Notas iniciais
A musica para este capitulo é: I am Alive (http://www.youtube.com/watch?v=UNi1BwJ0IQI), Better than you para as patricinhas (http://www.youtube.com/watch?v=JmBILzMzPKU) e sweet child o’mine – cover by: Taken by Trees (http://www.youtube.com/watch?v=6dqVDQ-lF4Q) para o final.

Levanto minhas mãos para bloquear o sol que entra pela cortina do quarto. Desistindo de continuar a dormir e já sentindo minha cara queimar pelos raios de sol, levanto-me, jogando as cobertas para o pé da cama. Desço do beliche e me surpreendo pelo silêncio. Será que não tinha ninguém de pé ainda? Olho para as camas tentando achar as meninas no meio dos lençóis embolados. Não acho nada. Estranho no primeiro momento, mas me dirijo ao banheiro com intenção de me preparar para a aula não dando muita bola.

De repente minha ficha cai, corro pelo quarto e agarro o meu relógio de pulso, 8:06! Meu mundo parece despencar, okay então, eu tinha 4 minutos para me arrumar e correr para a sala. Jogo o relógio no meu pulso e o amarro enquanto tiro a saia preta do uniforme da gaveta embutida na cama, e a coloco.

Termino de me trocar em tempo recorde e disparo pelos corredores da escola. Quando já estou quase nas escadas, lembro que não tranquei a porta do quarto. Pondero sobre a questão por um tempo, mas no final decido voltar e trancar a porta. Agora com certeza chegaria atrasada!

Quando finalmente chego na porta da sala vejo que já estou atrasada 12 minutos. Suspiro decepcionada comigo mesma, bato na porta delicadamente esperando que, por ser o primeiro dia de aula, eles deem um desconto.

Um velho lá por seus 80 anos atende a porta, ele é japonês e tem a pele escura cheia de manchas. Olho para o chão incapaz de encarar o professor, vejo apenas seus pés saírem do meu caminho. Quando levanto a cabeça vejo que ele abriu caminho para mim e está acenando para eu entrar. Abaixo a cabeça levemente em um sinal de gratidão e passando pela sala inteira, sento-me na única carteira livre, a primeira do outro lado da sala.

O professor então volta ao que estava fazendo, eu o assisto atentamente enquanto ele explica como as suas aulas iriam funcionar e qual seria a matéria do ano, leio seu nome no quadro, Hideyoshi, “definitivamente japonês” penso rindo comigo mesma. Apesar dele ser apenas um professor me sinto melhor de ter alguém da mesma nacionalidade do que eu.

Hideyoshi era o professor de biologia e estava explicando que no primeiro trimestre aprenderíamos sobre botânica. Sorte a minha, gimnospermas e angiospermas eram minhas amigas e entravam facilmente no meu cérebro. Sorrio comigo mesma de novo e quando percebo a aula já havia acabado.

Pego minhas coisas e as coloco dentro da minha mochila, tirando um papel indicando onde seria minha próxima aula. História. Faço uma careta. Não que eu não gostasse, mas não era uma matéria que eu fixava muito.

Quando chego à sala de história, pego logo uma cadeira no meio e tiro meu material de dentro da mochila.

A professora de história era uma mulher que aparentava estar nos seus 30, ela se apresenta como Lady Catalina, e logo uma mão se ergue no meio da classe:

– Lady, tipo você é da realeza? – pergunta uma menina loira e maquiada até os ossos, com um tom arrogante jogando o cabelo de um lado para o outro, convencida de que não importava o que ela fizesse, ele continuaria perfeito. Odeio admitir, mas era verdade.

– Não – a professora ri e acena com a cabeça fazendo seus longos cachos castanhos escuros balançaram – meu nome é Lady, mas não se preocupe, esse é um erro comum.

A sala parece ficar em silêncio depois disso, provavelmente impressionados pela voz calma e melodiosa da professora, ou curiosos pelo nome intrigante. “Lady” penso, não era um nome feio, só não era muito comum, na verdade não era nada comum.

Perco-me nos pensamentos do porque dos pais de Lady terem colocado esse nome nela e quando percebo, a professora já estava falando de como as provas dela iriam funcionar e do quanto ela realmente gostava de lecionar. Enquanto ela explicava sobre a primeira aula que tinha dado na vida, uma batida ecoa pela sala.

Lady encara a porta e abaixa o giz espiando pela pequena fresta que abrira para ver quem estava do outro lado da porta. Ela sorri e abre a porta completamente. Vejo um menino alto com cabelos desalinhados pretos e brilhantes olhos azuis entrar. Peter?

– Yo! – ele acena para a sala – Lady Lady – começa na intenção de brincar com o nome da mulher, Lady apenas cruza os braços e sorri para o menino, levantando apenas uma sobrancelha. Que inveja, queria conseguir fazer aquilo também.

