O Misterioso Mundo de Julia

3 O Início de um Pesadelo


Notas iniciais
boa leitura.

Já passavam das seis da tarde quando os primeiros convidados começaram a chegar, pais com seus filhos pequenos e mais crescidos, alguns eram conhecidos de Julia, outros nem tanto, uns traziam singelos presentes mas a maioria chegava de mãos vazias mesmo, de qualquer forma ela não ligava pra isso, nunca fora acostumada a ganhar presentes e sequer esperava por eles. No mais decidiu ser uma boa anfitriã e recepcionar todos convidados na porta com alguma frase do tipo, “sejam bem vindos e aproveitem a festa”.

E foi nesse ritmo que o velho casarão dos avós começou a se encher de vida, crianças correndo de um lado pro outro, uma alegre música tocando de fundo, uma bela mesa decorada com incontáveis doces e salgadinhos, (e sejamos francos, nessa parte vovó Dália fez um trabalho excepcional), e é claro o bolo feito por Anna e Julia como centro das atenções.

A festa ocorreu de forma espetacular, e tudo estava tão lindo que Julia não podia se dar ao capricho de parecer triste, e ela não estava nem próxima disso, pelo contrário, estava se deliciando com cada momento, seja rindo das brincadeiras das crianças, das conversas das amigas ou se deliciando com os inúmeros elogios dos adultos. Por um momento Julia se sentiu mimada, sentiu-se querida de uma forma como nunca foi, e por instante a imagem do pai lhe veio a mente e uma pontada de tristeza lhe feriu, queria que o pai estivesse ali com ela, para ver o quanto estava ficando bonita ou para simplesmente sentir o calor de ter um pai, de qualquer forma como isso não era possível apenas balançou a cabeça tentando espantar essas lembranças para longe pensando consigo mesma, “o que está morto está morto e não pode me ferir”, não queria que alguma coisa estragasse este momento, aliás não deixaria que nada estragasse o seu momento.

Por volta das oito da noite o momento mais esperado finalmente chegou, a hora de todos cantarem parabéns. Julia se posicionou ao centro da mesa corada com o calor do momento, todos os adultos a sua frente estavam fazendo uma espécie de cortina humana, enquanto o restante das crianças haviam se colocado ao seu lado direito e esquerdo disputando cada centímetro perto do bolo em uma guerra infernal, mas Julia não deu atenção a isto, apenas abriu um sorriso esperando pra ver o que aconteceria. Um momento de tensão tomou conta do salão, quando ela finalmente pensou que a cantoria iria começar, eis que a cortina humana se abre e no fundo aparece tio Jorge todo galante sentado em cima de um amplificador com uma linda guitarra modelo Les Paul mandando ver em um lindo solo que deixou a maioria dos convidados encantados (exceto alguns com mais idade que consideravam aquilo bagunça, mas no fim das contas todos entraram no clima), e uma linda canção de parabéns começou a ser entoada por todos com a guitarra fazendo barulho de fundo.

Julia sentiu-se a garota mais importante do mundo, todos ali estavam voltados para ela, sua mãe, tio, avós, amigos e conhecidos, todos estavam se esforçando para tornar o momento especial, e ela como uma ótima garota retribuía a todos com um lindo sorriso enquanto acompanhava a canção.

O momento derradeiro aproximava-se, estava quase no momento de apagar as velas e Julia começava a juntar ar nos pulmões para apagar as treze de uma só vez, no entanto algo incomum lhe chamou atenção, por um momento Julia sentiu um misto de medo, pavor e ansiedade, não acreditava no que seus olhos estavam vendo, não, não podia ser verdade, tinha de ser alguma pegadinha de seu tio brincalhão, só podia ser, tinha de ser...

