Notas iniciais
Espero que gostem. musicas: http://www.youtube.com/watch?v=b7HGTs0v5Mk (lala’s lullaby) - para o primeiro sonho http://www.youtube.com/watch?v=IUjZZLW3jWU (queen bee) http://www.youtube.com/watch?v=jOxRYy83ZSY (five for fighting – superman) - para o dia ruim

A mulher ergue delicadamente uma xícara de porcelana do prato e leva-a aos lábios, tomando um gracioso gole. Aproximo-me dela e reconheço seus cabelos pretos e suas delicadas mãos.

– Que bom que conseguiu vir querida – sua voz é melodiosa e leve.

– Eu... eu não vim, eu nem sei como estou aqui.

Ela não responde, apenas gesticula para que eu sente e pega um bule do centro da mesa, enchendo mais uma xícara com um líquido marrom claro. Sento-me na cadeira vazia do lado oposto da mesa redonda, o pano branco bordado que cobre a superfície faz cocegas quando entra em contato com a pele da minha perna.

– Leite e açúcar? – ela pergunta esticando um recipiente de cerâmica, cheio do líquido.

Faço que não com a cabeça e tomo a xícara em mãos, sentindo o calor emanado da porcelana. Volto minha atenção para meus arredores e percebo estar no mesmo lugar de antes, quando encontrei a mulher da primeira vez. Olho para a direita e vejo árvores impossivelmente velhas mexendo os galhos, como se fossem mãos e capturando alguns vagalumes que voam muito perto. Olho para a esquerda e vejo a velha sequência de lagos enfileirados que estendem-se até onde minha vista consegue alcançar.

– Então eu voltei – suspiro.

Uma risada suave ecoa pelos ares e atinge minhas orelhas, fazendo-as se arrepiarem.

– Ren, você está aqui hoje por um motivo.

– Sonhos sempre tem motivos – retruco.

– Menina esperta. Mas pare para pensar, realmente juga esses sonhos como mais uma parte do seu cotidiano? Ou consegue ver a mudança?

Ela soa curiosa e ao mesmo tempo preocupada. Estranho, ela não existe, ela não pode existir, afinal isso é só um sonho e sonhos não existem no mundo real.

– Quem somos nós para julgarmos qual é o mundo real e qual é o imaginário? – Ela responde, como se tivesse lido a minha mente – mas hoje não estou aqui para aborrece-la com poesias e charadas Ren. Não. Hoje estou aqui para mostrar-lhe algo.

– Algo? Tipo as visões daqueles lugares de antes?

Ela não responde e levanta-se, começando a andar para longe, levanto também e começo segui-la.

– Hey! Onde você está indo? Pensei que ia me mostrar alguma coisa?! – grito, mas ela parece ser muito mais rápida que eu. Em alguns segundos, não posso mais ve-la.

Olho ao meu redor, tentando entender o que ela quis dizer com “mostrar algo”, e porque ela simplesmente foi embora. Mas não é preciso muito tempo para eu perceber que ela já estava me mostrando algo.

A imagem ao redor de mim começa a tremular e o chão a se desfazer. Tento me equilibrar, mas o tremor é tanto que minha pernas falham e despenco no que antes seria grama fofa, mas agora se transforma em um assoalho.

Ergo a cabeça para tentar localizar onde estava, mas me arrependo logo em seguida. Sabia que lugar era esse, era meu quarto de criança. Dou alguns passos para frente vejo uma menina deitada na cama, as bochechas esmagadas pelo travesseiro e os olhos pacificamente fechados. Do seu lado uma mulher está sentada, seus lábios finos se mexendo constantemente, ela está cantando. Encaro minha mãe e relembro de seus cabelos marrons escorrendo pelo rosto e formando pequenos cachinhos nas pontas, assim como os meus.

A imagem começa, aos poucos, a ganhar som e escuto palavras em latim ecoando pelo quarto em uma canção de ninar. A mesma que ela cantava toda a noite para mim. A imagem é tão agradável, que me sinto, aos pouco sucumbindo à vontade de ficar para sempre, escutando a voz doce da minha mãe ecoar pelo quarto e embalar-me para o sono. Porém um tremor repentino me faz olhar em volta assustada, a imagem começa a sumir e dar forma a outra.

Antes que eu perceba estou gritando. Não! Eu não quero que essa imagem suma! Enquanto luto para continuar escutando minha mãe, a voz dela vai aos poucos desaparecendo e tremulando. Tento segura-la mas o quarto começa a sumir e dar lugar a uma mão que se estica para frente, vejo-a de lado e bem próxima a meu rosto. Mas não quero prestar atenção, quero que o quarto volte, continuo me agarrando a musica que ecoa nas minhas memórias enquanto a mão se força dentro da minha mente.

Durante os poucos segundos que escolho prestar atenção nela percebo uma abotoadura dourada com uma esmeralda dentro, são mãos grandes, provavelmente de um homem. Grito mais forte e balanço a cabeça, na esperança de que isso faça a mão desaparecer e a minha mãe voltar.