Peter ri com a atitude, não tinha percebido, mas ele tinha um sorriso muito bonito, sorrio também.

– Preciso emprestar Ren Kouhen – ele fala entregando um bilhete para Lady.

A mulher apenas fecha os olhos e seu sorriso diminui. Ela abre o bilhete.

– Jaime – ela sussurra – Muito bem, pode levá-la, só me devolva a menina inteira ok?

A sala começa a rir maliciosamente, Peter parece apenas ignorar as pessoas e acena para que eu o siga.

Quando saímos da sala, sigo-o pelos corredores em silêncio pensando onde ele estaria me levando. Passamos por diversos corredores até eu localizar um espelho pendurado na parede. Já havia passado por aqui ontem e sabia para onde ele estava me levando. Aquela sala de tiro!

– Hum, Peter? Posso saber porque está me levando para a sala de tiro?

Ele sorri pretensiosamente e diminui o passo para ficar do meu lado.

– Jaime me pediu para raptar você da aula.

– Por que?

– Não sei, mas quando se trata do velho, obedecer é melhor.

– Não sabia que você era gado – desafio.

– Não sou gado – ele fala estendendo a mão e beliscando minha bochecha – apenas estou obedecendo, porque isso me tirou de sala de aula e me deixou resgatar uma menina da tortura que essas pessoas chamam de aprendizado.

– Bom, obrigada – começo afastando a mão dele da minha bochecha – mas não lembro de ter me tornado uma donzela em apuros.

Peter para subitamente e levanta minha camisa do colégio, apenas o suficiente para ver o *coldre que eu estava usando por baixo da roupa.

– Se este coldre estivesse ocupado tenho certeza que não – ele diz, e me afasto bruscamente abaixando a camisa e corando não só de vergonha como também por um pouco de raiva – mas a princesa não está exatamente armada agora.

– Quem te disse que eu tinha um coldre? – pergunto terminando de ajustar minha blusa em seu devido lugar.

– Ninguém me disse. E ninguém precisaria me dizer ok? – Ele sorri e cruza os braços andando de novo – E se eu fosse você tentaria não recorrer a um coldre vazio toda vez que alguém a assuste.

– Geralmente ele não está vazio.

– Pior ainda, não? – Peter sorri sarcasticamente e para de andar como que esperando que eu me junte a ele.

– E só para você saber, quem disse que eu preciso de armas para me defender? – sorrio desafiadoramente para ele quando o alcanço.

– Eu disse! Agora pouco, não escutou?!? – Peter faz uma falsa voz de indignação e leva a mão ao peito fazendo movimentos dramáticos.

Apesar de um pouco irritada, acabo sorrindo.

– Mas então – começo – não sabia que Jaime tinha a liberdade de tirar alunos da sala de aula.

– Ah, ele não tem – Peter responde simplesmente.

Paro subitamente, encarando-o incredulamente.

– Como assim?!? Como assim ele não tem permissão para nos tirar de sala? Então como nós estamos fora?!?

– Porque nós saímos... Pela porta. – ele responde como se fosse óbvio – podíamos também ter saído pela janela também, mas como é meio alto até o chão achei melhor não.

– Não! Não foi isso que eu quis dizer. Como nós estamos aqui se não temos permissão para ficar?

– Ah isso! Porque a professora ainda não se deu conta de que eu não tinha direito de tirar você de sala.

Peter continua andando calmamente. Não sei o que esse menino tinha, mas ele conseguia ficar calmo nas situações mais estranhas e achar normal as coisas mais estranhas.

– Ok então – sussurro para mim mesma – Então tecnicamente nós não poderíamos estar aqui, o que nos qualifica como matadores de aula?

– É – ele responde simplesmente se espreguiçando e parando em frente á porta da sala de tiro.

– Ok... – é tudo que consigo dizer enquanto assisto Peter abrir a porta e movimentar os braços em sinal para eu entrar.

Dentro da sala, Jaime está sentado atrás da mesa de madeira com os pés descansando em cima dela. O homem não nos encara, ao invés continua com a atenção focada no pequeno DS que tem em mãos, concentrado no jogo.

Peter põe os dedos nos lábios e pisca para mim, eu fico quieta e assisto enquanto ele se aproxima e contorna Jaime ficando bem atrás dele. Jaime ainda não tirava os olhos do DS e não parecia sequer perceber a presença do garoto. Peter então coloca o pé na alavanca de altura da cadeira e a pressiona.

Tenho quase pena do homem quando a cadeira começa a abaixar. Jaime se assusta e joga o DS para cima momentos antes de rolar para fora da cadeira e cair deitado no chão, Peter pega o DS antes de cair e caminha para longe do homem espatifado me entregando o aparelhinho.