No meio das pessoas surge uma velha de idade avançada, de andar encurvado sobre uma velha bengala de madeira, trajando um maltrapilho vestido negro, seu andar corcunda escondia seu rosto sob um capuz negro, longos cabelos grisalhos caiam-lhe sob os ombros e sua marcha sofrida lhe aparentava não menos do que noventa anos. A anciã caminhou devagar por trás da multidão e parou bem na abertura que dava visão para Jorge e sua guitarra. Julia sentiu seu coração se agitar, um calafrio percorreu toda sua espinha, queria falar algo, queria gritar, desejava mais do que tudo fugir daquele lugar, mas as forças lhe abandonaram, sentiu o tempo parar ao seu redor, a canção chegava ao fim, era preciso fazer algo, mas o que exatamente?

Como as forças não lhe apareceram Julia apenas pôs-se a observar os movimentos da velha com um profundo sentimento de terror. A idosa então começou a estender a mão lentamente na direção de Julia em um gesto aparentemente convidativo ao mesmo tempo em que elevava a face lentamente revelando uma pele extremamente enrugada e profundos olhos verdes, de sua boca saiu uma frase inaudível, a canção termina, todos se viraram para Julia, o momento do sopro é esperado, rostos felizes estão por todos os lados, Julia em uma medida de desespero consegue gritar:

– Quem é você? — As lágrimas escorrem pelas bochechas enquanto ela aponta o dedo para Jorge.

– Julia sou eu, sou tio! – Respondeu Jorge com uma expressão de desconforto no rosto.

– Desapareça daqui! Suma da minha frente! Não me toque, suma, suma, SUMA! – terminou a frase em uma voz fina e esvaecida entre lágrimas e soluços.

Julia então desejou mais que tudo em sua vida desaparecer, ir para longe dali, para um lugar onde a velha não lhe alcança-se, ou melhor para um lugar onde ninguém a alcança-se, um lugar onde não houvesse dor ou sofrimento, onde pudesse ser feliz ao menos uma vez na vida, mas por um instante voltou ao mundo real, fitou o rosto de todos que a olhavam assustados, seus olhares a machucaram, olhou para o lugar onde a velha estava, mas esta havia desaparecido, engoliu então o choro abaixou a cabeça e saiu correndo no meio de todos em direção ao quarto de hospedes no andar superior.

– Eu odeio todos vocês! – gritou em um tom amargurado enquanto se afastava – Vão todos para o inferno!

A única coisa que ela recordou ter ouvido antes de subir as escadas em correria foi a voz da mãe em prantos.

– Julia! volte aqui...

Julia se trancou no quarto e se jogou em baixo dos cobertores onde chorou amargamente sem saber ao certo por quê. Amaldiçoava seu pai por tê-la deixado, sua mãe por não se preocupar com seus sentimentos, amaldiçoava a todos por fingirem se importar com ela e amaldiçoava a velha de semblante diabólico, que não sabia se era real ou um fruto de sua imaginação. No fim das contas apenas deixou as lágrimas lavarem sua tristeza, enquanto chorava sozinha na escuridão com face contra o travesseiro.

Lá em baixo Ana estava em prantos na cozinha tentando descobrir um motivo para tal ação da filha. Dália estava ao seu lado com a mão em seu ombro e Venâncio ficara no salão para dar uma explicação aos convidados e organizar o banquete. Jorge estava cabisbaixo em um canto sentindo-se o pior homem do mundo. Cada lágrima derramada por Ana deixava o clima mais pesado e nauseante, a ponto de que Jorge sem mais aguentar resmungou em uma voz abafada:

– É tudo culpa minha, eu não devia ter feito isso... idiota, como você é idiota Jorge, pensar que ela iria gostar desta surpresa, você é o pior tio do mundo, o pior...

– Não Jorge, pare de se culpar... tem sido muito difícil pra ela desde a morte do pai, eu que fui tola em pensar que essa festa seria o melhor pra ela, mas pelo visto me enganei, eu sempre me engano em relação a ela.

– Que isso minha filha, não se culpe por isso, ela só está em uma fase difícil, todo jovem é assim, você também era terrível, não se lembra? Agora o melhor a ser feito é você ir lá falar com ela.

– Não mãe! eu vou conversar com ela, eu sou um péssimo tio, devo ter feito algo terrível para ela e nem me dei conta.

– Pode deixar Jorge, mamãe está certa, eu devo conversar com ela, outra hora você terá sua oportunidade, mas, como mãe eu tenho prioridade no momento.

