Notas iniciais
Espero que gostem. Esse capítulo é simultâneo ao anterior, por isso o final é igual A música é Say do John Mayer http://www.youtube.com/watch?v=9P1qUSWEfmk


You and I will never be a great love story. That's okay!

Let's see what kind of story we'll be.

A Softer World — Oooh! Oooh! I hope it’s science fiction!

Conseguia ouvir Fenton me chamar, mas sentia a voz dele distante, como se meu corpo estivesse caindo em um abismo. Voltei à consciência quando senti meu braço bater com força em algo duro e logo depois minha cabeça.

Olhei ao redor, não havia nada em volta de mim, o objeto mais perto era uma medalha, jogada displicentemente á pelo menos dois metros de onde eu estava, o treinador estava encostado na parede, mas assim que as coisas pararam de mexer, ele veio em minha direção.

–Charlie, você está bem? — ele me levantou, sentia como se fosse desmaiar a qualquer momento — o que foi isso?

Fenton olhou para os lados, possivelmente procurando a causa dos tremores inexplicáveis, mas então seus olhos pousaram em mim.

–Minha nossa, acho que nunca vi uma pessoa mais branca que você — ele passou meu braço pelo ombro e foi me guiando em direção à saída — vou te levar para a enfermaria.

–Minha pressão deve ter baixado — quase não reconheci minha voz, ela soava fraca e trêmula — eu me assustei.

–Ah sim, deve ter sido isso — podia sentir a incerteza na voz do meu treinador — vou tentar descobrir a causa desse nosso.... acidente, talvez seja melhor não comentar nada com ninguém.

–Eu nem sonharia — cogitei falar para Fenton, mas não queria que ele me achasse mais louca que o normal — acho que consigo ir sozinha.

Ele assentiu e falou que precisava verificar o escritório, voltaria mais tarde para me ver. Me despedi de Fenton com um aceno e fui caminhando lentamente até a enfermaria.

Sentia minhas pernas pesadas e tinha a sensação que vomitaria caso fizesse algum esforço maior do que passadas bambas. Tentei me recordar da última vez que havia me sentido daquele jeito e a única coisa que veio na minha memória foi uma vez na sétima série, em que o professor de Educação Física disse que daria uma caixa de chocolate para quem conseguisse correr por oito minutos sem parar.

Depois de cinco minutos dando voltas na quadra, minhas pernas doíam tanto que tinha a certeza que ficaria com câimbras eternas, eu mal conseguia respirar e sentia que toda a comida que eu já havia comido estava tentando subir pela minha garganta.

A sensação era muito parecida, embora sentisse um cansaço mental tão grande, que a simples ideia de ler um livro, fazia minha cabeça latejar e meus olhos arderem.

Passei pelo campo de lacrosse a passos lentos, tentei ver se Danny estava lá, mas só consegui distinguir formas vermelhas se chocando repetidas vezes.

Não conseguia enxergar direito, pontos pretos bloqueavam a maior parte da minha visão e senti o mundo girar. Me apoiei em um pilar e respirei suavemente, tentando acalmar meu coração que batia descompassado. Toda minha visão estava preta, mas não sabia dizer se estava com os olhos fechados ou se eu realmente estava cega.

Minhas mãos escorregaram do pilar e eu senti meu corpo despencar em câmera lenta, todo o mundo pareceu girar mais devagar e eu achei que fosse morrer, embora naquele momento não conseguisse pensar em nada mais irônico que morrer a caminho da enfermaria.

Dois braços passaram por meu peito e me pararam pouco antes de eu bater no chão.

–Opa, calma aí, vou te levar para a enfermaria — olhei para a pessoa, não conhecia aquele homem — tente ficar consciente, consegue andar?

Fiz que sim com a cabeça, eu realmente não queria chegar na enfermaria carregada por um professor que não conhecia. O homem desconhecido me levantou cuidadosamente e passou o meu braço pelos ombros dele, ele era mais ou menos da altura de Danny, senti a mão dele em minha cintura e começamos a andar lentamente.

Mais ou menos na metade do caminho, minha visão voltou a ficar preta, tentei alertar o homem, mas não conseguia falar. Apertei o pescoço dele com força e ele pareceu entender, nós paramos e ele ficou me segurando pelos ombros.