– Enterre isso longe dos olhos do velho – ele fala passando por trás de mim.

Solto um pequeno riso abafado e guardo o DS no bolso da saia do uniforme.

– Ah! Vejo que você trouxe a Ren – Jaime fala levantando-se e espreguiçando-se como se nada tivesse acontecido.

– Aqui está ela – Peter gesticula para mim e me pega pelos ombros me virando em todas as direções possíveis – Agora de frente, agora de lado, agora de trás, agora do outro lado! – ele fala entusiasmado enquanto me chacoalha de um lado para outro.

Jaime ri e abana a mão em sinal para Peter parar com a brincadeira. Quando eu paro de girar vejo 4 Jaimes e sinto meu cérebro batendo dentro do meu crânio, apoio-me no ombro de Peter esperando a tontura passar.

– Que tipo de ritual de iniciação é esse? – pergunto ainda me sentindo confusa.

– O nosso tipo – Jaime responde dando leves batidas na minha cabeça.

– Você vai adorara a segunda parte – Peter acrescenta, segurando-me pelos ombros e me empurrando para perto da mesa.

Na minha cabeça vieram todos os tipos de rituais que eles poderiam fazer. Considerando que para mim eles eram loucos, pensei que iriam me jogar da janela do último andar para depois me laçar com uma corda antes que atingisse o solo.

Peter me empurra até um cadeira de praia descansando no canto da sala logo atrás de um armário. Ele aponta para que eu me sente, obedeço e sento esperando por alguma reação.

Jaime então puxa sua própria cadeira e senta, Peter logo em seguida se junta ao homem e senta no chão, formando um triângulo conosco.

– Não se preocupe Ren, não vamos amarrar e usar você como alvo na pratica de tiro como iniciação – Jaime fala sorrindo abertamente.

Solto um pequeno sorriso, apesar dessa ideia ter sido doentia, senti-me melhor quando ele falou que não iam fazer aquilo.

– Mas nós vamos iniciar você – Peter fala cruzando as pernas e usando os braços para apoiar-se nos joelhos.

– E a iniciação é...? – pergunto meio desconfiada e admito, meio assustada.

– Uma história – Jaime fala.

Franzo as sobrancelhas e estranho, uma história? Como assim uma história?

– Como assim uma história?

– A história do porquê esse lugar existe – Jaime fala – Não sei se já se perguntou por que uma escola religiosa com freiras e padres andando pelos corredores tem uma sala de armas?

Aceno com a cabeça, não havia realmente me perguntado isso, mas agora que ele havia mencionado não fazia sentido.

– Primeiro, acho bom que saiba de algumas coisas – Peter me encara atentamente – Se você se juntar a nós é bom já esperar olhares estranhos dos padres e freiras e talvez até um pouco de falta de respeito de alguns professores, assim como... Fleróvio, Sirén etc. E principalmente o ódio do atual Diretor.

Aceno de novo com a cabeça. Ainda não tinha tido aula com esses professores, ou conhecido o Diretor mas já não gostava deles, qual o problema de saber atirar. Não é como se fossemos todos virar assassinos!

– Não tem problema para mim – respondo – não quero cair nas graças de um professor que julgo preconceituoso, ou de freiras e padres iguais.

Jaime e Peter sorriem para mim, aparentemente gostaram da resposta.

– Mas enfim, porque essa sala de armas foi criada? – pergunto, minha curiosidade renovada.

– Ah sim! – Jaime se lembra da história e se ajeita na cadeira como se aprontando para uma longa história – Na época da Guerra Fria esse castelo era uma fortaleza importante e como o medo de uma guerra nuclear era iminente, embaixo desse castelo estão construídos enormes bunkers. Como apenas isso não era o bastante e, com medo de que os inimigos mandassem as tropas, os militares mandaram diversas armas para cá e também um exército. Quando a guerra acabou, os padres e freiras não queriam as armas dentro do castelo e tentaram as despachar, mas o exército disse que seria uma boa base caso uma guerra acontecesse no futuro e eles precisassem de uma base secreta. Apesar dos padres não concordarem, o Diretor da época concordou. Assim, as armas foram mantidas e estocadas nessa sala e aqui em baixo – Jaime bate com as botas militares no chão.

– Como eles tinham que chamar alguém para tomar conta dessas armas, o exército resolveu mandar um soldado aposentado para ser o “professor” de tiro. Ou seja, eu. Enfim, desde sempre os padres e as freiras tiveram ódio desse lugar, e de mim, ou seja ódio de todos que virarem meus alunos. Quando eles descobrirem que você vai se tornar minha aluna eles provavelmente vão te levar para uma conversa e tentar fazer você mudar de ideia. Já perdi a conta de quantos alunos perdi por causa disso.

