O Misterioso Mundo de Julia

7 Uma Mente Destruída


Notas iniciais
Mais um capítulo, mais emoções, boa leitura.

Julia foi levada em uma cadeira de rodas para o consultório do doutor Magalhães, inerte como sempre, empurrando ela estava Cecília, e em seu lado encontravam-se Ana e Jorge completando a comissão que marchava lentamente a seu destino, sem pressa de chegar.

Ao abrir a porta do consultório, uma surpresa, tudo era diferente do restante do hospital. O ambiente era relativamente escuro, apenas um abajur e duas pequenas luminárias iluminavam o lugar, deixando uma penumbra sinistra por todos os lados, dissipada apenas pelos constantes relâmpagos que invadiam o consultório pela janela de fundo. Para completar a decoração, haviam estantes entulhadas de livros de todos os lados, a escrivaninha era de uma madeira vermelha antiga, e um papel de parede avermelhado e desbotado não ajudava em nada a amenizar o ambiente.

Doutor Magalhães estava afundado em sua poltrona, e quando entraram mal dava pra vê-lo por sobre a mesa, exceto pela cabeça calva e suas espessas sobrancelhas brancas. Ao abrirem a porta rapidamente levantou-se e tentou ser gentil.

– Entrem, entrem e fiquem a vontade.

– Obrigada doutor, e desculpe-me chama-lo aqui a estas horas – adiantou-se Ana constrangida.

– Não se preocupe, esse é o meu dever enquanto eu exercer a medicina, agora acomodem-se.

Cecília acomodou Julia em frente a escrivaninha do médico, a garota aparentava estar ligeiramente melhor, mas foi apenas entrarem no consultório para seu comportamento mudar, de calma ficou hipervigilante, suas pupilas se dilataram e desconfortável voltava seu olhar com frequência para cada canto da sala. Ana e Jorge acomodaram-se em uma poltrona lateral a escrivaninha, enquanto Cecília permaneceu de pé atrás da cadeira de Julia. Doutor Magalhães estava voltado para a janela com as mão para trás contemplando os relâmpagos quando começou seu discurso.

– É uma noite incomum, não concordam comigo? – virando-se – uma das maiores tempestades da história, e cá estamos, em minha sala em uma noite obscura, e quem sabe com um grande mistério em mãos, quem sabe...

– Posso me retirar doutor? — perguntou Cecília.

– Não querida, fique, fique conosco, posso precisar de você aqui, caso a senhora Brandenbug permita.

– Pode ficar Cecília, não tem problemas – respondeu Ana consentindo.

– Agora vejamos, aqui temos uma garotinha, treze anos recém completados, eu lhe daria parabéns, mas acho que não é o momento. Então vamos aos fatos, esta garotinha aqui presente vê coisas que ninguém mais vê, sente-se perseguida, vigiada, oprimida, amedrontada como uma caça em fuga do caçador, sim, interessante, muito interessante – coçando o queixo.

Caminhando em direção A Julia, doutor Magalhães inclinou seu corpo sobre o dela, colocando-se face a face, olhos nos olhos com Julia. Seu semblante não era muito agradável, várias rugas e sulcos percorriam seu rosto, e seu espesso bigode branco não era nada apreciável, em um tom rígido perguntou.

– Vamos garotinha, conte-me tudo, o que você vê? O que te assusta? Quais são seus maiores segredos? não me esconda nada, vou mergulhar nas profundezas de sua mente, sim, farei uma longa viagem, e não espero voltar sem respostas.

Julia apesar de assustada, encolhida e ainda chocada conseguiu articular uma resposta.

– Eu... não lhe devo nada velhote – respondeu sem contato visual e emoção na voz.

Não era a resposta que ele esperava, resolveu ir mais fundo, feri-la um pouco, a verdade sairia, de uma forma ou de outra.

– Fiquei sabendo que você vê uma velha, que têm medo dela, que ela te persegue e que ela pode estar aqui entre nós ou dentro de sua cabeça – terminou colocando o dedo indicador em sua testa.

– Você não sabe nada! Nada sobre mim! – respondeu dessa vez com a voz abalada e ameaçando chorar.

–Julia o doutor só está querendo ajudar, por favor coopere – suplicou Ana da poltrona.

– Vamos garotinha, assim você não está me ajudando, conte-me a verdade, e eu lhe tirarei desse mundo de escuridão.

Verdade, essa palavra mexeu com Julia, lembrou-se do que a velha a disse em seu sonho.

“Você quer saber a verdade por trás da morte de seu pai ga-ro-ti-nha?”

A imagem da maldita velha lhe veio a mente novamente, esconder seus medos não iria adiantar, estava assustada, sentindo-se desprotegida, precisava de ajuda, e aquele velhote poderia ser sua única saída, mesmo contra sua vontade e a muito custo começou a falar.

– Sim, é verdade eu vi uma velha em meu aniversário, ela era assustadora e queria me dizer algo, ela apareceu nos meus sonhos, e depois novamente no meu quarto, e agora eu não sei mais distinguir realidade de imaginação – disse de cabeça baixa com lágrimas escorrendo pelas bochechas.

– Conte-me mais garotinha, como era essa velha?

– E-eu não sei ao certo, ela era velha e encurvada, e usava vestido e capuz preto e andava com uma bengala.

–Ela te disse alguma coisa?

– Se me recordo, ela me falou algo em sonho do tipo descobrir a verdade, mas está muito vago na minha mente, não, espera ela me disse algo para procura-la se quisesse descobrir a verdade por trás da morte de meu pai, é isso, mas não sei o que isso quer dizer, eu, eu estou tão assustada...

