O Mistério de Roseblanc
2 Olhos Turquesa
Notas iniciais
Nadja estava sentada em um canto da cama, escovando os cabelos negros, lisos e curtos. O barulho que ela fazia incomodava Jade. Esta estava em pé, na frente do espelho do armário, sem tirar os olhos da própria imagem.
−O que você tá fazendo aí? Você está linda− falou Nadja.
Pois é. Nenhum fio de cabelo fora do lugar. Aliás, o cabelo cor de ébano dela descia impecavelmente pelas costas, sem um mísero cacho. A pele morena era saudável e brilhante. A blusa branca do uniforme era comportada e também se ajustava perfeitamente ao corpo de modelo da garota de 16 anos. Sobrancelhas feitas, e aqueles olhos da cor do mar que deixavam tudo ainda mais impactante e perfeito.
Linda.
Arrepiante.
Assustador.
Qualquer um em sã consciência invejaria Jade. Como não? Ela era linda. E esse, talvez, tenha sido o maior castigo que Deus havia lhe dado.
Ela fechou a porta do armário, levando o reflexo do espelho pra longe de seu olhar. Mas não do olhar dos outros. O quarto cor-de-rosa não era o maior cômodo da casa, mas era aconchegante para as duas irmãs.
Nadja, sua irmã mais velha, tinha as feições mais simples, mas também era bonita. Ela havia herdado os olhos da mãe, dourados, mas discretos. Jade já havia cogitado cortar o cabelo como a irmã, mas ele era uma das coisas que sua mãe mais elogiava nela. E a garota sentia muita saudade...
−Está ansiosa pra hoje?−sorriu Nadja.
−Honestamente? Não− bufou.
Ao longe, as meninas puderam ouvir os berros de sua Tia Zahra. Nadja terminou de colocar os cadernos na mochila e calçou os sapatos. Jade enrolou as mangas do blazer vermelho com o brasão de Roseblanc. Decidiu ir de uniforme completo, já que não conhecia a dinâmica da escola nova.
−Espera, em qual corredor viramos?− perguntou, apreensiva.
−O da esquerda, esqueceu? O corredor da direita dá para os fundos.
Desceram dois lances de escada antes de chegar no salão principal, onde a tia esperava de braços cruzados, em pé no tapete perolado. Lembrava muito pouco a mãe das garotas.
Jade realmente não se acostumava fácil com aquela mansão. Era enorme e vazia. Além disso, gente rica costuma ter muita frescura.
−Garotas! Já falei que se desejarem ir para a cozinha, o ideal é entrar pela porta dos fundos− ralhou Zahra – vocês vão só comer para sair de casa, não tem necessidade de sujar o piso.
A tia tinha um ar poderoso e familiar ao mesmo tempo. Nadja assentiu silenciosamente e foi até a cozinha. Jade apenas a olhou brevemente antes de seguir a irmã.
−Jade, espere.
−Sim, tia?
Zahra fitou o pulso da sobrinha. Uma pequena corrente de prata velha cintilava com contas coloridas.
−Acho que a academia não permite essas bijuterias, permite?
−Não tenho certeza – mas realmente não importava. Sem que a tia dissesse mais nada, Jade foi para a cozinha.
O ambiente, equipado com a aparelhagem mais cara possível, tinha uma pequena mesa de quatro cadeiras para o café. Nadja pegou uma torrada, e empurrou uma bandeja de bolo de chocolate para Jade: esse era mais um dos fatores da Beleza Inalterável, comer o que quiser. A menina preferiu apenas enrolar o seu pão sírio com queijo e presunto e fazer de conta que era um wrap.
−A Academia de Los Angeles parece boa− comentou, enquanto se preparava para abocanhar o enroladinho clandestino.
−É. Eles têm os melhores cursos profissionalizantes do estado. Devo conseguir um emprego assim que terminar.
−Roseblanc também parece legal...
−Talvez não.
Jade mastigou em silêncio. Se pudesse se formar em estupidez alheia, já estaria tão rica como a tia. Começa com os olhares. Depois, as feições vão mudando. Garotas franzem o cenho, prontas pra nunca falarem com você. Garotos assoviam e fazem comentários nada confortantes. Tudo porque você está impecável, e, supostamente, tem o mundo na mão.
Linda.
Arrepiante.
Assustador.
Caaara, aquela garota com certeza é uma metida, pensam uns. Deve ter parado na de todo mundo. Que nojenta, quem ela pensa que é? Boa demais pra qualquer um aqui. Ser um pouquinho zoada não vai fazer mal. Afinal, ela deve estar muito bem, mesmo...
Quem disse que gente assim chora? Ou ri? Ou erra?
−Vamos, irmãzinha− diz Nadja pegando a mochila. Jade pega a pasta de couro preta. Bleargh. Se Roseblanc tiver alguma exceção em matéria de roupas, Jade vai mergulhar fundo.
O Rolls Royce 1925 champanhe da tia já as esperava na garagem.
É um novo dia. Carpe diem, amigos.
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