– Tudo bem maninha – disse Jorge colocando a mão em seu ombro – faça o seu melhor, mas primeiro precisamos dispensar os convidados.

– Certo, vamos fazer isso, já não há motivos para a festa continuar.

Eram cerca de dez da noite quando Jorge e Ana deram boa noite como cortesia aos convidados, o clima estava perceptivelmente tenso, mas os convidados não puderam reclamar, ora, todos foram embora de barriga cheia e ainda havia sobrado muita coisa a ser consumida, mas ninguém mais se importava. Entre tantas despedidas, muitos foram bondosos desejando melhoras a pequena Julia, mas Ana pode escutar comentários maldosos ao longe do tipo, “eu sabia que aquela garota era louca, exatamente igual ao pai, aquele estranho”. Aquilo lhe feriu dolorosamente, mas ela decidiu ignorar esse tipo de comentário e ser forte, não fraquejaria mais na frente da filha, e esta era uma promessa de vida que ela mesma fizera momentos atrás entre lágrimas.

Enfim todos os convidados haviam ido embora, Jorge e os pais haviam se retirado para sala, onde o silêncio agora imperava, no fim das contas todos estavam esperando que Ana subisse para falar com a filha. Ana temia este momento, sabia que a filha estaria deprimida, mas não podia mais adiar isso, pegou então um prato e serviu-se de um pedaço daquele lindo bolo de morango que havia sobrado, a esta altura já não estava mais tão glamoroso, mas acreditou que a filha pudesse gostar. Finalmente Ana subiu as escadas lentamente, como se cada passo pesasse uma tonelada, o caminho até o quarto da filha parecia não ter fim, ou ela parecia evitar chegar até ele, no fim das contas foi inevitável, lá estava ela em frente a porta. Tomando coragem deu duas batidas sonoras na porta, não obtendo resposta, forçou-a abrindo lentamente, a filha estava embaixo dos cobertores inerte. Ana então sentou-se suavemente ao seu lado e descobriu seu rosto acariciando-o suavemente.

– Filha o que aconteceu? Você gostaria de conversar um pouco com a sua mãe? – disse ternamente – e olhe só, trouxe um pedaço daquele bolo que você preparou com tanto carinho.

Não obtendo resposta, insistiu novamente.

– Filha fale comigo, eu só quero lhe ajudar.

Desta vez saiu uma voz abafada pelo travesseiro.

– A velha mamãe...

– Que velha querida? Do que você está falando, pode me explicar melhor?

– Havia uma velha de aparência terrível mamãe – disse Julia com uma certa dificuldade.

– Como assim Julia, haviam várias pessoas velhas na festa, pode ser mais específica?

– Ela era muito velha, toda enrugada, estava vestida com um vestido velho e preto e com um capuz que lhe cobria o rosto, e e-ela... – Julia travou por um momento e ameaçou chorar.

– Ela o que Julia, me conte por favor.

– Ela queria me fazer mal mamãe, eu sei disso – voltando a chorar – ela era má, dava pra ver nos seus olhos.

– Julia, querida, não havia ninguém com estas características na festa, você deve estar cansada, eu sei o quanto nossas vidas estão sendo difíceis – Disse acariciando os cabelos negros de filha – mas você tem de ser forte, você me promete isso?

Enxugando as lágrimas Julia tentou esboçar um sorriso.

– Prometo mamãe.

– Agora faça-me o favor e coma este pedaço de bolo que tivemos tanto trabalho para fazer.

– Será um prazer – respondeu Julia sentindo-se melhor.

Sem demora Julia devorou a fatia de bolo e no fim ainda fez uma cara de quero mais, Ana riu disso, mas achou melhor não. O clima entre as duas definitivamente havia melhorado e Ana sentiu-se imensamente aliviada, no fim das contas deu um caloroso beijo de boa noite na filha e despediu-se dizendo:

– Durma bem querida, amanhã será um dia melhor.

– Um dia após o outro – retrucou Julia.

– Um dia após o outro querida.