Jaime faz uma pausa e olha para mim, meio esperançoso mas no fundo já meio que convencido que eu não iria ficar. Não respondo nada apenas o encaro processando a história inteira. Era uma história e tanto, varias informações novas que meu cérebro estava tentando processar, e ainda assim eu tinha parado de pensar no momento que ele disse “ou seja, eu”.

°_°_°_°

Encaro meu prato de comida, por algum motivo ele me parece extremamente não apetitoso, o que era uma raridade quando se tratava de mim e comida. Mas no momento eu não estava com fome, nem me lembro da última vez que me senti assim. Na verdade me lembro, e essa é a pior parte.

Suspiro de novo, brincando de rolar o brócolis de um lado para outro do prato, “a qualquer momento agora” penso.

– Ren Kouhen por favor dirija-se ao escritório do diretor. Ren Kouhen no escritório do diretor.

Uma voz ecoa pelo colégio inteiro, olho com o canto dos olhos para as pessoas no refeitório, elas encaram umas às outras repetidamente tentando descobrir quem seria a menina chamada no autofalante.

Tomo mais um gole da minha água e levo a bandeja praticamente cheia ao lixo descartando-a apropriadamente. Depois me arrasto até a sala do diretor.

Quando chego, deparo-me com uma sala inteira vermelha, carpetes vermelhos e paredes vermelhas, complementados por sofás vermelhos e uma enorme mesa de madeira marrom avermelhada com uma cadeira estofada vermelha atrás. Pisco varias vezes até meus olhos se acostumarem com o excesso de uma cor no ambiente.

Quando entro, vejo que a cadeira atrás da mesa está virada de costas para mim. Olho incrédula para aquela cena e me seguro para não rir, aquele homem estava realmente tentando fazer um efeito de filme aqui!

Escuto o leve barulho da cadeira indicando que ela estava virando, endireito a postura por costume.

Quando o diretor se vira, vejo um homem, lá pelos seus 50, usando óculos redondos apoiados na ponta de seu nariz protuberante e fino. Ele usa uma batina preta. Padre. Ótimo, tudo que eu precisava, um padre para me dizer que não posso atirar em alvos com armas de fogo. “E eu acabei de soar como uma fanática por armas, ótimo!” penso, auto reprimindo-me.

– O senhor me chamou, senhor? – pergunto tentando soar respeitosa, mas deixando uma pontada de insubordinação escapar pelos meus lábios.

– Ren Kouhen, certo?

Aceno que sim com a cabeça, a voz do homem é grossa e forte, mantenho-me firme e o encaro com a mesma ferocidade que ele me encara. Não sei o porquê, mas apenas a presença daquele homem me irritava. Ergo a cabeça levemente mostrando que não me sinto inferior. Ele pega a dica e se levanta mostrando que possui quase o dobro da minha altura.

Continuo o encarando sem desviar ou demonstrar medo nos olhos. Ele podia ser grande, mas não passava todo o respeito que acreditava, e esse era seu maior erro.

O diretor se aproxima de mim, contornando a mesa e para na minha frente olhando para baixo.

– Você sabe porque está aqui? – ele pergunta franzindo as sobrancelhas.

– Não – respondo calmamente sorrindo para o enorme homem na minha frente.

– Você admite querer se juntar a Jaime na sala de armas?

– Não vejo como isso pode estar relacionado com o motivo de eu ter sido chamada até aqui.

– O motivo é claro! – a voz dele ecoa pela sala – está é uma escola religiosa, nossos alunos devem ser amáveis e gentis e não cruéis assassinos, armas não são necessárias em uma sociedade utópica como a nossa.

De repente me dou conta do porque aquele homem me irritava tanto, ele tinha certeza de que era um bom comandante e pensava que todos deveriam seguir suas leis. Do jeito que ele me olhava me lembrava de um certo Coronel olhando insatisfeito para seus subordinados. Bom, eu nunca fui um bom soldado mesmo. Uma parte do meu subconsciente sorri feliz com a decisão, “hora de mostrar ao Deus dessa escola que existem melhores armas do que as guardadas por Jaime”.

Respiro fundo e sorrio convencida, vejo uma veia saltar da testa do Diretor.

– Se não fosse para ser usada a sala da armas não existiria – respondo calmamente e me viro andando até a porta.

– Eu não disse que você podia sair – ele fala, sua voz engrossa e carrega desprezo pela minha pessoa.

– Eu não vim aqui para me defender de um crime que não cometi – respondo abrindo a porta e saindo.

Antes de fechar a porta olho para trás e vejo o Diretor parado no mesmo lugar de antes me encarando com certo ódio nos olhos. Sorrio novamente para ele e fecho a porta atrás de mim. Meu primeiro dia de aula e já tinha feito um inimigo.