A musica fica cada vez mais fraca e meu desespero aumenta. Não! Por favor, não me tire daqui! Meus olhos começam a arder, mas eu ainda seguro as lágrimas, segurando a voz fraca que ainda ecoava minha canção. Mas aos poucos ela começa a evaporar, cada vez mais fraca e cogito chorar.

Minhas pálpebras caem, cansadas de segurar as lágrimas e de lutar por uma imagem de uma memória perdida. A mão se projeta mais para dentro do meu cérebro, mas minha consciência começa a escapar, como sempre acontecia entes de eu acordar. Um pouco antes de tudo sumir, vejo uma segunda mão, dessa vez bem menor, se estender no meu campo de visão. Essa era tão pálida quanto a primeira, mas definitivamente de mulher, uma pulseira está pendurada no pulso dela, e um pingente de esmeralda se agarra com forca no fio prata que envolve seu pulso.

Meus olhos começam a piscar e vejo o teto do meu quarto no internato, teto, mãos, teto, mãos. Ela estende o braço para ele, e com um aperto de mãos abro os olhos para o teto do meu quarto.

O frio repentino atinge meus braços, quando atiro as cobertas para o pé da cama e levanto repentinamente. Olho para o relógio de pulso pendurado na ponta do beliche, 6:57, daqui a algumas horas o alarme tocaria e eu, novamente, não acordaria e chegaria atrasada para a aula.

Jogo as pernas para fora da cama e as balanço, para frente e para trás, alternadamente, teria que esperar acordada até a hora do café da manhã. Suspiro e pego meu caderno de desenhos de uma gaveta, a leve luz entrando pela janela era o suficiente para meus olhos conseguirem distinguir os desenhos.

Abro o caderno e a primeira figura que vejo é uma velha com apenas algumas leves rugas no rosto e um sorriso confortador, era Kaede, havia desenhado isso no dia que ela me deu o caderno. Vou virando as paginas até chegar na desejada última página e me deparar com a mulher dos sonhos.

Tomo um tempo para analisar o rosto dela e absorver os detalhes. Ela tinha um queixo fino e um nariz pequeno, levemente empinado, como se fosse da realeza, os cabelos lisos escorriam dos lados do rosto sem nenhum fio arrepiado e acabavam um pouco abaixo dos ombros, onde formavam leves cachos. Seus olhos eram grandes e redondos e os cílios compridos alcançavam as sobrancelhas detalhadamente esculpidas, como se ela tivesse acabado de sair do salão.

A mulher era bonita, mas o que mais chamava-me atenção era sua postura, durante todo o sonho senti como se ela estivesse guiando-me e ajudando, mas nos últimos segundos antes de fechar os olhos, percebi como seus ombros eram tensos e sua calma mascarava um sentimento de... Raiva? Amor? Compaixão? Pena? Arrependimento?
Fecho o caderno com força e sinto o vento bater de volta no meu rosto. Esse era o problema, sempre fui ótimas em perceber sentimentos, mas com aquela mulher, era... Estranho. Principalmente porque ela era de uma sonho e personagens de sonhos não tem tanta personalidade, eles não são assombrados ou tem um passado ruim, eles só não existem!

Jogo o caderno para o outro lado da cama e pulo no chão, apoiando os joelhos na madeira segundos depois, "lembre-se de dividir o peso Ren. Você não quer quebrar a perna aqui", sussurro em minha mente. E levanto-me andando até a janela, abrindo levemente as cortinas. Estamos virados para o leste, então posso ver os delicados raios de sol começando a espiar o mundo por entre as águas do oceano, o vento bate contra a janela e eu desejo poder abri-la e senti-lo no meu rosto, mas não queria arriscar acordar uma das minhas colegas dormindo. Suspiro e fecho a cortina.

Não tinha muito o que fazer de madrugada em um quarto, sem TV, sem internet, sem celular e praticamente sem liberdade. Subo de novo para meu beliche e deito na cama, sentindo o colchão macio embaixo do meu corpo e o calor que ainda não havia deixado as cobertas, o teto acima me encara, branco e austero.


– Então você gosta do meu cabelo?

Estou em uma cozinha, uma mulher mexe em uma panela virada de costas para uma menininha. Sinto cheiro de macarrão e shoyu no ar, era aconchegante. A mulher então vira-se para mim, cabelos curtos e vermelhos adornam sua cabeça e algumas rugas são visíveis abaixo de seus olhos, era Kaede, bom, costumava ser Kaede quando eu era mais nova. Dirijo meus olhos para a menininha sentada à mesa, balançando os pés. Era eu.

Aproximo-me e vejo que Kaede entrega-me uma tigela, sinto o cheiro de gengibre e shoyu emanado do pote. "Lámen...", penso, minha comida favorita. Sento do lado da menina, ou do meu lado e observo-me... a... comendo. Parecia tão feliz, mas também, aquela era uma época feliz para mim. Fecho meus olhos, sabendo que quando reabri-los, tudo terá sumido.

Pressiono minhas pálpebras mais forte, não quero que esse momento se vá, mas pouco a pouco minha curiosidade vence e permito-me dar uma espiada na próxima cena.