–Sua visão está preta? — fiz que sim com a cabeça, minha língua ainda estava pesada e eu não conseguia falar — pernas bambas, tontura e língua que não responde?

Novamente confirmei, o homem me olhou preocupado.

–Sua pressão esta baixa, aposto que Fenton pegou pesado com vocês — ele sorriu para mim.

Minhas pernas amoleceram e sentia que ia cair, de novo. Outro par de mãos me segurou, ótimo, agora chegaria na enfermaria com dois professores.

–Bons reflexos — o primeiro falou para o segundo

–Esse é o seu trabalho, não o meu — o segundo respondeu, mas podia sentir a risada contida.

–Me ajude a levantar ela — meu corpo foi levantado e senti minhas pernas e costas sendo seguradas.

–Meu nome é Charlie, não ela — o segundo homem riu e o primeiro deu uma leve relaxada.

–Certo, Charlie, estamos com você, vamos te levar para a enfermaria — segundo homem falou.

Considerei a possibilidade de ele estar lá desde o começo, estava tão mal que nem tinha reparado. O homem que me carregava era loiro, com lindos olhos verdes e tinha braços muito fortes. A jaqueta de couro que ele usava fazia um barulho engraçado e um colar com algo parecido com um totem, estava no nível do meu olho.

O segundo homem era um pouco mais baixo, o que não significasse que ele não era alto, pois o que me carregava tinha no mínimo 1,85. Ele usava um sobretudo bege, contrastando com o cabelo preto, olhos azuis e a barba por fazer.

Ele sorriu quando viu que estava olhando-o e então olhou para o outro homem, podia ver admiração nos olhos dele. Sorri internamente e depois senti uma vontade imensa de chorar, talvez Sirén e Fleróvio não fossem os únicos, embora com certeza eram os mais indiscretos.

Já estava me sentindo melhor, tentei me mexer e sair dos braços do outro homem, mas ele me apertou mais forte.

–De jeito nenhum — ele tinha uma voz grossa e bonita — estamos quase chegando e você é tão leve quanto uma pena.

Suspirei, mas sabia que ele estava certo, mais esforço só me deixaria pior e não queria chegar na enfermaria carregada pelos dois professores e desmaiada.

Viramos para a direita, indicando que havíamos chego, o moreno foi na frente e abriu a porta, pedindo por uma maca e alguma coisa para subir minha pressão.

Senti meu corpo ser pousado suavemente em algo macio e o homem que me carregava se levantou.

–Sorte sua que não estamos na Roma Antiga, caso estivéssemos, você me deveria servidão eterna — ele sorriu e eu também — eu voltarei mais tarde.

A enfermeira se aproximou e colocou alguma coisa na minha boca.

–Beba, é soro, vai te ajudar — tomei lentamente, sentindo meu corpo voltar a ser meu. Devagar, meus ombros relaxaram, minha cabeça se recostou no travesseiro e meus olhos fecharam.

Acordei um tempo depois, não sabia se tinha se passado horas ou apenas alguns minutos. Olhei ao redor, a sala ainda estava clara, o que significava que não era mais do que seis horas. O homem de cabelos pretos estava sentado na poltrona, calmamente lendo um livro.

–Ah, olá, você acordou — ele deixou o livro de lado e se aproximou da minha cama — espero que esteja se sentindo melhor, nós nos assustamos.

–Sim, desculpe por aquilo — minha garganta estava seca, peguei um copo de água e tomei tudo em uma virada — e obrigada.

–Tudo bem, é sempre bom salvar alguém em perigo — ele sorriu e estendeu a mão — sou Seth, o outro homem é o Andrew, ele não pode vir.

–Obrigada novamente — teve uma leve batida na porta e a enfermeira entrou, carregando uma bandeja com um sanduiche e uma garrafa de suco.

–Acho que essa é a minha deixa — ele foi em direção a porta, o sobretudo esvoaçando e deixou-me com a enfermeira.

–Coma querida, você tem que se fortalecer — peguei lentamente o sanduiche e dei uma mordida, até aquele momento não tinha percebido como estava com fome — te liberarei assim que terminar, vou te dar uma autorização para que possa ficar no quarto.

Agradeci com um movimento de cabeça e ela se retirou, terminei de comer o sanduiche e me levantei da maca, já estava me sentindo melhor. Chequei o horário no pequeno relógio: 16:45, Danny provavelmente iria me matar e comer meus restos mortais com sal e pimenta.