Rio comigo mesma, uma vez um soldado insubordinado, sempre um soldado insubordinado.

°_°_°_°

O horário do almoço já tinha acabado e eu estava perambulando pelo colégio, não sabia o que iria fazer em seguida, Durante a minha conversa com Jaime e Peter, acabei perdendo as últimas três aulas da manhã. E agora o horário do almoço havia acabado também.

Fecho os olhos e esfrego minha barriga vazia, agora estava sentindo o efeito de não ter almoçado bem. Meu estômago parecia o leão do brasão da escola, pronto para devorar o castelo inteiro.

Suspiro indignada mais uma vez e enfio as mãos nos bolsos da saia, de repente sinto algo. “O DS do Jaime!”, penso alarmada, tinha esquecido de devolvê-lo! Abaixo a cabeça, decepcionada com a minha memória e começo a andar em direção à Sala de Armas.

Abro a porta e vejo que a primeira sala está vazia, sigo em frente e deslizo a outra porta de madeira para o lado revelando a segunda sala. Vejo que Peter está no centro segurando uma pistola e atirando repetidamente no mesmo alvo. Jaime está logo atrás com os braços cruzados observando-o. No momento em que Peter aperta o gatilho e a arma faz um *click*, percebo que a munição acabou. Jaime também percebe e se aproxima do menino examinando o alvo. Nenhum deles percebe a minha presença, então me sento no chão e tiro o DS do bolso, ligando-o e colocando o volume no máximo. Quando o jogo começa, uma musiquinha irritante ecoa pela sala inteira.

Ergo os olhos bem a tempo de ver Peter arregalar os olhos, soltar a arma no chão e pegar Jaime, que com o susto, perdeu toda a postura e pulou como um garotinho assustado no colo de Peter.

– Uau! Agora eu entendi porque o Peter prega tantas peças em você.

Vejo um sorriso orgulhoso brotar nos lábios de Peter.

Jaime se apressa em sair do colo do menino e endireitar o moletom preto que estava usando.

– Meu DS – ele murmura em uma voz infantil, andando na minha direção e agarrando o aparelhinho das minhas mãos.

Peter faz um sinal de positivo para mim pelas costas do homem. Eu apenas sorrio, não sabendo como responder direito.

– Mas Ren – Jaime começa guardando o DS no bolso da calça de moletom – pelo visto você já viu o que acontece com os alunos que decidem virar, bom... meus alunos.

– O que? – pergunto, inclinando a cabeça levemente para a direita.

– Você foi chamada na sala do diretor – Peter esclarece – o que geralmente não é boa coisa. Seu nome ecoou pela escola inteira, até aqui dentro nós escutamos.

– Ah... isso! – exclamo, já havia até me esquecido de que eu tinha sido chamada pelos autofalantes – sim, sim. Nada de mais, quer dizer, o diretor me odeia agora e a minha vida aqui vai ser um inferno, mas o que eu podia fazer? Desistir da aula de tiro? – respondo franzindo minhas sobrancelhas e sorrindo. Para mim, aquela opção era impensável.

Peter e Jaime me encaram e posso ver pequenas lágrimas se formando nos olhos deles.

– Eu realmente não achei que você ia ficar! – exclama Jaime pulando em cima de mim e me sufocando com um abraço. Lágrimas rolam pelos olhos do homem e eu sorrio vendo que só o fato de eu não ter saído era tão importante para ele.

– Eu devo confessar que também não! – Peter está sentado no chão e encarando-me, seus olhos brilham com lágrimas – Eu estou tão feliz por não estar mais sozinho aqui!...

Peter se junta a Jaime no abraço e sinto minhas costelas se fundindo com meus órgãos de tão forte que eles estavam me apertando. Um pequeno ganido sai da minha garganta enquanto eu busco forças para sair daquele abraço esmagador. De repente um barulho escapa da minha barriga. Os meninos se afastam e soltam-me, segurando risadas. Pouso as mãos sobre meu estômago e coro profundamente.

– Isso foi seu estômago Ren? – Peter pergunta segurando uma risada.

– Eu não estava com fome na hora do almoço, então acabei não comendo nada, o que aparentemente não foi uma boa ideia – sussurro a última parte, mas mesmo assim, tenho certeza que eles escutaram.

– Vamos! – Jaime estende uma mão para mim. Eu aceito e a pego, levantando-me.

– Vamos para onde? – pergunto. Peter se posiciona do meu outro lado, estendendo o braço para mim. Coloco minha mão em cima do antebraço dele, repetindo o mesmo gesto no braço de Jaime.

– Te alimentar – Peter fala, manobrando-me para que passemos os três pelas duas portas.

Quando entramos no refeitório, percebo um grupo de quatro meninas sentadas em cima da mesa, lixando as unhas e passando maquiagem.