Reconheço o lugar, reconheço a memória e mais do que nunca desejo não estar aqui. Tento fechar os olhos mas eles não obedecem, suponho que você tenha que ficar um tempo em cada cena, atiro minhas mãos, na frente do meu rosto bloqueando as imagens, não que essas fossem meu maior problema. Não precisava ver, sabia exatamente o que estava acontecendo. Uma garotinha estava escondendo-se atrás de uma parede, ela havia recebido ordens de voltar para o quarto e ir dormir, mas a curiosidade foi maior e decidiu seguir a mulher de cabelos vermelhos até a cozinha da casa.

O resultado? Desastroso.

As vozes começam a entrar na minha cabeça, embora eu já saiba o que eles vão falar. Desisto dos olhos e pressiono minhas mãos nos ouvidos, tentando bloquear os sons, mas não adianta, as vozes não estão atrás da parede, estão dentro da minha cabeça, dentro das minhas memórias.

Finalmente meus olhos ganham permissão para serem fechados e minha cabeça é levada para longe da tortura. Quando abro-os de novo, encontro a mulher dos sonhos anteriores encarando-me, ela levanta uma mão, procurando tocar-me. Dou um passo para trás, assustada com o gesto e percebo que ela não quer me tocar, seus olhos passam por mim e focam em algo atrás do meu corpo, tento virar, mas não consigo, a sensação é sufocante. Segundos passam como horas enquanto assisto a mão aproximar-se, "tão perto, o que vai fazer quando me alcançar? Atravessar? Parar? Bater?". Perguntas assolam meu cérebro e eu encaro a mão cada vez mais perto, 2 centímetros, 1 centímetro e meio, meio centímetro. Mas outra mão a impede.

Olho para meu ombro e vejo um braço atravessa-lo, abotoaduras douradas chamam minha atenção, vejo uma pequena pedra verde no meio da peça e um desenho delicado na superfície, de um castelo. Pisco uma vez e a imagem some, sem abotoaduras, sem mulher, sem paralisia.

Acordo assustada pelo sonho e percebo que o quarto está vazio, de novo, o que significa que eu estava atrasada, de novo!

Nem me dou o trabalho de checar o relógio e pulo do beliche, desde que cheguei acho que não usei a escada para descer nenhuma vez, vou em direção ao banheiro, ainda meio sonolenta e lavo meu rosto, na esperança de que isso me ajude a acordar. Quando consigo identificar as coisas sem estarem borradas volto para o quarto e resolvo checar o relógio, só para ver o quanto eu havia perdido de aula.

Pego a aparelho na mão e viro-o para mim. 8:05... Derrubo o relógio no chão e disparo pelo quarto, tinha cinco preciosos minutos para chegar na aula, não precisava chegar atrasada hoje! Visto-me na velocidade da luz e disparo pelo colégio, tendo certeza de trancar a porta do quarto antes de sair. Quando chego na sala só tenho tempo de sentar antes do professor fechar a porta e começar a explicação.

Para minha sorte, a primeira aula de segunda era biologia e o professor era mais tranquilo com relação a horários, "sorte que não era o Sirén". A aula passa rápido e assim que o sinal toca, espero todos saírem para poder falar com Hideyoshi, tinha algumas dúvidas sobre a matéria. A conversa é rápida e ele só me aconselha a ler alguns livros e parar de faltar as aulas dele. Sorrio constrangida e ele me relembra, mais uma vez, da lenda da alma presa no passado.

°_°_°_°

Segunda.

O corredor para a próxima sala parecia interminável. Tinha passado o recreio inteiro escutando um sermão do Diretor sobre não chegar mais atrasada, agora estava com fome, cansada e quase atrasada de novo. Cogito correr até a sala, mas descarto a opção, a culpa ia ser do diretor mesmo. Continuo caminhando até que uma presença repentina atrai minha atenção, giro nos calcanhares e dou de cara com Peter.

– O que você está fazendo aqui? – pergunto.

Peter ignora minha pergunta e segura-me pelos ombros, virando-me de costas para ele e empurrando meu corpo para que volte a andar.

– Nada. Só indo para a próxima aula.

Ele soa distraído.

– Você tem certeza que está bem? – tento me virar, mas sou impedida.

– Estou ótimo! Só sabe...? Apreciando a caminhada – sua voz soa contida, como se ele tivesse tentando segurar uma risada. Fico curiosa, será que tinha algo nas minhas costas?

– A caminhada até a sala de aula? – desisto de tentar me virar e continuo andando.

– Sim! É uma excelente caminhada, faz bem para o coração.

– Peter, são alguns poucos metros – paro de andar repentinamente e ele bate nas minhas costas.

– Ouch! Porque parou? – consigo finalmente me virar e encarar meu amigo, que esfrega o peito irritado.

Pouso uma mão na testa dele e faço uma cara de preocupada.

– Peter tem certeza que não está se sentindo mal? Você não parece estar no planeta Terra hoje.

Ele mostra a língua para mim e tira minha mão de sua testa.

– Muito bem Ren. É aqui que nos separamos – ele me vira e dá um empurrão nas minhas costas, eu pulo para frente alguns metros.

– Okay, okay! Já entendi, você não me quer por perto, já estou indo.

