O Mistério da torre de cristal
23 Conversas reveladoras
Fiquei na cama por alguns dias, mesmo sem nenhum motivo aparente, mas por exigência médica, a qual Victor queria que eu cumprisse à risca, mas só me sentia muito enjoava e vomitava todas as manhãs, como uma grávida comum.
A primeira visita que recebi, assim que voltei para casa, foi da minha amiga Monique, que ficou eufórica com a notícia do bebê.
— Eduardo me contou sobre o envenenamento – ela cochichou, quando ficamos sozinha.
— Não foi envenenamento, foram sedativos.
— Mas, por que alguém faria isso com você?
— Ainda não sei o porquê, mas desconfiou quem foi.
— Você sabe quem foi? Por que não conta logo e acaba com essa agonia? – Monique ficou surpresa e sacudi a cabeça, afirmativamente.
— Eu só estive com uma pessoa aquela tarde, no entanto, não quero acusá-la sem provas.
— Quem é essa pessoa? Como poderá ter certeza? E por que estaria fazendo isso?
— Por isso, preciso da sua ajuda e do Eduardo, queria que façam umas pesquisas para mim, pois se eu fizer Victor poderá descobrir e ficar desconfiado.
— Então, vamos brincar de detetives? – Monique falou animada.
— Mais ou menos isso. Será que Eduardo aceitaria?
— É claro que vai aceitar, ele faria qualquer coisa por você, Lívia – Eu a interroguei com o olhar. – Jura que você não notou que meu irmão é caidinho por você?
— Não, você está enganada, Monique, somos só bens amigos.
— Bons amigos, uma ova! Lívia, ele te ama, há um tempão, mesmo antes de se casar com Victor, por isso, se afastou de você, para não sofrer ainda mais.
— Juro que não havia percebido.
— Eu sei disso – Deu de ombros.- Mas como podemos ajudar você.
Explique tudo a ela, quem deveriam pesquisar, já que não podia fazer isso, pois havia muito olhos me observando e não queria incriminar qualquer pessoa sem provas da sua culpa.
Depois que Monique se foi, fiquei pensando no meu querido amigo, sentindo-me mal por seu amor segredo. Imaginei se soubesse desse sentimento antes? Se tivéssemos uma chance? Estaríamos juntos, quem sabe casados, morando no meu pequeno apartamento? Seríamos felizes? Nunca saberei, porque minha vida tomou um rumo bastante diferente.
Alguns dias depois, eu já estava bem melhor, mesmo sentindo os enjoos matinais, contudo, consegui me livrar das enfermeiras e expulsei os seguranças para o hall de entrada, assim poderia voltar à rotina mais ou menos normal.
Isso aconteceu, quando Victor anunciou que teríamos visitas para o jantar, como sempre, Verônica e Alex, um hábito de quase toda semana, quando não tínhamos compromissos na sexta-feira. E lá estavam os dois na nossa casa, eu não conseguia entender porque aqueles três eram tão ligados, apesar de bonitos, charmosos e inteligentes, os irmãos nunca estavam acompanhados por outras pessoas, nunca soube de nenhum namorado ou namorada durante todo esse tempo de convivência, mas não era da minha conta.
Naquele começo de noite, ouvi barulho da mesa sendo posta, fui a sala de jantar para ver se tudo estava bem e encontrei Teresa concentrada na sua tarefa.
— Senhora Rahner, como se sente? Está melhor?
— Sim, obrigada, Teresa.
— Fiquei muito preocupada, quando soube que estava doente.
— Muita gentileza sua, Teresa. Como estão os preparativos para o jantar?
— Está tudo em ordem. O senhor Rahner já determinou o cardápio, pedindo que incomodasse a senhora o mínimo possível.
— Obrigada. Teresa, por acaso, você conhece a acompanhante da senhora Valdez, Vanessa?
— Apenas de vista, senhora. Algum problema?
— Não, nenhum, só curiosidade. Eu nunca mais a vi.
— Só sei que a senhora Valdez anda muito doente ultimamente, de cama, nunca sai de casa.
— Farei uma visita a ela qualquer dia desses – disse.
O jantar transcorreu quase como sempre até Victor dar a notícia que seria pai, mesmos com os parabéns, percebi que os sorrisos não refletiram nos olhos dos nossos convidados, principalmente, nos de Alex, ele ficou mais calado do que o habitual, enquanto Verônica discorria dos inconiventes de ser mãe. No decorrer da noite, eu e Verônica falamos da festa de aniversário de casamento, do bebê e do futuro, enquanto em um outro canto, os homens conversavam sobre a empresa, quando senti muita sede, pedi licença a minha interlocutora e sai para a cozinha. Ao voltar, antes de entrar na sala, ouvi o som das vozes masculinas quase sussurrando.
— Ela está grávida agora, o que acontecerá depois? – Alex perguntou, de um modo duro.
— Eu não sei ainda é muito cedo para ter uma posição. A gestação ainda está no início – Victor respondeu.
— Você pretende levar o plano a diante, Victor? — Alex insiste, Victor se silenciou. – Por acaso, você não está se envolvendo com ela, está, Victor? Temos um trato. Você não pode voltar atrás, não agora, quando estamos tão próximos de...
Não consigo ouvir mais, meu estômago fica embrulhado, é mais forte do que minha vontade, corro para o lavabo e vomito, logo depois Victor deve ter ouvido o barulho, pois apareceu, segurou o meu cabelo e massageia as minhas costas com delicadeza, até eu terminar.
— Você está bem? –perguntou, aflito.
Confirmei com a cabeça, olhei para a porta e vi que Alex observava a cena, com o olhar frio.
