querida. – Ele me abraçou e me puxou para si.

Em uma manhã quente e, felizmente, ensolarada de fim de primavera, eu e Victor nos casamos em uma igrejinha colonial, belamente, decorada, ao som de um quarteto de cordas. Meu vestido ficou um sonho, despretensiosamente elegante, eu me sentia linda e radiante. Eduardo, mesmo relutante no início, acabou por aceitar me levar até o altar, após afirmar que ele, Monique e sua mãe era a única família que eu tinha no mundo. Logo após a cerimônia, seguiu-se uma belíssima recepção com direito a um incrível almoço e uma pequena orquestra para dançarmos. Foi um momento muito feliz da minha vida, imaginei o quanto orgulhosa minha avó se sentiria, se me visse assim.

No dia seguinte, partimos para a lua de mel, desistimos da Costa Amalfitana por ser inverno por lá, então, Victor optou por algo que chamou de uma prosaica viagem à Paris e ao interior da França. Para mim, foi tudo maravilhoso. Foram vintes dias inacreditáveis, vivendo um sonho de uma vida glamorosa que jamais imaginaria para mim. Victor, que conhecia todos os locais por onde passamos muito bem, me explicou cada detalhe, dizendo que graças a mim, os enxergava de outra forma, que eu abri um novo horizonte para ele.

Enfim, regressamos para casa, logo após o ano-novo, que passamos em Paris, brindando com champanhe a luzes dos fogos de artifício, para começar a nossa nova vida de casados.

Realmente, minha vida mudou muito, vejo isso, quando olhou para trás, lembro de cada tostão guardado e contado para sobreviver e pagar minhas contas e de abrir mão dos meus sonhos, porém, eu era esperançosa, pensando em um futuro melhor, contudo, nunca imaginaria que chegaria ao tipo de vida que vivo agora.

Ao regressarmos para a casa, o nosso primeiro ato como casal foi convidar Verônica e Alex para jantar, ideia de Victor e mesmo não gostando muito, aceitei para não aborrecer o meu marido, que apreciava muito da companhia daqueles dois.

— Você está ótima, Lívia. Seu cabelo ficou incrível – Verônica elogiou, assim que chegou.

— Victor me convenceu a cortar, quando estávamos em Paris. Também, me ajudou a escolher um guarda-roupa todo novo.

— Então, Victor é um marido perfeito? – Alex se manifestou, em tom de brincadeira.

— Sim, ele realmente é perfeito – concordei e sorrir para o meu marido.

— Lívia também é uma esposa maravilhosa, muito inteligente, aprende rápido – Victor acrescentou, me devolvendo o sorriso.

— Por isso, eu proponho um brinde – disse Alex. — Ao casal perfeito e maravilhoso!

O resto da noite correu amena, ao ponto de começar a simpatizar com o casal de irmãos.

— Então, Victor, vamos jogar tênis amanhã? – Alex perguntou, antes de se despedir.

— Não sei, estou meio fora de forma.

— Você vai acabar virando um marido relaxado e barrigudo, e tenho certeza que Lívia não irá gostar disso – Alex insistiu.

— Você se importaria, querida? – Victor se voltou para mim.

— Claro que não, Victor! Vá jogar o tênis com o seu amigo!

— Você poderia aprender a jogar, Lívia – Verônica propôs.

— Eu nunca fui muito chegada a esportes.

Quando os convidados se retiraram e estava louca para ficar sozinha com o meu marido, eu o abracei por trás, encostei a cabeça nas suas costas, sentindo o seu calor.

— Vamos para cama, Victor – disse, tentando uma voz sensual e convidativa.

— Pode ir, que eu já vou, só preciso resolver um pequeno problema na empresa.

Achei aquilo muito estranho, pois que problema tão urgente que precisaria ser resolvido em uma noite de sexta-feira, ou melhor, na madrugada de sábado. Mesmo assim, concordei, fui para o nosso quarto, me preparei, coloquei uma linda camisola francesa de seda e renda, reforcei o perfume e esperei por tanto tempo, que acabei adormecendo, acordei com o dia claro e Victor já pronto para seu jogo de tênis.

— Você já vai? – perguntei, sonolenta.

— Sim, Alex já está me esperando lá embaixo. Lívia, por acaso, você viu meu anel, aquele ouro que sempre uso, tenho certeza que deixei no banheiro ontem, antes de dormir.

— Não, eu já estava dormindo quando você se deitou.

— Deixa para lá, devo ter colocado em outro lugar, que não me lembro agora. Voltarei para almoçar com você. Bom dia, querida – E saiu, sem nenhum beijo de despedida.

Fiquei deitada na cama, por algum tempo até o silêncio ser quebrado por um leve bater de portas, imaginei que fosse o pessoal da limpeza, cuidando dos vestígios do jantar do dia anterior. De repente, a porta bateu com força, em um baque seco, uma, duas, três vezes. O que está acontecendo? Pensei e me levantei, vesti o meu roupão e sai pelo corredor, novamente, só escutei o silêncio. Andei pelo lugar, procurando uma pista, mas nada, até que outra vez, uma porta bateu, fiquei paralisada, sem saber se fugia ou investigava o que estava acontecendo. Dei um passo para frente e mais uma vez, uma porta bateu forte, vinha lá de baixo. Desci as escadas com cautela, olhei em volta, estava tudo calmo agora. Então, subitamente, alguém passou pela porta da cozinha.