O Misterioso Mundo de Julia

6 Doutor Santiago Magalhães


Notas iniciais
Confesso que estava meio sem criatividade para nomear esse capítulo, mas é um bom capítulo, boa leitura a todos, e fiquem ligados nos próximos capítulos, muitas surpresas os esperam.

A viagem parecia interminável, pontos de alagamento, barreiras caídas, atoleiros e mais um monte de obstáculos deixaram a estrada praticamente intransitável, e a viajem que duraria no máximo uma hora, acabou demorando mais de duas devido a tamanha dificuldade para transpor os constantes desafios que iam aparecendo conforme eles avançavam.

No fim das contas o pesadelo chegou ao fim, quando Jorge finalmente alcançou a autoestrada pisou fundo no acelerador daquela lata velha, não demorou muito para avistarem a cidade e entrarem dobrando ruas e esquinas insanamente, Jorge já não raciocinava, apenas queria chegar logo ao hospital e ajudar sua sobrinha, mesmo que isso significasse imprudência de sua parte.

A cidade estava toda imersa na escuridão devido ao apagão, e ficou extremamente difícil para Jorge se movimentar por ela sem saber ao certo em que rua estava. Resolveu então confiar em seus instintos, e dobrando rua após rua, finalmente conseguiu avistar o hospital todo iluminado devido a energia do gerador, sentiu-se aliviado pela sensação de dever cumprido, a chuva no entanto ainda caia forte e não dava sinais de trégua tão cedo.

Jorge freou o carro violentamente em frente a entrada do hospital, assustando a atendente e uma técnica de enfermagem que conversavam no balcão. O hospital estava relativamente vazio e parado a essas horas da noite, afinal de contas já passavam das duas da madrugada, no entanto ninguém deu atenção a isso. Em um brusco movimento Jorge saiu do carro e apanhou rapidamente Julia no colo e deu uma leve corrida até a entrada do hospital para não se encharcar na chuva, Ana estava em sua cola.

Entraram correndo pela porta da recepção, e pararam por um breve momento em frente ao balcão, onde as duas mulheres os observavam em silêncio, finalmente a atendente resolve falar.

– Posso ajudar?

– Claro que pode – retrucou Ana em um tom arrogante – minha filha está mal e preciso que o doutor Magalhães cuide dela.

– Senhora, o doutor Magalhães não está trabalhando, é madrugada, ele é um psiquiatra, a essa hora da noite só temos dois clínico dando plantão – respondeu a atendente em um tom cordial.

– Minha filha precisa muito dele, e ele é o único que pode ajuda-la, eu lhe peço, ligue pra ele e fale que é Ana Monteiro Brandenburg quem está solicitando sua presença, ele vai entender – disse em um tom que beirava o desespero.

– Vamos levar a garota para a enfermaria – respondeu a técnica – reparando que a garota precisava de atenção – siga-me senhor – disse virando-se para Jorge.

E lá se foi Jorge com Julia nos braços hospital a dentro, enquanto Ana ficou na recepção para preencher a ficha de atendimento da filha e torcer com todas as forças para que o médico atende-se seu pedido.

Enquanto preenchia os papéis fornecidos pela atendente Ana não pode deixar de reparar em cada gesto da mesma enquanto ligava para o médico. Primeiro a atendente discou o número e aguardou uns trinta segundos na expectativa de ser atendida, Ana sentiu um arrepio percorrer a espinha, e se o médico não atendesse? não podia pensar nisso, continuou a observar. Após mais alguns segundos a atendente começou a falar e pela sua expressão retorcida devia estar tomando uma dura do outro lado da linha, papo vai e papo vem, após explicada toda situação, finalmente ela desliga o telefone e profere.

– O doutor Magalhães virá senhora, ele estará aqui em no máximo meia hora.

– Muito obrigada, muito obrigada mesmo – respondeu Ana com uma expressão de alívio – você não sabe como me ajudou, tome os papeis preenchidos.

– Está correto – disse a atendente após uma breve olhada – pode ir ver sua filha, ela deve estar na enfermaria.

E lá se foi Ana hospital adentro em busca da filha, no fim foi encontra-la na enfermaria três. Jorge estava sentado em uma cadeira ao lado do leito, quanto a Julia, esta estava toda enrolada e encolhida no lençol em posição fetal, apenas com a cabeça descoberta. Ana lançou um olhar a Jorge e percebeu que ele estava cansado, ela também estava, mas não tinham tempo para descansar agora, então sentou-se a beira do leito e pôs-se a acariciar os cabelos da filha.

– Sente-se melhor querida?

– Branco... muito branco... e claro, melhor assim... a velha não irá me pegar aqui – respondeu Julia enquanto movia os olhos pelo ambiente extremamente branco ao qual se referia.

– Ninguém irá te fazer mal aqui querida, eu prometo, agora tente descansar um pouco o doutor vai estar aqui logo.

Nesse momento a enfermeira entrou na enfermaria, que estava vazia, exceto por Julia.

Era uma mulher de cerca de trinta anos, cabelos negros amarrados em forma de rabo de cavalo, olhos escuros, pele levemente acobreada, um metro e sessenta e trajava um jaleco impecável. Trazia consigo uma prancheta para coleta de dados, caminhou lentamente até a beira do leito e disparou a falar.

