Notas iniciais
Novo capítulo, acho que melhorei meu estilo de narração, estava um tanto carregado e cansativo nos primeiros capítulos, sinceramente eu estou me deliciando em escrever essa trama, boa leitura.

A noite seguiu seu rumo como sempre, escura e nublada. As onze da noite uma tempestade desabou sem piedade, lavando a terra, o casarão e quem sabe a tristeza de Julia.

Ana estava na sala com os demais envolta em uma conversa lenta e pouco convidativa, enquanto os raios e trovões faziam sua dança do lado de fora. Era uma cena um tanto assustadora é verdade, talvez fosse a maior tempestade da década, e Jorge deixou o rádio ligado para saber as notícias. Não ousaria ligar a televisão, caso queimasse em um apagão teria que aguentar uma boa sova do pai. Enquanto o vento zunia do lado de fora, todos escutavam com atenção o locutor da rádio anunciando.

“Atenção ouvintes, interrompemos esta programação pois temos uma informação importante para darmos. Esta é a maior tempestade dos últimos vinte anos. Atenção pedimos cuidado a todos, não saiam de casa, temos previsão de ventos de até 70 km/h e tempestades de raios constantes. Há também risco de um apagão geral, muito cuidado a todos, desde já obrigado pela atenção”.

Jorge desligou o rádio, já tinha a informação que precisava, ia cair um dilúvio, nada que ele já não estivesse prevendo, então para cortar o clima fúnebre do ambiente apenas murmurou.

– Droga, que chuva em, espero que aquele seu lampião pré-histórico tenha querosene pai.

– É lógico que tem, você acha que um velho precavido como eu sou pego de calças arriadas?

– E também eu tenho um punhado de velas – completou Dália.

– E a Julia maninha? Como ela está?

Ana não respondeu, estava afogada em seus pensamentos, seu olhos castanhos estavam cansados, seus longos cabelos negros um pouco despenteados. Blusa branca já meio amarrotada e calça capri bege completavam o visual, maquiagem leve e nada de joias além de um discreto par de brincos, há muito tempo que ela não se dava esse luxo.

Como não obteve resposta Jorge insistiu novamente.

– Maninha tá aí?

– Claro – disse Ana virando o rosto como se desperta-se de um sonho – o que foi Jorge?

– Como está Julia?

– Ela está bem, só está passando por uma fase complicada, vai melhorar pode ficar tranquilo, e além do mais ela está cansada, amanhã estará melhor.

– Menos mal minha filha – se intrometeu Dália – ela deu um susto em todos nós, eu nunca esperaria aquilo dela, sinceramente isso tudo é culpa daquele seu falecido marido, você se lembra o que eu disse quando vocês estavam namorando?

– Mãe! Você vai começar com essa história de novo? – devolveu Ana com um olhar de desgosto.

– É verdade mãe, chega de ficar revirando o passado, o que passou, passou – respondeu Jorge em solidariedade a irmã.

– Não que eu goste de ficar revivendo isto, mas você se lembra muito bem o que eu disse a cerca de quatorze anos, seu marido era um fraco e sempre foi um fraco e você sabia disso, só não queria aceitar, afinal de contas estava cega de amor.

– Hum hum! – pigarreou o velho Venâncio – eu acho que já é o suficiente.

Dália ignorou a advertência e continuou o martírio da filha.

– E depois de se casarem, ele era um pé rapado qualquer que fazia uns rabiscos achando que aquilo era arte, que coisa mais tola. Mas o pior veio alguns anos depois, quando ele ficou doidinho de pedra, ou você não se lembra? Das vezes que você teve de leva-lo surtado para o hospital, e tudo isso para que? Para acabar como acabou? Sinceramente se você estivesse me escutado desde o começo...

Um tapa explodiu na sala, Ana em um impulso de fúria e insensatez descarregou a mão no rosto rechonchudo de sua mãe que estava sentada na poltrona ao lado, o barulho foi tanto que Venâncio e Jorge ficaram paralisados ao verem a cena. Entre tremores e lágrimas nos olhos Ana exclamou com a voz alterada.

– Nunca mais fale desse jeito do meu marido, VADIA!

(...)