Começo a andar na direção da minha sala, agora com mais esse imprevisto, com certeza estava atrasada.

– Mas Ren – escuto Peter gritar de longe, continuo andando, não estava com vontade de virar e encara-lo de novo – Ren! Não me ignore! – ele soa ofendido e meio irritado – Tudo bem então! Sua perda!

– Peter não tem nada que você possa falar que possa ser minha perda – retruco ainda me recusando a virar.

– Podemos testar essa teoria! – ele exclama – Ren, jura? Pikachu é meio clichê.

Continuo caminhando, não dando muita bola para o que ele havia falado, “que papo é esse de Pikachu?”, penso. De repente percebo o que ele quis dizer, hoje havia me trocado com muita pressa, mas ainda lembrava de algumas coisas. Estava com uma calcinha do Pikachu!

Viro-me surpresa e minhas mãos voam para a parte de trás da minha saia, sinto o tecido preso dentro da calcinha e começo a ferver de raiva. Ele andou atrás de mim esse tempo todo! E não me contou sobre a saia!

Desprendo o tecido preto do meu Pikachu e certifico-me de que não esteja mais aparecendo nada. Então fico reta novamente e encaro Peter, enfio minha mão dentro da mochila e pego um caderno.

– Peter! – grito de longe. Ele mal percebe, está muito ocupado tendo um ataque de riso – sabe você não fez uma sábia escolha de posição. Porque não importa o quão longe você esteja. NÃO SUBESTIME MINHA MIRE! – grito e ergo o caderno o lançando no ar.

O objeto voa pelo corredor e acerta Peter no rosto o nocauteando no chão, aproximo-me para ver ele deitado, com a cara para cima e uma marca vermelha na testa. Tinha sorte que ele não estava muito longe, ou nunca teria tido força para jogar o caderno.

Pouso a sola do pé na testa machucada e pressiono-a contra o chão. Ele solta um gemido e ergue os braços tentando tirar minha perna de sua cara.

– Da próxima vez que isso acontecer – falo com um tom ameaçador – eu vou ter certeza de não ter um coldre vazio – sussurro me abaixando um pouco.

Ele resmunga alguma coisa em resposta e eu retiro meu pé. Estendo a mão para ele e ajudo-o a se levantar. Tomo um tempo para examinar a testa, estava vermelha e com certeza deixaria um galo mais tarde, mas tinha que admitir, estava orgulhosa da minha mira.

– Nota mental, da próxima vez vir de armadura – ele resmunga esfregando a testa – você podia ter me matado!

– Mas não matei! E você devia ficar feliz por isso, não é como se eu não tivesse um motivo.

– Estou feliz por não ter sido meu nariz!

– Eu não estava mirando no seu nariz – retruco agarrando a gravata de garoto e arrastando ele pelo corredor.

– O que não significa que você não poderia ter acertado ele – Peter tenta se livrar das minhas mãos mas falha – onde estamos indo?

– Para a enfermaria, vamos checar sua testa.

– Ah sim! Mal posso esperar para escutar sua explicação, “hey enfermeira. Eu acabei de tentar matar meu querido amigo e agora preciso que você concerte o que sobrou dele.” – ironiza aumentando o passo para não ficar para trás.

°_°_°_°

– Eu sei como usar uma bolsa de gelo! – ele exclama irritado, pressionando o plástico azul contra a testa enfaixada.

– Fale isso para a enfermeira! – respondo acompanhando Peter. A moça havia nos dito que devíamos voltar para a sala e tinha nos dado um papel, para que pudéssemos entrar sem problemas – porque ela claramente não acha que você pode.

– Como eu posso não poder? É uma bolsa de gelo, não tem grandes segredos por trás dela.

– Sei lá, de repente é uma bolsa mágica que vai dar poderes mágicos para quem usá-la corretamente. E por isso ela deu as instruções para você.

– Ah claro, porque estudantes ganhando poderes mágicos por causa de um objeto misterioso é bem normal – ele ironiza desencostando a bolsa da testa. Peter começa a examiná-la, ele parece interessado pelo plástico azul.

– Claro, estudantes ganhando poderes por causa de um objeto estranho, na escola, não sei se isso é clichê ou impossível.

– Chame do que quiser, amanhã eu te garanto que vou estar atravessando paredes e voando com a cueca por cima da calça.

– Claro, você vê a minha calcinha hoje e eu vejo sua cueca amanhã.

Peter solta uma risadinha maliciosa e encara-me.

– Não. Pera! – exclamo – Isso saiu errado, mas você entendeu.

Ele ri e balança a cabeça, dando o assunto como encerrado, agora estava meio vermelha e com o dobro de raiva do meu estupido amigo. Quando dou por mim já estamos nos corredor que dão para as salas de aula.

– E é aqui que nos separamos Ren – ele fala, voltando a pressionar a bolsa de gelo na testa – Ah, Danny vai me matar.

– Danny?

– É. O loiro alto, que por acaso é amigo da sua colega de quarto?

– Não. Eu sei quem é ele, mas porque ele iria te matar? Além de motivos óbvios, tipo a sua irritante existência.