Passei no balcão e peguei um papel, me autorizando a ficar no quarto.

–Volte caso esteja se sentindo mal — a enfermeira me entregou o papel e foi para os fundos da casa.

Sai da enfermaria me sentindo muito melhor, tinha que achar Andrew, mas não fazia ideia de onde começar a procurar. Eu esperava que ele fosse humano, ou se não fosse, que pelo menos comesse, então teria uma chance de achá-lo no refeitório.

Não vi nenhum sinal de Danny ou de Adam, de modo que subi direto para meu quarto. Após mostrar o papel para o inspetor, ele me acompanhou até o quarto.

–Desculpe, tenho que me certificar de que não vai se encontrar com nenhum menino — ele sorriu e se afastou assim que cheguei no meu quarto.

Abri a porta e entrei, nenhum sinal de Katherina ou de Ren, isso era bom, não queria dar explicações para elas. Fui até o frigobar e peguei uma barra de chocolate, para o inferno com o sal, depois de tudo que havia acontecido, eu merecia alguma coisa boa.

Sentei na cama e peguei minhas palavras cruzadas, uma caneta e uma garrafa de água. Fiquei jogando por um tempo, até que ouvi uma leve batida na porta, chequei o relógio, faltava um tempo até que os alunos pudessem subir para os quartos.

Abri a porta cautelosamente, Gwen estava parada do lado de fora, segurando um pequeno envelope.

–Eu tenho autorização para ficar aqui — tateei meus bolsos, procurando pelo maldito papel.

–Não se preocupe, senhorita Mills, vim aqui apenas para entregar isso — ela me estendeu a mão, deixando cair suavemente o papel cor de creme.

–Obrigada — fechei a porta e me sentei na cama, o envelope continha apenas uma pequena carta.

"Espero que esteja se sentindo melhor, imagino que tenha ficado daquele jeito por causa do susto. De qualquer jeito, as outras pessoas não pareceram ter sentido nada, então vou considerar isso um evento isolado e bizarro. Te espero no treino de semana que vem.

Fenton."

Ótimo, além de todas as coisas que tinha acontecido, o treinador havia sutilmente indicado que eu deveria descansar, sem treino por uma semana, talvez eu devesse aproveitar esse tempo para tentar descobrir o que está acontecendo.

Me deitei na cama, era óbvio que eu tinha feito aquilo, mas não sabia como e nem se seria capaz de repetir. Tentei me lembrar de que havia sentido, eu estava preocupada de que estivesse ficando louca, mas também estava com raiva de Danny, por ter contado e de Fenton, por ter tocado em um assunto tão delicado.

Tinha certeza absoluta que aquilo estava relacionado ao Obelisco e pensei em descer até ele, mas me lembrei que Ren tinha os desenhos e como nós três éramos as únicas que sabíamos dele, as possibilidades de eu descer e nunca mais ser encontrada eram gigantes, talvez a única coisa pior que isso era me perder e acabar parando na sala do Sirén, isso seria muito vergonhoso.

Ri dos meus próprios pensamentos, mas logo voltei a ficar séria, tinha que achar a emoção que disparava o que quer que fosse aquilo. Raiva, preocupação, medo e talvez felicidade. De qualquer jeito, aquilo que eu tinha feito na sala de Fenton tinha sido uma demonstração imensa e eu quase desmaiei, talvez fosse melhor adiar meu treinamento.

Voltei para as minhas palavras cruzadas, nada muito complicado, o computador tocava uma música suave e eu senti meus olhos se fechando.

Acordei quinze minutos depois, com o sinal tocando e avisando que os alunos poderiam voltar para os quartos. Olhei ao redor, iria tomar banho antes que alguém chegasse, me levantei e derrubei a revista, ela caiu aberta. Na página, riscos e mais riscos, formando padrões aleatórios, me abaixei e arranquei com força as duas páginas riscadas, virei as folhas, todas elas estavam cobertas por riscos.

A garrafa de água levantou voo e pousou do outro lado do quarto. Virei as folhas procurando por alguma que não estivesse riscada, não achei nenhuma. Senti algo dentro do meu peito e as coisas começaram a se afastar, o pânico subir por minha espinha. Respirei fundo, tentando me acalmar e fazer com que a cadeira parasse de fugir de mim. Depois de algumas respiradas, ela finalmente para.