– Pensei que ninguém podia ficar no refeitório entre as refeições – olho para Jaime.

Ele apenas sorri, “segredo” penso e tira a minha mão de seu braço.

– E ai chibi o que vai querer?

“Chibi!” penso irritada, chibi era uma palavra em japonês para se referir a pessoas pequenas. Bom eu era pequena, mas não queria ele me relembrando!

– Tanto faz – respondo, fazendo questão de mostrar meu orgulho ferido.

Jaime apenas sorri e dá leves tapinhas na minha cabeça.

– Escolha alguma coisa. Como professor eu tenho o direito de pedir algo mais comestível que aquelas porcarias nas máquinas de comida e mais pesado do que as frutas – ele acena com a cabeça para uma enorme cesta de frutas em uma bancada.

Abaixo a cabeça meio envergonhada. Peter usa a mão livre para beliscar minha bochecha e a usa para levantar a minha cabeça.

– Só responda, Ren – ele fala.

Tiro a mão do braço de Peter e uso-a para afastar a irritante mão da minha bochecha.

– Pode ser qualquer coisa, eu como tudo – respondo – bom, tudo menos chantilly, maionese, corantes e gorduras no geral – completo depois de uma pausa.

– Se você não pode comer tudo isso então você não come tudo – Peter levanta as duas mãos e belisca minhas duas bochechas, esticando-as para me provocar.

Grunhidos de desaprovação saem da minha boca, tento levantar minhas mãos para beliscar as dele, mas falho miseravelmente, era baixinha demais. “Chibi...” a palavra ecoa na minha mente.

Quando Peter finalmente decide parar de maltratar minhas bochechas, Jaime já está de volta com uma bandeja. Fico na ponta dos pés e espio o conteúdo, vejo um sanduiche feito com pão integral e uma folhinhas de alface espiando por baixo desse. Do lado do sanduiche está um copo de vidro com um líquido amarelo brilhante. Suco de laranja, eu presumo.

Jaime leva a bandeja até uma mesa. Sento-me na frente do homem, puxando a bandeja para mim e abocanhando o sanduíche. Ah... como eu estava com fome! Sinto o gosto refrescante da alface e percebo uma cremosidade, olho para o sanduíche vendo queijo derretido escorrendo por entre finas tiras de presunto.

Não sei se era minha fome, mas esse era o melhor sanduíche do mundo!

Quando finalmente termino, percebo que os meninos me encaram como quem encara o primeiro filho fazendo algo fofo.

– Porque vocês estão me encarando?

– Não, nada – Peter fala me estendendo um guardanapo e fazendo um sinal para que eu limpasse o lado da minha bochecha – é só que eu nunca iria imaginar que alguém tão pequena e aparentemente delicada, atiraria tão bem.

– Aparências enganam.

Uma risada ecoa pela sala. Assustada, encaro Jaime e não acredito que tenha sido ele que riu desse jeito.

– Pois é, Peter – Jaime bate com força nas costas do menino – dentre todos, o que melhor deveria saber disso é você, não?

Peter se recupera em silêncio da batida do homem, esfregando as costas. Franzo as sobrancelhas e espero por uma explicação, mas quando nenhuma vem, deduzo que seja um segredo, ou algo insignificante.

– Bom... vamos? – Jaime levanta, pega a bandeja na minha frente e a leva para o lixo, descartando apropriadamente.

Levanto, na tentativa de sair do refeitório, mas para minha surpresa, sou interrompida. Bato a cabeça no peito de alguém. Quando levanto a cabeça, vejo quatro meninas paradas na minha frente. Eu sabia quem eram elas: as patricinhas que estavam fazendo as unhas em cima da mesa.

– Com licença – peço, desviando do grupo. Ao passar do lado, vejo que o quarteto é composto de uma menina alta e levemente bronzeada com cabelos marrons e olhos cinzas, uma menina com cabelos pretos usando ridiculamente um batom rosa vibrante e olhos azuis com um efeito panda em volta. Atrás dessas meninas estavam duas loiras com diferenças claras, uma de olhos azuis claros e bronzeada e a outra, de olhos marrons e um nariz empinado e enorme.

– Seu amigo estragou minhas unhas com aquela risada macabra – a menina de cabelo preto fala estalando os lábios para mostrar o batom.

Olho para a mão que ela estende e vejo que o diamante que ela estava desenhando no dedo do meio, estava inteiro borrado.

– É só esmalte – eu digo.

– Só esmalte! – a morena exclama – querida, só quero que você saiba que isso é um clássico **Azature’s Black Diamond! Você por acaso sabe o quanto isso custa? – ela esfrega um potinho na minha cara.

– Não o bastante para me fazer escutar essa baboseira, tenho certeza – eu respondo, afastando a mão dela da minha cara.