– Ha! Muito engraçado – sorrio para ele com a minha melhor cara de convencida – Mas serio, ele vai me bombardear com perguntas sobre como eu consegui a proeza de bater a testa, e graças a uma certa pessoa – ele se aproxima e envolve meu pescoço com o braço livre esfregando o topo da minha cabeça com a bolsa de gelo. Sinto o frio se instalar no meu cabelo, até teria achado refrescante considerando que hoje estava meio quente, mas as circunstâncias não ajudavam – eu vou ter que arrumar uma desculpa.

– Ou – me livro do abraço de ferro dele – você pode falar a verdade, se ele prometer não me matar por machucar o querido namorado dele, tudo bem.

Peter faz uma careta para mim e belisca levemente minha bochecha.

– Até mais Ren.

Aceno com a cabeça e começo a andar até a minha sala. Um pouco antes de entrar, escuto um grito direcionado para mim.

– E Ren! O Danny não é meu namorado!

°_°_°_°

– Quanto tempo você acha que esse galo vai durar? – Peter me pergunta na saída do refeitório.

– Não sei, mas espero que isso tenha te ensinado alguma coisa.

– É... Se você estiver em alguma situação embaraçosa, não avisar – ele ironiza.

Reviro os olhos pelo comentário e volto minha atenção para o livro que estava lendo. Peter se irrita e gruda no meu pescoço, lendo por cima do meu ombro.

– Dá pra parar! – exclamo.

– Não... – ele murmura forçando uma voz infantil – você não me dá atenção! Tudo que você quer saber é desse livro, você não me ama, você não me dá atenção, eu preciso de atenção... – Peter começa a chorar falsamente e a repetir a reclamação até que eu fecho o livro e viro para ele.

– Prestando atenção agora. Feliz?!

O garoto não responde, apenas bate palmas e abre em sorriso imenso. Voltamos a andar, dessa vez conversando sobre trivialidades, até que escuto passos pesados ecoando atrás de mim. Peter não percebe e continua andando, até que cambaleia repentinamente e pula um pouco para frente para manter o equilíbrio.

Afasto-me para ver o que tinha acontecido e deparo-me com um menino moreno se apoiando nas costas do Peter, com os óculos quase caindo do rosto.

– ADAM! – Peter exclama – O que você está fazendo aqui?

– Que péssimo jeito de me receber de volta! – o garoto de óculos responde saindo das costas de Peter.

– O que diabos vossa senhoria está fazendo aqui?!

– Melhorou! – Adam estende um punho fechado e Peter dá um soco, o que faz o sorriso do garoto de óculos aumentar genuinamente.

– Mas sério Adam, o que você está fazendo aqui?

– Voltei porque senti muita falta de vocês.

– Olha eu sei que sou irresistível, mas cruzar o mundo por mim, já é demais.

Adam sorri e finge que vai beijar Peter, fazendo um biquinho e se aproximando, mas desistindo no último segundo.

– E quem é essa meu amigo – ele se solta de Peter e caminha na minha direção abaixando a cabeça e encarando-me – Oh ela é tão fofa – apoia as mãos nos joelhos e se abaixa como se estivesse falando com uma criança – e tão pequena. Quando começou a brincar de boneca Peter?

Meu amigo só revira os olhos e ignora o comentário.

– Olá! Meu nome é Adam – ele se dirige a mim, fazendo aquela típica voz de quando falamos com crianças – e o seu?

– Ren? – respondo.

– Oh ela é adorável! Onde comprou ela?

– Aula de tiro – Peter responde.

– E... não é mais tão adorável! – Adam se levanta e olha para mim como se eu não fosse mais um bebê – Mas Peter que bom te ver meu amigo! Preciso de uma ajuda para encontrar o Danny e você é o cara certo para isso! – Adam passa o braço pelos ombros dele e começa a arrasta-lo – Vamos lá! É a volta dos três mosqueteiros!!

Peter passa o braço em volta de Adam e olha para mim por um segundo como se pedindo permissão. Abano a mão, mandando ele ir e o garoto volta a olhar para frente. Quando eles já estão quase no final do corredor escuto Adam gritar:

– Até mais Ren! Foi um prazer te conhecer!

– Até mais Adam! – grito de volta, o mais alto possível. Ele levanta uma mão no ar e acena que tinha escutado.

Assisto os meninos sumirem na curva do corredor e volto a minha caminhada até a biblioteca, quando já estou quase fora dos corredores de sala de aula escuto um grito seguido de um borrão preto de um homem adulto correndo na minha frente, vejo que ele tem cabelos longos e um sorriso extremamente carismático e charmoso. Ele para alguns passos para frente e grita para um outro homem:

– Me pegue se puder!

Olho para trás e vejo um homem alto com cabelos cacheados e loiros, correndo atrás do moreno. Ele parecia furioso e sua barba de um dia estava metade pintada com tinta roxa. Provavelmente o motivo de estar perseguindo o outro cara.

O loiro bufa e volta a maratona, passando, correndo, por mim. Rio junto com todos os outros alunos no corredor depois que os dois somem de vista, nunca esperaria ver isso em uma escola japonesa. Depois de alguns segundos rindo, volto a minha caminhada, mas, novamente, algo inesperado ocorre.