–De fato, eu tinha me esquecido — falei em voz alta — além das coisas me movendo sem que ninguém encoste nelas, a sensação estranha que eu sinto e o fato das coisas se afastarem de mim, ainda tenho esses malditos apagões e esses rabiscos que aparecem no meu caderno.

Arremessei a caneta, que por algum motivo, ainda estava na minha mão e fui em direção ao banheiro.

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"Primavera" de Vivaldi ecoa pelo quarto, me levanto lentamente e esfrego os olhos. Katherina já começa a se mexer, dando sinal de vida. Porém a cama em cima da minha está em silêncio total, Ren provavelmente vai chegar atrasada. Dou de ombros e corro para o banheiro.

Tomo um banho rápido e coloco o uniforme desconfortável, Kat está no mexendo em alguma coisa que não consigo ver e Ren ainda não se move. Saio do quarto e vou em direção ás escadas, esperava encontrar Danny e Adam.

Eles não estavam a vista e eu não podia ficar muito tempo esperando, de modo que desci para o refeitório e fique esperando na nossa mesa.

Duas semanas haviam se passado desde os acontecimentos na sala de Fenton, ele não tinha mencionado mais nada, mas podia sentir que a nossa relação estava mudada. Eu tinha a impressão que ele sabia que aquilo era minha culpa, mas não falava nada por que não havia exatamente como provar que alguém podia mover as coisas apenas com o poder da mente.

–Terra chamando Charlie — olhei para cima assustada, Danny e Adam estavam parados na minha frente, os dois carregando comidas — vá se servir, nós cuidamos da mesa.

Me levantei e fui em direção ao bufê, peguei ovos mexidos e bacon, queria começar bem o meu dia. Voltei para a mesa e Ad e Dan estavam conversando.

–Não se preocupe, é só um final de semana — Adam estava com a mão no ombro de Danny.

–Olá — olhei para Dan, ele estava com uma cara triste — o que está acontecendo?

–Adam vai embora esse final de semana — Danny falou

–Eu vou ficar lá um final de semana — Adam olhou para mim — minha vó está doente.

–Vai para Blackpool? — Adam confirmou e sorriu, mas mexeu no cabelo, como fazia quando estava nervoso — tenho certeza que vai ficar tudo bem.

Ele pareceu um pouco mais relaxado e até deu um sorriso um pouco mais verdadeiro.

–Charlie, com essa dieta, eu vou ficar muito surpreso se você conseguir chegar viva até o final do ano — ele olhava para o meu prato, talvez eu realmente tivesse exagerado na quantidade de bacon — aproveite a semana americana.

Terminamos de comer em silêncio, ainda podia perceber a tristeza de Danny.

–Por favor, vamos antes de bater o sinal — Dan se levantou e fomos juntos em direção à porta — não quero pegar a multidão.

Descemos a escada para o primeiro andar e andamos até os nossos armários, que agora eram lado a lado. O corredor estava vazio, se não fosse por nós e por duas formas correndo em nossa direção.

–Você vai me pagar — um homem com cabelo raspado e musculoso passou correndo, enquanto um outro com cabelos pretos compridos e encharcados, corria atrás dele, carregando uma pistola de dardos de brinquedo e uma garrafa de Coca-Cola meio vazia — Joe, minha vingança será muito cruel.

–E lá vão eles — Danny suspirou — eles são as melhores coisas dessa escola.

–Quem são eles? — meu conhecimento dos professores dos anos seguintes era nulo — um é o Joe.

–O outro é o Luke — Adam respondeu — eles e mais dois são tipo, melhores amigos para sempre e adoram pregar peças uns nos outros.

De repente os dois voltaram, Joe ainda sendo perseguido por Luke, porém agora ele carregava uma pistola de água, atirando inutilmente no de cabelos compridos. Luke porém, mirava sua pistola em alguém que vinha correndo atrás dele. Eles fizeram a curva e um homem com cabelos pretos jogados para trás, perseguia Luke. Ele seria muito bonito, se não fosse por um dardo no meio da testa. Usando uma arma ainda maior, ele atirava em Luke, gritando ameaças e alegando já ter ideias para a próxima pegadinha.

–O do dardo na testa é o Isaac, ele é um dos três mosqueteiros — Danny olhou para mim, como que se esperasse uma pergunta.