– Você não sabe quem nós somos, sabe? – uma delas fala, mas como estou de costas, nem dou bola e continuo andando. Sinto Peter andando do meu lado e aperto o passo para me afastar delas o mais rápido possível.

– Nós somos as filhas dos magnatas mais ricos desse país, nós praticamente controlamos essa escola, então não venha com essas piadinhas para cima da gente – reconheço essa voz como da morena que reclamou do esmalte.

– E podemos te expulsar a qualquer hora – dessa vez quem falou foi a do batom rosa – então porque não volta aqui e se ajoelha na nossa frente?

Eu me viro e as encaro. “Eu me ajoelhar?” penso.

– Se ajoelhe e encoste a testa no chão implorando por desculpas.

Franzo as sobrancelhas, não queria me humilhar na frente delas, mas sabia que as ameaças delas podiam ser verdade. Eu estudava nessa escola porque tinha uma bolsa. Tirar-me da escola não deveria ser muito difícil.

De repente uma ideia brota no meu cérebro, “elas querem que eu me ajoelhe, então eu vou me ajoelhar. Me ajoelhar e ensinar um pouco de cultura”. Caminho em direção a elas, sinto a mão de Peter tentar me parar, mas a descarto com um aceno. Me abaixo encostando os joelhos no chão de mármore e abaixando de leve a cabeça.

– Encoste a cabeça no chão sua ralé imunda e implore por desculpas! – a menina loira com um nariz enorme exclama.

As encaro estupefata.

– Oh me desculpe! – exclamo – De onde eu venho, abaixar-se e encostar a cabeça no chão é um sinal de que você deseja os serviços da prostituta à sua frente – me levanto rapidamente e vejo as caras vermelhas das “princesas” – eu não sabia que vocês estavam nesse ramo, mas eu não estou interessada nesse tipo de serviço.

Aceno com a cabeça e me afasto das quatro, nem me dou o trabalho de virar e ver a cara delas. Alcanço Peter que está segurando a barriga de tanto rir.

– Não sabia que esse sinal existia!

– Não existe – eu respondo, passando por ele e fazendo um sinal para ele me seguir – eu sou de Kyoto, não de uma vila remota. Esse sinal não existe, pelo menos não de onde eu venho.

Peter ri um pouco mais e continua andando do meu lado.

°_°_°_°

Olho para meu relógio de pulso. Faltavam 5 minutos para o horário do jantar começar. Quando chego me deparo com uma multidão espremida no refeitório lutando para conseguir encher um prato com comida. Decido apenas pedir um sanduíche, entro na fila e peço o mesmo que tinha comido no almoço. Quando a moça me entrega um embrulhinho eu agradeço e agarro uma garrafa de água.

Decido comer andando pela escola, passo pelos campos de lacrosse e pela piscina, “bem que eu podia nadar”, penso, mas mudo de ideia no segundo que leio a profundidade. Um metro e sessenta nas pontas e dois metros e trinta no meio. Eu tinha 1,57; a piscina não dava pé para mim nem na parte mais rasa.

Suspiro decepcionada, é no que dá vir para uma escola onde a maioria das pessoas são tão altas.

Continuo a andar pela escola. Durante aquela hora da noite parecia quase deserta, não haviam nem freiras, nem padres inspecionando o lugar. De repente escuto um barulho.

– Psiu.

Pulo assustada e derrubo o resto da minha água no chão. Franzo minhas sobrancelhas e me abaixo para recolher a garrafinha, agora vazia. Quando me levanto e tento procurar pelo dono da voz, deparo-me com o professor de biologia.

– ***Hideyoshi-sensei – digo antes de pensar muito.

– Não precisa me chamar de sensei ****Kouhen-chan – ele responde.

Balanço a cabeça envergonhada, ninguém nunca tinha me chamado de Kouhen antes, nem mesmo de volta no Japão. E o nome não me trás exatamente boas memórias.

– Então o senhor também pode me chamar só de Ren.

– Ren então – ele faz uma pausa esperando pela minha aprovação, apenas balanço a cabeça e ele continua – Só para avisá-la, alunos não podem andar pela escola durante essa hora.

Meus olhos se arregalam imediatamente com a nova informação.

– Sinto muito, eu... eu não sabia.

Ele sorri simpaticamente e estende uma mão enrugada e cheia de manchas para mim.

– Tudo bem, venha! – me aproximo e pego sua mão – como você parece não querer ficar com os outros alunos, por que não volta para o seu quarto? – ele pergunta com uma voz rouca e gentil.

– Ah, sim! Tinha me esquecido do quarto.

Hideyoshi me guia até a porta do dormitório feminino, ele me lembrava dos velhinhos em casa. Claro que eles não eram exatamente legais e eu não me dava bem com eles, mas tenho certeza que me daria se eles fossem mais como Mitsuhico.