Trombo em um homem e com a pancada dou uns passinhos para trás, ele pisca para mim e sorri. Sorrio de volta, apesar da situação embaraçosa, o homem em que trombei tinha cabelo quase raspado, loiro e era enorme. Eu batia bem abaixo do ombro dele, quase no meio do peito, com essa diferença, ele devia ter 1,95, ou mais.

– Desculpe, eu não te vi ai embaixo – ele sorri com a própria piada.

“Hilário”, penso ironicamente.

– Eu sei. Eu sou uma anã. Não precisa esfregar.

Ele ri mais uma vez e dá uns tapinhas na minha cabeça, antes de ir embora. “O que foram esses últimos minutos?”, penso.

– E você acabou de ser mais uma vitima dos três mosqueteiros – uma voz se pronuncia atrás de mim.

Viro-me assustada e dou de cara com Danny.

– Danny! – exclamo – Peter e Adam acabaram de sair procurando você.

– Ah jura? Tudo bem, depois eu encontro eles.

– Tudo bem então – falo e começo a sair, mas dai lembro do que ele falou, sobre os três – três mosqueteiros?

– Sim! – exclama animado – aquele dois que passaram correndo, aquele gigante em quem você trombou e mais um professor. Eles são tipo, melhores amigos para sempre, e fazem tudo juntos.

– Mas eles são quatro.

– Essa é a graça! Ninguém nunca entende a piada. Os três mosqueteiros eram na verdade quatro e por isso o nome. Aqui – Danny tira o celular do bolso e me mostra uma foto dos quatro juntos no que parecia o baile de boas vindas – o loiro com cachinhos é o Varyan, e sim o nome dele é Varyan, se Lady pode? Porque não Varyan?

Rio com o comentário e volto a encarar a foto.

– O moreno com o cabelo comprido é o Luke, ele adora pregar peças nos outros, como você já deve ter percebido. O gigante, que por acaso tem 1,96, 1,96!! É o Joe. E por último, mas não menos importante, o outro moreno é o Isaac, o mais quietinho – ele aponta para um homem com cabelos pretos estilosamente jogados para trás e olhos escuros adoráveis – e ai está! Os três mosqueteiros, que na verdade são quatro.

– Okay, estranho. Acho que ainda não estou acostumada com o jeito escocês de ser.

– Você chega lá! – Danny dá umas batidinhas na minha cabeça e começa a caminhar para longe – Tchau Ren.

– Tchau! – exclamo – E veja se você acha o Peter e o Adam porque eles estão te procurando – grito para Danny, que agora já está longe.

Vejo um polegar positivo se erguer na multidão e dou o assunto por encerrado, voltando a minha caminhada para a biblioteca.

°_°_°_°

Quinta

Aula de Geografia, não é que eu não gostasse da matéria, mas meu cérebro não estava no clima de aprender hoje. Sentia cada músculo do meu corpo pedindo para descansar e cada fibra do meu ser implorando para dormir.

Estava cansada, muito cansada. Henry começa a mencionado alguma coisa sobre a agricultura, mas minha mente já tinha perdido a capacidade de raciocinar. Tento focar nele, mas tudo que vejo são borrões de professores de geografia. Minhas pálpebras começam a ficarem cada vez mais pesada, vejo Henry pegar um livro da mesa e abri-lo, mas no momento que ele vai falar alguma coisa, pisco.

Em um momento estou encarando meu professor dando aula e no outro, vejo a sala inteira olhando para mim. No fundo, vejo meu corpo despencar em cima da mesa, como se tivesse desmaiado. Olho para baixo e vejo mãos, as minhas mãos, mas eram de homem e seguravam um livro de geografia.

Minha visão se torna turva e abro a minha... a boca de Henry para gritar, derrubo o livro e antes que possa perceber, levanto minha cara da mesa da sala soltando um grito agudo e apavorado.

Meus colegas se viram para me encarar, eles riem uns com os outros e ignoram Henry, que se abaixa e pega o livro do chão, franzindo as sobrancelhas como quem não entendeu o que havia acontecido. Sentimento compartilhado.

Flashes de memórias piscam dentro da minha cabeça, sinto-a girando e ardendo. Vejo uma mulher loira deitada na cama, uma mão se ergue, a minha mão, e abraça-a. Pisco e percebo que estou dando aula para diversas turmas, vejo Charlie trocando bilhetinhos com Danny, Katherina conversando com Victoria, milhões de pratos de comida diferenciados, provas de alunos, gabaritos de exercícios, livros de geografia, reuniões de professores, slides para palestras...

A aula volta ao normal e todos param de me encarar. Encolho-me no assento e tento entender os últimos segundos, eu não sabia o que estava acontecendo, eu realmente não sabia. Mas eu tinha visto o mundo pelos olhos do professor e todo o mundo que ele viu nas últimas semanas. Seja lá o que estivesse acontecendo, eu tinha quase certeza de uma coisa.

Talvez histórias clichês de pessoas ganhado poderes em internatos, não fossem assim tão clichês.

°_°_°_°

Sexta

Começo a vagar pelos campos vazio de St. Reeve’s. Provavelmente todos os outros alunos estavam tendo aula agora, mas não eu. Não hoje, só... não hoje.