–Que na verdade são quatro — eu completei e Danny me olhou surpreso.

–A maioria das pessoas não entende a piada — Adam falou, ele também parecia surpreso.

–Eu não sou a maioria das pessoas — pisquei para os dois e voltei meus olhos para a perseguição.

Eles estavam chegando perto do fim do corredor, quando uma porta se abriu e Varyan, o mesmo homem de cachos que tinha aparecido na aula de Henry, saiu dela. Joe, Luke e Isaac estavam a poucos metros da porta, mas Varyan parecia totalmente alheio a esse fato, ele ainda usava uma calça listrada e uma blusa do colégio, possivelmente o pijama. Joe derrapou e parou em frente a porta de Varyan, Luke e Isaac se olharam e pararam ao lado de Joe, todos os três com as armas escondidas nas costas.

–Bom dia, Var — Isaac falou

–Espero que seu dia esteja sendo agradável — Joe deu um sorriso muito cruel

–Ele está a ponto de ficar muito melhor — os três sacaram as armas e começaram a atirar em Varyan — ou pior, depende do ponto de vista.

As munições acabaram e eu podia jurar que eles ficaram desapontados, Varyan olhou para eles, ele ia falar alguma coisa, mas a risada de Luke o atrapalhou. Logo, todos os quatro estavam com o corpo dobrado e a mão na barriga, de tanto rir. Não pude evitar um sorriso, esperava ansiosamente pelo ano que vem, apenas para ter aula com eles.

O sinal tocou e os quatro entraram em salas lado a lado, esperava que os alunos de Luke estivessem acostumados com ele dando aula com metade do rosto molhado.

–Eu tenho duas aulas de biologia — dei um suspiro alto, o corredor começava a se encher de gente — meu dia não poderia ficar melhor.

Fui para a aula de história, que passou surpreendemente rápido, Lady era uma ótima professora e a matéria era muito envolvente.

A aula seguinte foi biologia e não passou tão devagar quando eu achei que iria. Na aula de Educação Física, Fleróvio nos fez dar duas voltas na pista de corrida, uma menina falou que talvez Sirén não tivesse amarrado-o forte o suficiente, para mim era uma hipótese totalmente válida. Outra aula de biologia, que felizmente foi exercícios, pois o professor também estava cansado de nós.

Graças a Danny, eu estava atrasada para a aula de inglês, Thomas era uma das melhores pessoas que eu conhecia, porém ele não tolerava atrasos.

Bati levemente na porta, Thomas abriu-a e sorriu para mim.

–Desculpe professor, eu estava do outro lado do castelo — não era uma mentira, mas eu não precisava dizer que meu amigo tinha feito eu me atrasar.

Ele sorriu novamente e saiu da frente do caminho, olhei pela sala. O único lugar vago era ao lado de Katherina e Ren não estava a vista.

Me sentei e olhei para Kat, ela se virou para mim.

"Cadê a Ren?" perguntei, mexendo os lábios mas sem emitir som.

Ela deu de ombros e voltou a olhar para frente. Observei Thomas, o cabelo liso e comprido mexia em harmonia com a cabeça e isso me distraia. Antes que eu percebesse, o sinal tocou, indicando o final da aula.

Resolvi sair e procurar Ren, deixei um bilhete no armário de Danny, pedindo que me encontrasse no fim da tarde e segui para o jardim.

Andei a esmo por um tempo, procurando em curvas ou pontos escondidos pelos arbustos. O jardineiro, Nicholas Espinoza, podava algumas plantas e afirmou não ter visto minha colega de quarto. Ele disse que ficaria de olho, caso ela aparecesse.

Resolvi ir procurar no nosso quarto, felizmente, um inspetor homem estava de vigia e, usando a famosa desculpa dos "problemas femininos", eu consegui entrar no quarto.

Ren não estava lá, a cama dela estava arrumada, o que significava que Gwen não tinha encontrado com ela. As roupas dela ainda estavam lá, portanto ela não tinha fugido do castelo, mas também não tinha nenhum bilhete.

Dei de ombros, pelo menos eu havia tentado. Olhei no relógio: 14:30. Eu já tinha perdido o almoço, então fui até as máquinas e gastei todos os meus créditos em bolachas e refrigerantes.