Mais tarde, novamente, sozinhos, em nosso quarto, não consigo deitar, sento-me em uma das poltronas e aguardo Victor sair do banheiro, pronto para dormir. Ele diminui as luzes, o quarto mergulha em uma agradável penumbra, eu estou decidida. É a hora da verdade.
— Você não vem se deitar? – ele me pergunta surpreso, ao me encontrar sentada, com as costas ereta e o olhar firme, já indo na direção da cama.
— Victor, preciso que me conte a verdade – falo com segurança, ele para e me encara, abismado.
— O que houve, algum problema.
Talvez, ele pressinta o que está acontecendo, dá alguns passos e fica bem na minha frente.
— É sobre você e Alex?
— O que que tem nós dois?
— Afinal o que há entre vocês dois? Aquilo não é só amizade, não é? E estou com medo da resposta.
— O que quer insinuar? — Ele franze a testa e me lança um olhar abismado.
— Exatamente, o que você está pensando, que você e Alex tem uma relação maior do que amizade.
— Você está pensando que eu e Alex temos um caso, somos antes ou algo parecido? – Voz dele falha e sua expressão era de puro espanto.
— Bem, é o que parece.
— Não! Você está enganada!
—Estou? – Meu tom é irônico.
— Sim, está! É muito mais complicado do que isso.
— Como mais complicado?
Ele me encara por algum tempo, pondera se pode confiar em mim ou não. Estou cada vez mais intrigada, não vou ceder, ele sabe disso, então relaxa, pronto para se abrir.
— Suponho que não tenho escolha? – Ele pergunta e eu confirmo com a cabeça. – Pois bem, na verdade, Alex é meu tio, filho do meu avô com um dos seus inúmeros casos.
Meu queixo cai literalmente, por um segundo, não sei se devo acreditar nele ou não.
— Eu sei que é difícil acreditar, mas é verdade. Eu não sabia da existência dele até a faculdade, quando se aproximou de mim, ficamos amigos, demorou muito para ele me contar a verdade.
— E você tem certeza disso? – Ainda estava incrédula, poderia ser só um plano bem bolado.
— Fizemos um teste de DNA que mostrou o nosso parentesco. Imagine só como foi para mim, criado sozinho com minha avó, de repente ter uma família. Nós nos demos muito e tornamos amigos.
— E Verônica como entra nisso?
— Ela é irmã, filha da mãe dele com o marido.
— Então, a mãe deles era casada quando se envolveu com seu avô? Ele devia ser bem mais velho do que ela?
— Você não conheceu o meu avô, ele podia conseguir quase todas as mulheres que quisesse, era um conquistador.
— Então, devem haver mais tios e tias por aí?
— Eu não sei.
— E como eu entro nisso? Preciso saber.
— Você?!
— Sim, qual era o plano em relação a mim? Por que eu fui a escolhida para me tornar a senhora Rahner?
Victor se empertigou, me olhando do alto, voltava a ser o empresário, o homem importante outra vez, sua voz muda de tom, sua expressão é impassível.
— Você fazia parte de um plano de Alex, se eu conseguisse o controle da empresa, ele poderia assumir o papel que lhe era de direito, por isso eu precisaria ter um filho, era uma clausula do testamento da minha avó.
— Mas ele não poderia fazer isso legalmente.
— Seria complicado, pois o dinheiro era da família da minha avó. Meu avô adotou o nome da família dela, pois não havia outro herdeiro e o nome desapareceria, para isso teve uma boa compensação.
— Então vocês me escolheram.
— Alex procurou uma provável esposa para mim. Ele me propôs várias candidatas até chegar a você.
— Por que me escolheram? Já sei! Pobre e sem família, alguém que parecia frágil e facilmente manipulável e que ninguém sentiria falta quando desaparecesse – minha voz saiu tão fria, que até me espantei.
— Você acha que nós planejávamos matá-la? Não! Depois do bebê, precisaríamos ficar casados por alguns anos, senão perderia os meus direitos, só então nós nos divorciaríamos e pronto, você ficaria muito bem. Mas, agora, não quero isso.
Eu tive que segurar as lágrimas, não queria chorar na frente dele. Como puderam me manipular de tal jeito?
— Quem me escolheu?
— Alex, ele sondou várias outras mulheres e a escolheu pelas razões que você já sabe. Eu fiquei em dúvida, não queria que fosse você. Ele me mostrou uma foto sua e falou: É ela, será perfeita para os nossos planos.
— Por que você não me queria?
— Eu não achei a altura, assim como as outras, mas Alex me convenceu, como você mesmo disse, achou que você poderia ser facilmente manipulável, por não ter família e ser sozinha, tinha dificuldades financeiras, era bonita. Mas, eu não estava convencido até ver você andando na chuva àquele dia.
— Eu me lembro. Foi quando se decidiu?
Ele assentiu com a cabeça.
— Você parecida tão frágil e desprotegida, então achei que Alex poderia estar certo, que você serviria ao nosso propósito.
— Mas, você não se sentia atraído por mim. Por isso, não queria dormir comigo?
Ele concordou com a cabeça. Sentia uma dor tão profunda a ponto do meu peito parecer rebentar. Eu me levantei, ele segurou a minha mão
— A culpa não era sua, sempre tive problemas com um relacionamento mais íntimo, possivelmente, por causa da maneira rígida como fui criado pela minha avó. No entanto, você é inteligente e intuitiva, me surpreendeu de um jeito bom, éramos parecidos de algum modo, queríamos construir um lar, uma família. Você é como eu, sozinha, sem ninguém, se prendendo a um mínimo de atenção.
— Não me venha com essa conversa melodramática e mentirosa, Victor – Puxei minha mão com força para me livrar da dele.
— Aonde você vai?
— Vou dormir no quarto de hóspede.
Sai.
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