– Obrigada por me trazer até aqui e obrigada por não me castigar por estar vagando fora de hora.

– Sem problemas – ele sorri e solta minha mão – mas devo te avisar que estou pegando leve com você pois é seu primeiro dia de aula. Espero-lhe amanhã sem atrasos na minha aula, Ren-chan.

Abro minha boca para dizer que ele não precisa colocar “chan” depois do meu nome, mas desisto. “Dê pelo menos uma alegria ao velhinho, Ren”.

– Pode deixar.

Dou meia volta e me preparo para subir as escadas quando escuto a voz do professor novamente.

– Ah... e Ren-chan, talvez você tenha que passar na sala de história amanhã de manhã.

Franzo as sobrancelhas e inclino a cabeça para o lado “por que?”, penso, será que estava com problemas de novo?

– Você esqueceu sua mala lá quando saiu com Peter – Mitsuhico ajeita os óculos de volta no topo do nariz e sorri para mim – Lady me contou e pediu para avisar-lhe se a encontrasse.

– Obrigada – respondo com um suspiro – e sinto muito, eu... tendo a ser meio esquecida, sabe? – esfrego os dedos nas minhas têmporas – desculpe.

– Sem problemas. Mas eu tentaria melhorar se fosse você. Na vila onde eu nasci existia uma história de que quando alguém era muito esquecido era porque a verdadeira alma e cérebro da pessoa estavam presos em um evento do passado – Ele cruza os braços e força os olhos mais abertos do que o normal, desse jeito posso ver que são negros, como os meus – Geralmente alguém que morreu por culpa dessa pessoa e continua assombrando-a até hoje, fazendo com que sua alma fique presa no passado.

Fico sem fala por um momento. Nunca tinha ouvido falar de tal lenda, mas talvez ele só tenha falado aquilo para me provocar.

– Mas é claro – Mitsuhico volta a falar – que essa não é você, certo?

Encaro-o por alguns instantes.

– Não. Essa definitivamente não sou eu.

O velho não responde, apenas abaixa a cabeça e começa a andar para longe de mim. “Não sou eu... certo?”

°_°_°_°

Quando chego dentro do quarto encontro apenas uma Katherina adormecida. Sorrio levemente “ela dormiu com as luzes acesas” penso. Ando até o meu beliche e abro as gavetas embutidas na cama, retirando uma calça de flanela xadrez preta, branca, azul e rosa e uma blusa de manga comprida: larga e extremamente macia.

Percebo que uma das malas se foi. Faço uma rápida contagem e vejo que a nossa suposta quarta companheira não estaria mais conosco. Dirijo-me ao banheiro e abro a água quente, entro logo em seguida e esfrego meu corpo enquanto cantarolo uma velha canção de ninar. Quando saio o espelho está todo embaçado, devo ter enrolado muito.

Visto-me e saio rapidamente do banheiro escalando o beliche. Quando chego em cima, ajeito-me debaixo das cobertas e me lembro que não apaguei a luz. “Alma presa no passado, só pode!” exclamo ironicamente em meus pensamentos.

Agarro uma bota de neve de dentro das gavetas que estavam perto de mim e jogo com precisão clínica no interruptor. A luz se apaga com um *click* e o quarto é banhado na escuridão, bom, escuridão até os seus olhos se acostumarem com a luz.

“Não sou eu” sussurro para mim mesma fechando os olhos.

Vejo cabelos pretos e levemente ondulados dançando em volta do meu rosto e consigo escutar ao longe uma doce melodia, a mesma que estava cantando hoje no banheiro. Sei que é um sonho, só pode ser um sonho, mas nada me impede de, pelo menos durante esses poucos segundos, acreditar que seja a verdade.

A mulher me puxa para um abraço e uma doce risada ecoa nos meus ouvidos, embora doce, eu sabia que essa risada era tudo, menos feliz.

Sinto minhas mãos serem envolvidas por mãos pequenas e ásperas, mãos de um lavrador ou um guerreiro e ainda assim, eram mãos de mulher. Um frio metálico se instala na palma das minhas mãos, contrastando o calor das mãos que envolviam as minhas.

– Eu sinto muito, eu sinto muito mesmo.

Notas finais
*coldre – um tipo de bainha que serve para segurar armas de fogo. **Azature’s Black Diamond – o esmalte mais caro do mundo, custa por volta de 250.000 dólares. ***Hideyoshi-sensei – no Japão os professores e outros profissionais, são chamados com o sufixo sensei, em sinal de respeito. ****Kouhen-chan – no Japão você não chama uma pessoa pelo nome se não for super intimo, geralmente você chama pelo sobrenome. E o “chan” você usa quando uma pessoas é menor, mais nova e geralmente menina. Espero que gostem #Ghost...