Felizmente, eu sabia o que fazer, estava me preparando para aquele momento desde que tinha percebido que tinha sido que havia feito aquilo na sala de Fenton. Peguei algumas latinhas vazias e fui para o jardim. Eu tinha visto aquele lugar quando andava até a enfermaria. Enchi as latas de terra e posicionei elas ao meu redor, formando um circulo.

–Certo Charlie, tente se concentrar — falei comigo mesma, não estava preocupada que alguém me ouvisse — raiva parece ser um bom canalizador.

Tentei me recordar do momento que senti muita raiva, não foi quando meu pai foi embora. Eu era nova demais para lembrar do sentimento. Talvez ano passado, quando meu padrasto anunciou que eu viria para o internato. Estava funcionando, sentia como se tivesse um milhão de braços, estendidos em todas as direções, sentia as latinhas e então, lentamente, movi meus braços, empurrando elas. Ouvi um leve barulho metálico, indicando que elas haviam caído. Abri os olhos, todas as seis latinhas estavam no chão. Eu sorri vitoriosa, meus braços reais estavam levantados. Será que eu teria que mexer as mãos toda vez que quisesse usar meu mais novo poder?

Me concentrei novamente, tentei levantar as latinhas, mas sem sucesso, talvez eu apenas afastasse, ou talvez ainda não havia liberado essa expansão. Sorri ao pensar em mim mesma como um jogo, em que eu tinha que progredir para liberar melhorias. Até agora, eu parecia capaz de afastar as coisas em um circulo e estava me perguntando se conseguiria focar apenas em uma das latas.

Olhei para uma especifica, levantei o braço, a mão aberta e a palma voltada para a lata, assim parecia ser mais fácil. Voltei para a raiva, ela era mais fácil de achar e eu parecia ter aos montes, quando recebi a carta avisando que deveria ficar no Natal, aquele era o momento perfeito para descontar toda a raiva que eu tinha do meu padrasto. Senti suor escorrendo pelo meu rosto, meu braço estava começando a ficar cansado.

Um único plin e uma risada vitoriosa, derrubar apenas uma era infinitamente mais difícil do que derrubar todas elas juntas. Chequei as horas, eu tinha que voltar correndo, Adam iria embora em cinco minutos. Juntei as latas e fui para a entrada do castelo.

Um carro preto estava parado na entrada e Adam abraçava Danny. O motorista olhava para os dois, como se já estivesse acostumado, Ad se soltou e meu viu.

–Finalmente, achei que teria que ir embora sem te ver — ele me deu um abraço de urso, me girou e me deu um beijo na testa — tente não ficar com muita saudades.

–Isso vai ser quase impossível — sorri para ele, ajeitando a gola da jaqueta jeans que Adam usava — não chegue tarde.

–Não me espere acordada — ele piscou para mim e acenou para Danny, entrando no carro.

Dan veio para o meu lado e segurou a minha mão, ele parecia estar contendo o choro.

–Vamos Charls, temos coisas para fazer — ele usou o apelido que eu detestava, mas não fiz nenhum comentário, teria minha vingança — o que vai fazer hoje a noite?

–Estava pensando em ir caçar uma baleia nos mares árticos, quer vir comigo?

–Na verdade não — já havíamos chego no terceiro andar, Danny me puxou para um abraço — espere uma coruja.

–Certo — retribui o abraço, Adam havia me falado que Danny tinha alguma coisa pra contar — leve as bebidas.

Ele seguiu para o corredor, entrando no quarto perto da janela e acenando para mim.

Subi correndo as escadas e entrei no quarto, nada de Katherina e ainda nenhum sinal de Ren. Deitei na cama e tirei um cochilo, até que fui acordada por uma batida na porta. Katherina mexia no computador e a cama de Ren ainda estava vazia, mas a búlgara não parecia muito preocupada.

Atendi a porta, Gwen estava parada, segurando um papel na mão estendida.

–Espero que isso faça algum sentido para você — ela me entregou o papel e fechou a porta.

–Obrigada — falei através da porta fechada.

Desdobrei o papel, Danny claramente tinha arrancado do caderno de física, podia ver anotações sobre MUV na parte de trás da folha. Com alguma concentração e muita paciência, consegui desvendar o bilhete.

"O dobro de temporadas, traga doces.

D.N."

Danny estava obcecado por Battlestar Galactica, ela tinha quatro temporadas, vezes dois. Olhei no relógio: 19:30, eu tinha trinta minutos antes de me encontrar com Danny.