Nesse exato dia, 7 anos atrás, um homem tinha entrado na casa de Kaede e esse homem é alguém que eu nunca esqueceria. Ele era bem alto, quase não passava pela porta e tinha cabelos raspados, mais fácil de lidar eu suponho. Seus olhos eram pretos e bem redondos, ele não era japonês como a maioria das pessoas, mas sim alemão. Lembro de suas sobrancelhas claras e de rugas de expressão em sua testa, ele parecia triste. Seus movimentos travavam enquanto ele entrava na sala, como se ele não quisesse estar ali, como se ele não quisesse que o que trouxe ele à casa de Kaede tivesse acontecido.

Lembro-me de como Kaede me olhou com olhos tristes quando pediu para que eu descesse as escadas e me juntasse a ela e ao homem na sala. Eu lembro de estar assustada e de não querer ir, acho que uma parte de mim já sabia o que me esperava se eu concordasse. Mas eu fui, não é como se eu pudesse ter recusado.

Lembro de me arrastar para a sala e de sentar de cabeça baixa na frente do soldado. Até hoje nunca esqueci do cheiro de colônia masculina e fumaça que emanava do homem, dos olhos cheios de pena enquanto ele procurava as palavras certas para me consolar. Mas eu sabia, sabia o que ele ia falar, mas mesmo assim, ainda havia uma parte de mim que queria que ele falasse que estava tudo bem e que meus pais iam voltar logo.

Não me lembro do que ele falou muito bem, parecia tudo um grande borrão e tudo que eu via era a água que se formava em meus olhos. Sei que ele estava dando um discurso sobre como meus pais tinha ajudado o mundo e de como eles foram grandes heróis, mas eu não queria escutar isso, eu não queria heróis, queria eles aqui.

Lembro do cheiro de queimado que começou a sair da cozinha quando ele falou finalmente as palavras que havia o trazido até aqui, Kaede tinha se esquecido de desligar o forno. O resto era tudo tão claro, meus sentimentos, minhas lágrimas, o gosto amargo que se instalou na minha boca e a bile subindo pela minha garganta. Mas eu não fiz nada, eu não comecei a gritar ou a espernear, eu simplesmente sentei e chorei, silenciosamente, como uma criança que sabia que não havia nada que ela pudesse fazer para mudar alguma coisa.

Então ela só chorava.

Ergo a cabeça, o vento havia aumentado e agora meu cabelo batia repetidamente no meu rosto. Deveria estar chorando agora e percebendo como meu cabelo grudava nas minhas bochechas molhadas, mas eu não chorava. Chorar não ia trazer meus pais de volta, então porque se dar o trabalho? Iria só gastar a tão preciosa água que eu corpo precisava.

Volto a andar, arrastando meus pés pela grama dos jardins e balançando a cabeça de um lado para o outro. Respiro fundo, o cheiro de grama era tão agradável, o ar estava úmido hoje. Expiro e sento no chão, estava tão decepcionada comigo, já faziam sete anos, e eu ainda tinha o direito de ficar triste e abatida, mas não achei que fosse me incomodar tanto. Pensei que já tinha superado isso, continuo sentada encarando as flores plantadas perfeitamente dentro de uma determinada área, restrita por um pedaço de silicone verde no chão.

Penso que todos deveriam estar na aula agora, e penso que já havia faltado muito por chegar atrasada e não podia me dar o luxo de faltar ainda mais. Mas estava aqui, quando não devia estar, faltando aula, como não deveria estar.

Minha cabeça começa a divagar e diversas memórias me veem a mente, sobre o passado, sobre o presente e sobre como o passado estava afetando meu presente. Uma abelha sai do meio das folhas e começa a voar na minha direção, ela pousa no meu tênis preto e começa a caminhar pela superfície, curiosa, explorando o tecido que nunca havia visto.

Assisto-a, enquanto ela zune baixinho, como que cantando para si mesma. Minha cabeça aos poucos é retirada dos pensamentos filosóficos e volta toda a atenção para a abelhinha, sinto meu coração se acalmar um pouco, focar minha atenção em outras coisas geralmente me ajudava a parar de pensar em coisas dolorosas.

O barulho de passos atrás de mim me assusta e eu me viro piscando uma vez, tinha visto uma sombra de novo, observo a abelha com o canto dos olhos e vejo que com meu movimento brusco ela se assustou e saiu voando.

Volto minha atenção para os passos vindo na minha direção e levanto-me, batendo na parte de trás da minha saia, para tirar a sujeira. Quando percebo quem tinha vindo atrás de mim, não acredito por um segundo.

– Ren-chan – uma voz velha sussurra.

– Hideyoshi! O que você está fazendo aqui?

– Percebi que uma das minhas alunas faltou aula hoje e resolvi ver se estava tudo bem.

– Tudo ótimo! – exclamo, mascarando minha tristeza – eu só não me senti muito bem hoje.

O velho balança a cabeça, como se compreendesse minha dor mascarada.