– Boa noite senhora, meu nome é Cecília, sou a enfermeira responsável pelo plantão e preciso fazer algumas perguntas pertinentes a sua filha – proferiu da forma mais doce possível.

– Claro, pode falar – respondeu Ana forçando cordialidade.

– Primeiramente preciso saber qual o motivo de sua filha vir para cá, digo o que aconteceu para ela precisar de atendimento médico?

– Bem, eu não sei ao certo, ontem era o aniversário de treze anos dela, fizemos uma festa linda, mas algo aconteceu... – respondeu Ana com a voz emocionada.

– A senhora pode me dizer o que aconteceu?

– Ela, ela cisma que uma velha que ninguém nunca viu a está perseguindo, não importa o lugar, seja um local físico ou em seus sonhos.

– A senhora está dizendo então que ela teve uma alucinação?

– Você está insinuando que minha filha é louca? – Rebateu Ana em um tom agressivo.

– Eu não quis dizer isso senhora, me desculpe se entendeu mal, mas este é o meu trabalho.

– Você está certa, desculpe-me, eu apenas estou... abalada.

– Sinto muito – disse Cecília repousando sua mão sobre o ombro de Anna – só mais algumas perguntas, e já está acabando. Ela toma algum medicamento, ou você saberia me informar se ela ingeriu alguma substância nociva?

– Não, minha filha sempre teve uma saúde ótima, e creio que ela não tenha ingerido nada que lhe fizesse mal.

– É primeira vez que isso acontece com ela?

– Sim é a primeira, nunca havia acontecido antes, eu realmente estou muito assustada.

– Você é o pai dela? – perguntou Cecília a Jorge.

– Não, sou o tio.

– E onde está o pai dela?

– Ele morreu – pausa – há cinco anos, suicídio – conseguiu responder Ana com a voz abalada.

– Ó, desculpe-me por isso – respondeu a enfermeira com um sentimento de culpa.

Cecília compreendeu rapidamente, não foi difícil supor isso, Boa Ventura era uma cidade pequena, e quase todo mundo se conhecia, quando Romeu Fernandez se matou há cinco anos, foi um choque para todos, e a tragédia ficou na boca do povo por anos, de modo que dificilmente alguém da cidade não conhecesse a história. Sentiu pena da menina, pobrezinha, tão jovem, e com um fardo tão grande, e se sua suspeita estivesse certa, seria uma lástima.

Cecília então contornou o leito e agachou-se na cabeceira da cama, fitando Julia nos olhos. Ficou deprimida com o que viu, os olhos da garota estavam sem energia, apenas via-se medo e tristeza na profunda imensidão verde de seus olhos, tentou ser cordial com a garota lhe acariciando uma mecha de cabelo e abrindo um sorriso.

– Olá querida, pode falar para mim o que você está sentindo?

Não obteve resposta, Julia sequer parecia estar prestando atenção no que dizia, estava afogada em pensamentos, distante da realidade. Cecília tentou novamente.

– Julia querida, pode me dizer no que está pensando?

– A ve-lha... cuidado, ela é má – respondeu a garota em um som quase inaudível.

– Tudo bem – disse Cecília levantando-se e dirigindo o olhar a Ana – já terminei por aqui, o doutor deve chegar em alguns minutos, peço-lhes um pouco de paciência.

– Obrigada enfermeira, nós esperaremos – respondeu Ana parecendo cansada.

– Tenha força senhora, tudo dará certo – respondeu Cecília retirando-se da enfermaria.

Ana e Jorge não puderam perceber, mas uma lágrima escorreu por seu rosto rosado, o qual ela fez questão de limpa-la discretamente, enquanto seus passos perdiam-se corredor afora.

(...)

Lá fora embaixo de uma tremenda chuva um carro para no estacionamento. Cecília, a técnica e a atendente estão ansiosas na recepção, o relógio bate duas e trinta e quatro da madrugada, a porta da recepção finalmente se abre, dando-lhes a visão da pessoa mais esperada da noite, doutor Magalhães.

Todos contemplam uma visão um tanto incomum, parado na porta está Santiago Magalhães, um velhinho de setenta e dois anos, um metro e meio de altura, meio encurvado, magricela, calvo em toda extensão de sua cabeça, exceto por um pouco de cabelos grisalhos na região temporal e occipital. Usava um óculos redondo do tipo “fundo de garrafa” sobre seu nariz convexo, trajava roupa social com um casaco escuro, na mão direita trazia um guarda-chuva preto e na esquerda sua maleta. Os relâmpagos lambiam a entrada da recepção dando um aspecto sombrio ao velhote. Calmamente ele dirigiu-se as mulheres na recepção e proferiu por entre um sorriso amarelo.

– Olá meninas, sentiram saudades do vovô?

Como as mulheres não manifestaram nenhum grande entusiasmo, apenas mudou o rumo da conversa.

– Pois bem, deixemos isso de lado, já estou ciente da situação, Cecília leve eles ao meu consultório, hoje a noite será longa, sim, muito longa e envolta de trevas, sem demora, quero descobrir logo o tamanho da montanha que terei de escalar.

E foi nesse tom que doutor Magalhães partiu vagarosamente para seu consultório, enquanto um trovão rasgou a noite de fora a fora, talvez fosse o presságio de algo ruim, talvez fosse apenas a fúria da natureza, no entanto quem saberá dizer?