Tomei um banho rápido e me vesti, torcendo para ter algum chocolate na gaveta de comidas. Tinham duas barras, não era muito, mas teria que servir. Chequei o relógio, ainda tinha cinco minutos, então eu me levantei e segui muito devagar para a janela.

A jornada ao telhado não era difícil. Eu pulava no telhado de uma torre do lado de fora e da torre eu pulava para o telhado do castelo. Eu suspeitava que era assim que Danny subia, porém ele tinha que escalar a torre para finalmente chegar no telhado.

Danny estava parado perto da borda, com o sobretudo esvoaçando, ele parecia um super herói, pronto para salvar o mundo.

–Olá — eu me sentei na colcha e coloquei o chocolate perto de coisas enroladas em papel alumínio — como você tá?

Ele olhou para mim, os olhos dele estavam vermelhos e eu podia ver a tristeza nas orbes verdes.

–Foi assim da última vez, ele falou que iria fazer uma visita e não voltou mais — Danny passou o braço pela minha cintura, me puxando mais perto, eu apoiei minha cabeça no ombro dele — duas semanas mais tarde, um homem veio pegar as coisas dele.

–Dan — passei a mão no cabelo dele, como ele gostava — eu tenho certeza que ele vai voltar.

–Eu tenho medo que ele não volte — Danny olhou para mim, ele estava desesperado — você me perguntou, há um tempo, o que eu estava fazendo aqui.

Ele fez uma pausa e respirou profundamente, podia sentir o peito dele subir e descer.

–Talvez seja hora de você saber — ele suspirou — meus pais sempre foram muito religiosos, eles tem uma mente muito fechada e são totalmente conservadores. Então eu imagino que tenha sido um choque quando eu falei que era gay, eles me expulsaram de casa, eles pagam o colégio e mandam dinheiro quando eu peço, mas não falam mais comigo.

Danny olhou para mim, olhei nos olhos dele e vi minha tristeza, eu era a pessoa mais mente aberta do mundo, mas algumas pessoas não aceitavam bem alguns assuntos.

–Não é como se fosse minha culpa, mas eu não sinto vergonha de nada. Meus pais que pareceram não aceitar isso muito bem — ele olhou para mim — você já manteve um segredo tempo demais por que tinha medo da reação das pessoas? Eu tentei esconder, eu tentei negar, mas estava me mantando, eu não conseguia mais manter em segredo, eu não podia mais ficar em silêncio.

Eu abracei Danny, não falei nada e ele também não, ficamos lá, minha cabeça no peito dele e ele com o queixo na minha testa. Sentia que ele estava contendo o choro, tentando ser forte, mas sabia que algum dia aquilo iria explodir.

Ficamos naquela posição por alguns minutos e então, Danny deu sinais de que já estava consolado.

–Eu sei o que você vai perguntar, o Adam é apenas meu amigo — ele sorriu — seria mesmo um desperdício, para você e sorte minha.

Eu não pude conter uma risada, eu sentia ele mais relaxado agora que nossa relação estava esclarecida. Não podia dizer que não estava surpresa, mas não era como se esperasse que além de ter poderes mágicos, eu teria também um namorado perfeito e carinhoso.

–Eu trouxe hambúrguer — olhei para os embrulhos de papel alumínio — e coloquei bacon.

–Eu poderia te beijar — Danny sorriu com o comentário e me estendeu um sanduiche — mas prefiro comer o hambúrguer.

Comemos e ficamos um tempo conversando sobre trivialidades, a companhia de Danny era muito mais que agradável e agora parecíamos nos entender quase cem por cento.

Olhei para o pequeno relógio, já eram quase dez horas.

–Temos que voltar antes da ronda — Danny se levantou e começou a juntar as coisas, ele colocou tudo em uma mochila e passou ela para as costas, prendendo na barriga — eu realmente não quero ver você descendo.

Me aproximei de Danny e dei um beijo na bochecha dele, ele me pegou pela cintura e encostou o lábio na minha testa.

–Te vejo por aí.

–Não se eu te ver antes — ele sorriu e eu me afastei.

O caminho não era nem de longe tão difícil quanto havia sido da primeira vez, entrei pela janela e abri a porta do quarto. Katherina continuava no computador, possivelmente falando com a menina ruiva. Eu apenas peguei um livro e deitei na cama, a conversa tinha me deixado atenta, eu não conseguiria dormir nem se quisesse e eu não queria. Tinha que ver se Ren estava bem.

