O inverno chegou de vez naquela semana.

A cidade acordava coberta por uma fina camada de gelo, como se alguém tivesse decidido apagar rastros antes mesmo que eles surgissem. Tyler observava tudo pela janela do quarto do hospital, o braço enfaixado, o corpo dolorido, a mente ainda pior.

Dylan dormia na cama ao lado, sedado. Vivo. Por enquanto.

O acidente fora tratado como azar. Estrada molhada. Falta de atenção. Cansaço. As palavras se repetiam nos relatórios médicos como um mantra vazio. Tyler sabia que não era só isso. Nada mais na vida deles era só isso.

Quando finalmente teve alta, Tyler voltou sozinho para a casa temporária onde estavam hospedados. O silêncio ali dentro era ensurdecedor. Cada estalo da madeira parecia um passo. Cada sombra, uma presença.

Naquela noite, a energia caiu.

A casa mergulhou na escuridão.

Tyler pegou o celular para usar a lanterna. Sem sinal. Sempre sem sinal.

O frio parecia entrar pelas paredes.

Foi então que ele ouviu algo do lado de fora.

Passos.

Lentos. Deliberados.

Tyler se aproximou da porta com cuidado. Abriu apenas o suficiente para olhar. A neve recém-caída estava intacta… exceto por um detalhe.

Pegadas.

Não iam até a casa.

Elas circulavam ao redor dela.

Como se alguém estivesse observando.

Como se estivesse decidindo.

O celular vibrou na mão de Tyler.

[Mensagem recebida]

Você ainda corre quando escuta passos?

O coração quase saiu pela boca.

— Dylan…? — Tyler chamou, esquecendo por um segundo que ele não estava ali.

Nenhuma resposta.

Quando Tyler voltou o olhar para fora, as pegadas já estavam sendo lentamente apagadas pela neve que voltava a cair. Em poucos segundos, não restava nada.

Exceto algo pendurado na maçaneta da porta.

Um pequeno saco plástico.

Dentro dele, um objeto conhecido demais.

O celular de Rosemary.

A tela ainda funcionava.

Havia um último vídeo salvo.

Tyler apertou play.

A imagem tremia. Mostrava a estrada, o carro capotado, a respiração ofegante de Rosemary. Então a câmera virou.

Uma silhueta surgiu.

— Você prometeu guardar segredos — disse a voz por trás da câmera. — E segredos sempre cobram juros.

O vídeo terminou.

A energia voltou no mesmo instante.

Tyler deixou o celular cair no chão.

Do lado de fora, no meio da neve que voltava a esconder tudo, alguém observava a casa uma última vez antes de ir embora.

O inverno era longo.

E Tyler ainda tinha muito a perder.