– Se algo estiver errado, você não precisa se sentir na obrigação de fingir o contrário – ele começa a falar em japonês, me surpreendo, já fazia um tempo que não escutava a minha língua materna e a menção dela agora era bem vinda.

– Eu não sinto – respondo – eu só queria um tempo sozinha.

O velho assente.

– Eu só espero que se um dia precisar compartilhar algo, não guarde para si mesma. Ajuda a alma a ficar ainda mais presa no passado.

Com essas palavras Hideyoshi vai embora, tão silencioso como veio e deixa-me encarando o belo jardim de St. Reeve’s.

°_°_°_°

Entro no quarto tentando ser o mais silenciosa o possível. Já passavam das dez e todos os alunos deveriam estar na cama. Fecho a porta atrás de mim e viro-me . Katherina está deitada na cama dela, teclando algo no computador e Charlie está na cama embaixo da minha, lendo um livro.

Aproximo-me cuidadosamente, mas Charlie me vê antes que possa realizar minha saída estratégica.

– Ren você chegar atrasada na aula é uma coisa, mas chegar atrasada em tudo é exagero.

– Desculpe-me?

– Sem desculpas. É feio matar aula!

– Charlie – Katherina dispara e encara e menina com um olhar desaprovador – Ren você está bem?

– Ah sim! – exclamo – mas, pensando bem... vocês não estão sentindo como se algo tivesse mudado depois de termos tocado no Obelisco? – resolvo tocar no assunto.

Os olhos de Charlie se arregalam quase imperceptivelmente e os ombro de Katherina se tencionam um pouco, mas logo voltam ao normal.

– Isso se chama puberdade – Charlie ataca.

– Charlotte! – Katherina dispara, com raiva – Você poderia ser menos insensível?

– Parar de ser insensível, para mim, é tão difícil quanto você parar de ser grossa – Charlie levanta do beliche e cruza os braços embaixo da cama de Kat, como que desafiando ela à começar uma briga.

– Pelo menos eu tenho senso comum o suficiente para não sair fazendo piadas das desgraças dos outros – Katherina parece comprar a briga e pula do beliche, ficando alguns centímetros afastada de Charlie.

– Desculpa Kat! Mas as desgraças dos outros são muito melhores que você em roupas pretas.

Desvio o olhar delas e vejo as revistas em cima da escrivaninha tremerem levemente, mas não havia vento dentro do quarto, todas as janelas estavam fechadas.

– Oh! Coitadinha da princesa que tem a vida perfeita com o querido padrasto e todo aquele dinheiro – Kat estica o braço e da um leve empurrão no ombro de Charlie – Acho que você nunca vai saber o que é desgraça.

– Pelo menos eu tenho família! – ela exclama, erguendo os dois braços e empurrando Katherina para trás.

Afasto-me delas e vejo mais coisas começarem a tremer no quarto. As decorações em cima do baú voam para longe, mas as duas meninas não parecem perceber.

– Tente convencer seu pai disso! Quem sabe ele volta! – A briga delas começa a me deixar irritada, junto com o fato delas não estarem percebendo que as coisas estão voando magicamente para longe.

– Encare o fato. A probabilidade do meu pai voltar é maior do que a sua!

– Meu pai voltaria por amor e o seu? Tem certeza que ele não fugiu porque sua mãe era tão ruim quanto você?!

O frigobar ameaça cair para o lado e todos os livro voam das prateleiras. Agora chega! Não me importo se elas querem se matar, mas as coisas estão voando magicamente! Não é exatamente a hora para estarem brigando!!!

– Você não fale da minha...

– CHEGA!!! – grito. As duas viram na minha direção, assustadas e incrédulas – Eu já entendi que vocês duas se odeiam e francamente eu não me importo! Se quiserem se matar ali no canto agora, eu não ligo! Mas vocês tem que admitir que tem alguma coisa acontecendo!! Agora se as duas puderem parar de serem infantis e agressivas por 30 segundo, EU AGRADECERIA!!!

Acho que nunca tinha levantado minha voz com elas e as duas parecem bem assustadas me encarando. Charlie abaixa a cabeça e volta a sentar no beliche e Katherina dá de ombros e encosta na parede. Aparentemente estávamos entendidas que alguma coisa estranha tinha acontecido e pelo jeito que as coisas andavam, nem isso podia mudar nosso clima tenso. Melhores amigas unidas por fatos sobrenaturais... só mais um clichê para a lista.

– Obrigada. Agora, eu sei que tem algo estranho acontecendo, então... sugestões.

Katherina olha de uma lado para o outro do quarto, como se quisesse falar alguma coisa, mas não tivesse certeza que fosse uma boa ideia. Finalmente, a menina abre a boca.

– Eu tenho uma ideia – Kat murmura. Charlie se vira para ficar de frente para ela – E eu sei que da última vez que falei isso, tivemos enormes problemas, mas dessa vez acho que é realmente necessário.

Concordamos com a cabeça. Não sabia o que ela iria falar, ou melhor, sabia muito bem, mas queria que alguém falasse em voz alta para diminuir a sensação de ansiedade do meu peito.

– Vocês provavelmente já sabem que ideia é essa mas... eu acho que nós deveríamos voltar lá.

Notas finais
#Ghost...