– Algum de vocês já viu essa velha a qual ela se refere? – perguntou o médico para Ana e Jorge.

– Não doutor, eu nunca a vi, ontem no aniversário foi a primeira vez que ela mencionou algo do tipo – respondeu Ana.

– Nem eu, também não faço ideia de quem seja ou se ela existe – respondeu Jorge logo após.

– Julia, seu pai morreu de uma maneira muito triste, eu sei, eu cuidei dele de 1993 a 2000, foi realmente uma tragédia, eu me sinto culpado por sua morte, talvez eu pudesse tê-la evitado se tivesse prestado atenção nos sinais, eu realmente sinto muito.

Ana começou a sentir a saliva ficar presa na garganta, não queria reviver essas memórias, já havia se ferido demais em sua vida, apenas continuou prestando atenção no diálogo. Julia continuava cabisbaixa enquanto uma lágrima ou outra escorria pelas bochechas.

– Julia você tem que saber que nossa mente é um mecanismo complexo, e que as vezes ela nos prega peças, você precisa aprender a diferenciar a realidade da imaginação, mesmo que isso seja difícil. Agora diga-me, você está vendo algo?

Julia levantou levemente a face e percorreu os olhos pelo ambiente, começou a sentir-se mal, uma tontura a arrebatou, sentiu-se ficando leve, muito leve. Seu corpo parecia haver parado de responder, sua audição pareceu ficar mais aguçada enquanto a visão distorceu-se de forma considerável. Podia ouvir os pingos da chuva caindo violentamente lá fora fazendo “splash” e isso embebedava sua mente, fazendo sentir-se fraca, pensou que isso era a morte, mas seus pensamentos já estavam tão desorganizados que ela nem saberia mais descrever essa sensação.

Um forte trovão irrompeu pela sala assustando a todos, seguido por um relâmpago que iluminou o ambiente por todo, Julia como que por impulso correu o olhar pelo ambiente parando sua visão em um cabideiro com o casaco do doutor Magalhães. Seus sentidos a enganaram, e o que era para ser apenas um cabideiro com um casaco transformou-se em algo muito pior na mente fragilizada da pequena.

–É ela, ali! – gritou apontando o dedo para o cabideiro desesperada – é a velha, não deixem que me pegue, não deixem...

E desesperada Julia levantou-se da cadeira e tentou correr, mas Cecília a segurou, enquanto Ana e Jorge levantavam da cadeira assustados.

– Calma querida, não há nada ali – murmurou a enfermeira tentando conforta-la, enquanto a segurava com todas as forças contra o peito.

– Sim, é ela! Eu preciso falar com ela. Conte-me! Conte-me a verdade, você me disse que iria contar a verdade! – gritou Julia enquanto lutava para se soltar dos braços da enfermeira.

Ana começou a chorar nos braços de Jorge. Doutor Magalhães viu que era hora de entrar em ação, correu a sua escrivaninha abriu a gaveta e puxou uma seringa, com uma dose de midazolan, voltou correndo e virou-se para Jorge.

– Preciso de sua ajuda, ajude Cecília a segura-la, para que eu possa aplicar a injeção.

Jorge rapidamente largou Ana e ajudou Cecília a conter Julia, enquanto Doutor Magalhães aplicava lentamente a injeção no músculo vasto lateral da coxa direita de Julia, enquanto ela berrava entre lágrimas para o acaso.

– Você disse que me contaria a verdade! Você disse!

Terminada a injeção doutor Magalhães, descartou a seringa, e limpou o suor da testa.

Em menos de um minuto Julia começou a sentir as pálpebras pesarem, o sono começou a embebedar sua mente, seu mundo começou a girar, sentiu-se fraca, suas pernas tremiam, e a força lhe fugiu, a única coisa que conseguiu dizer antes de apagar foi.

– A verdade, eu preciso descobrir... a verdade...

Ana estava chocada, chorando inconsolavelmente na poltrona. O clima estava frio e pesado. Jorge ajudou Cecília a colocar Julia de volta na cadeira. Doutor Magalhães estava andando descontroladamente para lá e para cá na sala.

– A sedação foi a melhor escolha pra ela. Amanhã quando acordar continuamos essa seção, pode leva-la de volta para enfermaria.

– Tudo bem doutor, se me permite estou indo, vocês me acompanham? – perguntou a Ana e Jorge.

– Sim, vamos – Respondeu Jorge.

– Eu também vou – falou Ana em uma voz arrastada, enquanto limpava as lágrimas do rosto.

– Se me permite, senhora Brandenburg, gostaria de ter uma conversa com a senhora – falou doutor Magalhães – a sua filha estará em boas mãos, pode confiar.

– Tudo bem, eu ficarei então, cuide bem da minha filha – respondeu Ana para a enfermeira.

–Tudo bem, eu cuidarei, agora vamos indo – respondeu-se virando a cadeira de rodas para a direção da porta e começando a empurra-la.

– Tchau querida, daqui a pouco a gente se vê – disse Ana para a filha desacordada.

– Pode deixar maninha, eu ficarei ao lado dela o tempo todo, se cuida – respondeu Jorge já de saída com a enfermeira.

– Você também irmão, você também.

E lá se foram Jorge e Cecília com Julia hospital adentro, perdendo-se de vista pelos corredores. Ana estava amargurada, jamais pensou que sofreria tanto após a morte do marido, mas o tempo mostrou-se um inimigo poderoso, e agora estava tão ferida quanto jamais esteve. No entanto, a única coisa que queria saber agora era, qual o rumo dessa conversa? E por que agora. Como essas perguntas ainda não tinham respostas, decidiu apenas esperar que o tempo as trouxesse.