Após sua mãe ter saído do quarto, Julia ficou sozinha a encarar a escuridão, normalmente não a temeria, mas com o início da tempestade e com os relâmpagos iluminando seu aconchegante lugar, ficou com medo. Tinha a sensação da velha estar lhe vigiando de algum lugar, sentia seu olhar pesado sobre si, pensava que ela poderia ler seus pensamentos e sentir seu medo, e isso de certa forma a aterrorizava.

Não queria pensar na velha, na verdade não deveria pensar nela, aquilo fora somente um fruto de sua imaginação, e aquilo que nossa mente cria não existe, repetia para si mesmo tentando acreditar que tudo não passava de uma mera ilusão. No fim das contas acabou sendo vencida pelo cansaço e caiu no sono, mas este não seria um sono comum.

Apenas alguns minutos após cair no sono Julia foi agraciada com um sonho, não um sonho bom, mas enfim um sonho. Quando tomou consciência de si estava em um lugar escuro e sombrio, sem sons ou paisagens. Trajava seu vestido rosa de laço borboleta que estava usando no aniversário. A escuridão a estava assustando, tentou andar, mas teve receio de trombar em algo, após alguns passos sem encontrar resistência começou a correr, e correu e correu desesperadamente tentando sair dali, mas o lugar parecia não ter fim e tudo que ela via a sua frente era a escuridão.

Quando correr já não estava adiantando e ela já estava perdendo as esperanças, eis que uma luz acende-se a sua frente revelando uma espécie de telão com uma imagem um tanto familiar. Julia a observou por um tempo assustada e pode concluir que ela conhecia a cena, sim, ela a conhecia, mas o terror apoderou-se do seu corpo e ela começou a tremer sem parar, não queria relembrar aquilo, não queria se machucar vendo aquilo, tentou fechar os olhos e abrir na esperança daquela terrível lembrança desaparecer, mas foi em vão.

A cena ela conhecia bem, lá estava ela aos oito anos encolhida embaixo da escada do porão, em um canto escuro abraçada ao ursinho bibi, enquanto observava seu pai em seu último devaneio bebendo e pintando sua última obra. Ver aquilo lhe machucou, teve medo de a cena começar a andar, não queria relembrar aquilo, então virou o rosto tentando se afastar daquelas lembranças dolorosas, mas o silêncio foi interrompido pelo eco da batida de uma bengala no chão.

Julia virou o rosto novamente, mas aquilo que viu era exatamente o que estava querendo evitar com todas as forças. Saindo de trás da tela em uma marcha vagarosa lá estava a velha, em toda sua forma macabra, vindo em direção a ela. Julia tentou correr, mas suas pernas não responderam, tentou gritar mas sua voz ficou presa na garganta, tentou até chorar mas sua lágrimas congelaram nos olhos.

A velha veio aproximando-se vagarosamente dela em seu andar lento e corcunda, cabeça baixa e rosto ocultado pelo capuz e pelas sombras, o único som ouvido era o das batidas da bengala a cada passo da idosa. Julia tremia cada vez mais, por algum motivo seu corpo não respondia. A anciã foi aproximando-se cada vez mais até estar frente a frente com Julia. Levantou a cabeça lentamente mostrando sua face enrugada e seus assustadores olhos verdes a fita-la, por entre o sorriso amarelo começou a proferir.

– Você quer saber a verdade por trás da morte de seu pai, ga-ro-ti-nha? – disse a velha em uma voz tão rouca e assustadora como poderia ser – a verdade não é aquilo que te fizeram pensar, se você quiser descobrir a verdadeira verdade venha até mim novamente e eu lhe mostrarei, mas nem pense que será fácil. – continuou a velha como se pudesse ver os mais profundos medos de Julia – sim, você virá até mim novamente, eu posso ver he he he... – terminou a idosa em um sorriso fraco e maquiavélico.

Julia estava aterrorizada com aquilo, precisava sair dali, uma angústia tomava conta de seu peito, tentou gritar novamente, mas a voz não saiu, juntou forças, juntou ar, juntou coragem e gritou.

– MÃE! Me ajuda, por favor... – conseguindo acordar suada entre lágrimas e soluços.

Em poucos segundos Jorge e Ana irromperam assustados pela porta adentro, enquanto isso a chuva continuava a cair forte lá fora.