O Mistério Da Rodovia.
1 O mistério da Rodovia
Notas iniciais
12 de outubro de 2012, hoje é dia das crianças e em duas horas estarei em casa com minha esposa amável e carinhosa, Joana e com meu filho querido, Lucas. Olho no relógio do celular que está sobre o painel, são 5:58 da manhã. Eu não dormi essa noite na ansiedade de chegar a tempo para entregar o presente que meu filho tanto quer, aquele carrinho de controle remoto que custou quase três meses do meu salário. Mas vale a pena no final, tudo que eu mais amo é ver aquele brilho nos olhos e aquele sorriso encantador como quando eu lhe dei sua primeira bicicleta. Eu estou ansioso para chegar. Se não fosse essa carga de papel, com um frete tão bom, eu nem teria viajado, mas eu fazia tudo para dar o melhor para minha família. Todo sacrifício era válido por eles. Contemplo a rodovia à frente, o trânsito é livre, três carros a uns 20 metros na minha dianteira: um Renalt Sandero prata, um Celta azul bem cuidado e um Fiesta preto. Pelo espelho retrovisor vejo uma carreta parecida com a minha e mais dois carros: um Corsa Sedan branco e um Palio azul marinho.
Olho novamente o horário no celular, são 5:59, as horas parecem não passar. Um frio na barriga me toma, uma sensação estranha, como se algo ruim fosse acontecer e eu não teria tempo para cumprir minha missão: entregar o presente a meu filho. O celular cai de minhas mãos, me abaixo para pegar e quando volto é tarde demais. Os carros a minha frente estão parados e eu não tenho tempo para frear. Em um segundo, penso em todas as minhas possibilidades, eu não tenho chances, o acidente é inevitável. Minha cabeça acerta o vidro com o impacto desfazendo-o em um milhão de estilhaços. O caminhão e os outros dois carros que estão atrás de mim também não têm tempo para frear e acertam minha traseira. Eu sou arremessado junto com os destroços do caminhão acertando o muro de proteção da estrada, que é quando eu paro. A carroceria vem em minha direção, formando um L na rodovia. O impacto é muito forte, mais eu ainda estou consciente, então, eu sinto o calor.
Não tenho muita visão de onde estou, mas posso ver o que restou dos três carros a minha frente, eles estão destruídos, mas seus passageiros parecem estar vivos. Eu sinto o calor. A temperatura está cada vez mais alta, eu tento sair das ferragens só que minha perna está presa. Fico tomado pelo pânico. Eu tenho que sair, por mim, por Lucas, por Joana. Vejo as chamas se aproximarem e está cada vez mais quente. Está insuportável. Eu não vou resistir. A ultima coisa que vejo é aquele brilho nos olhos e aquele sorriso encantador: Lucas. E então tudo são trevas.
***
São 6:30 da manhã e estou assistindo TV com minha mãe quando o telefone toca. Meu pai em breve irá chegar trazendo o carrinho de controle remoto que eu sempre quis. Ele me prometeu que estaria em casa no meu dia. Lucas, chama minha mãe. Aconteceu algo, ela diz parecendo preocupada. Nós temos que ir, vou te deixar com sua avó, ela me informa. Eu quero saber o porquê, mas ela não me diz. Eu arrumo minhas coisas e vou para o carro que já está ligado em minha espera, abro a porta e sento no banco de trás. Não faço perguntas, mas sei que algo de errado está acontecendo quando vejo lágrimas caindo dos olhos azuis de minha mãe. O percurso dura 10 minutos. Quando estou saindo do carro, minha avó já me espera no portão. Eu viro para dar um beijo em minha mãe e é quando eu vejo.
O pacote embrulhado em papel laminado azul está sobre o banco no exato lugar em que eu me sentava. Eu tinha certeza que ele não estava lá quando entrei no carro. Eu o pego e agradeço a mamãe que parece não entender do que se trata, ela arranca com o carro me deixando para trás, completamente perturbada. Eu levo o embrulho para dentro e o abro enquanto minha avó me observa com curiosidade. É o presente mais lindo que eu já vi: o carrinho de controle remoto que eu tanto queria, um presente do meu pai, eu tenho certeza disso.
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