Cerca de vinte minutos depois, a porta fez um barulho e a menina japonesa entrou no quarto.

– Ren você chegar atrasada na aula é uma coisa, mas chegar atrasada em tudo é exagero — eu estava tentando quebrar o gelo.

–Desculpe-me? — ela não parece entender minha tentativa

–Sem desculpas — eu falo em tom de brincadeira — é feio matar aula.

–Charlie — Katherina chama meu nome e me encara, posso ver a desaprovação nos olhos dela — Ren, você está bem?

–Ah sim — ela responde — mas, pensando bem... vocês não estão sentindo como se algo tivesse mudado depois de termos tocado no Obelisco?

Sinto meus olhos se arregalando, não era possível que elas tivessem descoberto, eu tinha tomado tanto cuidado. Os ombros de Katherina se tencionam levemente, também havia alguma coisa errada com ela.

–Isso se chama puberdade — tento desviar a atenção do assunto, qualquer coisa para esquecerem disso.

–Charlotte, pare de ser tão insensível.

–Parar de ser insensível, para mim, é quase tão difícil quanto você parar de ser grossa — eu simplesmente não podia deixar passar em branco, estava com os nervos à flor da pele, me levanto e ando até o beliche dela, esperando por uma briga.

– Pelo menos eu tenho senso comum o suficiente para não sair fazendo piadas das desgraças dos outros — Kat pula do beliche e fica na minha frente, o que é engraçado, pois eu sou mais alta.

– Desculpa Kat! Mas as desgraças dos outros são muito melhores que você em roupas pretas — sinto as coisas tremerem levemente, o que eu não precisava era que as coisas começassem a voar.

– Oh! Coitadinha da princesa que tem a vida perfeita com o querido padrasto e todo aquele dinheiro – Katherina se aproxima e me empurra, a última coisa que eu precisava era uma briga física — acho que você nunca vai saber o que é desgraça.

–Pelo menos eu tenho família — as coisas começam a tremer ainda mais, mas eu não me importava, queria voar no pescoço dela, mas me contendo com um empurrão.

– Tente convencer seu pai disso! Quem sabe ele volta!

– Encare o fato. A probabilidade do meu pai voltar é maior do que a sua! — naquele momento, eu não me importava com golpes baixos, eu simplesmente queria que ela calasse a boca.

– Meu pai voltaria por amor e o seu? Tem certeza que ele não fugiu porque sua mãe era tão ruim quanto você?! — sinto um dos braços invisíveis agarrar o frigobar e ameaçar derruba-lo. Ela se atreve a falar da minha família.

– Você não fale da minha...

Nesse momento, algo impossível acontece, Ren perde a paciência e grita conosco. Sinto como uma criança pega fazendo pirraça.

– CHEGA!!!Eu já entendi que vocês duas se odeiam e francamente eu não me importo! Se quiserem se matar ali no canto agora, eu não ligo! Mas vocês tem que admitir que tem alguma coisa acontecendo!! Agora se as duas puderem parar de serem infantis e agressivas por 30 segundo, EU AGRADECERIA!!!

Eu me dou por vencida, Ren está certa, realmente tem alguma coisa errada acontecendo, me sento no beliche, mas o que Katherina falou não sairia tão fácil da minha cabeça, eu teria a minha vingança;

– Obrigada — Ren parece apreciar o silêncio — agora, eu sei que tem algo estranho acontecendo, então... sugestões?

Katherina olha ao redor, todas nós sabemos o que ela vai falar, mas nenhuma de nós quer falar em voz alta, pois falar em voz alta torna real. É como entrar em um caminho sem volta, nos ligar para sempre à essas coisas sobrenaturais.

–Eu tenho uma ideia — me viro para Kat, a última vez que ela falou isso não deu muito certo — e eu sei que da última vez que falei isso, tivemos enormes problemas, mas dessa vez acho que é realmente necessário.

Está na hora, estamos oficialmente ligadas, olho para minhas companheiras, espero transmitir determinação.

– Vocês provavelmente já sabem que ideia é essa mas... eu acho que nós deveríamos voltar lá.

Notas finais
~Nymeria Espero que tenham gostado